242. 242. Discurso sobre a Verdade ao romano Crispo,único ouvinte de Jesus em Tiberíades.
3 de agosto de 1945.
242.1Quando a barca para no pequeno porto de Tiberíades, acorrem, para ver quem está chegando alguns desocupados, que estavam passeando perto do molhe. Há pessoas de toda classe e de todas as nacionalidades. Por isso às longas vestes hebraicas, de todas as cores, às cabeleiras e às barbas imponentes dos israelitas misturam-se às vestes de lã cândida, mais curtas e deixando os braços nus. vêm os de rostos imberbes, os de cabelos curtos, os romanos robustos, os de vestes ainda mais curtas que cobrem os corpos delgados e efeminados dos gregos, que parecem haver assimilado até as poses da arte de sua longínqua nação, e estão aí como estátuas de deuses descidas sobre a terra em corpos humanos de homens, envolvidos em túnicas macias, com rostos clássicos por baixo de cabeleiras eriçadas e perfumadas, com braços cobertos de braceletes, que brilham, agitados por movimentos estudados.
Muitas mulheres do prazer estão misturadas a estas duas últimas classes de pessoas, já que os romanos e os helenos não ficam em dúvidas, quando querem expor os seus amores nas praças e nas ruas, enquanto que os palestinos se abstém disso, mas vão praticar depois alegremente o seu amor livre com as mulheres do prazer nas casas delas. Isto se nota claramente, porque as cortesãs, mesmo com a cara feia que fazem para elas os que por elas são interrogados, chamam, familiarmente pelo nome, diversos hebreus, entre os quais nunca falta algum fariseu, enfeitado com grandes borlas.
242.2Jesus vai se dirigindo para a cidade, justamente para o ponto, onde a multidão dos mais elegantes se reúne com maior densidade. Essa multidão elegante, composta principalmente de romanos e gregos, com alguma participação dos cortesãos de Herodes e de outros, os quais eu acho que são grandes mercadores da costa fenícia, dos lados de Sidon e de Tiro, porque estão falando sobre cidades, sobre empórios e navios. As termas têm seus pórticos exteriores cheios dessas pessoas elegantes e ociosas, que perdem assim o seu tempo, discutindo sobre assuntos muitos pequenos, por exemplo, sobre qual é o discóbolo favorito ou o atleta mais ágil e harmonioso na luta greco-romana. Ou, então, estão falando de modas e banquetes, ou marcando encontros para excursões alegres, indo convidar as mais belas cortesãs, ou as damas que saem perfumadas e encaracoladas das termas ou dos palácios, revezando-se neste centro de Tiberíades, todo de mármore e artístico como um salão.
Naturalmente, a passagem do grupo vai suscitando grande curiosidade e esta se torna até anormal, quando alguém reconhece Jesus, por tê-lo visto em Cesareia, ou alguém reconhece Madalena, por mais que ela vá indo toda recoberta com a capa e com um véu branco bem descido sobre a fronte e sobre as faces, estando assim velada e de cabeça inclinada, bem pouco podendo-se ver de seu rosto.
– É o Nazareno, que curou a menina de Valéria –diz um romano.
– Eu gostaria de ver um milagre –responde-lhe outro romano.
– Eu gostaria de ouvi-lo falar. Dizem que é um grande filósofo. Vamos pedir-lhe que fale? –pergunta um grego.
– Não te metas nisso, Teódato. Ele fala nas nuvens. Talvez agradasse a algum escritor de tragédias, para fazer uma sátira –responde um outro grego.
– Não te incomodes, Aristóbulo. Parece que agora ele está descendo das nuvens, e tratando da realidade. Estás vendo como ele vem vindo escoltado por mulheres jovens e belas? –diz, em tom de zombaria, um romano.
242.3– Mas aquela é Maria de Magdala! –grita um grego.
Depois chama os outros:
– Lúcio! Cornélio! Tito! Olhai lá Maria!
– Mas, não é ela! Maria desse jeito! Estás ébrio?
– É ela, eu te garanto. Não posso enganar-me, ainda que ela esteja assim mascarada.
Romanos e gregos se aglomeram, indo no rumo do grupo dos apóstolos, que vão atravessando obliquamente a praça cheia de pórticos e de fontes. Também algumas mulheres se unem a esses curiosos, e é justamente uma delas que vai quase até debaixo do rosto de Maria, para vê-la melhor e fica tomada de grande surpresa, ao ver que é ela mesma.
Ela pergunta:
– Que fazes com essa roupa aí? e se ri, zombeteira.
Maria para, se endireita, levanta uma mão e descobre o rosto, jogando o véu para trás. É Maria de Magdala, senhora poderosa sobre tudo o que é desprezível e dona de suas impressões, que agora aparece.
– Sou eu, sim –diz ela com sua voz clara e com os lampejos de seus bonitos olhos–. Sou eu. E eu tirei o véu, para que não fiqueis pensando que eu estou com vergonha, por estar com estes santos.
– Oh! Oh! Maria com os santos! Mas, sai daí! Não fiques te aviltando a ti mesma –diz a mulher.
– Aviltada eu fui até agora. Daqui para a frente, não mais.
– Mas, não estás doida? Ou será um capricho? –diz a mulher.
Um romano diz, escarnecendo e piscando os olhos:
– Vem comigo: Eu sou mais belo e mais alegre do que aquela carpideira de bigodes que anestesia a vida, e faz dela um funeral.
– Bela é a vida. É um triunfo. É uma orgia de alegria. Vem. Eu saberei fazer mais do que todos os outros para tornar-te feliz –diz ele, um jovem romano de rosto vulpino, ainda que belo, e procura tocar nela.
– Para trás! Não me toques. Disseste bem: a vida que levais é uma orgia. E das mais vergonhosas. Eu tenho nojo dela.
– Oh! Oh! Mas, até pouco tempo atrás, essa era a tua vida –responde o grego.
– Agora ela se faz de virgem –diz, ridicularizando-a, um herodiano.
– Tu vais estragar os santos! O teu Nazareno vai perder a auréola por causa de ti: Vem conosco –insiste um romanos.
– Vinde vós comigo atrás Dele. Deixai de serem animais e tornai-vos pelo menos homens.
Um coro de risadas e zombarias o apoia.
Só um velho romano é que diz:
– Respeitai uma mulher. Ela é livre de fazer o que quer. Eu a defendo!
– Olhai o demagogo! Ouvi-o! Será que te fez mal o vinho de ontem à noite? –pergunta um jovem.
– Não. Ele é hipocondríaco, porque está com dor nas costas –lhe responde um outro.
– Vai ao Nazareno para que as raspe.
– Eu vou mas é para que Ele me raspe a lama, que eu apanhei em contato convosco –responde o ancião.
– Oh! Crispo que se corrompeu aos sessenta anos –dizem rindo muitos, que estão formando um círculo ao redor dele.
242.4Mas o homem chamado Crispo não se preocupa por ser feito objeto de zombaria, e põe-se a caminhar atrás de Madalena, que já alcançou o Mestre, e vão indo agora à sombra de um edifício muito bonito, que se estende em forma de êxedra sobre dois lados de uma praça.
E Jesus já está discutindo com um escriba, que o censura por estar em Tiberíades e com aquela companhia.
– E tu, por que é que estás aqui? Tu me censuras por estar Eu em Tiberíades. Mas Eu te digo que também em Tiberíades, e até mais do que em outros lugares, existem muitas almas necessitadas de salvação –responde-lhe Jesus.
– Eles não vão ser salvos: São gentios, pagãos, pecadores.
– Foi para os pecadores que Eu vim. Para fazer que conheçam o verdadeiro Deus. Vim para todos. Até por ti Eu vim.
– Eu não preciso de Mestres, nem de redentores. Eu sou puro e douto.
– Se, pelo menos o fosses o tanto quanto é necessário para conheceres o teu estado!
– E Tu, para saberes quanto ficas prejudicado, andando em companhia de uma meretriz!
– Eu te perdôo, também em nome dela. Ela, com sua humildade, anula o seu pecado. Tu, pela tua soberba, duplicas a tua culpa.
– Eu não tenho culpas.
– Tens a maior delas. Tu não tens amor.
– O escriba diz: “Raca”, e vira-lhe as costas.
– Foi por minha culpa, Mestre –diz Madalena.
E, vendo a palidez da Virgem Maria, ela geme:
– Perdoa-me. Eu estou fazendo que insultem ao teu Filho. Eu vou sair daqui…
– Não. Fica tu onde estás. Eu quero assim –diz Jesus com voz incisiva e com um relampejar tal em seus olhos, e um ar de domínio em toda a sua pessoa, que se torna impossível olhar para Ele.
E depois diz mais docemente:
– Tu, fica onde estás. E, se alguém não suporta a tua vizinhança, que se vá embora, ele sozinho.
E Jesus põe-se de novo a caminho, dirigindo-se para a parte ocidental da cidade.
242.5– Mestre! –chama o romano corpulento e já ancião, que defendeu Madalena.
Jesus se vira.
– Chamam-te mestre, eu também te chamo assim. Eu desejaria ouvir-te falar. Eu sou meio filósofo e meio gozador da vida. Mas talvez Tu poderias fazer de mim um homem honesto.
Jesus olha para ele fixamente, e lhe diz:
– Estou deixando a cidade, onde reina a baixeza da animalidade humana e onde é soberano o escárnio.
E começa a caminhar.
O homem vai atrás dele, suando e se cansando, porque o passo de Jesus é ligeiro, e ele é gordo e já de idade, e meio pesado, por causa de seus vícios. Pedro, que vira para trás, avisa Jesus disso:
– Deixa-o caminhar. Não te preocupes.
Pouco depois, é Iscariotes que diz:
– Mas aquele homem vem atrás de nós. Isso não pode ser!
– Por quê? Tu dizes por piedade, ou por outro motivo?
– Por piedade dele? Não. Porque, lá mais ao longe, vem vindo e nos acompanhando aquele escriba de antes, com outros judeus.
– Deixa que o façam. Mas seria melhor que tivesses mais piedade dele do que de ti.
– De Ti, Mestre.
– Não. De ti, Judas. Procura ser sincero em compreender teus sentimentos e em manifestá-los.
– Eu, na verdade, estou com piedade do velho também. Ele está cansado, sabes, por vir vindo atrás de Ti –diz Pedro, suando.
– Para se ir atrás da Perfeição, é preciso cansar-se, Simão.
O homem os acompanha, incansável, procurando estar perto das mulheres, às quais, porém, não dirige jamais a palavra.
242.6Madalena chora silenciosamente sob seu véu.
– Não chores, Maria –conforta-a a Senhora, tomando-a pela mão–. Mais tarde o mundo te respeitará. Os primeiros dias são os mais penosos.
– Oh! Não é por mim. Mas por Ele. Se eu tivesse que fazer-lhe mal, eu nunca me perdoaria. Ouvistes o que o escriba disse? Eu o estou prejudicando.
– Pobre filha! Mas, não sabes que estas palavras silvam, como outras tantas serpentes, ao redor dele, desde quando tu nem pensavas em vir a Ele? Disse-me Simão que o acusavam disso, desde o ano passado, por ter curado uma leprosa, que havia sido pecadora e que Ele só viu no momento do milagre e nunca mais, mais velha do que eu, que sou Mãe dele. Mas, não sabes que Ele teve que fugir de Águas Belas, porque uma tua irmã infeliz tinha ido até lá para redimir-se? Como queres que o acusem, se Ele é sem pecado? Com mentiras. E onde encontrá-las? Na missão dele entre os homens. Um ato bom é tomado como prova de culpa. E, qualquer coisa que meu Filho fizesse, para eles seria sempre culpa. Se Ele se fechasse em um deserto, ainda seria dito culpado por não cuidar do povo de Deus. Ele vai ao meio do povo de Deus e é culpado por fazer assim. Para eles, Ele é sempre culpado.
– Eles são odiosamente maus, então!
– Não. Eles são obstinadamente fechados à Luz. Ele, o meu Jesus, é o Eterno Incompreendido. E sempre, sempre mais o será.
– E tu não sofres com isso? Pareces estar tão serena.
– Cala-te. É como se o meu coração estivesse enfaixado com espinhos ardentes1. A cada respiração, eu sinto a ponta deles. Mas, que Ele não o saiba! Eu me faço ver assim, para sustentá-lo com a minha serenidade. Se a sua Mãe não o conforta, onde o meu Jesus poderá encontrar conforto? Sobre qual seio poderá Ele inclinar sua cabeça, sem que ela fique ferida, e receba uma ferida ou uma calunia por fazê-lo? Portanto, é muito justo que eu, por cima dos espinhos que me laceram o coração e das lágrimas que eu bebo nas horas de solidão, que eu ponha um macio manto de amor, ponha um sorriso, a qualquer custo, para deixá-lo mais tranquilo, até que… até que a onda de ódio for tal que nada mais o poderá ajudar. Nem mesmo o amor da Mãe.
Maria está com dois fios de lágrimas, que escorrem por seu rosto pálido.
As duas irmãs, comovidas, olham para Ela.
– Mas Ele tem a nós, que o amamos. Depois, os apóstolos… –diz Marta para consolá-la.
– Ele vos tem, sim. E tem os apóstolos…Ainda muito aquém do que eles lhe devem… E a minha dor é mais forte, porque eu sei que Ele sabe de tudo…
– Então saberá Ele também que eu quero obedecer-lhe até à minha imolação, se for preciso? –pergunta Madalena.
– Ele o sabe. Tu és para Ele uma grande alegria, em seu duro caminho.
– Oh! Mãe.
E Madalena segura a mão de Maria e a beija, emocionada.
242.7Tiberíades termina nas hortas do subúrbio. Para além delas, começa o caminho poeirento, que vai para Caná, limitado, de um lado pelos pomares, e do outro por uma série de prados e de campos ressecados pelo verão.
Jesus entra por um pomar, e para à sombra de umas plantas copadas. As mulheres o alcançam, e depois delas também o romano ofegante, que não está aguentando mais. Ele fica um pouco afastado, não fala, mas fica olhando.
– Enquanto descansamos, vamos comer –diz Jesus–. Lá adiante há um poço e perto dele mora um camponês. Ide pedir-lhe água.
Lá se vão João e Tadeu. Voltam com uma moringa gotejando água, acompanhados pelo camponês, que lhes ofereceu também figos muito bonitos.
– Deus te recompense por tudo isso, dando-te saúde e uma boa colheita.
– Deus te proteja. Tu és o Mestre, não é?
– Eu sou.
– Vais falar aqui?
– Não há quem o deseje.
– Eu, Mestre. Mais do que a água, que é boa para quem está com sede –grita o romano.
– Estás com sede?
– Muita. Eu vim atrás de Ti, desde a cidade.
– Não faltam em Tiberíades fontes de água pura.
– Não me entendas mal, Mestre, nem faças como se me entendesses mal. Eu vim atrás de Ti para ouvir-te falar.
– Mas, por quê?
– Não sei por que, nem como. Foi ao ver esta mulher –(e mostra Madalena)–. Eu não sei. Mas alguma coisa me dizia: “Este te dirá o que ainda não sabes.” E eu vim.
– Dai ao homem água e figos. Que ele se restaure, quanto ao corpo.
– E quanto à mente?
– A mente se restaura com a Verdade.
– Foi por isso que eu vim atrás de Ti. Tenho procurado a verdade em todos os ramos do saber. Só encontrei corrupção. Até nas melhores doutrinas, há sempre alguma coisa não boa. Eu me aviltei, a ponto de tornar-me um homem enojado e enojante, sem outro futuro senão a hora em que vivo.
Jesus olha para ele fixamente, enquanto vai comendo o pão e os figos, que os apóstolos lhe levaram.
A refeição terminou.
242.8Jesus, permanecendo sentado, começa a falar, como se estivesse dando uma simples lição aos seus apóstolos. O camponês também está perto dele.
– Muitos são os que procuram a Verdade, durante toda a vida, sem chegarem a encontrá-la. Ficam parecendo loucos, que querem ver, mesmo tendo uma corrente de bronze sobre os olhos, e ficam apalpando e procurando, de um modo convulsivo, e de tal maneira, que sempre vão se afastando da Verdade, ou então a escondem, despejando sobre ela coisas que a procura louca deles vai removendo de sua frente, ou faz sair para fora dali. Não lhes pode acontecer senão assim, porque vão procurar a verdade onde ela não pode estar.
Para encontrar a Verdade, é preciso unir a inteligência com o amor e olhar as coisas, não somente com olhos sábios, mas também com olhos bons. Porque vale mais a bondade do que a sabedoria. Aquele que ama, sempre consegue achar um caminho para chegar à verdade.
Amar não quer dizer gozar de uma carne, ou pela carne. Isso não é amor. É sensualidade. Amor é o afeto de um espírito a outro espírito, de uma parte superior a outra parte superior, pelo qual na companheira não se há de ver uma escrava, mas a geradora dos filhos, só isto, ou seja, a metade, que forma com o homem um todo, que é capaz de criar uma vida, e mais vidas, e até a companheira que é mãe, irmã e filha do homem, que é mais fraco do que um recém-nascido e mais forte do que um leão, conforme os casos, e que, como mãe, irmã, filha, é amada com um respeito confiante e protetor. O que não é como estou dizendo, não é amor. É vício. Não leva para o alto, mas para baixo. Não para a luz, mas para as trevas. Não para as estrelas, mas para a lama. Amar a mulher, para saber amar ao próximo. Amar ao próximo para saber amar a Deus.
242.9Então se terá encontrado o caminho da verdade. A Verdade está aqui, ó homens que a estais procurando. A Verdade é Deus. A chave para compreender o que é preciso saber está aqui.
A doutrina, que é sem defeito, é a de Deus somente. Como pode o homem achar resposta para suas perguntas, se ele não tiver Deus para lhe responder? Quem é que pode revelar os mistérios do universo, para falar, por enquanto, só e simplesmente deles, senão o Criador Supremo que fez o universo? Como compreender esse prodígio vivo que é o homem, esse ser em que se une a perfeição animal com a perfeição imortal, que é a alma, pela qual somos deuses, se tivermos em nós viva a alma, isto é, livre daquelas culpas que aviltariam até um bruto, e que o homem comete e ainda se vangloria de cometer?
Eu vos digo as palavras2 de Jó, ó procuradores da verdade: “Interroga os jumentos, e eles te instruirão, os passarinhos, e eles te mostrarão. Fala à terra, e ela te responderá, aos peixes, e eles te farão saber.”
Sim, a terra, esta terra verdejante e florida, estas frutas que entumecem nas árvores, estes passarinhos que criam seus filhotes, estas correntes de vento, que distribuem as nuvens pelo céu, este sol que não se esquece de nascer desde séculos e milênios, tudo fala de Deus, tudo explica Deus, tudo revela e desvela Deus. Se a ciência não se apoia em Deus, torna-se erro, e não mais nos eleva, mas avilta. O saber não é corrupção, mas religião. Quem sobe por Deus, não cai, porque sente a própria dignidade e porque crê no seu futuro eterno. Mas é preciso procurar o Deus real. Não os fantasmas, que deuses não são, mas simplesmente delírios de homens ainda envolvidos nas faixas da ignorância espiritual, pela qual não há nem sombra de sabedoria em suas religiões, nem sombra de verdade em suas crenças.
242.10Qualquer idade é boa para nos tornarmos sábios. E é ainda em Jó que está escrito3: “Ao chegar a tarde, te surgirá uma espécie de luz do meio-dia e, quando pensares que estás acabado, surgirás como a estrela da manhã. Estarás cheio de confiança pela esperança do que te aguarda.”
Basta a boa vontade de achar a verdade e, mais cedo ou mais tarde, ela se deixará encontrar. Mas, uma vez que tenha sido achada, ai de quem não a seguir e ficar imitando os cabeçudos de Israel que, tendo já nas mãos o fio condutor para encontrarem a Deus, isto é, todas as coisas que de Mim foram ditas no Livro, não querem render-se à Verdade, e a odeiam, acumulando em suas inteligências e em seus corações os entulhos do ódio e das fórmulas e não sabem que, por causa do peso demais, a terra se abrirá debaixo dos pés deles, que acham que seus pés são pés de triunfadores, mas que não são mais do que pés de escravos dos formalismos, do ódio, dos egoísmos, e que eles serão engolidos, precipitando-se no lugar para onde vão os culpados, conscientes de um paganismo mais culpável ainda do que o dos povos que, por si mesmos, arranjaram para si uma religião, que lhes sirva de norma para regularem suas vidas.
Mas é que Eu, assim como não rejeito aos que se arrependem entre os filhos de Israel, assim também não rejeito nem mesmo a estes idólatras, que creem naquilo que lhes foi dado para crer, mas que dentro de si, em seu interior, gemem dizendo: “Dai-nos a Verdade!”
242.11Tenho dito. Agora, repousemos nesta relva, se é que o homem no-lo permite. De tarde, iremos para Caná.
– Senhor, eu Te deixo. Mas, como não quero profanar a ciência que me deste, partirei esta tarde de Tiberíades. Deixo esta terra. retiro-me com o meu criado para as costas da Lucânia. Lá eu tenho uma casa. Compreendo que não podes dar mais ao velho epicurista. Mas, com o que me deste, já tenho com que reconstruir o meu pensamento. E… Tu, ora ao teu Deus pelo velho Crispo. O teu único ouvinte em Tiberíades. Reza, para que, antes do estreito de Libitina, eu possa ouvir-te de novo e, com a capacidade que eu acho poder criar em mim por tuas palavras, compreender-te melhor e compreender a Verdade. Salve, Mestre.
Ele saúda à moda romana. Mas depois, passando por perto das mulheres, sentadas um pouco de lado, inclina-se para Maria de Magdala, e lhe diz:
– Obrigado, Maria. Foi bom que eu te conhecesse. Ao teu velho companheiro de festins tu deste o tesouro que ele procurava. Se eu chegar ao ponto em que já estás, eu o deverei a ti. Adeus.
E vai-se embora.
Madalena aperta as mãos sobre o coração, com um rosto espantado e radiante de alegria. Depois, de joelhos, vai-se arrastando até diante de Jesus.
– Oh! Senhor! Senhor! Então, é mesmo verdade que eu posso conduzir ao bem? Oh! Meu Senhor! Isto já é bondade demais!
E, inclinando-se com o rosto sobre a relva, beija os pés de Jesus, lavando-os de novo com o seu pranto, agora pelo reconhecimento da grande amorosa de Magdala.
1 É como se o meu coração estivesse enfaixado com espinhos ardentes.Ainda entre os católicos – assim se inicia uma longa nota de MV, escrita sobre quatro lados de uma folha dobrada e inserida em uma cópia datilografada – existem alguns que dizem que Maria Ss., como era a Plena de Graça, conheceu apenas o gáudio enquanto não teve a herança da dor, já que este era um dos castigos consequentes a Culpa e hereditariedade de Adão, decaído do seu estado de Graça. Eles não acharão, portanto, corretas as palavras dessa frase de Maria, Virgem e Mãe, assim como julgarão inadmissível a sua tortura da noite de Sexta-feira Santa. Consideram – assim prossegue a nota manuscrita de MV, da qual reportamos somente uma parte – que, como é verdade que pela sua concepção imaculada, Maria deveria ser isenta da dor, assim como foi isenta da corrupção da morte, é ainda verdade que, como Corredentora, Ela “deveria” sofrer, no seu coração e no seu espírito imaculado, quanto o seu Filho partiu na carne, no coração e no espírito Ss. De fato, próprio pela plenitude de todos os dons divinos que estão nela, Ela compreende que as suas privilegiadas e “únicas” condições de Imaculada e de Mãe de Deus foram concedidas em vista da Paixão do Redentor, e que assim essa sua especialíssima condição de glória, segundo unicamente à infinita glória de Deus, lhe foi dada a preço do Sacrifício do Filho de Deus e seu, do derramamento total daquele Sangue divino e da imolação daquela Carne divina que foram formados no seu seio virginal, com seu sangue virginal, e que foram nutridos pelo seu leite virginal. Ainda este conhecimento era causa de dor. Dor que se fundia ao gáudio, igualmente vasto e profundo como a dor. Porque com ele “que foi posto como sinal de contradição entre os homens” (Lucas 2,34) foi causa de contraste de alegria e dor imensuráveis também pela Mulher: sua Mãe. Ainda: sempre pela plenitude dos dons divinos que estavam nela, Maria conheceria antecipadamente ou contemporaneamente e intelectualmente todo o complexo sofrimento do seu Filho. Sobre a alma da Imaculada, plena da Luz de Deus, se projetou sempre a sombra dolorosa da Cruz e de todas as lutas e obstáculos que precederiam a Paixão e aflição de seu Jesus […]. Reportaremos outros trechos da mesma nota, que todavia não a exaurem, no rodapé de 612.7, a justificação da “Angústia de Maria no Sepulcro” e do “Lamento da Virgem”.
2 as palavras, que estão em Jó 12,7-8.
3 está escrito, em Jó 11,17-18.
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