238. 238. A chegada a Cafarnaum, sob um temporal,de Maria Santíssima com Maria Madalena.


30 de julho de 1945.

238.1 Talvez haja tempestade hoje, Mestre. Vês aquelas listras cor de chumbo, que vem avançando de trás do monte Hermon? E vês como já se encrespa a superfície do lago? Escuta agora como está soprando o vento norte, alternando seu sopro com as grandes lufadas quentes do siroco. Olha o redemoinho do vento: sinal certo de tempestade.

Daqui a quanto tempo, Simão?

Antes que termine a hora de prima. Olha como os pescadores já se apressam em voltar. Perceberam que o lago está rosnando. Daqui a pouco ele estará também cor de chumbo, depois estará cor de piche, e, então, virá a fúria.

Mas ele parece estar tão calmo! –diz, incrédulo, Tomé.

Tu entendes de ouro, e eu de água. Será como eu te digo. Esta não é nenhuma tempestade imprevista. Ela se prepara com sinais muito claros. A água está calma na superfície, com apenas aquela encrespadura, que mais parece uma brincadeira. Mas, se estivéssemos na barca! Ouviríeis, como se estivessem batendo na quilha, milhares de juntas de dedos, e sacudindo, de um modo estranho, a barca. A água já está fervendo por debaixo. Espera o sinal do céu, e depois verás o resto!… Deixa que o vento norte faça um nó com o siroco! E depois!… Olá, mulheres! Retirai as roupas que havíeis estendido nos varais, e procurai abrigar os vossos animais. Daqui a pouco, vão cair pedras e baldes de água.

De fato, o céu vai-se tornando cada vez mais esverdeado, com uns veios de ardósia, pela invasão contínua de lâminas de nuvens, que parecem arrotadas pelo velho Hermon. Elas repelem a aurora, onde esta já tiver chegado, como se as horas caminhassem para trás, voltando a trazer a noite, em vez de andarem para a frente, para o meio-dia. Somente um feixe de raios de sol persiste ainda em querer escapar obliquamente de detrás da barricada das nuvens de piche, e lança uma irreal pincelada de um amarelo esverdeado sobre o cume de uma colina a sudoeste de Cafarnaum. O lago já se mudou de azul para um preto azulado, e as primeiras espumas, por entre pequenas ondas, fracas, esmiuçadas, parecem de um branco imaginário sobre aquela água escura. Sobre o lago não há mais nenhuma barca. Os homens se apressaram em levar para cima da areia das praia suas barcas, em guardar as redes, ou então, se são camponeses, em tirar dali os mantimentos, em firmar as estacas e amarras, em fechar os animais nos estábulos e currais, e as mulheres vão às pressas até as fontes, antes da chuva, ou tratam de reunir seus meninos, que se levantaram muito cedo, e os levam para suas casas, fecham as portas, solícitas como galinhas chocas, quando percebem que o granizo vem perto.

238.2 Simão, vem comigo. Chama também o criado da Marta e Tiago, meu irmão. Apanha um pano largo. Largo e espesso. Duas mulheres vêm vindo pelo caminho, e precisamos ir ao encontro delas.

Pedro olha, curioso, para Jesus, mas obedece, sem perda de tempo. Ele já está na estrada, quando eles, correndo, atravessam o povoado, indo para o sul, e o Pedro pergunta:

Mas, quem são elas?

Minha Mãe e Maria de Magdala.

A surpresa é tão grande, que Pedro fica parado, como se estivesse pregado no chão, e diz:

Tua Mãe e Maria de Magdala?! As duas juntas?!

Depois se põe a correr, porque Jesus não parou, nem pararam o criado nem Tiago. Mas Pedro torna a dizer:

Tua Mãe e Maria de Magdala?! Juntas!… Mas, desde quando?

Desde quando outra coisa ela não é, senão Maria de Jesus. Anda depressa, Simão. Estão caindo os primeiros pingos…

E Pedro se esforça para ir ao lado desses seus companheiros, todos mais altos e ligeiros do que ele. Na estrada esturricada a poeira já se levanta em nuvens, por causa de um vento que se vai tornando a cada instante mais forte, um vento que rasga a superfície do lago, e que deixa ver uma enorme caldeira, no furor da ebulição. Ondas da altura de pelo menos um metro, que vão para todos os rumos, e se chocam umas com as outras, crescem e se confundem, sepa­ram-se depois, correndo em direções opostas, à procura de alguma outra onda, contra a qual se possam chocar, com um perfeito duelo entre as espumas, entre as cristas, entre as corcovas bojudas, entre as fervuras, os mugidos, entre as bofetadas que dão até contra as mais próximas da beira. Quando as casas impedem a vista do lago, ele faz notar sua presença com o seu fragor, que supera o assobio do vento, que já está dobrando as árvores, arrancando-lhes as folhas e fazendo cair seus frutos, e o grande estrondo das longas trovoadas, ameaçadoras, precedidas por relâmpagos cada vez mais frequentes e mais fortes.

Quem sabe quanto medo terão aquelas mulheres –diz Pedro, respirando com dificuldade.

Minha Mãe, não. A outra, não sei. Mas, com certeza, se não andarmos depressa, elas vão se molhar muito.

238.3Já passaram algumas centenas de metros de Cafarnaum, quando, por entre nuvens de poeira, no meio do primeiro barulho de um aguaceiro, que vem descendo oblíquo e violento, regando o ar escuro e tornando-se em seguida uma verdadeira catarata, que se reparte em gotas, que nos tiram a visão, que nos cortam o fôlego, e aí se veem duas mulheres correndo, procurando abrigo debaixo de alguma árvore copada.

Lá estão elas! Vamos correr!

Mas, por mais que seu amor por Maria dê asas a Pedro, ele, com suas pernas curtas, e certamente não de bom corredor, chega perto, só quando Jesus e Tiago já abrigaram as mulheres debaixo de um pesado pedaço de vela.

Aqui não se pode ficar. Há perigos de raios, e daqui a pouco a estrada vai virar um rio. Vamos, Mestre. Pelo menos até a primeira casa –diz Pedro, ofegante.

Eles vão, com as mulheres no meio, segurando o pano sobre as cabeças e as costas delas.

238.4A primeira palavra que Jesus diz a Madalena, que ainda está com a roupa daquela tarde no banquete de Simão, com um manto da Mãe de Jesus sobre os ombros, é esta:

Estás com medo, Maria?

Ela, que sempre esteve de cabeça inclinada, por baixo do véu, que é a sua cabeleira, desalinhada por causa da corrida, inclina ainda mais a cabeça, e murmura:

Não, Senhor.

Também a Mãe de Jesus perdeu os grampos, e parece uma menina, com as tranças caindo pelas costas abaixo. Mas sorri para o seu Filho, que está a seu lado, e lhe fala com aquele sorriso.

Estás muito molhada, Maria –lhe diz Tiago de Alfeu, tocando no véu e na capa da Senhora.

Não faz mal. Agora não nos estamos molhando mais. Não é verdade, Maria? Ele nos salvou até da chuva –diz docemente Maria a Madalena, percebendo a dificuldade em que ela está. E esta faz com a cabeça sinal que sim.

Tua irmã vai ficar contente por tornar a ver-te. Ela está em Cafarnaum. E estava te procurando –diz Jesus.

Maria levanta por um momento a cabeça, e fixa seus belos olhos no rosto de Jesus, que lhe vai falando no mesmo modo natural com que fala às outras discípulas. Mas ela não diz nada. Está arrasada com tantas emoções.

Jesus termina:

Estou contente por tê-la entretido. Eu vos deixarei ir, depois de ter-vos abençoado.

238.5A palavra se perdeu no estampido seco de um raio, que caiu ali perto. Madalena fica espantada. Leva as mãos ao rosto e se inclina numa explosão de choro.

Não tenhas medo! –conforta-a Pedro–. Agora já passou. E, com Jesus, nunca é preciso ter medo.

Também Tiago, que vai indo ao lado direito de Madalena, diz:

Não chores. As casas já estão perto.

Não estou chorando por medo… Estou chorando, porque Ele disse que vai me abençoar… Eu…eu… –e não pode dizer mais nada.

A Mãe de Jesus intervém para acalmá-la, dizendo:

Tu, Maria, já superaste o teu temporal. Não penses mais nele. Agora tudo é serenidade e paz. Não é verdade, meu Filho?

Sim, minha Mãe. É tudo verdade. Daqui a pouco voltará o sol, e tudo ficará bonito, limpo, fresco como ontem. Também para ti, Maria.

A Mãe continua, segurando a mão de Madalena:

Direi a Marta as tuas palavras. Estou contente por poder vê-la logo, e dizer-lhe como a sua Maria está cheia de boa vontade.

Pedro, patinando na lama, e suportando o dilúvio com paciência, sai de debaixo do refúgio, para ir até uma casa, a fim de pedir abrigo.

Não, Simão. Nós todos preferimos voltar para a nossa casa. Não é verdade? –diz Jesus.

Todos estão de acordo, e Pedro volta para debaixo do pano.

238.6Cafarnaum está deserta. Quem reina aí agora, como donos, são o vento, a chuva, os trovões, os relâmpagos, e agora o granizo, que bate e salta sobre os terraços e as fachadas. O lago está terrível e ameaçador. As casas perto dele estão sendo batidas pelas ondas, porque a prainha desapareceu, e as barcas, amarradas perto das casas, parecem ter naufragado, de tão cheias que estão de água, que cada novo vagalhão ainda aumenta, fazendo que delas transborde o que já lá estava.

Entram, correndo, na horta que se transformou em um enorme charco, no qual estão boiando detritos sobre a água barrenta, e de lá passam para a cozinha, onde estão todos reunidos.

O grito de Marta, quando vê sua irmã segura pela mão por Maria, é um grito agudo. Ela vai se abraçar ao pescoço da irmã, sem nem perceber como fica molhada ao fazer isso, e ao beijá-la, e a chama:

Mirí, Mirí, alegria minha! –talvez fosse esse o apelido carinhoso que davam a Madalena, quando era pequena.

Maria chora, se inclina, com a cabeça sobre o ombro da irmã, cobrindo a veste escura de Marta com um pesado véu de ouro, a única coisa brilhante naquela cozinha escura, onde está apenas um pequeno fogo de gravetos, para quebrar o escuro da treva, que a lampadazinha acesa não é capaz de vencer.

Os apóstolos estão indiferentes, e assim também estão o dono e a dona da casa, que apareceram por terem ouvido o grito da Marta, mas que, depois de um momento de curiosidade, dali se afastam discretamente.

238.7Depois, quando a fúria dos abraços se acalmou um pouco, Marta se lembra de Jesus, de Maria, da estranheza por virem assim todos juntos, e pergunta à irmã, à Mãe de Jesus, e eu não saberia dizer a quem ela o fazia com mais insistência:

Mas, como? Por que todos juntos?

Por causa do temporal, Marta, que nos fez ficar perto uns dos outros. Eu fui com Simão, Tiago e teu criado, ao encontro das duas peregrinas.

Marta está tão espantada, que nem reflete no fato de Jesus ir com tanta segurança ao encontro delas e não faz esta pergunta:

Mas Tu estavas sabendo?

É Tomé quem pergunta isso a Jesus. Mas não recebe resposta, porque Marta diz à sua irmã:

Mas como estavas com Maria?

Madalena inclina a cabeça. A Mãe de Jesus a socorre, segurando-a pela mão, e dizendo:

Ela veio até minha casa como uma peregrina, que vai até um lugar, onde lhe pode ser ensinado o caminho para chegar à meta. E ela me disse: “Ensina-me o que devo fazer para ser de Jesus.” Oh! Como nela há uma vontade verdadeira e total, logo ela compreendeu e entendeu essa sabedoria.

E eu a achei logo pronta para poder ser tomada pela mão, assim, e trazê-la até a Ti, meu Filho, a ti, boa Marta, a vós, irmãos discípulos, e dizer-vos: “Aqui está a discípula e a irmã, que não dará senão alegrias sobrenaturais ao Senhor e aos seus irmãos.” Procurai acreditar em mim, e amá-la todos, como Jesus e eu a amamos.

238.8Então, os apóstolos se aproximam, saudando a nova irmã. Não se exclui também alguma curiosidade… Mas, que fazer? São ainda homens…

Mas o bom senso de Pedro toma então a palavra:

Tudo vai bem, Vós garanti a ela ajuda e uma amizade santa. Primeiro seria necessário pensar que a Mãe e a irmã estão muito molhadas. Nós também, na verdade, estamos… Mas o caso delas é pior. Seus cabelos estão pingando água, como os salgueiros depois do furacão, suas vestes estão sujas de barro e molhadas. Vamos acender um fogo, vamos arranjar umas vestes e preparar uma comida quente…

Todos se põem a trabalhar, e Marta leva para o quarto as duas ensopadas viandantes, enquanto, já estando aceso o fogo, estenderam diante dele as capas, os véus e as vestes encharcadas. Não sei como se arranjam para prover tudo. Só sei que Marta, tendo-se lembrado de novo de sua energia de ótima dona de casa, vai e vem, cuidando de tudo, com bacias e água quente, com tigelas de leite quente, com vestes emprestadas pela patroa, para socorrer as duas Marias…