644. 644. Instituição do “domingo”.Conversão gradual de Gamaliel.Os dois Sudários.


5 de outubro de 1951.

644.1É noite. A lua, no seu auge, ilumina com sua luz prateada todo o Getsêmani e a casa de Maria e João. Está tudo silencioso. Também o Cedron, reduzido a um fio de água, não faz barulho.

Em um certo momento, no meio do grande silêncio, ouve-se um ruído de sandálias, que vai ficando sempre mais próximo e claro, e com isso ouvem-se também algumas vozes masculinas e graves. Depois, três pessoas estão saindo do entrelaçamento das plantas e se dirigindo para a casinha. Batem na porta fechada.

Uma lâmpada se acende e uma pequena luz trêmula passa por uma fenda da porta. Uma mão abre, aparece uma cabeça, uma voz, que é a de João, pergunta:

– Quem sois vós?

– José de Arimateia. E comigo estão Nicodemos e Lázaro. Esta hora é indiscreta. Mas a prudência assim exige. Trazemos uma coisa para Maria, e Lázaro nos acompanha.

– Entrai. Eu vou chamá-la. Ela não está dormindo. Está rezando lá em cima em seu pequeno quarto, no terraço. Ela gosta muito de ficar lá! –diz João, e sobe rapidamente pela escadinha que conduz ao terraço e ao quarto.

Os três ficaram na cozinha e estão falando baixo, entre si, à luz fraca da lanterna, todos juntos perto da mesa, ainda vestidos com os seus mantos, mas com as cabeças descobertas.

644.2João retorna com Maria, que cumprimenta os três, dizendo:

– A paz esteja com todos vós.

– E contigo, Maria –respondem os três, inclinando-se.

– Há algum perigo? Aconteceu alguma coisa aos servos de Jesus?

– Nada, Mulher. Fomos nós que decidimos vir para dar-te uma coisa — agora sabemos com certeza, mas já pressentíamos — que Tu desejavas ter. Não viemos antes porque entre nós havia um contraste de ideias, e também entre nós e Maria de Lázaro. Marta não se pronunciou a respeito. Ela somente disse: “O Senhor, diretamente ou fazendo que outros vos falem, vos dirá o que deveis fazer.” Então, nós viemos por causa disso –explica José.

– O Senhor vos falou? Ele veio até vós?

– Não, Mãe. Não mais, depois de sua subida ao Céu. Mas antes, sim. Ele nos apareceu, nós te dissemos, de um modo sobrenatural, depois da Ressurreição, em minha casa. Naquele dia Ele apareceu a muitos ao mesmo tempo, para testemunhar a sua Divindade e Ressurreição. Depois, ainda o vimos, enquanto Ele esteve entre os homens, mas não mais de modo sobrenatural, do modo como o viram os apóstolos e discípulos –responde-lhe Nicodemos.

– E então? Como é que Ele vos indicou qual o caminho a seguir?

– Pela boca de um dentre os seus prediletos e sucessores.

– De Pedro? Eu não creio. Ele ainda está muito espantado pelo passado e por sua nova missão.

– Não, Maria, não por Pedro. 644.3Porém, ele, na verdade, está ficando cada vez mais seguro. E agora que sabe por qual motivo Lázaro preparou a casa do Cenáculo, decidiu iniciar regularmente os ágapes e celebrar com regularidade os mistérios no dia depois de cada sábado. Porque ele diz que agora o dia do Senhor é esse, já que naquele dia Ele ressuscitou e apareceu a muitos, para confirmá-los na fé sobre a sua natureza eterna de Deus. Não existe mais o sábado, como existia para os hebreus, talvez como o Shabahôt1. Não existe mais o sábado, porque para os cristãos não existe mais a sinagoga, mas a Igreja, assim como predisseram os profetas. Mas sempre existiu e sempre existirá o dia do Senhor, em memória do Homem-Deus, do Mestre, Fundador, Pontífice eterno, depois de ter sido Redentor, da Igreja cristã. A partir do dia depois do próximo sábado, passarão a existir, então, os ágapes entre os cristãos na casa do Cenáculo, e serão muitos. Isso não era possível antes, seja por causa do ódio dos fariseus, sacerdotes, saduceus e escribas, seja pela dispersão momentânea de muitos seguidores de Jesus, abalados em sua fé Nele e com medo do ódio dos judeus. Mas agora os odiadores, seja por medo de Roma, que censurou o comportamento do Procônsul e da multidão, e porque acreditam que terminou “a exaltação dos fanáticos”, como eles definem a fé dos cristãos em Cristo, pela momentânea dispersão dos fiéis, que na verdade durou bem pouco, e já acabou, porque todas as ovelhas retornaram ao Ovil do verdadeiro Pastor, estão muito atentos agora, eu diria até que eles se desinteressam como se fosse coisa morta, acabada. E isso nos permite que nos reunamos, para os ágapes. 644.4Nós gostaríamos que tu pudesses, nessa primeira vez, ter essa lembrança Dele para mostrar aos fiéis, de modo a confirmá-los na fé, e sem que isso te cause um desgosto grande demais.”

E José lhe estende um volumoso rolo que está envolvido em um pano vermelho escuro, e que tinha ficado, até aquele momento, escondido por debaixo do seu manto.

– Que é isso? –pergunta Maria, empalidecendo–. Serão as vestes dele? Será aquela que Eu fiz para… Oh!…

E Ela chora.

– Aquela não encontramos mais por preço nenhum. Quem sabe como e onde elas foram parar! –responde Lázaro.

E acrescenta:

– Mas também esta é uma veste Dele. Sua última veste. É o Lençol limpo no qual foi envolvido o Puríssimo, depois da tortura e — ainda que apressada e limitada — da purificação de seus membros, emporcalhados pelos seus inimigos, e o embalsamamento sumário. Quando Ele ressuscitou, José retirou os dois do sepulcro e os trouxe até nós, lá em Betânia, a fim de impedir que os tratassem sacrilegamente. Na casa de Lázaro os inimigos de Jesus não ousam ir. E mais do que nunca, agora que sabem que Roma censurou a ação de Pôncio Pilatos. Depois que se passaram esses primeiros dias, os mais perigosos, nós te demos o primeiro Lençol, e Nicodemos achou o outro e o levou para sua casa de campo.

– Verdadeiramente, ó Lázaro, eles eram de José –observa Maria.

– É verdade, Mulher. Mas a casa de Nicodemos está fora da cidade. Por isso ela dá menos na vista e está mais segura, por muitos motivos –responde-lhe José.

– Sim, especialmente desde que Gamaliel, junto com o seu filho, a vem frequentando com assiduidade –acrescenta Nicodemos.

– Gamaliel!? –diz Maria com grande espanto.

644.5Lázaro não consegue se conter e sorri com sarcasmo, enquanto responde:

– Sim. O sinal, o famoso sinal que ele esperava para acreditar que Jesus era o Messias, o abalou. Não se pode negar que o sinal foi tão forte que despedaçou até mesmo as cabeças e os corações mais duros de se render. E com aquele sinal potente, Gamaliel ficou sacudido, balançado, abatido, mais do que as casas que desmoronaram no dia de Parasceve, enquanto parecia que o mundo ia se acabar juntamente com a Grande Vítima. O remorso o dilacerou, e ele ficou mais dilacerado do que o véu do Templo; o remorso de não ter compreendido Jesus por aquilo que Ele era realmente. O sepulcro fechado do seu espírito velho, de hebreu obstinado, abriu-se, como os túmulos que deixaram sair os corpos dos justos. E agora ele busca com afã a verdade, a luz, o perdão, a vida. A nova vida. Aquilo que só por Jesus e em Jesus se pode ter. Oh! Terá muito o que fazer ainda para liberar totalmente o seu eu antigo dos escombros do seu modo de pensar passado! Mas chegará lá. Ele busca paz, perdão e conhecimento. Paz para os seus remorsos e perdão por suas obstinações. E conhecimento completo Daquele que, quando podia, não quis conhecer completamente. E ele vai à casa de Nicodemos para alcançar a meta que, afinal, ele se propôs.

– E tens a certeza de que ele não irá te trair, Nicodemos? –pergunta Maria.

– Não. Não me trairá. No fundo, Ele é um justo. Lembra-te de que ele ousou impor-se ao Sinédrio, durante aquele processo infame e do qual ele abertamente mostrou o seu desdém e desprezo para com os juízes injustos, indo embora e mandando ao filho que fosse também, a fim de não ser cúmplice, nem mesmo com uma presença passiva, daquele supremo delito. Isso no que diz respeito a Gamaliel.

644.6Com relação às Síndones, eu pensei que — como eu não sou mais hebreu, e portanto não estou mais sujeito às proibições2 do Deuteronômio sobre esculturas e obras de metal fundido — poderia fazer, do jeito que eu sei, uma estátua de Jesus crucificado — usarei um dos meus gigantescos cedros do Líbano — e de guardar no seu interior uma das Síndones: a primeira, se tu, Mãe, no-la dás. Te faria sempre sofrer demais vê-la, porque estão visíveis nela as imundícies com as quais Israel, de modo sacrílego, feriu o Filho do seu Deus. Além disso, certamente devido aos solavancos recebidos na descida do Gólgota, solavancos que deslocaram continuamente aquele Corpo martirizado, a imagem é tão confusa que é difícil distingui-la. Mas aquela tela, embora confusa na efígie e imunda, para mim é sempre preciosa e sagrada, porque nela está o sangue e suor Dele. Escondida naquela escultura, ficara a salvo, porque nenhum israelita das altas castas jamais ousará tocar em uma escultura. Mas a outra, a segunda Síndone, que esteve sobre Ele desde a noite de Parasceve até a aurora da Ressurreição, deve ficar contigo. E — e eu te aviso a fim de que tu não te comovas demais ao vê-la — fica sabendo que quanto mais os dias passam, mais nítida fica a imagem Dele, como era depois da ablução. Quando a retiramos do Sepulcro, parecia que conservava simplesmente a marca dos seus membros cobertos por óleo e, misturados com ele, gotas de sangue e de soro das muitas feridas. Mas, ou por causa de um processo sobrenatural, um milagre Dele para dar uma alegria a ti, quanto mais o tempo passou, mais a imagem tornou-se definida e nítida. Ele está lá, naquela tela, belo, imponente, mesmo se está ferido; sereno, pacífico, mesmo depois de tantas torturas. Tens coragem de vê-lo?

– Oh! Nicodemos! Esse era justamente o meu maior desejo! Tu dizes que Ele está com o rosto pacífico… Ah! Se eu pudesse vê-lo assim, não com aquela expressão de torturado, que ficou sobre o véu de Nique! –responde Maria, unindo as mãos sobre o coração.

644.7Então, os quatro afastam a mesa para ter mais espaço; depois, Lázaro e João de um lado, Nicodemos e José de outro, desenrolam lentamente a longa tela. Em primeiro lugar, aparece a parte do dorso, começando pelos pés; e, depois da junção das cabeças, aparece a parte frontal. As linhas são bem claras, e claros os sinais, todos os sinais, da flagelação, da coroação de espinhos, a fricção da cruz, as contusões dos golpes recebidos e das quedas, e as feridas dos pregos e da lança.

Maria cai de joelhos, beija a tela, acaricia aquelas marcas, beija as feridas. Ela está angustiada, mas visivelmente contente por poder ter aquela efígie sobrenatural e milagrosa Dele.

644.8Quando Ela termina sua veneração, vira-se para João, que não pode estar a seu lado, já que é obrigado a ficar segurando um dos lados da tela:

– Foste tu que disseste a eles, João. Somente tu o poderias dizer, porque somente tu conhecias este meu desejo.

– Sim, Mãe. Fui eu. E não tive nem tempo de terminar de dizer a eles esse teu desejo, e eles aceitaram imediatamente. Mas precisaram esperar o momento propício para fazê-lo…

– Quer dizer, precisávamos esperar uma noite bem clara, para podermos vir sem tochas nem lanternas, numa hora sem solenidade em que se ajuntassem aqui em Jerusalém as pessoas de lugares vizinhos, tanto do povo como dos notáveis. E isso por prudência… –explica Nicodemos.

– E eu vim com eles para uma maior segurança, Como dono do terreno do Getsêmani, me era lícito vir até aqui sem que isso desse na vista de alguém… que está encarregado de vigiar tudo e todos

–termina Lázaro.

– Deus vos abençoe a todos. Mas a despesa com os Lençóis, fostes vós que a pagastes… E isso não é justo…

– É justo sim, Mãe. Eu, do Cristo, teu Filho, recebi um presente que não há dinheiro que pague: recebi a vida, quatro dias depois de estar sepultado, e, antes, a conversão de minha irmã Maria. José e Nicodemos receberam de Jesus a Luz, a Verdade, e a Vida, que não morre. E tu… tu, com a tua dor de Mãe e o teu amor de Mãe Santíssima para com todos os homens, compraste, não uma tela, mas todo o mundo cristão, que será sempre maior para Deus. Não há moeda que possa compensar-te por tudo o que nos deste. Toma isto, pelo menos. Isto é teu. É justo que assim seja. Até Maria, minha irmã, pensa assim. Assim ela pensou sempre, desde o momento em que Ele ressuscitou, e mais ainda, desde quando Ele te deixou, para subir até o Pai

–respondeu-lhe Lázaro.

644.9– Que assim seja, então. Vou buscar a outra tela. De fato, é uma dor imensa vê-la… Esta é diferente. Esta dá paz! Porque aqui Ele está sereno, em paz enfim. Parece que já esteja sentindo, no sono mortal, a Vida que retorna e a glória que ninguém nunca mais poderá atacar e abater. Agora não desejo mais nada, além de reunir-me a Ele. Mas isso acontecerá quando e no modo que Deus predispôs. Eu vou buscar. E Deus dê a vós o cêntuplo da alegria que me destes.

Pega com reverência o Lençol, que os quatro enrolaram de novo, e sai da cozinha, subindo depressa pela escadinha… E logo torna a descer por ela e entra com o primeiro Lençol, que Ela entrega a Nicodemos, o qual lhe diz:

– Que Deus te dê sua graça, Mulher. Agora vamos, que o alvorecer vem chegando, e é bom estarmos em casa antes que a luz da aurora surja e as pessoas comecem a sair das casas.

Os três a veneram, antes de sair, e depois, com passos rápidos, refazendo a estrada que tomaram para vir, dirigem-se para uma das cancelas do Getsêmani, a mais próxima da estrada que vai para Betânia.

Maria e João ficam na saída da casinha até vê-los desaparecerem, e em seguida tornam a entrar na cozinha, fecham a porta, conversando entre si.

1 Shabahôt. O manuscrito original prossegue assim, entre parêntesis: terei escrito bem? Eu me esforcei para dizer a palavra com os h aspirados, como os escutei falar. Nota minha, mas que não é para ser incluída no texto datilografado.
2 proibição, que está em: Êxodo 20,4; Levítico 19,4; Deuteronômio 4,15-18; 5,8.


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