472. 472. O pedido insidioso de um juízosobre um fato acontecido em Gíscala.


12 de agosto de 1946.

472.1 – Não me agrada, de modo algum, esta parada com esse homem que veio unir-se a nós… –resmunga Pedro, que está com Jesus no meio de uma vegetação cerrada, parte em jardim, parte em pomar.

Já deve ser a tarde do sábado, pois o sol está ainda alto, mas já tinha chegado o crepúsculo, quando eles chegaram ao lugarejo.

– Depois das orações, partiremos. Já é sábado. Não se podia caminhar. Mas este repouso nos fez bem. Não ficaremos mais aqui, até o próximo sábado.

– Mas Tu descansaste pouco. Com todos aqueles doentes!

– Foram muitos, mas agora louvam ao Senhor. E, para poupar-vos o ter que caminhar muito, Eu teria parado aqui dois dias, a fim de dar tempo aos curados para levarem a notícia até os confins. Mas vós não quisestes.

– Não. Não. Eu bem que gostaria de já estar longe. E… não fiques confiando muito, Mestre. Tu falas! E falas! Mas sabes que cada uma das tuas palavras em certas bocas se transforma em veneno contra Ti? Para que terá sido que eles no-lo mandaram?

– Tu o sabes.

– Sim. Mas por que ficou conosco?

– Não é o primeiro que fica, depois de ter-se aproximado de Mim.

Pedro sacode a cabeça, pois não está persuadido. E pondera:

– É um espião!… um espião!…

– Não fiques julgando assim, Simão. Poderias arrepender-te um dia do teu atual juízo…

– Eu não julgo. Eu tenho medo. Por causa de Ti. E isso é amor. O Altíssimo não me pode punir por amar-te.

– Eu não digo que te arrependerás disso, mas de teres pensado mal de um teu irmão.

– Ele é irmão daqueles que te odeiam. Portando, não é meu irmão.

A lógica parece justa, 472.2mas Jesus o faz observar:

– Ele é discípulo de Gamaliel. E Gamaliel não está contra Mim.

– Mas também não está a teu favor.

– Quem não está contra, está comigo, ainda que não pareça estar. Não se pode pretender que um Gamaliel, o maior doutor que Israel tem hoje, um poço de sabedoria rabínica, uma verdadeira mina na qual estão todas as substâncias da ciência rabínica, possa imediatamente deixar tudo para… me seguir. Simão, é difícil até para vós seguir-me, deixando todo o vosso passado…

– Mas nós te seguimos!

– Não. Sabes tu o que é seguir-me? Não é somente amar-me e seguir-me. Isto já é um grande valor que vedes em Mim como Homem e que atrai as vossas simpatias. Mas seguir-me é seguir a minha doutrina, que é igual à antiga, contida na Lei divina, mas que é completamente diferente daquela lei, daquele amontoado de leis humanas, que se foram acumulando através dos séculos, formando um volumoso código e um formulário que de divino nada tem. Vós, todos os humildes de Israel, e até algum justo bem notável, vós vos lamentais, criticais as sutilezas formalistas dos escribas e fariseus, as suas intransigências e durezas… mas também não estais imunes delas. A culpa não é vossa. Durante séculos e séculos, vós hebreus, tendes assimilado lentamente as… exalações humanas daqueles que manejam a pura e sobre-humana Lei de Deus. Tu sabes. Quando alguém continua, durante anos e anos, a viver de um certo modo diferente do modo usado na terra em que ele nasceu, porque ele mora em um país que não é o seu, e lá também moram os seus filhos e os filhos de seus filhos, acontece que os seus descendentes acabam tornando-se como os que são do lugar onde eles estão. Lá se aclimatam tanto a ponto de perderem até o aspecto físico dos de sua terra… além dos hábitos morais e, infelizmente, até a religião de seus pais… 472.3Aí vêm vindo os outros. Vamos para a sinagoga.

– Fala Tu.

– Não. Eu sou um simples fiel. Já falei por meio dos milagres esta manhã…

– Que isso não tenha sido prejudicial…

Pedro está descontente e preocupado, mas acompanha o Mestre, que já se uniu aos outros apóstolos, que foi alcançado no caminho pelo homem de Gíscala e por outros que talvez sejam do povoado.

Na sinagoga, o sinagogo, com deferência, volta-se para Jesus:

– Queres explicar a Lei?

Jesus se recusa e, como um simples fiel, quer acompanhar todas as cerimônias, beijando, como os outros, o rolo que o vice-sinagogo lhe apresenta (eu dou-lhe este nome, porque não sei qual é o nome que se dá a este ajudante do sinagogo) e fica esperando ouvir a explicação do ponto escolhido pelo sinagogo. É certo, porém que, mesmo sem Jesus falar, sua presença já é uma pregação pelo modo como Ele ora… Muitos estão olhando para Ele. O discípulo de Gamaliel não o perde de vista nem por um instante. E os apóstolos também não perdem de vista o discípulo, suspeitosos como estão.

Jesus não se volta, nem mesmo quando na soleira da sinagoga se ouve algum barulho, que faz que muitos se distraiam. A função já terminou e o povo vai saindo para a praça onde está a sinagoga. Jesus, que tinha ficado mais ao fundo do que na frente dos que estavam na sinagoga, sai como um dos últimos e se dirige para a casa, a fim de apanhar a sacola e partir.

472.4Muitos do lugar o acompanham e entre eles está o discípulo de Gamaliel, que, em certo momento, é chamado por três que estão encostados à parede de uma casa. Ele conversa com eles, e com eles vai abrindo caminho para ir até Jesus.

– Mestre, estes homens querem falar-te –diz ele chamando a atenção de Jesus, que estava conversando com Pedro e com seu primo Judas.

– São os escribas! Bem que eu tinha dito! –exclama Pedro, já perturbado.

Jesus saúda com profunda inclinação aos três que o saudaram, e pergunta:

– Que desejais?

Fala o mais velho:

– Tu não vieste. Fomos nós que viemos. E, para que ninguém fique pensando que nós pecamos no sábado, dizemos a todos que nós dividimos a estrada em três trechos. O primeiro, nós o fizemos, enquanto a luz do pôr do sol ainda estava brilhando. O segundo, de seis estádios, enquanto a lua iluminava os caminhos. O terceiro está terminando agora, e não passou da medida legal. Isto pela nossa e pelas vossas almas. Mas para a nossa inteligência te pedimos a tua sabedoria. Estás ciente de tudo o que aconteceu na cidade de Gíscala?

– Eu estou vindo de Cafarnaum. Não sei de nada.

– Escuta. Um homem, que se havia ausentado de sua casa para longos trabalhos, ao voltar deles, ficou sabendo que em sua ausência sua mulher o havia traído, chegando ao ponto de dar à luz um filho, que não podia ser do marido dela, porque ele esteve ausente por catorze meses. O homem matou ocultamente a mulher. Mas, denunciado por um que soube do caso por meio de uma serva, foi morto. Enquanto isso, o amante que, segundo a Lei deveria ter sido

apedrejado1, foi refugiar-se em Quedes, e certamente de lá irá procurar chegar a outros lugares. O filho, que o marido queria matar também, não lhe foi entregue pela mulher que o estava amamentando, a qual foi a Quedes para procurar comover o verdadeiro pai do lactente para que ele tomasse conta de seu filho, visto que o marido da nutriz não quer que o menino bastardo fique em sua casa. Mas o homem a repeliu, juntamente com o filho dele, dizendo que isso lhe criaria obstáculo para ele poder fugir. Segundo o teu parecer, como julgas este fato?

– Eu acho que ele não pode mais ser julgado. Pois algum julgamente, justo ou injusto, já foi feito.

– Qual, no teu parecer, teria sido o julgamento justo, e qual o injusto? Pois surgiu entre nós uma divergência sobre a execução do homicida.

472.5 Jesus olha fixamente para eles, um por um. E, em seguida, diz:

– Eu falarei. Mas, antes disso, respondei às minhas perguntas, seja lá qual for o valor delas. Mas sede sinceros. O homem homicida da mulher era do lugar?

– Não. Lá ele se estabeleceu, desde quando desposou a mulher que era do lugar.

– O adúltero era do lugar?

– Sim.

– Como foi que o homem traído ficou sabendo que o estava sendo? Era pública a sua culpa?

– Na verdade, não. E não se entende como é que o homem pôde chegar a sabê-lo. A mulher se havia ausentado durante meses, dizendo que, para não ficar sozinha, ia para Ptolemaida, para a casa de seus parentes, e voltou dizendo que tinha tomado consigo o filhinho de uma sua parenta morta.

– Quando ela estava em Gíscala, já era despudorada a conduta dela?

– Não. Pelo contrário, nós todos ficamos espantados, ao ficarmos sabendo que Marcos tivesse tido relações com ela.

– O meu parente não é pecador. É um acusado inocente –diz um dos três, que ainda não havia falado.

– Ele era teu parente? Quem és tu? –pergunta Jesus.

– Sou o primeiro dos anciãos de Gíscala. Por isso, eu quis que morresse o homicida, não só porque matou, mas porque matou um inocente.

E o homem olha de viés para o terceiro, que terá seus cinquenta anos, que o rebate:

– A Lei diz que seja morto o homicida.

– Tu querias ver mortos a mulher e o adúltero.

– Assim manda a Lei.

– Se não houvesse outra razão, ninguém teria falado.

A discussão se acende entre os dois antagonistas que quase se esquecem de que Jesus está presente. Mas o que falou primeiro, o mais velho, impõe silêncio, dizendo, imparcialmente:

– Não se pode negar que o homicídio tenha sido consumado como também não se pode negar que uma culpa tenha existido. A mulher a confessou ao marido. Mas deixemos que fale o Mestre.

– Eu pergunto: como foi que o marido soube? A esta pergunta ainda não me respondestes.

O que defende a mulher diz:

– Porque houve alguém que falou ao marido, logo que ele voltou.

– Então, Eu digo que aquele tal não era puro em seu coração –diz Jesus, abaixando as pálpebras para encobrir o seu olhar, a fim de não ter que acusar.

Mas aquele dos quarenta anos, que queria a morte da mulher e a do adúltero, explode:

– Eu não tinha nenhuma fome dela.

– Ah! Agora está claro! Foste tu que falaste! Eu já o suspeitava, mas agora te traíste! Assassino!

– Tu, favorecedor do adúltero. Se tu não o tivesses advertido, ele não nos teria escapado. Mas ele é teu parente! É assim que se faz justiça em Israel! Por isso é que defendes também a lembrança da mulher: para defender o teu parente. Por ela somente, tu não te preocuparias.

– E tu, então? Tu que jogaste o homem contra a mulher para te vingares das recusas dela?

– E tu, que foste o único a testemunhar contra o homem? Tu que pagavas a uma serva daquela casa para que te ajudasse? O testemunho de um só não é válido. Assim diz a Lei2.

Cresceu, então, uma vozearia como em uma feira! Jesus e o ancião procuram acalmar os dois, que representam dois interesses e duas correntes opostas e que põem à mostra um ódio incurável entre duas famílias. Todos acabam ficando muito cansados. 472.6Agora fala Jesus, calmo, majestoso, e, pela primeira vez se defende da acusação que lhe é feita por um dos contendentes: “Tu, que proteges as prostitutas.”

– Eu não só digo que o adultério consumado é um delito contra Deus e o próximo, mas digo também: até aquele que tem desejos impuros da mulher do outro já é adúltero em seu coração, comete pecado. Ai do homem que desejou a mulher de outro e tivesse que ser condenado à morte. Os apedrejadores deveriam ter sempre pedras na mão. Mas se o pecado fica muitas vezes impune pelos homens na terra, tal pecado será punido na outra vida, pois o Altíssimo disse: “Não fornicarás, não desejarás a mulher de outro”, e a palavra de Deus há de ser obedecida. Mas também Eu digo: “Ai daquele pelo qual se comete um escândalo, e ai do delator de seu próximo.” Neste ponto houve falta da parte de todos. Do marido. Pois teria mesmo ele necessidade de abandonar sua mulher por tanto tempo? Teria ele a tratado sempre com aquele amor que conquista o coração da companheira? Será que ele se examinou, para ver se antes de ser ele ofendido pela mulher, não teria ela sido ofendida por ele? A lei de talião diz: “Olho por olho, dente por dente.” Mas, se ela diz isso para exigir reparação, será que esta deve ser dada só por uma parte? Eu não estou defendendo a adúltera. Mas Eu digo: Quantas vezes terá ela podido acusar desse pecado ao seu consorte.

As pessoas sussurram:

– É verdade! É verdade! –e assim pensam o velho de Gíscala e o discípulo de Gamaliel.

Jesus continua:

– Eu digo: como é que não teve o temor de Deus aquele que, por vingança, causou tão grande tragédia? Ele a teria querido no seio de sua família? Eu digo: o homem que fugiu, que, depois de ter gozado e causado ruínas, agora repudia o inocente, crerá ele que fugindo escapará do Vingador eterno? Isto é o que Eu digo. 472.7E o digo de novo.

A lei exigia o apedrejamento dos adúlteros e a morte do homicida. Mas, dia virá em que a Lei, que é necessária para frear a violência e a luxúria dos homens que não têm a fortaleza da Graça do Senhor, será modificada, mas continuarão válidos os Mandamentos: “não matar e não cometer adultério”, e as sanções contra esses pecados serão da atribuição de uma justiça mais alta do que a do ódio e do sangue. Uma justiça, em comparação da qual, a atualmente vigente, sempre falaz e desmerecedora dos juízes humanos, todos, talvez até mais vezes adúlteros, se não homicidas, será menos do que nada. Eu estou falando da Justiça de Deus, que pedirá contas aos homens até de seus desejos impuros, dos quais provêm as vinganças, as delações, os homicídios, mas sobretudo pedirá contas à razão pela qual são negadas aos culpados as horas necessárias para que eles se redimam, por que aos inocentes é imposta a obrigação de carregar o peso das culpas dos outros. Todos aqui são culpados. Todos. Até os juízes, levados por motivos opostos de vingança pessoal. Só um é inocente. E para ele se inclina a minha piedade. Eu não posso voltar atrás. Quem de vós terá piedade para com o pequenino e para comigo que estou sofrendo por ele?

Jesus olha para aquelas pessoas com um olhar triste, ao fazer o seu pedido.

Muitos deles dizem:

– Que queres? Mas lembra-te disto: ele é um bastardo.

– Em Cafarnaum há uma mulher chamada Sara. Ela é de Afeca. É uma minha discípula. Levai-lhe o menino, e dizei-lhe: “Jesus de Nazaré te confia o menino.” Quando o Messias, que vós ainda esperais, tiver fundado o seu Reino, dado as suas leis, que não anulam as palavras do Sinai, mas que são o cumprimento delas, por meio da caridade, os bastardos não ficarão mais sem mãe, porque Eu serei o pai daqueles que não têm pai, e direi aos meus filhos: “Amai a estes por amor de mim.” E mais outras coisas serão mudadas, porque a violência dará seu lugar ao amor.

472.8 Vós pensáveis talvez que, se me fizésseis perguntas, Eu estivesse contra a Lei. Foi para isso que Me viestes procurar. Ide dizer a vós mesmos e a quem vos mandou que Eu vim para aperfeiçoar a Lei, nunca para Me manifestar contra ela. Dizei a vós mesmos e aos outros que Aquele que prega o Reino de Deus certamente não pode ensinar que no Reino de Deus haveria horror e que por isso não poderia ser bem recebido. Dizei também a vós e aos outros que se lembrem3 do Deuteronômio: “O Senhor teu Deus suscitará, do meio de tua nação e dos teus irmãos, um profeta. Escuta-o. Assim foi que tu pediste ao Senhor teu Deus lá no monte Horeb, quando disseste: ‘Que eu não ouça mais a voz do Senhor meu Deus, não veja mais este fogo tão grande, não morra’. E o Senhor me disse: ‘Eles falaram bem, Eu suscitarei para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti, porei as minhas palavras em sua boca, e ele dirá tudo o que Eu lhe tiver ordenado. E, se alguém não quiser ouvir as palavras que Ele vai dizer em meu Nome, Eu me vingarei disso’.”

Deus nos mandou o seu Verbo, para que Ele falasse, sem que sua voz vos matasse. Tudo estava já dito por Deus ao homem, por mais que o homem já não merecesse mais ouvir a palavra de Deus. Assim foi que eles fizeram, tanto com a Lei de Deus como com os profetas. Muito ainda havia de ser dito, contudo Deus o reservou para ser dito pelo seu Profeta, quando chegasse o tempo da Graça, por Aquele que foi prometido ao seu povo, no meio do qual está a palavra de Deus, e no qual se realizará o perdão. Como fundador do Reino de Deus, Ele codificará a Lei com seus novos preceitos de amor, porque o tempo do amor chegou. Não pedirá vingança ao Altíssimo para quem não o escutar, mas somente que o fogo de Deus derreta o granito dos corações e a Palavra de Deus possa penetrar neles e fundar entre eles o Reino, que é o Reino do espírito, assim como o Rei desse Reino será um Rei espiritual. A todo aquele que amar o Filho do Homem, o Filho do Homem lhe dará o Caminho, a Verdade e a Vida, a fim de ir para Deus para conhecê-lo e alcançar a Vida Eterna. A todo aquele que aceitar a minha palavra, abrir-se-ão nele fontes de luz pelas quais conhecerão o sentido escondido nas palavras da Lei e verão que as proibições não são ameaças, mas convites de Deus que quer ver os homens felizes e não condenados, abençoados e não amaldiçoados.

472.9 Uma vez mais, de uma coisa já decidida, do modo como a santidade não a teria decidido, vós fizestes um tribunal inquisidor para me apanhardes em pecado. Mas Eu sei que não estou pecando. Não tenho medo de dizer que o meu pensamento é este: o homem homicida pagou, primeiro com a desonra, depois com a morte, por ter feito do ganho a meta de sua vida. A mulher pagou com a morte o seu pecado, e isto vos causará espanto, mas assim é, e a sua confissão, com a intenção de levar o marido a ter piedade do inocente, diminuiu o seu castigo aos olhos de Deus. Os outros, tu e tu, e quem fugiu sem ter piedade nem do filho dele, sois mais culpados do que os dois primeiros. Estais murmurando? Vós não expiastes com a morte, em vós não havia os atenuantes do marido traído, nem existem os atenuantes de ter sido deixada a mulher e da confissão que ela fez. Todos vós pecastes: todos, menos a nutriz do inocente. Aquilo de rejeitar o inocente como um mal vergonhoso. Vós soubestes matar o homicida. Teríeis sabido matar também os adúlteros. Tudo o que é uma justiça severa, vós o soubestes fazer, e o teríeis sabido fazer. Mas ninguém soube, nem sabe abrir os braços para acolher o inocente. Mas vós não sois respónsáveis completamente. Vós não sabeis… Nunca sabeis, o que deveria ser feito… E nisso estão os vossos atenuantes.

Quando este discípulo de Gamaliel veio a Mim, disse-me: “Querem interrogar-te sobre um fato do qual ficaram várias consequências.” As consequências são o inocente. E então? Agora que sabeis qual o meu pensamento, ireis mudar o vosso nos pontos em que ele pode ainda ser mudado? A este homem Eu disse. “Eu não julgo. Eu perdoo.” Gamaliel disse: “Só Jesus de Nazaré julgaria com justiça neste caso.” Eu, como já disse a este homem, teria aconselhado a todos, Eu disse todos, que esperem para condenar somente depois de um atento exame, depois que as paixões estiverem acalmadas. Muitas coisas podiam ser mudadas, sem ofensas à Lei. 472.10O que aconteceu, já aconteceu. E Deus perdoe a quem se arrependeu, ou ainda vaise arrepender do que fez. Não há mais nada a dizer, ou melhor, tenho ainda uma coisa. Deus vos perdoa mais uma vez por haverdes tentado o Filho do Homem.

– Eu não, Mestre! Eu não! Eu… Amo o Rabi Gamaliel como um discípulo deve amar o seu mestre mais do que a um pai. E mais, por que um rabi forma a inteligência, que é uma coisa maior do que a carne. Não posso deixar o meu rabi por Ti. Mas há uma coisa… Para saudar-te, não encontro melhores palavras4 do que aquelas do Cântico de Judite. Elas florescem, vindas do fundo do coração, porque eu ouvi a justiça e a sabedoria em todas as tuas palavras. “Adonai, Senhor. Tu és grande e magnífico em toda a tua pujança. Ninguém pode superar-te. Ninguém pode resistir à tua palavra. Aqueles que te temem estarão diante de ti em tudo!” Senhor, eu descerei a Cafarnaum e irei à casa da mulher de que tu falaste… Tu, reza por mim, para que o meu granito se derreta, e nele penetre a palavra que funda o Reino de Deus em nós… Agora eu compreendo. Nós estávamos enganados. Nós, discípulos, somos os menos culpados…

– Que estás dizendo, ó estulto? –interrompe-o violentamente o Ancião de Gíscala, virando-se para o discípulo de Gamaliel.

– Que eu digo? Digo que meu mestre tem razão e que quem tenta a este Homem com o reino temporal é um satanás, pois Este homem é o verdadeiro profeta do Altíssimo e a Sabedoria fala pelos seus lábios. Dize-me, Mestre, o que eu devo fazer?

– Meditar.

– Mas…

– Meditar. És como um fruto verde e, além disso, estás enxertado. Eu rezarei por ti. E vós, vinde…

E, com os apóstolos, que vão levando suas sacolas, Jesus toma o seu caminho, deixando atrás de si os comentários.

472.11Diz Jesus:

– Aqui colocarás a visão de 15 de agosto de 1944: Jesus cura o menino nascido cego de Sidon.

1 apedrejado, como é antecipado em Levítico 20,10; Deuteronômio 22,22-24. Fala-se sobre apedrejamento dos adúlteros também em 26.6 - 357.11 - 494.1 - 495.2.
2 diz a Lei, em Números 35,30.
3 lembrem quando é mencionado em Deuteronômio 18,15-19.
4 palavras utilizadas de Judite 16,13-15.


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