470. 470. Lições a uma sograsobre os deveres do matrimônio.
7 de agosto de 1946.
470.1 Os montes cobertos de matas e muito férteis, onde fica Gíscala, produzem muita verdura. Neles sopram brisas suaves, há abundância de águas e os horizontes são sempre bem variados e muito bonitos, conforme o rumo do caminho que vai se dirigindo para este ou aquele dos pontos cardeais. Ao norte há uma sucessão de cumes cheios de bosques, com uns verdes de várias tonalidades. Eu diria que iriam subindo da terra para o azul do firmamento, ao qual parece oferecer, em uma homenagem de retribuição pelas águas e raios de luz que dele recebe, todas as suas belezas vegetais. A nordeste, aquela jóia multicor, conforme as horas e a claridade do grande monte Hermon, que ostenta o seu pico mais alto, semelhante a um gigantesco obelisco de diamante, de opalas, de uma safira muito clara ou de um rubi muito tênue, ou de um aço que acabou de ser temperado conforme o caso do sol, quando o está beijando, ou quando o está deixando, das nuvens esparsas, transportadas pelos ventos, fazendo jogos de luz sobre suas neves eternas, descem ao longo das faces oblíquas, cor de esmeralda de seus altiplanos e cristas, aqui com gargantas e ali com picos, que formam a base do gigante real. Depois, eis que, se girarmos os olhares sempre mais para o leste, veremos estender-se o vasto altiplano verde da Gaulanítide e da Auranítide, limitados em suas extremidades orientais pelos montes que daqui vemos esfumados, no meio das neves longiínquas e, do seu lado ocidental por um verde diferente, que acompanha ao longo o rio Jordão, é um dos distintivos do seu vale. E, mais próximo, esplendidos como duas safiras, estão os dois lagos, o de Meron com seu círculo baixo de planície irrigada, e o outro, o de Tiberíades, ainda indistinto, como um delicado quadro em pastel, no interior das colinas que o cingem, diferentes os dois no aspecto e nas colorações, com suas margens perpetuamente floridas: é um sonho do oriente, com suas palmeiras ondulantes ao vento, a copa exposta à aragem que vem dos montes vizinhos, uma poesia dos nossos mais belos lagos, que enche de paz as águas e as culturas sobre as margens. Em seguida, ao sol, o Tabor com seu característico cume, e o pequeno Hermon, todo verde, a velar sobre a planície de Esdrelon, de cuja extensão já se pode fazer uma ideia, pela vastidão do horizonte, não interrompido por elevações montuosas. E, mais abaixo, ao sul, os altos e grandes montes da Samaria que se estendem à perder de vista para os rumos da Judeia. O único que não aparece é o lado oeste, onde deve estar o Carmelo e a planície que vai subindo pelas margens até Ptolemaida, escondidas como estão por uma cadeia mais alta do que esta, de modo a ficar sua vista impedida por esta.
Eu me esforço para dar a visão topográfica1, porque me parece que ainda não a dei dos montes onde fica Gíscala.
Uma das vistas mais belas da Palestina (e não se ria ninguém às costas desta pobre desenhista, se ela fez da paisagem um desenho horrível).
470.2 Jesus vai andando pela estrada, que segue por entre os montes, às vezes sozinho, outras vezes acompanhado por um ou por outro dentre os seus apóstolos.
Ele para uma vez para acariciar os meninos de um pastor que estão brincando perto do rebanho, aceita o leite que o pastor, tendo-o reconhecido como o Rabi que lhe descreveram outros que o viram, o pastor lhe quer oferecer “para ti e para os teus”.
470.3Outra vez Jesus para a afim de escutar o que está dizendo uma velhinha que, sem saber quem Ele é, conta-lhe os seus sofrimentos familiares, por causa de uma nora que é birrenta e sem respeito.
Mas, mesmo tendo dó da velhinha, Jesus a exorta a ter paciência e, com bondade, a persuade a ser boa:
– Tu deves ser mãe, ainda que ela não seja tua filha. Sê sincera: se, em vez de ser nora, ela fosse tua filha, os defeitos dela ainda te pareceriam tão graves?
A velhinha pensa… e depois confessa:
– Não. Uma filha é sempre uma filha…
– E, se uma tua filha te dissesse que na casa do esposo a mãe dele a maltrata, que dirias tu?
– Que ela é má. Porque devia ensinar os costumes de casa, cada casa tem os seus, com bondade, especialmente se a esposa é jovem. Eu diria que ela deveria lembrar-se de quando era esposa ainda nova, de como sentia amor para com sua sogra e tinha tido a grande graça de achá-la boa, como tinha sofrido, omo teria sofrido se tivesse tido uma sogra má. E não fazer sofrer o que ela sofreu, não fazer sofrer, porque já sabe o que é sofrer. Oh! Eu defenderia a minha filha!
– Quantos anos tem a tua nora?
– Dezoito, Rabi. Casou-se com o Jacó há três anos.
– É muito jovem. É fiel ao marido?
– Oh! Sim. Em casa sempre é toda amor para com ele, ao pequeno Levi e à pequenina Ana, como a mim. A pequenina nasceu pela Páscoa, é muito bonita…
– Oh! Quem foi que quis que ela se chamasse Ana?
– Ora, Maria! Levi era o nome do sogro, e quem o pôs no primogénito foi Jacó. E Maria, quando teve o menino, disse: “Nesta vou pôr o nome da mãe.”
– E isso não te parece amor e respeito?
A velha fica pensando… Jesus insiste:
– Ela que é honesta, caseira, amorosa como esposa e mãe, ela preocupada em dar-te uma alegria… Podia pôr na filha o nome de sua mãe, mas ela pôs o teu… ela honra a tua casa com seu modo de proceder…
– Oh! Isto sim. Não é como aquela miserável da Jesabel.
– E, então? Por que te lamentas e vives te queixando dela? Não achas que estás usando duas medidas ao julgares a tua nora de modo diferente de como julgarias a tua filha?
– É que. É que… ela me tomou o amor de meu filho. Antes ele era todo para mim e agora ele a ama mais do que a mim…
A eterna e verdadeira razão do preconceito das sogras, que finalmente transborda do coração da velhinha, ao mesmo tempo que lhe descem lágrimas dos olhos.
– O teu filho te deixa faltar alguma coisa? Ele deixou de tratar-te bem, depois que se casou?
– Não. Isso eu não posso dizer. Mas, afinal, ele agora é da mulher… –e o pranto se torna mais forte.
470.4Jesus tem um sorriso indulgente de compaixão para com a velhinha ciumenta. Mas, doce como sempre, não a reprova. Tem compaixão do sofrimento da mãe, procura curá-la. Apoia sua mão sobre o ombro da velhinha, como se quisesse guiá-la, pois as lágrimas a estão cegando, talvez para fazê-la perceber, pelo contato com Ele, um tão grande amor, que se sinta consolada e curada, e lhe diz:
– Mãe, não é bom que seja assim? O teu marido fez assim contigo e a mãe dele não o perdeu, como tu dizes e pensas, mas só o teve menos para ela, pois o teu esposo Levi dividia o seu amor entre ti e a mãe dele. E o pai do teu marido, por sua vez, deixou de ser todo de sua mãe para amar a mãe de seus filhos. E assim por diante, de geração em geração, retrocedendo nos séculos até Eva, a primeira mãe que viu os seus filhos dividirem o amor que tinham, a princípio exclusivamente com os genitores e depois também com as suas esposas.
Mas, não diz o Gênesis: “Eis afinal, o osso dos meus ossos e a carne da minha carne… O homem deixará por ela o seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”? Tu dirás: “Foi uma palavra de homem.” É verdade. Mas, de que homem? Ele estava em estado de inocência e graça. Repetia, portanto, sem sombras, a Sabedoria que o havia criado, conhecia a verdade do que dizia. Pela graça e pela inocência, possuía também os outros dons de Deus, em medida plena. Com uma sensualidade submissa à razão, ele tinha uma mente não ofuscada pelos vapores da concupiscência. Pela ciência proporcionada ao seu estado, ele dizia palavras de verdade. Portanto, ele era profeta. Porque tu sabes que profeta quer dizer aquele que fala em nome de outro. Visto que os profetas verdadeiros falam sempre de coisas referentes ao espírito e ao futuro, ainda que aparentemente se refiram ao tempo presente e à carne — porque nos pecados da carne e nos fatos do tempo presente estão as sementes das punições futuras, ou, então, os fatos do futuro têm raízes em algum acontecimento antigo, por exemplo, a vinda do Salvador aconteceu por causa da culpa de Adão, e as punições de Israel, preditas pelos profetas, têm como causa o mau procedimento de Israel — assim Aquele que move os lábios deles para dizerem coisas do espírito, não pode ser senão o Espírito Eterno, que tudo vê como um eterno tempo presente. E o Espírito Eterno fala nos Santos, porque não pode morar nos pecadores.
Adão era santo, isto é, a justiça era plena nele, nele havia a presença de todas as virtudes, porque Deus em sua criatura havia infundido a plenitude dos seus dons. Agora, para chegar à justiça e à posse das virtudes, o homem precisa trabalhar muito, porque os estímulos para o mal estão nele, enquanto que em Adão não havia tais estímulos, pelo contrário, havia a graça, que o tornava pouco inferior a Deus, seu Criador. Por isso, seus lábios diziam palavras de graça. Palavras de verdade como estas: “O homem pela mulher deixará pai e mãe, se unirá à sua esposa e serão uma só carne.”
Tão incondicional e verdadeiro é isso, que o Boníssimo, para dar um apoio às mães e aos pais, colocou na Lei o quarto mandamento: “Honrar pai e mãe.” Esse madamento não termina, quando o homem se casa, mas perdura depois do casamento. Primeiro, porque instintivamente os bons já honravam seus pais, mesmo depois que eles os deixaram para formarem uma nova família. De Moisés para cá, é uma obrigação imposta pela Lei. E isso é para abrandar os sofrimentos dos pais, que muitas vezes ficavam esquecidos pelos filhos, depois do casamento destes. Mas a Lei não anulou o dito profético de Adão: “Pela mulher, o homem deixará pai e mãe.” Era uma palavra justa, por isso persiste. Ela era o reflexo do pensamento de Deus. E o pensamento de Deus é imutável, porque é perfeito.
470.5 Tu, mãe, deves, pois, aceitar sem egoísmos, o amor do teu filho pela mulher dele. E tu, então, serás também santa. Afinal de contas, cada sacrifício já tem uma compensação desde esta terra. Não te é doce beijar os netos, filhos do teu filho? E não te será plácida a tarde, em teu último sono, tendo perto de ti o delicado amor de uma filha que está ocupando o lugar das outras que não estão mais em tua casa?…
– Como sabes que as minhas filhas, todas mais velhas do que o filho homem, estão todas casadas e longe de casa? Serás Tu também um profeta? Rabi, eu sei que és. Isto é o que estão dizendo os flocos de tua veste e, mesmo que não os tivesses, a tua palavra o está dizendo. Pois Tu falas como grande doutor. Por acaso serás amigo de Gamaliel? Anteontem ele esteve aqui sozinho. Mas, eu não sei, não… E muitos rabinos estavam com ele. Muitos dos seus discípulos prediletos. Mas Tu talvez venhas à tarde.
– Eu conheço Gamaliel. Mas não vou à casa dele. Nem mesmo vou entrar em Gíscala…
– Mas, quem és? Certamente um rabi. Pois falas melhor do que Gamaliel…
– Então, faze o que Eu te disse. E a paz estará contigo. Adeus, mãe. Eu vou para a frente. Tu certamente vais entrar na cidade.
– Sim… Mãe! Os outros rabis não são assim humildes ao tratarem com uma pobre mulher… Certamente Aquela que te trouxe é mais santa do que Judite, se te deu este coração tão doce para com todas as criaturas.
– Santa ela é, na verdade.
– Dize-me o nome dela.
– Maria.
– E o teu?
– Jesus.
– Jesus…
A velhinha fica dominada pelo assombro. A notícia a paralisou e pregou no chão, lá onde ela a ouviu.
– Adeus, mulher. A paz esteja contigo –e Jesus sai rapidamente dali, quase correndo, antes que ela volte a si de sua reflexão.
470.6 E os apóstolos o acompanham com o mesmo passo, fazendo um grande esvoaçar com suas vestes, vão acompanhados pelos gritos da mulher que suplica:
– Parai! Rabi Jesus! Para! Quero dizer-te uma coisa…
Eles só diminuem o ritmo dos passos quando já a mata cerrada dos montes os escondeu de novo e já não se vê mais o caminho que vai para Gíscala, a partir desta vereda.
– Como Tu falaste bem à mulher –diz Bartolomeu.
– Uma lição de doutor! Foi pena que ela estivesse sozinha… –observa Tiago de Alfeu.
– Eu quero lembrar-me daquelas palavras –exclama Pedro.
– A mulher compreendeu, ou quase, depois do teu Nome… Agora irá falar sobre Ti na cidade… –diz Tomé.
– Contanto que ela não vá bulir com as vespas e jogá-las sobre nós! –murmura Judas de Keriot.
– Oh! Já estamos longe! Por entre estas matas não deixamos rastos e não temos distúrbios –diz, otimista, André.
– Mesmo que os tivéssemos… É a paz em uma família que Eu reconstruí –responde Jesus a todos.
– Mas, como são elas! As sogras são todas iguais –diz Pedro.
– Não. Nós temos conhecido sogras boas. Não te lembras da sogra de Jerusa2 de Doco? E da sogra do Dorcas em Cesareia do Filipe?
– Mas certamente que sim, Tiago. Alguma boa sempre há…, concorda Pedro, mas deverá estar pensando como a dele é um tormento.
– Vamos parar aqui e comer. Depois descansamos para chegarmos ao povoado do vale durante a noite –ordena Jesus.
E fazem sua parada em uma pequena depressão do terreno, coberta de grama que parece o lado interno de uma grande concha, cor de esmeralda, encrustada no morro e aberta para acolher em um ambiente sossegado os peregrinos. A luz é suave, apesar da hora, por causa das árvores que, altas e fortes, fazem um arco barulhento ao lado do prado. A temperatura é agradável, por causa da brisa que passa sobre os montes. Uma pequena nascente forma um fio de prata por entre duas rochas escuras e cantarola, por entre as ervas viçosas, indo para um pequeno leito que ela mesma escavou para si, tendo a largura de um palmo, toda coberta pelos pedúnculos das margens, que ficam ondulando ao ventinho que passa, descendo depois para uma cachoeirinha de brinquedo por uma saliência que fica por baixo. O horizonte, visto por entre dois robustos troncos, deixa ver, por sua vez, as nuvens vaporosas de um prado distante, lá para o lado dos montes do Líbano, que criam um panorama maravilhoso…
1 a visão topográfica, que MV segue e que reproduzimos na próxima página, coloca os montes onde está Giscala a sudoeste do Lago de Meron. A descrição que precede o texto pode ajudar a decifrar todos os nomes do desenho.
2 de Jerusa, em 131.6 e 134; de Dorcas, em 345.3/5, 368.6/11 e 370.11.
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