639. 639. A eleição de Matias.


26 de abril de 1947.

639.1É uma noite serena. A luz desce docemente fazendo com que o céu, que até então estava cor de púrpura, vá se cobrindo de um véu delicado cor ametista. Logo estará escuro, mas por enquanto ainda há luz, e é uma luz doce do entardecer, lânguida, depois de tanto sol ardente.

O pátio da casa do Cenáculo, que é bem vasto por entre as paredes brancas da casa, está cheio de gente como nas tardes depois da Ressurreição. E do meio daquela multidão reunida está saindo um murmúrio único de orações, interrompidas de vez em quando por algumas pausas para meditação.

À medida que a luz vai descendo no pátio fechado pelas altas paredes da casa, alguns levam tochas, que eles vão pondo sobre a mesa, perto da qual estão reunidos os apóstolos. Pedro está no centro, ao lado dele estão Tiago de Alfeu e João, e mais atrás os outros.

A luz vibrante das pequenas chamas ilumina os apóstolos de baixo para cima, realçando bastante os traços deles e as expressões de seus rostos: o de Pedro está concentrado e atento, no esforço em exercer com dignidade estas primeiras funções do seu ministério. O de Tiago de Alfeu é de uma mansidão acética; sereno e sonhador o de João; ao lado dele, o semblante de pensador de Bartolomeu, seguido pelo de Tomé, cheio de vivacidade; depois o de André, sempre velado por sua modéstia, que o faz ficar com os olhos fechados e um pouco inclinado, parecendo querer dizer: “Eu não sou digno”; perto dele está Mateus, com um cotovelo apoiado na mão do outro braço e a face apoiada sobre a mão do braço que a sustenta; depois vemos Tiago de Alfeu, Tadeu com um ar imponente e um olhar muito parecido, na cor e na expressão, com o de Jesus, um verdadeiro dominador de multidões.

Mesmo agora ele está conservando quieta aquela assembleia, mantendo-a sob o fogo dos seus olhos mais do que possam fazê-lo todos os outros juntos; no entanto, apesar de sua involuntária imponência de rei, pode-se ver que transparece nele o sentimento do coração entristecido, especialmente quando chega sua vez de entoar uma oração. E quando ele diz aquele salmo1: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu Nome dá glória, pela tua misericórdia e fidelidade, para que os pagãos não tenham que dizer: ‘Onde é que está o Deus deles?’”, ele reza realmente com a alma ajoelhada diante daquele que o escolheu, e um sentimento ainda mais forte em seu interior vibra em sua voz; ele também está dizendo no meio de todas as suas orações: “Eu não sou digno de servir a Ti, que és tão perfeito.”

Filipe, ao lado dele, com um rosto já marcado pelos anos ainda que esteja em sua idade viril, está parecendo alguém que contemple um espetáculo que só ele está vendo, e está com as mãos espalmadas sobre as faces, um pouco inclinado e meio triste… enquanto que Zelotes está olhando para o alto, distante, com um sorriso íntimo que o torna mais belo no rosto, não belo, mas atraente em sua dignidade austera. Tiago de Zebedeu, que é todo impulsivo e emotivo, diz as suas orações como se falasse ainda com o Mestre amado, e o salmo 12 sai fluente do seu espírito incendido. Terminaram com o longo e belíssimo salmo 1182, do qual cada um deles diz um versículo, repetindo duas vezes o turno para recitarem todos os versículos.

639.2Depois todos se recolhem em silêncio até que Pedro, que se sentou, levanta-se como se estivesse sob o impulso de uma inspiração, rezando com voz forte e com os braços abertos, como fazia o Senhor:

– Mandai a nós o teu Espírito, Senhor, para que nós possamos ver na sua Luz.

– Maranatha –dizem todos.

Pedro se recolhe em uma intensa e silenciosa oração, mas talvez seja mais um escutar do que rezar, ou pelo menos esperar palavras de luz… Depois ele levanta a cabeça de novo e de novo abre os braços, que estavam cruzados sobre o peito, mas como ele é de pouca estatura em comparação com os outros, sobe na sua cadeira a fim de poder dirigir-se ao pequeno grupo que se ajuntou no pátio e para ser visto por todos. E todos, compreendendo que ele vai falar, calam-se e olham com atenção para ele.

639.3– Meus irmão, era necessário que se cumprisse aquela Escritura predita3 pelo Espírito Santo pela boca de Davi referente a Judas, o qual fez as vezes de guia para aqueles que capturaram o Senhor e Mestre, nosso bendito Jesus.

Ele, Judas, era um dos nossos, e teve a sorte de fazer parte no nosso ministério. Mas a sua eleição transformou-se para ele em ruína, porque Satanás entrou nele por muitos caminhos, e de apóstolo de Jesus o fez se tornar o traidor de seu Senhor. Ele creu que iria triunfar e gozar e vingar-se assim do Santo que o havia desiludido das esperanças imundas do seu coração cheio de todas as concupiscências. Mas quando ele pensava que iria triunfar e gozar, foi aí que ele compreendeu que o homem que se faz escravo de Satanás, da carne, do mundo, não triunfa, mas, pelo contrário, morde a poeira como quem está vencido. E ficou sabendo que o sabor dos alimentos dados pelo homem e por Satanás é muito amargo, totalmente diferente do pão suave e simples que Deus dá aos seus filhos. E, então, ele ficou sabendo o que é o desespero, e passou a odiar o mundo todo, depois de ter odiado a Deus; e amaldiçoou tudo o que o mundo lhe havia dado, e deu a morte a si mesmo, indo pendurar-se em uma oliveira do olival que ele havia comprado com o dinheiro de suas iniquidades; e, no dia em que Cristo ressurgiu glorioso da morte, o seu corpo, o de Judas, já podre e cheio de vermes, escapou do laço, e suas vísceras se espalharam pelo chão, junto ao pé da oliveira, tornando imundo aquele lugar.

Lá no Gólgota choveu o Sangue redentor e purificou a terra, porque era o Sangue do Filho de Deus encarnado por nós. Sobre a colina, que está perto do lugar do infame Conselho, não há sangue nem lágrimas de um remorso salutar, mas sujeiras das vísceras que se desfaziam, pingando sobre a poeira. Porque nenhum outro sangue poderia misturar-se com o sangue santíssimo naqueles dias de purificação, nos quais o Cordeiro nos lavava no seu Sangue, e a Terra, que bebia o Sangue dele, não poderia beber também o sangue do filho de Satanás.

Todos já sabem o que sucedeu. E com isso se sabe também que, em seu furor de condenado, Judas havia voltado antes ao Templo para devolver o dinheiro do infame negócio e o atirou no rosto do Sumo Sacerdote. Mas sabia-se que aquele dinheiro tinha sido apanhado no Tesouro do Templo e por isso não podia voltar para lá, porque era preço de sangue, e os príncipes dos Sacerdotes e os Anciãos aconselharam-se uns com os outros, compraram o campo do oleiro, assim como diziam as profecias4, especificando até o preço dele. E esse lugar passará para a história dos séculos com o nome de Acéldama.

E tudo o que pertencer a Judas, ou o que dizem que pertenceu a ele, desapareça do meio de nós, até mesmo a lembrança de como era o seu rosto. Mas que se tenham presentes os caminhos pelos quais ele foi chamado por Deus para o Reino Celeste e desceu a tal ponto de ser um dos príncipes do Reino das Trevas eternas, no meio das quais quem pisa imprudentemente, incluindo nós, se tornará outro Judas, pela Palavra que Deus nos confiou, e que é ainda Cristo, que foi Mestre entre nós.

639.4Porém, está escrito5 no livro dos Salmos: “Que a casa deles fique vazia, e não haja quem more nela, e que o seu ofício seja exercido por outro.” Portanto, dentre esses homens — que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus esteve conosco, indo e vindo, a começar pelo Batismo de João até o dia em que ele subiu ao Céu — um deve ser constituído como testemunha da Ressurreição Dele. E é preciso fazê-lo com solicitude, a fim de que esteja presente entre nós no Batismo de Fogo, sobre o qual o Senhor nos falou, de modo que ele, que não recebeu o Espírito Santo do Mestre Santíssimo, receba-o diretamente de Deus e seja santificado e iluminado, e tenha as virtudes que nós teremos, e possa julgar e perdoar e fazer aquilo que nós faremos, e os seus atos sejam válidos e santos.

Eu proporia a escolha desse homem dentre os mais fiéis discípulos, dentre aqueles que já padeceram por Ele e lhe permaneceram fiéis, mesmo quando Ele era ainda desconhecido pelo mundo. Muitos desses vieram até nós por meio de João, o Precursor do Messias, e assim são almas modeladas por anos seguidos no serviço de Deus. O Senhor as estimava muito, e o mais estimado era Isaque, que tanto padeceu por causa de Jesus Menino. Mas vós sabeis que o coração dele ficou fortemente abalado na noite seguinte ao dia da Ascensão do Senhor. E ele foi reunir-se com o seu Senhor. Nós não precisamos chorar por ele. Ele já foi se unir com o seu Senhor. Era esse o único desejo do seu coração… E é também o nosso. Mas nós devemos passar pela nossa Paixão. Isaque já havia passado pela sua.

Então, proponde vós algum nome entre estes, a fim de que possamos escolher o décimo segundo apóstolo conforme os usos do nosso povo, deixando ao Senhor Altíssimo, nas possíveis dúvidas graves, o poder de indicar quem é que vai ser.

639.5Eles se consultam. Não passa muito tempo e os discípulos mais importantes (entre os não pastores), de comum acordo com os dez apóstolos, comunicam a Pedro que eles propõem José, filho de José de Sabas, para honrar o pai, mártir por Cristo com o filho discípulo fiel, e Matias, pelas mesmas razões do primeiro e também para honrar o seu primeiro mestre: João Batista.

E com Pedro aceitou o conselho deles, fazem vir diante da mesa os dois, e então rezam com os braços abertos na posição habitual dos hebreus:

– Tu, Senhor, Altíssimo, Pai, Filho e Espírito Santo, Deus uno e trino, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois Tu escolheste para realizar este ministério e apostolado no lugar do qual prevaricou Judas, para ir para o seu lugar.

– Maranatha –dizem todos em coro.

Não havendo lá nem dados nem outra coisa com que tirar a sorte, e não querendo fazer uso de dinheiro para esta função, eles apanham uns seixos que estão espalhados pelo pátio, uns pobres seixinhos, uns brancos, outros escuros, em número igual, e decidem que os brancos são votos a favor de Matias e os escuros a favor de José, e os misturam dentro de uma bolsa que eles esvaziaram antes, depois a sacodem e a oferecem a Pedro que, fazendo sobre ela um gesto de bênção, enfia a mão dentro dela e orando com os olhos fitos no céu, que ficou pontilhado de estrelas, tira lá de dentro um seixo. É um seixo branco como a neve.

639.6O Senhor indicou Matias como sucessor de Judas.

Pedro passa pela frente da mesa e o abraça “para torná-lo semelhante a ele” como ele diz.

Também os outros dez repetem o mesmo gesto, por entre as aclamações do pequeno agrupamento.

No fim, Pedro, depois de ter voltado ao seu lugar, segura pela mão o eleito, que está a seu lado. E assim Pedro está agora entre Matias e Tiago de Alfeu, e diz:

– Vem para o lugar que Deus te reservou, e apaga, com tua justiça, a lembrança de Judas, ajudando a nós, teus irmãos, a completar as obras que Jesus Santíssimo nos disse que completássemos. A Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre contigo.

E ele se vira para todos, despedindo-se deles.

Enquanto os discípulos vão saindo lentamente por uma porta secundária, os apóstolos voltam e tornam a entrar na casa, levando Matias a Maria, que está recolhida em oração no seu quarto, para que da Mãe de Deus o novo apóstolo receba a palavra de saudação e de eleição.

1 o salmo, que é Salmo 115,1-2.
2 salmo 12 e salmo 118 são, na neo-vulgata, Salmo 13 e Salmo 119.
3 predita, em: Salmo 41,10.
4 as profecias, que estão em: Jeremias 32,6-10; Zacarias 11,12-13.
5 está escrito, em: Salmo 69,26; 109,8.


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