336. 336. Jesus em Nazaré com quatro apóstolos.O amor de Tomé por Maria Santíssima.


20 de novembro de 1945.

336.1 Ismael ben Fabi. Disse Jesus:

Aqui colocarás a visão1 tida a 11 de setembro de 1944”.

336.2Jesus e os seus estão de novo na estrada que da planície de Esdrelon vai para Nazaré. Eles devem ter pernoitado em algum lugar, pois a manhã está começando. Vão indo por algum tempo em silêncio, Jesus sozinho na frente, e depois com Pedro e Simão, que Ele chamou para perto de Si, e, em seguida vão todos juntos até uma encruzilhada, na qual se entrecortam a estrada que vai para Nazaré e uma outra que vai para o nordeste. Os montes já estão próximos dos dois lados.

Jesus faz sinal aos que estão falando para que façam silêncio e lhes diz:

– Agora, vamos separar-nos. Eu vou para Nazaré com os irmãos, com Pedro e Tomé. E vós, sob a guia de Simão Zelotes, ide pela estrada do Tabor e das caravanas, para Debaret, para Tiberíades, para Magdala… para Cafarnaum, e de lá ireis para o Meron, passando em casa de Jacó, a fim de ver se ele se converteu e levando a minha bênção para Judas e Anás. Ficareis nas casas em que mais insistem em dar-vos hospedagem. E ficareis só por uma noite em cada lugar, pois na tarde do sábado nos encontraremos no caminho de Sefet. 336.3Eu passarei o sábado em Corozaim, na casa da viúva. Passai por ela, para avisá-la. Desse modo acabaremos de pôr em paz a alma de Judas, que ficará persuadido de que João não está nem mesmo nesses abrigos hospitaleiros.

– Mestre, mas eu creio!…

– Mas é sempre bom que tu te convenças, para não enrubescerdes diante de Anás e Caifás, como Eu não enrubeço diante de ti nem de nenhum outro homem, ao afirmar que João não está mais conosco. Tomé, o levo a Nazaré. Assim poderá achar a paz também naquele lugar, ao ver com os seus próprios olhos…

– Mas eu, Mestre! Por que queres que eu me importe com isso? Pelo contrário, eu fico descontente por não poder mais ter perto de mim aquele homem. Terá ficado o que sempre foi. Mas, desde que o conhecemos, ele foi sempre melhor do que muitos ilustres fariseus. Bastar-me-ia saber que não te renegou, nem te fez sofrer, e depois… seja lá o que ele for na terra, ou que já esteja no seio de Abraão, a mim pouco importa. Podes crer. Se ele estivesse em minha casa, eu não sentiria repulsão por ele. Espero que Tu não fiques pensando que o teu Tomé tenha no coração mais do que uma curiosidade natural nenhuma má vontade, nenhum desejo de indagar, mais ou menos reto, nenhuma tendência para a espionagem voluntária, involuntária ou autorizada, nenhum desejo de prejudicar.

– Tu me estás ofendendo! Estás fazendo insinuações. Tu estás mentindo. Já viste que eu nunca tive senão um modo santo de agir durante este tempo. Por que, então, dizes isso? Que podes falar de mim? Fala!

Judas está irritado e feroz.

– Silêncio! Tomé, responde somente a Mim, que falei a ele. Eu creio nas palavras de Tomé. Mas quero assim, e assim seja, e ninguém de vós tem o direito de fazer censuras ao meu modo de agir.

– Eu não te censuro. É que aquilo da insinuação me feriu e…

– Somos em doze. Por que feriu somente a ti o que eu disse a todos? –pergunta Tomé.

– Porque fui eu que fui atrás de João.

Diz Jesus:

– Outros teus companheiros também fizeram isso, e outros discípulos o farão, e com isso nenhum se julgará ofendido pelas palavras de Tomé. Não é pecado fazer perguntas honestamente a respeito de um condiscípulo. Não é uma dor ouvir palavras como aquelas que foram ditas, quando em nós só há amor e honestidade, quando nada remorde em nosso coração, e o torna super-sensível, porque já está ferido pelo dente do remorso. Por que queres, na presença dos teus companheiros, ficar fazendo aqui um papel des-tes? Queres ser suspeito de pecado? A ira e a soberba são duas más compa-nheiras, Judas. Elas arrastam até ao delírio. E quem está delirando vê até o que não existe, diz o que não deveria dizer… assim como a avareza e a lu-xúria arrastam a ações culposas, contanto que elas fiquem satisfeitas. Li-vra-te destas servas más. E, enquanto isso, fica sabendo que, durante estes muitos e muitos dias de tua ausência, houve boa concórdia entre nós, sempre houve obediência e respeito, sempre.

Nós nos amamos, entendes?… 336.4Adeus, diletos amigos. Ide e amai. Compreendeis? Amai-vos, compadecei-vos uns dos outros, falai pouco e fazei o bem. A paz esteja convosco.

Ele os abençoa e, enquanto vão indo à direita, Jesus continua seu caminho com os primos, com Pedro e Tomé, e continua em profundo silêncio.

Depois, Pedro explode sozinho, exclamando: “Mas!” como se fosse um corolário, fruto talvez de alguma longa meditação. Os outros ficam olhando para ele…

Jesus, sem perder tempo, evita outras perguntas, dizendo:

– Estais contentes, vós dois, por virdes a Nazaré comigo? –e passa os braços ao redor das costas de Pedro e de Tomé.

– E ainda o perguntas? –diz Pedro em sua vivacidade.

Tomé, mais calmo, mas com um rosto mais cheio, que brilha de alegria, a-crescenta:

– Não sabes que para mim o estar perto de tua Mãe é uma doçura tal, que nem encontro palavras para descrevê-la? Maria é o meu amor. Não sou virgem2 do Santo dos Santos!… Que tolos! E não temos depois, ao olharmos para Ela, nem um décimo daquele tremor de veneração. Ela, eu tenho certeza, supera aos olhos de Deus, todas as belezas angélicas…

Jesus fica olhando o enamorado por sua Mãe, que parece espiritualizar tanto os sentimentos para com Maria, que fica com a costumeira expressão bondosa de seu rosto transformada.

– Está bem, daqui a poucas horas estaremos com Ela. Lá nós ficaremos até depois de amanhã. Depois iremos para Tiberíades a fim de vermos as duas crianças, e tomarmos uma barca para Cafarnaum.

– Não vamos a Betsaida? –pergunta Pedro.

– Na volta, Simão. Na volta iremos lá, a fim de apanharmos Marziam para a peregrinação da Páscoa…

336.5 … E é a tarde do mesmo dia, em Nazaré, na pequena casa tranqüila, onde Pedro e Tomé já estão dormindo. Estabelece-se um colóquio suave entre a Mãe e o Filho.

– Tudo foi bem, minha Mãe. Eles agora estão em paz. As tuas orações ajudaram aos peregrinos, e agora, como uma orvalhada sobre flores crestadas, estão curando a sua dor.

– Eu quereria curar a tua, meu Filho. Quanto deves ter sofrido! Olha! Aqui nas têmporas e nas faces o teu semblante está desfeito. E uma ruga te atravessa a fronte, como sinal de uma espada. Quem foi que te feriu assim, meu coração?

– A dor, por ter que dar mais dor, minha Mãe.

– Só isso, meu Jesus? Os teus discípulos não te deram aborrecimentos?

– Não, minha Mãe. Eles foram bons, como uns santos.

– Os que estavam contigo, sim. Mas eu estou falando de todos…

– Tu estás vendo que Eu trouxe Tomé para recompensá-lo. Eu teria querido trazer também os que não tinham estado aqui na outra vez. Mas Eu tinha que mandá-los a outros lugares mais adiante…

– E Judas de Keriot?

– Judas está com eles.

Maria abraça o seu Filho, e reclina a cabeça sobre o ombro dele, chorando.

– Por que está chorando, minha Mãe? –pergunta Jesus, acariciando-lhe os cabelos.

Maria fica calada e chorando. Somente à terceira pergunta, Ela sussurra:

– Porque estou aterrorizada… Eu sempre quereria que ele te abandonasse… Eu peco, não é verdade, ao pensar assim. Mas é tão forte, tão forte é o medo que eu tenho dele por causa de Ti…

– Só se ele desaparecesse, morrendo, é que as coisas mudariam. Mas por que ele haveria de morrer?

– Eu não sou tão má, a ponto de desejar isso… Ele também tem uma mãe! E tem uma alma. Uma alma que ainda pode salvar-se. Mas… Oh! Meu Filho! Não seria para ela talvez um bem, se ele morresse?

Jesus suspira, e murmura:

– Para muitos seria uma coisa boa a morte…

E depois, diz em alta voz:

– Não soubeste nada da velha Joana3? E dos seus campos?

– Eu fui até lá com Maria de Alfeu e Salomé de Simão, depois das saraivadas. Mas o seu trigo, por ter sido semeado com atraso, não tinha ainda nascido e não ficou prejudicado. Há três dias, Maria voltou lá para ver. Diz ela que parece um tapete. São os mais bonitos campos desta região. Raquel está bem e a velha está feliz. Também Maria de Alfeu esta contente agora com Simão, que está todo a teu favor. Amanhã certamente o verás. Ele vem aqui todos os dias. Hoje ele tinha acabado de sair quando Tu chegaste. Sabes de uma coisa? Ninguém percebeu nada. Alguém teria falado, se tivesse percebido que eles estavam aqui. Mas, conta-me, se é que não estás muito cansado, como foi a viagem deles…

E Jesus conta tudo à sua mãe, menos o sofrimento na gruta de Jeftael.

1 visão, já feita no capítulo anterior.
5 Não sou virgem pode ser entendida no sentido de Não ser consagrado e que não quis se consagrar à virgindade, porque acrescenta: não seria contrário a ter uma família. Da mesma forma expressa menina Maria Ss (em 7.4), quando ele diz: “Serei virgem” no sentido de “Eu vou me preservar e me consagrar virgem.” Algumas linhas abaixo, a sensualidade morre logo que se eleva o pensamento a Ela, MV faz a seguinte observação sobre uma cópia datilografada: É a opinião de Santos (São Tomás de Aquino, São Tomás de Villanova, São Boaventura e outros) apesar de sua beleza física, ela era tão santa a ponto de eliminar em quem a olhava, cada desejo de conscupicsiencia, não só, mas por virginizar o espírito e extinguir a sensualidade de quem se aproximava. Não podemos excluir que o Apóstolo Tomé, apaixonado por ela, ele queria consagrar-se à virgindade, porque seu pai, na formulação de uma bênção sobre ele (em 363.3), o chama de “Nazireu”, e ele mesmo declara (435.2) que nunca vai se casar. O poder virginizante da Virgem Maria expressa o apóstolo João em 586.3.
2 os querubins, que Salomão tivesse colocado no Santo dos Santos, a parte mais interna do Templo, são descritos em 1 Reis 6,23-28.
3 velha Joana, a quem ele conheceu em 309.1/4 com a neta Raquel, que é mencionado algumas linhas abaixo e ainda 338.3.


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