341. 341. A mão ferida de Jesus. Curade um surdo-mudo nos confins sírio-fenícios.


25 de novembro de 1945.

341.1 Não sei onde os peregrinos pernoitaram. Só sei que já chegou de novo a manhã e que eles vão indo pelo caminho, sempre por lugares montanhosos, e que Jesus está com a mão enfaixada, que Tiago de Alfeu tem enfaixada a fronte, enquanto André vai mancando muito e Tiago de Zebedeu está sem sua sacola, pois seu irmão João a apanhou.

Por duas vezes, Jesus já perguntou:

– Que fizeste para andares assim, André?

– É verdade, Mestre. Estou caminhando mal, por causa da atadura. Mas a dor não é forte.

E, na segunda vez, ele acrescenta:

– E a tua mão, Mestre?

– Uma mão não é uma perna. Ela está descansando e dói pouco.

– Hum! Pouco eu não creio, pois está inchada e aberta até o osso… Um pouco de óleo faz bem. Mas talvez fosse melhor fazer uso daquele ungüento de tua Mãe. Podíamos ir pedir um pouco a…

– A minha Mãe. Tens razão –diz Jesus logo em seguida, percebendo o que está para sair dos lábios de Pedro, que ficou corado e confuso ao olhar para o seu Jesus com um olhar tão desconsolado que Ele sorri por isso, e apóia a mão ferida sobre o ombro de Pedro, a fim de puxa-lo para Si.

– Vai fazer-te mal ficares assim.

– Não, Simão. Tu me queres bem e o teu amor é um óleo salutar.

– Oh! Então, se depende disso, já deverias estar curado. Porque todos nós sofremos ao te vermos ser tratado assim, e houve até quem chorou.

E Pedro dá uma olhada para João e André…

– Óleo e água são bons remédios, mas o choro por amor e compaixão é o mais poderoso dos remédios. E estais vendo? Eu estou muito mais alegre hoje do que ontem. Porque hoje estou sabendo quanto sois obedientes e cheios de amor por Mim. Todos, e Jesus olha para eles, com o seu olhar suave, em cuja habitual tristeza percebe-se uma tênue luz de alegria, nesta manhã.

341.2 – Mas, que hienas! Nunca se viu um ódio assim! –diz Judas de Alfeu–. Todos eles devem ser judeus.

– Não, meu irmão. A região aqui não interessa. O ódio é igual em toda parte. Lembra-te de Nazaré, há meses, quando Eu fui expulso e me queriam atacar a pedradas. Não te lembras? –diz calmamente Jesus, e isso serve para consolar os que são judeus, depois das palavras de Tadeu.

E, tanto serve para consolar, que até Iscariotes diz:

– Mas isto eu lhes direi. Oh! Se direi. Não estávamos fazendo nada de mal, não tínhamos reagido, e Ele falou com todo amor no começo. E a pedradas, como uns traiçoeiros, é que eles nos receberam. Eu o direi.

– E a quem o farás, se estão todos contra nós?

– Eu sei a quem. Por enquanto, logo que eu vir Estêvão e Hermes, lho direi. Também logo Gamaliel ficará sabendo. Mas, na Páscoa, eu sei a quem o direi. Eu direi: “Não é justo fazer isso. Sois ilegais em vosso furor. Sois os culpados, e não Ele.”

– Seria melhor que não andásseis muito por perto daqueles senhores!… Parece-me que, aos olhos deles, tu também sejas culpado –aconselha sabiamente Filipe.

– É verdade. Melhor é que não me te aproxime nunca mais deles. Sim. Mas a Estevão eu direi: Ele é bom, e não envenena as coisas…

– Deixa disso, Judas. Não mudarias nada para melhor. Eu já perdoei. Não pensemos mais nisso –diz calmo e persuasivo, Jesus.

341.3 Por duas vezes, ao encontrarem uns córregos, os dois Tiagos lavaram as ataduras, que estão sobre as feridas. Jesus não fez isso. Mas vai indo adiante, como se não estivesse sentindo dor.

Mas Ele deve estar sentindo dor, pois quando todos param e vão comer, Ele precisa pedir a André que parta o pão para Ele e, quando lhe escapa do pé uma sandália, Ele precisa pedir a Mateus que lhe ate de novo.. E, sobretudo, ao descer por algum atalho muito íngreme e chocando-se contra algum tronco, por ter escorregado, não pode deixar de soltar um lamento e a atadura se torna de novo vermelha, por causa do sangue, a tal ponto que, na primeira casa do povoado a que chegam, já ao pôr-do-sol, eles precisam parar e pedir água e óleo para lhe fazerem um curativo na mão que, ao serem tiradas as bandas, aparece muito inchada, azulada no dorso, e com a ferida avermelhada no centro.

Enquanto esperam que a dona da casa venha trazendo quanto desejam, inclinam-se todos para olharem a ferida, e vão fazendo os seus comentários. Mas João se afasta um pouco para longe, indo esconder o seu pranto. Jesus o chama:

– Vem cá. Não está tão mal. Não chores.

– Eu sei. Se eu estivesse com ela, não choraria. Mas és Tu que estás com ela. E não dizes quanto te está fazendo sofrer essa mão querida, que nunca fez mal a ninguém –responde João, para o qual Jesus deixou sua mão caída, que João acaricia suavemente, com a ponta dos dedos, no pulso, ao redor da equimose, que ele apalpa delicadamente, para beijá-la na palma e apoiar sua face no côncavo da mão, dizendo:

– Está quente!… Como deve estar doendo!

Suas lágrimas de compaixão caem sobre ela.

A mulher lhe leva água e óleo e, com um pano de linho, João quer limpar o sangue que está por sobre a mão. Com muita delicadeza vai fazendo escorrer a água morna sobre o lugar ferido, depois o unta, o enfaixa com tiras limpas e, sobre a atadura, põe um beijo. Jesus lhe põe, sobre a cabeça inclinada, a sua outra mão.

341.4 A mulher lhe pergunta:

– Ele é teu irmão?

– Não. Ele é o meu Mestre. O nosso Mestre.

– De onde vindes? –pergunta ela ainda aos outros.

– Do Mar da Galiléia.

– Longe. Por que vindes?

– Para pregar a salvação.

– Já está chegando a tarde. Ficai em minha casa. É uma casa de pobres. Mas somos gente honesta. Poderei ofercer-vos leite, logo que os meus filhos voltarem com as ovelhas. Meu marido vos acolherá bem.

– Obrigado mulher. Se o Mestre quiser, ficaremos aqui.

A mulher sai dali para o seu serviço, enquanto os apóstolos estão perguntando a Jesus o que devem fazer.

– Sim. Está bem. Amanhã iremos para Quedes, e depois para Panéades… Eu pensei assim, Bartolomeu. Convém fazer como tu dizes. Tu me deste um bom conselho. Espero assim encontrar-me com outros discípulos, e mandá-los na minha frente a Cafarnaum. Eu sei que em Quedes já devem ter estado alguns deles, entre os quais os três pastores libaneses.

A mulher volta, e pergunta:

– E, então?

– Sim, boa mulher. Vamos passar a noite aqui.

– E também para a ceia. Oh! Aceitai-a. Isso não me pesa. E, além disso, foi-nos ensinada a misericórdia por alguns daqueles que são os discípulos daquele Jesus da Galiléia, chamado o Messias, que faz tantos milagres e prega o Reino de Deus. Mas aqui Ele nunca veio. Talvez porque estamos nos confins sírio-fenícios. Mas os discípulos dele vieram. E isso já é muito. Pela Páscoa nós, deste lugar, queremos ir todos à Judéia para tentarmos ver esse Jesus. Pois nós temos doentes e os discípulos curaram alguns, mas outros não. E, entre esses, há um jovem, filho de um irmão da mulher do meu cunhado.

– Que é que ele tem? –pergunta, sorrindo, Jesus.

– Ele… não fala, nem ouve. Nasceu assim. Talvez tenha sido algum demônio que entrou no seio da mãe dele, para fazê-lo desesperar e sofrer. Mas ele é bom como se não fosse um endemoninhado. Os discípulos disseram que, para ele, é preciso Jesus de Nazaré, porque deve estar faltando a ele alguma coisa, e só esse Jesus… 341.5Oh! Aí vêm vindo os meus filhos e o meu esposo! Melquias, eu acolhi estes peregrinos em nome do Senhor e estava contando a eles o caso de Levi… Sara, vai depressa tirar o leite e tu, Samuel, desce, vai pegar o óleo e o vinho na adega, e traze mel do terraço. Anda depressa Sara, e vamos preparar as camas nos quartos lá de cima.

– Não te afadigues, mulher. Nós estaremos bem em qualquer lugar. Poderia Eu ver o homem de que estavas falando?

– Sim… Mas… Oh! Senhor! Serás Tu o Nazareno?

– Sou Eu.

A mulher cai de joelhos, gritando:

– Melquias, Sara, Samuel! Vinde adorar o Messias! Ah! Que dia! Que dia! E eu o tenho em minha casa. E lhe estava falando daquele jeito! E lhe trouxe água para lavar a ferida… Oh!…

Ela está como que estrangulada, de tanta emoção. Mas depois vai correndo buscar a bacia e vê que ela está vazia:

– Por que jogastes fora aquela água? Era água santa. Oh! Melquias! O Messias está em nossa casa…

– Sim. Mas, fica sossegada, mulher, e não digas isso a ninguém. Vai logo buscar o surdo-mudo, e traze-mo aqui… –diz Jesus, sorrindo…

341.6E pouco depois, Melquias volta com o jovem surdo-mudo e com os parentes dele, e com pelo menos a metade dos moradores da vila… A mãe do infeliz adora a Jesus e o suplica.

– Sim, vai ser como tu queres.

E, pegando pela mão o surdo-mudo, Jesus o tira um pouco para fora da multidão, que já se apinhou, e que os apóstolos, compadecidos daquela mão ferida, estão tendo dificuldade de afastar dele. Jesus se aproxima bem do surdo-mudo, põe-lhe os indicadores nos ouvidos e a língua sobre os lábios entreabertos. E depois, levantando os olhos para o céu, que já está escurecendo, sopra levemente sobre o rosto do surdo-mudo e grita com força:

– Abri-vos! –e o deixa andar.

O jovem fica olhando, por um momento, enquanto a multidão fica cochichando. É surpreendente a mudança das feições do rosto do surdo-mudo, que antes era apático e triste, e agora está surpreso e sorridente. Ele leva as mãos aos próprios ouvidos e as aperta, e depois as afasta… E fica persuadido de que está ouvindo de fato, e abre a boca, dizendo:

– Mamãe! Eu estou ouvindo! Oh! Senhor, eu te adoro!

A multidão fica tomada pelo entusiasmo de costume, e tanto mais assim fica, porque tem que perguntar a si mesma:

– E, como é que ele já pode saber falar se nunca ouviu nenhuma palavra desde que nasceu? É um milagre dentro de outro milagre. O milagre lhe desatou a fala, abriu os ouvidos e, ao mesmo tempo, o ensinou a falar. Viva Jesus de Nazaré. Hosana ao Santo, ao Messias!

E se apinham junto a Ele, que levanta sua mão ferida para abençoar, enquanto alguns, instruídos pela dona da casa, lavam seus rostos e seus membros com as gotas que sobraram na bacia.

Jesus os vê e grita:

– Pela vossa fé, estais todos curados. Ide para vossas casas, sede bons, honestos. Crede na palavra do Evangelho. E conservai convosco o que agora estais sabendo, até que chegue a hora de divulgá-lo pelas praças e pelos caminhos da terra. Que a minha paz esteja convosco.

E entra na ampla cozinha, onde está brilhando o fogo, e tremulando as luzes de duas candeias.