485. 485. Chegada a Betânia com os apóstolos,onde estão já alguns discípulos com Marziam.
2 de setembro de 1946.
485.1 Os vários matizes do verde dos campos, ao redor de Betânia, apresentam-se à vista, logo depois de ter-se passado um monte, ao por-se os pés nas terras sem chuvas do sul do monte, que descem por uma estrada em zigue-zague, que vai para Betânia. O verde prateado das oliveiras, o verde forte dos pomares, borrifado aqui e ali pelo primeiros tons amarelados das folhas, o despenteado o mais amarelado verde das videiras, o escuro e compacto verde dos carvalhos, o das alfarrobeiras, misturado ao marrom dos campos, que já está arado e à espera das sementes, e ao verde fresco dos prados, que está soltando a grama nova e o das hortas férteis, formam como um tapete multicor sobre o qual domina Betânia e seus arredores lá do alto. E sussurrando sobre o verde mais baixo, estão os pincéis das palmeiras, que produzem as tâmaras, sempre elegantes, fazendo-nos lembrar do Oriente.
A pequena cidade de Ensemes, escondida no meio do verde, e toda iluminada pelo sol, que está começando a sumir no ocaso, logo fica para trás. Depois dela vê-se também a fonte grande, rica de águas, que fica um pouco ao norte onde começa Betânia, e depois veem-se as primeiras casas, por entre o verde… Chegaram depois de muito caminhar, numa caminhada cansativa. E, por mais cansados que estejam, parecem revigorar-se, somente por chegarem à casa amiga de Betânia.
A pequena cidade está tranquila, quase vazia. Muitos moradores devem ter já ido para Jerusalém tomar parte na festa. Por isso, Jesus passa sem ser observado, até chegar nas vizinhanças da casa de Lázaro. Somente quando chega perto do jardim da casa, onde se formou um matagal, onde estavam todas aquelas gralhas. Ele encontra dois homens que o reconhecem, que o saúdam, e depois lhe perguntam:
– Estás indo à casa de Lázaro? Fazes bem. Ele está muito mal. Nós estamos vindo de lá, aonde fomos para levar-lhe o leite de nossas jumentas, o único alimento que seu estômago ainda aceita, junto com um pouco de suco de frutas e mel. As irmãs vivem só chorando. Estão extenuadas de tantas vigílias e tristezas. Ele nada mais faz do que desejar-te. Eu creio que já deveria estar morto, mas o desejo de tornar a ver-te é que o fez viver até hoje.
– Eu vou logo. Deus esteja convosco.
– E… Tu vais curá-lo? –perguntam cheios de curiosidade.
– A vontade de Deus se manifestará sobre ele e, com ela, o poder do Senhor, responde Jesus, deixando os dois perplexos, e se apressando em ir para a cancela do jardim.
485.2Um dos servos o vê, e corre para ir abrir, mas sem dizer nenhuma exclamação de alegria. Logo que abriu a cancela, ajoelhou-se para venerar a Jesus, e diz com uma voz cheia de dor:
– Sê bem-vindo, Senhor! E que a tua vinda seja um sinal de alegria para esta casa, que vive em contínuo pranto. Lázaro é o meu patrão…
– Eu sei. Resignai-vos todos com a vontade do Senhor. Ele premiará o sacrifício da vossa vontade, oferecido à vontade dele. Vai, chama Marta e Maria. Eu as estou esperando no jardim.
O servo sai correndo, e Jesus o acompanha devagar, depois de ter dito aos apóstolos:
– Eu vou à casa do Lázaro. Vós, descansai, pois precisais disso…
De fato, enquanto aparecem à soleira as duas irmãs, quase parecem não estar mais conhecendo o Senhor pelo tanto que seus olhos estão cansados de vigiar e de chorar, e o sol que está tocando precisamente nos olhos delas aumenta sua dificuldade de ver outros servos, por uma porta secundária, estão saindo ao encontro dos apóstolos e levando-os consigo.
– Marta! Maria! Sou Eu. Não me estais conhecendo?
– Oh! O Mestre –exclamam as duas irmãs, e se põem a correr para Ele, jogando-se a seus pés, reprimindo a custo os soluços.
Beijos e lágrimas descem aos pés de Jesus, como aconteceu1 na casa de Simão, o fariseu.
Mas desta vez Jesus não está tão austero, como naquela, pois fica presenciando o correr das lágrimas de Marta e Maria. Agora Ele se inclina e lhes toca as cabeças, as acaricia, abençoa com aquele seu gesto, e as faz levantar-se dizendo:
– Vinde, vamos para debaixo dos jasmins da varanda. Podeis deixar o Lázaro?
Mais com sinais do que com palavras, por entre soluços, elas dizem que sim. E vão para debaixo do quiosque sombreado, sobre cuja ramagem viçosa e escura as pertinazes estrelinhas dos jasmins mostram sua alvura e exalam seu perfume.
485.3 – Falai agora…
– Oh! Mestre! Estás vindo a uma bem triste casa! Nós estamos ficando zonzas pelo sofrimento. Quando o servo nos disse: “Aí está um à vossa procura”, nós nem pensamos que eras Tu. E, quando te vimos, nem te reconhecemos. Mas, estás vendo? Os nossos olhos estão queimados de tanto chorar. Lázaro está morrendo!
E o pranto recomeça, interrompendo as palavras das irmãs, que falam cada uma por sua vez.
– E Eu vim…
– Para curá-lo?! Oh! Meu Senhor! –diz Maria, radiante de esperança, enquanto continua derramando lágrimas.
– Ah! Bem que eu dizia! Se Ele vier… –diz Marta, unindo as mãos num gesto de alegria.
– Oh! Marta! Marta! Que sabes tu sobre as operações e os decretos de Deus?
– Ai de mim, Mestre! Tu não o curarás?! –exclamam juntas, recaindo em sua dor.
– Eu vos digo: tende uma fé sem limites no Senhor. Continuai a tê-la, apesar de todas as insinuações e acontecimentos, vereis grandes coisas, quando o vosso coração não tiver mais motivo para esperar vê-las. Que diz Lázaro?
– Nas palavras dele há um eco das tuas. Ele diz: “Não duvideis da bondade e do poder de Deus. Aconteça o que acontecer, Ele intervirá para o vosso e para o meu bem, para o bem de muitos, de todos aqueles que, como eu, souberem permanecer fiéis ao Senhor.” E, quando ele está em condições de fazê-lo, explica-nos as Escrituras, já não lê outras coisas senão elas, e nos fala de Ti, diz que vai morrer em um tempo feliz, porque a era da paz e do perdão já começou. Mas Tu o ouvirás, porque ele diz também outras coisas que nos fazem chorar, ainda mais do que por ser nosso irmão… –diz Marta.
– Vem, Senhor. Cada minuto que passa é roubado da esperança do Lázaro. Ele estava contando as horas… E dizia: “Certamente Ele estará em Jerusalém para a festa, e virá…”. E nós, que sabemos muitas coisas, que não contamos a Lázaro, para não fazê- lo sofrer, tínhamos menos esperança porque pensávamos que Tu não viesses, para evitar aqueles que Te procuram… Marta pensava muito nisso. Mas eu, menos, porque… eu, se estivesse em teu lugar, desafiaria os inimigos. Não sou daquelas que têm medo dos homens, eu não. E agora não tenho mais medo, nem de Deus. Eu sei quanto Ele é bom para com as almas arrependidas… –diz Maria, olhando para Ele com aquele seu olhar de amor.
– Não tens medo de nada, Maria? –pergunta Jesus.
– Do pecado… e de mim mesma… Estou sempre com medo de recair no mal. Penso que Satanás me deve odiar muito.
– Tens razão. Tu és uma das almas mais odiadas por Satanás. Mas és também uma das mais amadas por Deus. Lembra-te disso.
– Oh! Eu me lembro. A minha força é esta lembrança. Eu me lembro daquilo que disseste na casa de Simão. Tu disseste: “Muito lhe é perdoado, porque muito amou”, e daquilo que disseste a mim: “São perdoados os teus pecados. A tua fé te salvou. Vai em paz.” Tu disseste “os pecados.” Não muitos, mas todos. Então, eu fico pensando que Tu me amaste sem medida, ó meu Deus. Agora, a minha pobre fé daquela ocasião, que podia ter nascido em uma alma carregada de culpas, obteve de Ti tantas coisas, como é que a minha fé de agora não poderá defender-me do Mal?
– É verdade, Maria. Vigia, torna a vigiar sobre ti mesma. Isso é humildade e prudência. Mas, tem fé no Senhor. Ele está contigo.
485.4 Entram na casa. Marta vai até o seu irmão. Maria gostaria de servir a Jesus. Mas Jesus quer, antes de tudo, ir até Lázaro. Entram no quarto, na penumbra em que vai-se consumando o sacrifício.
– Mestre!
– Meu amigo!
Os braços esqueléticos de Lázaro erguem-se para o alto, os de Jesus descem para abraçar o corpo do amigo sofredor. É um longo abraço. Depois, Jesus torna a acomodar o doente sobre os travesseiros, e fica olhando para ele com piedade. Enquanto isso, Lázaro está sorrindo. Pois está feliz. Em seu rosto, destruído pela enfermidade, só brilham vivos os olhos encovados, mas que ficaram luminosos pela alegria de terem Jesus ali.
– Estás vendo? Eu vim para estar muito contigo.
– Oh! Não podes fazer isso, Senhor. A mim não contam tudo. Mas eu sei o tanto necessário para dizer-te que não o podes. Ao sofrimento que já te causam, eles acrescentam o meu, a minha parte, não me permitindo expirar em teus braços. Mas eu, que te amo não posso por egoísmo querer-te só perto de mim, na hora do perigo. Tu… eu já tomei providências… Tu deves estar sempre mudando de lugar. Todas as minhas casas estão abertas para Ti. Os guardas têm ordens e também os feitores de meus campos. Mas não fiques indo deter-te no Getsêmani. É um lugar que está muito vigiado. Eu me refiro à casa. Porque, por entre as oliveiras, especialmente por entre aquelas mais altas, podes andar e por muitos caminhos, sem que eles o saibam. Marziam, sabes que ele já está aqui? Marziam foi interrogado por alguns, enquanto ele estava no lagar com Marcos. Queriam saber onde ficarias, se viesses; o rapaz respondeu muito bem: “Ele é israelita, e virá. Por onde, não sei, pois o deixei no Meron.” Assim ele impediu que dissessem que és pecador, e não mentiu..
– Eu te agradeço, Lázaro. Darei ouvidos às tuas palavras. Mas nos veremos frequentemente do mesmo modo.
E fica ainda olhando para ele.
– Estás olhando para mim, Mestre? Estás vendo a que fiquei reduzido? Como uma árvore que se despoja das folhas no outono, eu me despojo, a cada hora, de minha carne, de minha força e de minhas horas de vida. Mas, digo a verdade, quando digo que, se me desagrada não poder viver o tanto necessário para ver o teu triunfo, alegro-me por ir embora, impotente como estou para frear o ódio que vem-se formando ao redor de Ti.
– Não és impotente. Nunca o és. Tu tomas providências para o teu Amigo, ainda antes que Ele chegue. Tenho duas casas de paz, e poderia dizer, igualmente queridas: a de Nazaré e esta. Se lá está minha Mãe, o amor celeste, quase como o que o Céu tem para com o Filho de Deus, aqui Eu tenho o amor dos homens pelo Filho do homem. O amor amigo, cheio de fé e veneração… Obrigado, meus amigos!
– Tua Mãe não virá mais?
– No começo da primavera.
– Oh! Então, eu não a verei mais…
– Não. Tu a verás. Eu to digo. E deves acreditar em Mim.
– Em tudo, Senhor. Até naquilo que os fatos desmentem.
– Marziam, onde está?
– Em Jerusalem com os discípulos. Mas ele vem para cá, pela tarde. Daqui a pouco. E os teus apóstolos? Não estão contigo?
– Eles ficaram lá com Maximino, que os está atendendo, pois estão cansados, extenuados.
– Caminhastes muito?
– Muito. E sem parar. Eu te contarei. Agora, repousa. Por enquanto, Eu te abençãoo.
Jesus o abençoa, e se retira.
485.5 Os apóstolos estão agora com Marziam e com quase todos os pastores, e falam das insistências dos fariseus para saberem notícias de Jesus, e isso lhes infundiu suspeitas, a tal ponto que os discípulos deles pensaram em se porem de guarda em todas as estradas que conduzem para Jerusalém, a fim de avisarem ao Mestre.
– De fato –diz Isaque–, estamos espalhados em todas as estradas, a alguns estádios das Portas, e por turnos, passamos uma noite aqui. Esta é a nossa.
– Mestre –Judas se ri–, eles dizem que junto à Porta de Jafa, estava hoje a metade do Sinédrio, e faziam perguntas uns aos outros, porque alguns se lembravam de minhas palavras em Enganim, outros juravam terem sabido que tinhas estado em Dotaim, outros diziam te terem visto perto de Efraim, e isso os fazia ficar furiosos, não sabendo mais onde estavas…
E se ri da burla impingida aos inimigos de Jesus.
– Amanhã eles me verão.
– Não. Amanhã nós vamos embora. Já marcamos isso. Todos em grupo, e pondo-nos bem à vista.
– Isso Eu não quero. Tu irias mentir.
– Eu te juro que não mentirei. Se não me dizem nada, eu nada lhes digo. Se me perguntam se estás conosco, eu direi: “E não estais vendo que não está?”, e, se quiserem saber onde estás, responderei: “Procurai-o, vós. Como quereis que eu saiba onde está o Mestre neste momento?” De fato, eu não poderei saber com certeza se estás em casa ou aqui, ou pelos pomares, ou não sei onde.
– Judas, Judas, eu te disse…
– E eu te digo que tens razão. Mas esta minha não será uma simplicidade de pomba, mas uma prudência de serpente. Tu és a pomba, eu a serpente. Juntos formaremos aquela perfeição que tu ensinaste2.
Ele toma aquele tom de que Jesus usa quando ensina, e diz, imitando com perfeição o Mestre:
– “Eu vos mando como ovelhas ao meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas… Não vos preocupeis como havereis de responder, porque naquele momento vos serão colocadas sobre os lábios as palavras, não sendo vós que as falareis, mas o Espírito que falará em vós… Quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra, até que chegue o Reino do Filho do homem…“ Eu me lembro delas, é hora de aplicá-las.
– Eu não as disse assim, e não foram só essas –observa Jesus.
– Oh! Por enquanto é preciso dizer só estas, e dizê-las assim. Eu sei o que queres dizer. Mas, se não se confirmou a fé em Ti, esta é uma pedra no teu Reino, não é bom que nos entreguemos aos nossos inimigos. Depois… diremos e faremos o resto…
A expressão de Judas é tão brilhante, cheia de inteligência e marotagem, que conquista a todos, menos a Jesus, que dá um suspiro. É verdadeiramente o homem sedutor, ao qual nada falta para triunfar sobre os outros homens.
Jesus suspira e fica pensando… Mas Ele cede, percebendo que não é totalmente má a medida proposta por Judas. Este, triunfante, formula, então, o resto do seu plano.
– Portanto, nós iremos amanhã, e depois de amanhã, até o dia depois do sábado. Estaremos em uma cabana de varas no vale do Cedron, como autênticos israelitas. Eles ficarão cansados de esperar-te… e, então, Tu irás. Por enquanto, ficarás aqui, em paz, em repouso. Estás exausto, Mestre meu. E nós não queremos isso. Com as portas fechadas, um de nós virá dizer-te o que eles estão fazendo. Oh! Como será belo vê-los decepcionados!
Todos concordam, e Jesus não opõe resistência. Talvez o verdadeiramente grande cansaço, talvez o desejo de dar a Lázaro um conforto, antes da luta final, tudo contribui para que Ele ceda. Talvez também a necessidade real de manter-se livre, enquanto não tiverem sido realizadas todas as obras que são necessárias para que Israel não duvide de sua Natureza, antes de julgá-lo como um réu… O certo é que Ele diz:
– Assim seja. Mas evitai as discussões, e deixai de dizer mentiras. O melhor é calar-se. Mas não mintais. Agora vamos, que Marta nos está chamando. Vem, Marziam. Eu te estou achando com uma aparência melhor…
E se afasta dali, falando, e tendo um braço passado ao redor das costas do discípulo jovenzinho.
1 como aconteceu em 236.2.
2 ensinaste, em 265.7/9.
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