21. 21. Chegada de Maria a Hebrone seu encontro com Isabel.
1 de abril de 1944.
21.1 Estou num lugar montanhoso. Não são grandes montes, mas também não são colinas. Eles também têm suas lombadas e grotões, como as grandes montanhas, por exemplo, os nossos Apeninos na região da Toscana e da Umbria. A vegetação é densa e bela, onde há, em abundância, nascentes de águas frescas, que mantêm sempre verdes as pastagens, com as árvores dos pomares carregadas de frutos, quase todas macieiras, figueiras e videiras, sendo estas, ao redor das casas. Devemos estar na primavera, porque os cachos já estão bem desenvolvidos, e os pequenos bagos da uva já aparecem como grãos nos ramos, como bolinhas verdes. Sobre os galhos das figueiras vêm aparecendo os primeiros frutos, por enquanto ainda embrionários, mas já com o seu formato natural. Os prados se exibem, formando um grande tapete fofo e bastante colorido. Por cima deles, pastam as ovelhas, puxando e comendo folhas, ou repousando aqui, ou ali, como se fossem manchas brancas sobre o mar de esmeralda formado pelas ervas.
21.2 Maria vai subindo, no seu burrinho, por uma estrada em muito bom estado e que deve ser a estrada mestra. Ela vai subindo, porque o povoado, que nos oferece uma vista muito agradável, fica no alto. Meu monitor interior me diz: “Este lugar é o Hebron.” Ela falava-me de “Montana.” Não sei o que dizer. A mim foi dito este nome. Não sei se “Hebron” é o nome dado a toda esta região, ou ao povoado. Mas eu digo como ouço.
Maria está entrando no povoado. Há mulheres nas portas — já chegou a tarde — e observam a chegada da forasteira. Depois começam a falar umas com as outras sobre o que viram. Vão acompanhando a forasteira com o olhar, e não ficam sossegadas, enquanto não a vêem parar na frente de uma das mais belas casas, situadas bem no meio do povoado, tendo à frente um jardim, e atrás um pomar muito bem tratado, estendendo-se o terreno depois por um vasto prado, que sobe e desce pelas sinuosidades do monte, acabando num bosque de árvores altas, além das quais não sei o que há. Tudo está cercado por uma sebe de amoreiras e roseiras selvagens. Eu não distingo bem, porque, como se sabe, a flor e a folhagem dessas moitas espinhosas são muito parecidas e, enquanto não aparecerem os frutos nos galhos, é fácil nos enganarmos. No lado da frente da casa, que é o lado onde termina o povoado, a propriedade está cercada por um pequeno muro branco, no qual se espraiam os ramos das roseiras verdadeiras, que embora estejam ainda sem flores, estão cheias de botões. No centro há um portão de ferro, fechado. Logo se vê que esta deve ser a casa de um dos notáveis do povoado, ou de pessoas abastadas, porque tudo demostra, se não riqueza e ostentação, certamente demonstra bem-estar. Tudo está em ordem.
21.3 Maria desce do burrinho e se aproxima do portão. Olha por entre as barras. Não vê ninguém. Então, procura fazer-se ouvir. Uma pequena senhora, mais curiosa do que as outras, a tinha acompanhado e mostra-lhe um utensílio muito especial, que faz as vezes de uma campainha. São dois pedaços de metal, colocados em equilíbrio sobre uma barra: sacudindo-se esta barra, ao puxar-se uma corda, as duas peças batem uma na outra, produzindo o som de um sino, ou de um gongo.
Maria puxa a corda, mas de um modo tão delicado, que o som produzido é um levíssimo tinido, que ninguém ouve. Então, a mulherzinha, uma velhota do nariz e queixo grande, com uma língua imensa, agarra a corda e puxa muitas vezes em seguida. O barulho que ela fez com isso dava para ressuscitar um morto.
– É assim que se faz, mulher. Pois, de outro modo, como vos poderiam ouvir? Ficai sabendo que Isabel está velha, e Zacarias também está velho. Além disso, agora ele, além de mudo, está também surdo. Os dois criados estão velhos também, sabes? Nunca viestes aqui? Conheceis Zacarias? Sereis vós talvez…
Para livrar Maria de um dilúvio de notícias e de perguntas, apareceu um velhinho decidido, que deve ser o jardineiro, ou um agricultor, pois traz na mão um sacho e, amarrada à cintura, uma podadeira. Ele abre o portão, Maria entra, agradecendo à mulherzinha, mas… deixando-a sem resposta. Que desilusão para a curiosa!
Logo que entrou, Maria disse:
– Sou Maria de Joaquim e de Ana, de Nazaré. Prima de teus patrões.
21.4 O velhinho se inclina e a saúda, e depois em voz alta, chama:
– Sara! Sara!
E torna a abrir o portão para fazer entrar o burrinho, que tinha ficado de fora, porque Maria, para ver-se livre da pegajosa velhinha, tinha escapado rapidamente para dentro, e o jardineiro, tão rápido como Maria, tinha fechado o portão no nariz da importuna. Enquanto está fazendo o jumento passar, ele diz:
– Ah! que grande felicidade e que grande desgraça aconteceram a esta casa! Pois o céu concedeu um filho à estéril, bendito seja o Altíssimo! Mas Zacarias, já há sete meses, voltou mudo de Jerusalém! E ele só se faz entender por acenos, ou escrevendo. Teríeis vós sabido disso? Minha patroa desejou ter-te aqui, em sua alegria e em sua dor. Ela sempre falava de vós com Sara, e dizia: “Se eu tivesse a minha pequena Maria aqui comigo! Se ela tivesse ficado ainda no Templo! Eu teria mandado Zacarias ir buscá-la. Mas agora o Senhor quis que ela se casasse com José de Nazaré. Só ela é que poderia me confortar nesta dor e ajudar-me a orar a Deus, pois ela é tão boa. No Templo todos sentem saudades dela. Na festa passada, quando fui com Zacarias a Jerusalém, para agradecer a Deus por me ter dado um filho, ouvi as mestras dela que diziam: ‘O Templo parece estar sem os querubins da glória, desde que a voz de Maria deixou de ser ouvida por estas paredes’.” Sara! Sara! Minha mulher é um pouco surda. Mas vem, vem que eu mesmo te guio.
21.5 Mas, em vez de Sara, quem aponta no alto de uma escada, que está ao lado da casa, é uma mulher muito velhinha, já toda cheia de rugas, e com os cabelos bem salpicados de fios brancos, cabelos que um dia devem ter sido muito pretos, bem como os cílios e as sobrancelhas. Ela deve ter sido morena, pela cor do seu rosto. Um contraste estranho com a sua evidente velhice é o seu estado, já muito visível, mesmo estando com vestes amplas e soltas. Ela olha, fazendo um anteparo com a mão, para amortecer a claridade. Logo reconhece Maria. Levanta, então os braços para o céu, diz um “Oh!” cheio de pasmo e de alegria, e se precipita, do melhor modo que pode, ao encontro de Maria. Também Maria, que é sempre tranqüila em seus movimentos, corre agora, ágil como um cervo, chega até os pés da escada, na mesma hora em que Isabel também chega, e recebe a sua prima sobre o coração, que com viva expansão, chora de alegria ao vê-la.
Ficam abraçadas por um instante, depois Isabel solta um “Ah!”, que é um misto de dor e de alegria, e leva as mãos sobre o ventre avolumado. Abaixa o rosto, empalidecendo e ruborizando-se alternadamente. Maria e o criado estendem as mãos para sustentá-la, porque ela está vacilando, como quem se sente mal.
Mas Isabel, depois de ter ficado um minuto como que recolhida em si mesma, levanta um rosto de tal modo radiante, que parece rejuvenescido, olha para Maria, sorrindo com veneração, como se estivesse vendo um anjo, e depois se inclina em uma saudação, que vem do fundo do seu ser, dizendo:
– Bendita és tu entre todas as mulheres! Bendito é o Fruto do teu ventre! (ela fala assim em duas frases bem destacadas). Como foi que eu mereci que tenha vindo a mim, Sua serva, a mãe do meu Senhor? Pois, ao som da tua voz o menino saltou em meu ventre, como cheio de alegria, quando eu te abracei, e o Espírito do Senhor disse ao meu coração verdades altíssimas. Tu és bem-aventurada, Maria, porque acreditaste que para Deus fosse possível até o impossível, segundo a nossa mente humana! Tu és bendita porque, por causa da tua fé, farás cumprir as coisas que foram para ti preditas pelo Senhor e preditas aos Profetas, para este tempo! Tu és bendita, pela saúde que geras à estirpe de Jacó! Tu és bendita por teres trazido a santidade ao meu filho que salta como um cabrito, querendo externar sua alegria. Salta de puro júbilo em meu ventre, porque está sentindo-se libertado do peso da culpa, chamado para ser aquele que deve preceder sendo, para isso, santificado antes da Redenção, pelo Santo que está crescendo em ti!
Maria, com duas lágrimas que descem como pérolas de seus olhos, que estão rindo com a boca que sorri, com o rosto levantado para o céu e com as mãos também elevadas, naquela postura que, mais tarde, muitas vezes vai ser tomada por Jesus, exclama:
– Minha alma canta as grandezas do seu Senhor –e continua o cântico como nos foi transmitido1. No fim, ao versículo: “Veio em socorro de Israel, seu servo, etc.,” ela junta as mãos sobre o peito, e se ajoelha, muito inclinada para a terra, adorando a Deus.
21.6 O criado que prudentemente tinha tratado de desaparecer dali, logo que percebeu que Isabel não estava passando mal, mas que estava confidenciando o seu pensamento a Maria, volta do pomar com um imponente ancião vestido de branco, de barba e cabelos completamente brancos, e que, com grandes gestos, e emitindo sons guturais, saúda de longe Maria.
– Zacarias vem chegando –diz Isabel, tocando no ombro da virgem, que está absorta em oração–. O meu Zacarias está mudo. Deus o castigou porque ele não acreditou. Depois te contarei. Agora eu espero o perdão de Deus, porque tu vieste a nós. Tu, ó cheia de graça!
Maria se ergue e vai ao encontro de Zacarias, inclinando-se até à terra diante dele, beijando-lhe a fímbria da veste branca, que o cobre até o chão. É uma veste muito ampla, presa em seu lugar na cintura por um galão grosso e bordado.
Zacarias, por meio de gestos, dá as boas vindas a Maria e os dois, em companhia de Isabel, entram todos em um salão térreo, vasto e bem arrumado, onde fazem com que Maria se assente, e lhe oferecem uma taça de leite tirado na hora, ainda espumante, com uns pãezinhos.
Isabel dá ordens à criada, que afinal também apareceu, com as mãos enfarinhadas e com os cabelos ainda mais brancos, também por causa da farinha que está por cima deles. Talvez ela estivesse fazendo o pão. Dá ordens também ao criado, que percebi chamar-se Samuel, para que ele leve o baú de Maria para um quarto que ela lhe está mostrando. Cumprem-se todos os deveres de uma dona de casa para com a sua hóspede.
Nesse meio tempo, Maria está respondendo às perguntas que Zacarias lhe faz, escrevendo sobre uma tabuinha encerada com um estilete. Percebo, pelas respostas, que ele está perguntando por José, e como vai ela casada com ele. Nesse ponto eu chego a compreender que a Zacarias foi negada também toda luz sobrenatural a respeito do estado de Maria e de sua condição de mãe do Messias. É Isabel que, indo para perto do seu marido, e pondo-lhe com amor uma mão sobre o ombro, como para uma casta carícia, lhe diz:
– Maria também é mãe. Alegra-te com a felicidade dela!
Mas não lhe fala nada mais. Olha para Maria. Maria olha para ela, sem convidá-la a falar nada mais, e ela então se cala.
21.7 Doce, dulcíssima visão! Ela desfaz o horror que ficou em mim pela visão do suicídio de Judas.
Ontem de noite, antes de dormir, vi o pranto de Maria, inclinada para a pedra da unção, sobre o corpo morto do Redentor. Ela estava ao lado direito dele, de costas para a abertura da gruta sepulcral. A luz das tochas batia em seu rosto, e me fazia ver esse pobre rosto devastado pela dor e lavado pelo pranto. Ela pegava a mão de Jesus e a acariciava, procurava aquecê-la, encostando-a em sua face, e a beijava. Estendia os dedos dele… beijava-os um por um, estes dedos que não se moviam mais. Depois acariciava o rosto, inclinava-se para beijar-lhe a boca aberta, os olhos semifechados, a fronte ferida. A luz avermelhada das tochas faz que pareçam ainda mais vivas as chagas por todo aquele corpo torturado, e mais acentuadas ainda a crueldade da tortura padecida e a realidade de estar morto.
Eu fiquei contemplando, enquanto se conservou lúcido o meu entendimento. Depois, tendo despertado da sonolência, rezei e tratei de ficar quieta, para dormir de verdade. Foi aí que começou a visão que acima está descrita. Mas a mãe me disse: “Não te movas. Olha somente. Amanhã escreverás.” No sono foi que eu sonhei tudo de novo. Despertada às 6,30, tornei a ver tudo o que já tinha visto, acordada e em sonho. E escrevi, enquanto ia vendo. Depois, ela veio e eu pude perguntar-lhe se devia colocar o que se segue. São pequenas cenas inspiradas na permanência de Maria em casa de Zacarias.
1 transmitido, em: Lucas 1,46-55.