167. 167. O encontro com as romanasno jardim de Joana de Cusa.


19 de maio de 1945.

167.1 Jesus, com a ajuda de um barqueiro, que o acolheu em seu barco, desembarca pela prancha do jardim de Cusa. Um jardineiro já O viu e vai ao seu encontro para abrir a cancela, que barra aos estranhos o ingresso na propriedade ao lado do lago, - uma cancela alta e forte escondida por uma sebe, muito viçosa e alta, com loureiros e buxos, do lado externo, o do lago, e de rosas de todas as cores do lado interno da casa. As esplêndidas roseiras ornam com flores as copas bronzeadas dos loureiros e dos buxos, insinuam-se pelo meio das ramagens, atravessam aparecendo do outro lado, ou ultrapassam completamente a barreira verde, fazendo cair seus ramos floridos para além da sebe. Só num ponto, na altura duma alameda, a barra se apresenta nua, abrindo-se para dar passagem.

– A paz a esta casa e a ti Joana. Onde está a tua patroa?

– Está com as amigas. Vou já chamá-la. Há três dias que estão Te esperando pelo receio de chegarem atrasadas.

Jesus sorri. O criado vai correndo chamar Joana. Enquanto isso, Jesus caminha lentamente para o lugar que lhe foi mostrado pelo criado, admirando o belíssimo jardim, o belíssimo roseiral, que Cusa mandou formar para sua mulher. São rosas de todas as cores, tamanhos e formas, plantadas nesta enseada bem resguardada do lago, sorrindo, precoces e esplêndidas. Há também pés de outras flores. Mas elas ainda não floriram, e sua presença é pouco notada, diante da quantidade das roseiras.

167.2 Joana vem chegando. Ela nem pôs no chão um pequeno cesto com rosas até a metade, ou deixou a tesoura, e assim vai correndo, com os braços estendidos, ágil e gentil em sua rica veste de lã leve de um cor-de-rosa muito claro, cujos frisos estão presos por um arranjo de broches e fivelas em filigrana de prata, sobre os quais brilham algumas pálidas granadas.

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Por cima de seus cabelos negros e ondulados, um diadema em forma de mitra, também de prata e com granadas, está segurando um véu de linho muito ligeiro, também cor-de-rosa, que recai para trás, deixando descobertas as pequenas orelhas, das quais pendem pesados brincos parecidos com o diadema. O rosto é risonho, o pescoço é delicado, onde brilha um colar trabalhado com a mesma arte de todos os outros adornos preciosos.

Ela deixa cair o seu cesto aos pés de Jesus, e se ajoelha, entre as rosas espalhadas, para beijar-lhe a veste.

– A paz esteja contigo, Joana. Eu vim.

– Eu estou feliz. Elas também vieram. Oh! Agora me parece ter feito mal. Como fareis para entender-vos? Elas são pagãs mesmo!

Joana está um pouco agitada.

Jesus sorri, e põe-lhe a mão sobre a cabeça:

– Não tenhas medo. Nós nos entenderemos muito bem. E tu agiste muito bem. O encontro produzirá muitas flores de bem, como o teu jardim produz rosas. Apanha agora estas pobres rosas, que deixaste cair, e vamos ao encontro das tuas amigas.

– Oh! Rosas, nós temos bastantes! Eu tratava delas para passar o tempo e, além disso, porque as minhas amigas são assim… assim… tão voluptuosas. Gostam das flores, como se fossem… não sei…

– Mas Eu também gosto de flores! Estás vendo como já encontramos um assunto para nos entendermos Eu e elas? Vamos! Vamos apanhar estas esplêndidas rosas…

E Jesus se inclina, para dar o exemplo.

– Tu, não. Tu não, Senhor! Mas, se queres mesmo… está feito.

167.3 Caminham até um quiosque, que é formado por um entrelaçamento multicor de roseiras. Da soleira, três romanas estão espreitando: Plautina, Valéria e Lídia. A primeira e a última estão perplexas, enquanto Valéria sai correndo para fora, e se inclina, dizendo:

– Salve, ó Salvador da minha pequena Fausta!

– Paz e luz a ti e as tuas amigas.

As amigas se inclinam sem dizerem nada.

Já conhecemos Plautina, alta, imponente, com belos olhos negros, um pouco dominadores, por baixo de uma fronte lisa e muito alva, um nariz reto, perfeito, a boca um pouco saliente, mas bem feita, queixo arredondado e distinto, que me faz lembrar certas estátuas, muito belas, de imperatrizes romanas. Pesados anéis reluzem em suas belas mãos e grandes braceletes de ouro circundam seus braços, torneados como das estátuas nos pulsos e nos cotovelos, que expõem à luz um branco rosado, liso e perfeito, fora das mangas curtas e drapejadas.

Lídia, por sua vez, é loura, mais delicada e mais nova. Sua beleza não é imponente como a de Plautina, mas tem toda a graça de uma juventude feminina ainda um pouco agreste. Uma vez que estamos diante de um tema pagão, eu poderia dizer que, se Plautina parece a estátua de uma imperatriz, Lídia poderia ser uma Diana, ou uma ninfa de aspecto pudico e gentil.

Valéria, agora que não está naquele desespero em que a vimos em Cesareia, aparece na sua beleza de jovem mãe, com suas formas um pouco avolumadas, mas ainda bastante juvenis, com aqueles olhos tranquilos da mãe feliz por poder nutrir e ver crescer, o seu filhinho. De cor róseo-acastanhada, ela tem um sorriso comedido, mas muito agradável.

Tenho a impressão de que sejam damas de grau inferior ao de Plautina, pois até no seu modo de olhá-la, denotam veneração de rainha.

167.4 – Estáveis cuidando das flores? Continuai, continuai. Poderemos falar, mesmo enquanto colheis estas esplêndidas obras do Criador, que são as flores, e enquanto as dispondes com a habilidade em que Roma é mestra, ao preparar vasos tão belos em que lhes prolonga a breve vida… Se ficamos admirados, ao olharmos para este botão, que mal começa a abrir o sorriso de suas pétalas de um amarelo rosado, como poderíamos deixar de ficar tristes, ao vê-lo morrer? Mas, oh! como ficariam pasmados os judeus, se me ouvissem dizer isso! Contudo, é porque, até na natureza das flores, sentimos alguma coisa de vida. Ver o fim delas nos causa dó. Entretanto, a planta é mais sábia do que nós. Ela sabe que, de cada ferida de um dos seus talos cortados, nasce um novo broto, que produzirá uma nova rosa. Eis por que nossa mente deve recolher este ensinamento, e fazer, do amor um pouco sensual pela flor, um estímulo para pensar em coisas mais altas.

– Que coisas, Mestre? –pergunta Plautina, que o escuta atentamente, seduzida pelo pensamento elegante do Mestre hebreu.

– Assim como a planta não morre, enquanto a sua raiz estava nutrida pelo solo, assim a humanidade não morre, quando termina a vida terrena de um ser ela sempre ela solta novas flores. Um pensamento ainda mais alto para bendizermos o Criador: enquanto uma flor, desde que tenha morrido, não mais revive, o que é triste, o homem, por mais adormecido que esteja em seu último sono, não está morto, mas vivo, com uma vida ainda mais brilhante, recebendo a vida eterna e o esplendor do Criador que o formou. 167.5 Por isso, Valéria, se a tua menina tivesse morrido, não terias perdido as carícias dela. Sobre a tua alma teria sempre descido o beijo da tua filha, separada de ti, mas não esquecida do teu amor. Estás vendo como é doce ter uma fé na vida eterna? Onde está agora a tua pequenina?

– Naquele berço coberto. Eu nunca me separei, porque o amor para com o marido e pela filha eram as duas metas de minha vida. Agora que sei o que é vê-la morrer, não a deixo nem por um instante.

Jesus se dirige para a cadeira sobre a qual está colocado algo como um bercinho de madeira, coberto por uma rica colcha. Ele a descobre, e olha a pequenina adormecida, que o ar, que está soprando sobre ela um pouco mais vivo, acaba por despertar. Seus olhinhos se abrem espantados, e um sorriso de anjo faz abrir a boquinha, enquanto as mãozinhas se abrem, desejosas de agarrar os cabelos ondulados de Jesus, e um chilrar de passarinho assinala a formação de um discurso no pensamento dela. Enfim, solta a grande e universal palavra:

– Mamãe!

– Pegue-a, pegue-a –diz Jesus, que se afasta para deixar que Valéria possa inclinar-se sobre o berço.

– Mas ela vai te aborrecer!… Eu vou chamar uma escrava e mandar que a leve pelo jardim.

– Aborrecer? Oh! Não. As crianças nunca aborrecem. São sempre minhas amigas.

– Tens filhos ou sobrinhos, Mestre? –pergunta Plautina, que está observando o sorriso com que Jesus está provocando a pequenina para fazê-la sorrir.

– Não tenho filhos nem sobrinhos. Mas amo as crianças, como amo as flores. Porque elas são puras e sem malícia. Eu até te peço, dá-me, ó mulher, a tua pequenina. Apertar contra o coração um pequeno anjo é tão doce para Mim.

E Jesus se assenta com a pequenina, que olha para Ele, e despenteia a sua barba. Depois ela acha melhor brincar com as franjas do seu manto e com o cordão da sua túnica, aos quais ela dedica um longo e misterioso discurso.

167.6 Plautina diz:

– A nossa boa e sábia amiga, uma das poucas que não nos despreza, nem sente corromper-se em nossa companhia, ela deve ter-te dito que tínhamos o desejo de ver-te e ouvir-te para termos uma ideia do que realmente és. Porque Roma não crê em fábulas… Por que estás sorrindo, Mestre?

– Depois Eu te direi. Continua.

– Porque Roma não crê em fábulas, e quer julgar com ciência e consciência, antes de condenar ou exaltar. O teu povo tanto te exalta, como te calunia, na mesma medida. As tuas obras levariam a exaltar-te. As palavras de muitos hebreus levariam a tomar-te por um delinquente. As tuas palavras são solenes e sábias, como as de um filósofo. Roma tem muito amor às doutrinas filosóficas e… devo dize-lo, os nossos filósofos atuais não tem uma doutrina que satisfaça, mesmo porque o modo de vida deles não corresponde ao que eles ensinam.

– Eles não podem ter um modo de vida que corresponda à sua doutrina.

– Porque eles são pagãos, não é?

– Não. Porque são ateus.

– Ateus? Eles tem os seus deuses.

– Nem deuses têm mais, mulher. Eu te faço lembrar dos antigos filósofos, os maiores. Eram pagãos, eles também, mas, não obstante isso, que elevação de vida houve entre eles! Estava misturada com o erro, porque o homem é levado a errar. Mas, quando eles se viram diante dos maiores mistérios: a vida e a morte, quando estiveram colocados diante do dilema da Honestidade ou da Desonestidade, da Virtude ou do Vício, do Heroísmo ou da Covardia, e pensaram que, se se inclinassem para o mal, isso seria um mal para a pátria e para os cidadãos, com uma vontade de gigantes, jogaram para longe de si as garras dos maus pólipos e, livres e santos, souberam querer o Bem, a qualquer custo. Este Bem não é outra coisa senão Deus.

167.7 – Dizem que Tu és Deus. É verdade?

– Eu sou o Filho do Deus Verdadeiro, feito carne, sem deixar de ser Deus.

– Mas, o que é Deus? Deve ser o maior dos mestres, se for como Tu.

– Deus é muito mais do que um mestre. Não limiteis a ideia sublime da Divindade, limitando-a à de sabedoria.

– A sabedoria é uma divindade. Nós temos Minerva. É a deusa do saber.

– Vós tendes também Vênus, deusa do prazer. Podereis admitir que um deus, isto é, um ser superior aos mortais, tenha elevado até à perfeição tudo o que há de mais feio nos mortais? Podereis pensar que alguém, que é eterno, tenha para sempre as pequenas, mesquinhas e vis delicias dos que só têm uma hora de tempo? Fazendo delas a meta de sua vida? Não pensais que esse céu, que vós chamais de Olimpo, e onde estão fermentando os sucos mais azedos da humanidade, possa ser sujo? Se olhais para o vosso céu, que é que vedes? Luxurias, delitos, ódios, guerras, furtos, bebedeiras, trapaças, vinganças. Quando quereis celebrar as festas de vossos deuses, o que fazeis? Orgias. Qual o culto que prestais a eles? Onde está a verdadeira castidade das consagradas a Vesta? Sobre que código divino os vossos pontífices se apoiam, para julgar? Que palavras os vossos áugures podem ler no vôo dos pássaros ou no estrondo do trovão? E as sangrentas vísceras dos animais sacrificados, que resposta podem dar aos vossos arúspices? Tu disseste: “Roma não crê em fábulas.” Então, por que Roma crê que doze pobres homens, levando um porco ao redor dos campos, com uma ovelha e um touro imolados, possam o tornar oferta propícia a Ceres, se vós tendes inúmeras divindades, uma odiando a outra, acreditando nas vinganças delas? Não. Deus é uma coisa bem diferente. Ele é Eterno, é Único e Espiritual.

– Mas Tu dizes que és Deus, e és carne.

– Há ainda um altar sem deus, na pátria dos deuses. A sabedoria humana o dedicou ao Deus desconhecido. Porque os sábios, os verdadeiros filósofos, entreviram que havia alguma coisa, além do cenário histórico, criado pelas eternas crianças que são os homens com espíritos enfaixados por vendas de erro. Se estes sábios intuíram haver algo além do cenário mentiroso, alguma coisa de verdadeiramente sublime e divino, que fez tudo o que existe, e do qual vem tudo que há de bom no mundo, agora eles quiseram um altar para o Deus desconhecido, que pressentiam ser o Verdadeiro Deus. Como podeis dar o nome de deuses aos que deuses não são, e dizer que sabeis o que na realidade não sabeis? Procurai, pois, saber o que é Deus, para poderdes conhecê-Lo e honrá-Lo. 167.8 Deus é Aquele que do seu pensamento fez tudo do nada. Será que vos deixais persuadir e satisfazer só com a fábula das pedras que se transformaram em homens? Em verdade há homens mais duros e malvados do que a pedra, e há pedras mais úteis do que o homem. Mas, para ti, Valéria, não é mais doce, ao olhares para esta tua pequenina e pensar assim: “É uma vontade viva de Deus, por Ele criada e formada, por Ele dotada de uma segunda vida que não morre, de modo que eu a terei ainda, a minha pequena Fausta, por toda a eternidade, se eu crer no Deus Verdadeiro”, em vez de dizer: “Estas carnes rosadas, estes cabelos mais finos do que fios de uma teia aranha, será que tudo isso vem de uma pedra?” Ou haverá de dizer: “Eu sou em tudo semelhante à loba, à fêmea do cavalo, brutalmente me acasalo, brutalmente gero, brutalmente crio, e esta filha é fruto do meu instinto bruto, é bruto como eu. Amanhã, quando ela morrer, quando eu também morrer, seremos duas carniças, que se desfazem com fedor, e que nunca mais se verão?” Dize-me! O teu coração de mãe que é que acharia destas duas razões?

– Certamente a segunda, não, Senhor! Se eu tivesse sabido que Fausta não era uma coisa que pudesse ser desfeita para sempre, a minha dor teria sido menos impiedosa. Porque eu teria dito: “Eu perdi uma pérola. Mas ela ainda existe. E eu a encontrarei de novo.”

– Tu disseste tudo. 167.9Quando eu vim ao vosso encontro, a vossa amiga me disse que se admirava da vossa paixão pelas flores. E tinha medo que isso pudesse Me desagradar. Mas Eu lhe garanti que não: “Eu também gosto de flores e, por causa disso, vamos entender-nos muito bem.” Mas quero levar-vos a amar as flores, como levo Valéria a amar a sua filha, da qual, estou certo de que ela vai cuidar com muito mais cuidado, agora que ela sabe que a filha tem uma alma, que éuma pequena parte de Deus1, encerrada na carne que a sua mãe lhe deu, uma pequena parte que não morre e que a mãe encontrará no céu, se crer no Verdadeiro Deus. Assim, também vós. Olhai esta rosa tão linda. A púrpura, que embeleza a veste do imperador é menos esplêndida do que uma destas pétalas, que não só é alegria para os olhos, por sua cor, mas tambémpelo tatopelo olfato.e perfume. Olhai esta também, e esta outra, e mais esta. A primeira parece sangue que jorrou de um coração, a segunda, é neve que acabou de cair, a terceira é ouro pálido, a última perece ter sido feita com esta doce face infantil, que aí está sorrindo para Mim. A primeira está rígida sobre o seu grosso pedúnculo quase sem espinhos, fortemente vermelha no meio da folhagem, como se tivesse sido borrifada de sangue; a segunda tem poucos ramos com espinhos e umas folhas opacas e pálidas ao longo do pedúnculo; a terceira é flexível como um junco e tem umas folhas pequenas e brilhantes, como se fossem cera verde; a última parece cercar o caminho contra qualquer assalto à sua corola rosada, tão coberta está de espinhos. Parece uma lima com arestas pontiagudas. Pensai agora. Quem fez isto? Como? Quando? Onde? E este lugar como era na noite dos tempos?

Não era nada. Era uma agitação informe de vários elementos. Alguém (Deus) disse: “Eu quero”, e os elementos se separaram um do outro, unindo-se por famílias. Outra vez soaram as palavras “Eu quero”, e os elementos se coordenaram um com o outro, como a água por entre terras; ou um sobre o outro, como o ar e a luz sobre o planeta que estava criado. Ainda um “Eu quero”, e apareceram as plantas. Depois vieram as estrelas, depois os animais e, finalmente o homem. Para que o homem sentisse prazer, com encantadores brinquedos do filho predileto, Deus deu as flores, os astros, e, finalmente deu a alegria de procriar não aquilo que morre, mas aquilo que sobrevive à morte, pelo dom de Deus, que é a alma. Estas rosas são outras muitasvontades do Pai. Seu infinito poder se manifesta numa infinidade de belezas.

167.10 Não é fácil dizê-lo, porque o assunto vai chocar-se contra o bronze maciço das vossas crenças. Mas Eu espero que, como este é o nosso primeiro encontro, já nos tenhamos entendido um pouco. Que a vossa alma se debruce sobre o que Eu vos disse. Tereis perguntas a fazer? Fazei-as. Estou aqui para esclarecê-las. A ignorância não é uma vergonha. Vergonha é persistir na ignorância, quando há alguém que possa esclarecer as dúvidas.

E Jesus, como se fosse o mais experiente dos pais, sai do quiosque, segurando pela mão a pequenina, que já está dando seus primeiros passos, em direção a um repuxo de água esguichando ao sol.

167.11 As mulheres ficam onde estão, conversando entre si. Joana, indecisa entre dois desejos, fica na porta do quiosque…

Finalmente, Lídia se decide, e atrás dela, vão as outras, até Jesus, que está rindo, porque a menina quer pegar o pequeno arco-íris que o sol forma com a água, e não consegue pegar nada mais do que a luz. Mas ela insiste, com todo o seu pipilar de um pintinho, saindo dos seus pequenos lábioscor-de-rosa.

– Mestre… eu não compreendi porque é que disseste que os nossos mestres não podem ter formas de vida boas, visto que são ateus. Eles crêem no Olimpo, mas crêem…

– Eles não têm nada mais de que uma exterioridade em sua crença. Só quando eles verdadeiramente creram. ter um pouco o reflexo de Deus. Como os verdadeiros sábios creram naquele Desconhecido de que Eu falei, naquele Deus que satisfazia as suas almas, mesmo sem ter nome, e mesmo sem perceberem o que estavam querendo, enquanto tiveram voltado o seu pensamento para este Ser, muito superior, muito superior aos pobres deuses cheios de humanidade da baixa humanidade , que o paganismo criou, eles, tiveram, um pouco, o reflexo de Deus. A alma é um espelho que reflete, um eco que responde.

– Reflete o quê, Mestre?

– Deus.

– Eis uma grande palavra!

– É uma grande verdade.

167.12 Valéria, que está seduzida pelo pensamento da imortalidade, pergunta:

– Mestre, explica-me onde está a alma de minha menina. Eu beijarei o lugar como um sacrário e o adorarei, porque é um lugar de Deus.

– A alma! É como esta luz que a tua Faustina está querendo segurar, mas não pode, porque ela é incorpórea. Ela existe. Eu, tu e tuas amigas a vemos. A alma é visível em tudo aquilo que diferencia o homem do bruto. Quando a tua pequena te disser os seus primeiros pensamentos, aquela inteligência é a sua alma dela que se revela. Quando ela te amar, não com o instinto, mas com a razão, aquele amor é a sua alma. Quando ela crescer, bela ao teu lado, não somente no corpo, mas na virtude, que aquela beleza é a sua alma. Não adores a alma, mas a Deus que a criou, a Deus que de toda alma boa quer fazer um trono para Si.

– Mas, onde fica essa coisa incorpórea e sublime no coração? no cérebro?

– Fica no todo do homem. Ela contém o homem, e é contida nele. Quando ela vos deixa, sois cadáveres Quando ela é morta, pelo delito do homem contra si mesmo, estais condenados, separados de Deus para sempre.

– Portanto, Tu admites que o filósofo que disse que somos “imortais” tinha razão, ainda que ele fosse pagão? –pergunta Plautina.

– Eu não o admito. Mais do que isso, digo que é um artigo de fé. A imortalidade da alma, isto é, a imortalidade da parte superior do homem é o mistério mais certo e mais consolador para quem crê. É ele que nos dá a certeza de onde viemos, para onde vamos, de quem somos , e nos tira o amargor das separações.

167.13 Plautina fica pensando profundamente. Jesus a observa, calando-se. Depois, ela pergunta:

– E Tu, tens uma alma assim?

Jesus responde:

– Com toda a certeza.

– Mas, Tu és, ou não és, Deus?

– Sou Deus. Já disse. Agora assumi natureza de homem. Sabes por quê? Porque só com este sacrifício os problemas, que para a vossa razão são insuperáveis seriam solucionados.Depois de ter derrubado o erro, livrando o pensamento, podia livrar também a alma de uma escravidão que, por enquanto, não te posso explicar. Para isso encerrei a Sabedoria e, a Santidade em um corpo. Espalho a Sabedoria, como uma semente como o pólen aos ventos, e a Santidade que sai de uma preciosa ânfora quebrada, escorrerá sobre o mundo, na hora da Graça, santificando os homens. Então o Deus Desconhecido ficará conhecido.

– Mas Tu já és conhecido. Quem puser em dúvida o teu poder e a tua sabedoria, é mau ou mentiroso.

– Conhecido, Eu sou. Mas estamos apenas na aurora. O meio-dia é que vai ser cheio do conhecimento de Mim.

– Qual será o teu meio-dia? Um triunfo? Eu o verei?

– Na verdade, será um triunfo. Tu estarás lá. Porque em ti há náusea daquilo que sabes, e apetite do que não sabes. Tua alma tem fome.

– É verdade. Tenho fome da verdade.

– Eu sou a Verdade.

– Entrega-te, então a esta esfaimada.

– Basta que venhas à minha mesa. A minha palavra é pão de verdade.

167.14 – Mas, que dirão os nossos deuses, se os abandonamos? Não se vingarão de nós? –pergunta Lídia aterrorizada.

– Mulher: já viste uma manhã nevoada? Os prados desaparecem, debaixo de um vapor que os esconde. Depois vem o sol, o vapor se dissolve, e os prados aparecem mais belos. Assim são os vossos deuses, uma névoa do pobre pensamento humano que, não conhecendo Deus e tendo necessidade de crer, porque a fé é o estado permanente e necessário do homem, criou para si esse Olimpo, uma verdadeira fábula sem fundamento. Assim os vossos deuses, ao nascer do sol, à chegada do Deus Verdadeiro, se dissolverão em vossos corações, sem fazer mal a ninguém. Porque eles não existem.

– Vai ser preciso ouvir-te ainda… muito… Estamos completamente diante do desconhecido. O que Tu dizes é novo.

– Mas te repugna? Não podes aceitá-lo?

Plautina responde com firmeza:

– Não. Agora me sinto mais orgulhosa do pouquinho que sei, e que César não sabe, do que do meu nome.

– Então, persevera. 167.15Eu vos deixo com a minha paz.

– O quê? Não ficas aqui, meu Senhor?

Joana está desolada.

– Não. Tenho muito que fazer…

– Oh! Eu te queria falar do meu sofrimento!

Jesus se põe a caminho, depois das saudações das romanas, vira-se e diz:

– Vem até a barca, para me dizeres os teus problemas.

Joana vai com Ele. E diz:

– Cusa está querendo mandar-me por algum tempo a Jerusalém, e eu estou sofrendo por isso. Ele quer assim, porque não quer que eu fique mais longe, já que agora estou sã…

– Tu também estás criando em ti névoas inúteis! –Jesus já está com o pé sobre a barca–. Se pensasses que dessa forma poderás hospedar-me e acompanhar-me com mais facilidade, irias ficar contente, dizendo: “Foi a Bondade que pensou nisso.”

– Oh! é verdade, meu Senhor. Eu nem tinha pensado nisso.

– Pensa, então! Obedece, como uma mulher de valor. A obediência te dará o prêmio de ter-me contigo na próxima Páscoa, e a honra de ajudar-me a evangelizar as tuas amigas. A paz esteja sempre contigo!

A barca se afasta, e tudo termina.



1 pequena parte de Deus mostra-se diferente em partícula nascida de Deus em correção pouco clara de MV em uma cópia datilografada na qual MV inseriu ainda a seguinte nota: Partícula não compreendida como fragmento de Deus penetra em nós, mas lugar-trono, sedeinserida ou aliada(do sopro da vida do qual fala o v. 7 do II cap. do Gênesis) de Deus, portanto coisa de Deus, vinda de Deus ao homem. São Tomás de Aquino a chama de uma capacidade de Deus que Deus preenche de Si, porque nós participamos da sua vida divina. A explicação de MV deve-se ter presente – junto com o texto de 10.9 – cada vez que na obra se fala da alma como “parte” ou “partícula” de Deus. Esta se liga com as notas que se encontram em: 4.6 - 54.5 - 165.4 - 170.4 - 365.16 - 444.4 - 463.4 - 524.7 - 537.11