170. 170. Segundo discurso da Montanha:o dom da Graça e as bem-aventuranças.


24 de maio de 1945.

170.1 Jesus está falando aos apóstolos, colocando cada um deles no seu lugar, para dirigirem a multidão e cuidar dela, pois o povo está subindo desde as primeiras horas da manhã, com seus doentes trazidos nos braços ou em padiolas, enquanto outros vêm arrastando-se em suas muletas. No meio do povo estão Estêvão e Herma.

O ar está limpo e um pouquinho frio, mas o sol vai temperando logo essa pequena aspereza do ar da montanha que, por um lado, torna o sol mais suave, e, por outro, tira vantagem sobre ele, soprando com o frescor de sua pureza, sem, porém, incomodar. Algumas pessoas se assentam sobre pequenas e grandes pedras, espalhadas pelo pequeno vale, que fica entre os dois cumes, enquanto outras continuam esperando que o Sol enxugue a erva coberta de orvalho, para se assentarem no chão. É muita gente, vindo de todas as regiões da Palestina, de todas as condições. Os apóstolos somem no meio da multidão, mas, como abelhas que vão e vem dos prados para a colmeia, de vez em quando voltam até o Mestre, para darem notícias, para fazerem perguntas, ou pelo prazer de serem olhados de perto pelo Mestre

Jesus sobe um pouco mais acima do prado, que está no fundo do pequeno vale, e, encostando-se a um paredão da montanha, começa a falar.

170.2 – Muitos me tem perguntado, durante todos estes anos de pregação: “Mas, tu, que dizes ser o Filho de Deus, dize-nos o que é o Céu, o que é o Reino, e o que é Deus. Nós temos ideias confusas sobre isto. Nós sabemos que existe o Céu, com Deus e com os Anjos. Mas nunca veio ninguém de lá para nos dizer como é, e assim ele fica fechado aos justos.” Perguntaram-me também o que é o Reino e o que é Deus. Eu tenho me esforçado para explicar-vos o que é o Reino e o que é Deus. Digo que tenho me esforçado, não porque seja difícil explicá-lo, mas porque é difícil fazer-vos aceitar a verdade que se choca contra um edifício de ideias acumuladas no correr dos séculos, no que diz respeito a Deus, pela sublimidade de sua Natureza.

Outros ainda, me perguntaram: “Se isto é o Reino, e isto é Deus, como conquistá-los?” Também isso Eu procurei explicar-vos, incansavelmente, o verdadeiro espírito da Lei do Sinai. Quem consegue possuir esse espírito, consegue possuir o Céu. Mas, para explicar-vos a Lei do Sinai, é preciso fazer ouvir o tom forte do Legislador e do seu Profeta, os quais, prometem bênçãos aos observantes da Lei e ameaçam os desobedientes com tremendas penas e maldições. A Epifania do Sinai foi terrível, e isso se reflete em toda a Lei, refletindo-se em todos os séculos, e em todos os espíritos.

Mas Deus não é apenas Legislador. Deus é Pai. Um Pai de imensa bondade.

Os vossos espíritos, enfraquecidos pelo pecado original, pelas paixões, pelo vosso egoísmo e dos outros, fazendo com que estes vos tornem espíritos irritados, e os vossos vos tornem espíritos fechados, não podem elevar-se à contemplação das infinitas perfeições de Deus e, principalmente, de sua bondade, porque esta é a virtude que, junto ao amor, menos aparece nos mortais. A bondade! Oh! É doce ser bons, sem ódio, sem invejas, sem soberbas! Ter olhos que só olham para amar, e mãos que se estendem em gesto de amor, e lábios que não proferem senão palavras de amor, coração, principalmente, cheio somente de amor, levando olhos, mãos e lábios a fazerem atos de amor!

170.3 Os mais doutos sabem de que dons Deus tinha enriquecido Adão, não só para ele mesmo, como para os seus descendentes. Até os mais ignorantes dos filhos de Israel sabem que temos o espírito. Só os pobres pagãos não sabem que nós temos esse hóspede real, este sopro vital, esta luz celeste, que santifica e vivifica o nosso corpo. Mas os mais doutos conhecem os dons dados ao homem; ao espírito do homem! Deus não fez enriquecer menos o espírito do que a carne, o sangue da criatura, feita com um pouco de lama e com o seu hálito. Como deu dons naturais de beleza e integridade, de inteligência e de vontade, de capacidade de amor recíproco, assim deu também dons morais, com a sujeição dos sentidos à razão, de modo que, na liberdade e no domínio de si mesmo e da própria vontade, que Deus havia dado aAdão, não se insinuava o malvado cativeiro dos sentidos e das paixões. Amar-se, o querer, o prazer na justiça era livre sem o que vos torna escravos, fazendo-vos sentir o mordente do veneno que satanás espalhou e vomita, levando-vos para fora do álveo límpido para os campos lamacentos, para os brejos podres, onde fermentam a febre da sensualidade carnal e moral. Porque, ficai sabendo que é sensualidade até a concupiscência por pensamento. Eles tiveram dons sobrenaturais, isto é, a Graça santificante, o destino superior, a visão de Deus.

170.4 A Graça santificante: é a vida da alma. É o que há de mais espiritual em nossa alma. A Graça nos faz filhos de Deus, nos preserva da morte do pecado, e, quem não está morto, “vive” na casa do Pai: no Paraíso; no meu Reino, o Céu. O que é essa Graça que santifica, que dá Vida e o Paraíso? Oh! Não useis de muitas palavras! A Graça é o Amor. Portanto a Graça é Deus. É Deus, que admirando-se a Si mesmo na criatura criada perfeita, se ama, se contempla, se deseja, dá a Si mesmo, para multiplicar o que tem, e tornando-se feliz assim, e amando-se naqueles que são outros Ele mesmo.

Oh! Filhos! Não priveis a Deus desse seu direito. Não roubeis de Deus essa sua posse! Não decepcioneis a Deus nesse seu desejo! Pensai que Ele age por amor. Ainda que vós não o fôsseis, Ele seria sempre Infinito, o seu poder não ficaria diminuído. Mas Ele, ainda que completo em sua medida infinita, incomensurável, não quer para Si (não o poderia porque é já o Infinito) mas pela Criação, sua criatura, Ele quer aumentar o amor por tudo que essa Criação contém, por isso vos dá a Graça: o Amor, para que vós, em vós, o leveis à perfeição dos santos, e derrameis este tesouro, tirado do tesouro que Deus vos deu com a sua Graça e acrescido de todas as vossas obras santas, com toda a vossa vida heróica de santos, no oceano infinito onde Deus está, isto é, no Céu.

Ó divinos, divinos, divinos mananciais do Amor! Vós existis, e ao vosso ser não é dada a morte, porque sois eternos como Deus, sendo deuses1.

Vós existireis, e ao vosso ser não se dará fim, porque, imortais como os santos espíritos, que vos nutriram abundantemente, voltando para vós enriquecidos, com seus próprios méritos. Vós viveis e nutris, vós viveis e enriqueceis, vós viveis e formais a santíssima Comunhão dos espíritos, de Deus, Espírito Perfeitíssimo, e de todos, desde o pequenino que acaba, de nascer, sugando pela primeira vez o leite materno.

Não me critiqueis em vossos corações, ó homens doutos! Não digais: “Ele é louco, e é mentiroso! Porque como um louco ele fala da Graça em nós, privados dela pela culpa. Ele mente, dizendo que já somos uma só coisa com Deus.” Sim, a culpa existe; a separação também existe. Mas, diante do poder do Redentor, a Culpa, separação cruel que se fez entre o Pai e seus filhos, cairá por terra, como muralha, sacudida pelo novo Sansão. Eu já a agarrei e a estou sacudindo, e ela já está aluindo, e satanás está tremendo de raiva, de impotência, não podendo fazer nada contra o meu poder, sentindo que lhe são arrebatadas tantas presas, tornando mais difícil arrastar o homem para o pecado. Porque, quando Eu vos tiver levado ao meu Pai, quando, ao filtrar-se o meu Sangue, e pela minha dor, fordes limpos e fortificados, tornar-se-á em vós viva, ativa e poderosa a Graça e vós sereis triunfadores, se o quiserdes. Deus não vos força, nem quanto ao pensamento, nem quanto à vossa santificação. Vós sois livres. Mas Deus vos dá forças. Ele vos dá a liberdade, mesmo no império de satanás. Deveis escolher: submeter-vos ao jugo infernal, ou pôr asas de anjos em vossas almas. Tudo depende de vós, na minha companhia como vosso irmão, para guiar-vos e alimentar-vos com a comida imortal.

170.5 “Como se pode conquistar a Deus e o seu Reino por um caminho mais suave do que o do Sinai?”, assim vós dizeis. Não há outro caminho. O caminho é aquele. Contudo, devemos olhar para ele, não através da cor da ameaça, mas sim, através da cor do amor. Nós dizemos: “Ai de mim, se eu não fizer isto!”, continuamos tremendo, esperando o pecado, pensando que somos incapazes de deixar de pecar. Digamos: “Feliz de mim, se eu fizer isto!”, e, com um impulso de sobrenatural alegria, jubilosos lancemo-nos nos braços desta felicidade, que nasce da observância da Lei, como corola de rosa nascida duma moita de espinhos.

“Feliz de mim, se eu for pobre de espírito, porque, então, o Reino dos Céus é meu!

Feliz de mim, se eu for manso, porque herdarei a Terra!

Feliz de mim, se eu for capaz de chorar sem revolta, porque serei consolado!

Feliz de mim, se mais do que do pão e do vinho para saciar a fome, eu tiver fome e sede de justiça. A Justiça me saciará!

Feliz de mim, se eu for misericordioso, porque a divina misericórdia será usada para comigo!

Feliz de mim, se eu for puro de coração, porque Deus se inclinará para o meu coração puro, e eu O verei!

Feliz de mim, se eu tiver um espírito de paz, porqueserei chamado, por Deus, de seu filho. Na paz está o amor, e Deus é Amor que ama a quem é semelhante a Ele!

Feliz de mim se, por fidelidade à justiça, eu for perseguido, porque, para compensar-me das perseguições terrenas, Deus, meu Pai, me dará o Reino dos Céus.

Feliz de mim, se eu for ultrajado, e for acusado mentirosamente, por reconhecer-me teu filho, ó Deus! Disso me deve provir alegria, não desolação, porque isso me iguala aos teus melhores servos, os Profetas, perseguidos por essa mesma razão; e com os quais eu creio firmemente que hei de compartilhar a mesma grande recompensa, eterna, no Céu, que é meu.”

Olhemos assim para o caminho da salvação. Através da alegria dos santos.

170.6 Feliz de mim, se eu for pobre de espírito”:

Oh! riquezas, brasas de Satanás, a quantos delírios levais! Nos ricos e nos pobres. O rico que vive para o seu ouro: o ídolo infame do seu espírito arruinado. O pobre que vive do ódio ao rico! Porque o rico tem o ouro e, ainda que o pobre não cometa materialmente nenhum homicídio, lança suas maldições sobre os ricos, desejando-lhes toda espécie de mal. Não basta deixar de fazer o mal, é necessário também não desejar fazê-lo. Quem diz maldições rogando pragas e desejando a morte, não é muito diferente de quem mata materialmente, porque nele existe o desejo de ver morrer aquele a quem ele odeia. Em verdade, Eu vos digo que o desejo não é senão um ato retido, como alguém que já foi concebido no ventre, mas ainda não foi expelido para fora. O desejo mau envenena e corrompe, porque dura mais tempo do que o ato violento e vai mais ao fundo do que o próprio ato.

O pobre de espírito, se for rico, não peca por causa do ouro, mas, com o seu ouro, faz a sua santificação, pois o transforma em amor. Amado e bendito, ele é semelhante às fontes, que dão vida nos desertos, doando-se com generosidade, alegres por doarem-se, acalmando os desesperos. Se é pobre, está contente com a sua pobreza, e come o seu pão adoçado pela alegria de saber-se livre dos ardores do ouro, e dorme o seu sono, livre de pesadelos, levantando-se descansado, para o seu tranquuilo trabalho, que lhe parece sempre leve, quando é feito sem avidez e sem inveja.

As coisas que tornam um homem rico são o ouro para as coisas materiais, e os afetos, para as coisas morais. Pelo ouro entende-se não só as moedas, mas também as casas, os campos, as jóias, os móveis, os rebanhos, tudo, afinal, que faz a vida materialmente rica. Pelas afeições, entende-se os laços do sangue e do casamento, as amizades, as riquezas intelectuais, os cargos públicos. Como estais vendo, se para aquela primeira categoria o pobre pode dizer: “Oh! Quanto a mim, basta que eu não tenha inveja de quem tem posses já estando no meu lugar, pois sou pobre, sendo necessariamente colocado aqui”, o pobre, a segunda categoria também o pobre tem que tomar cuidado, porque , até o mais miserável dos homens, pode tornar-se pecaminosamente rico em espírito. Todo aquele que se afeiçoa demais a alguma coisa, peca.

Vós direis: “Mas, então, devemos odiar o bem que Deus nos deu? Se assim for, por que é que Ele manda amar o pai, a mãe, a esposa, os filhos, dizendo: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’?”

Fazei aqui uma distinção. Devemos amar o pai, a mãe, a esposa, e o próximo, na medida dada por Deus: “como a nós mesmos.”

Enquanto que Deus deve ser amado sobre todas as coisas, com todo o nosso ser. Não temos que amar a Deus como amamos os mais queridos dos nossos próximos, a mãe, porque nos amamentou, a esposa, porque dorme sobre o nosso peito e cria-nos os filhos: mas, sim, amar a Deus com todo o nosso ser: isto é, com toda a capacidade de amar que existe no homem: amor de filho, amor de esposo, amor de amigo. Oh! não vos escandalizeis Com o amor de pai! Sim, porque pelas coisas de Deus devemos ter os mesmos cuidados que um pai tem para com os seus filhos, para os quais guarda com amor os bens, fazendo-os aumentar, e se ocupa e se preocupa com o seu crescimento físico e cultural, e com o seu bom êxito nos negócios do mundo.

O amor não é um mal, nem deve tornar-se um mal. As graças que Deus nos concede não são um mal, nem devem tornar-se um mal. Elas são amor. Por amor nos foram dadas. É preciso usar com amor estas riquezas que Deus nos concede, tanto em afetos, como em bens. Somente quem não faz delas os seus ídolos, mas meio para servir Deus em santidade, mostrando não ter um apego pecaminoso a elas. Procura, pois, a Santa pobreza do espírito, que se despoja de tudo, para ficar mais livre, a fim de conquistar a Deus Santo, que é a Suprema Riqueza: conquistar a Deus quer dizer ter o Reino dos Céus.

170.7 Feliz serei eu se for manso”.

Isto pode parecer estar em contraste com os exemplos que vemos na vida de cada dia. Os que não são mansos é que parecem triunfar nas famílias, nas cidades, nas nações. Mas, será mesmo um verdadeiro triunfo o deles? Não. É o medo que aparentemente inclina os subjugados diante do déspota, mas isso não é mais do que um véu colocado sobre a efervescência da revolta contra o tirano. Os iracundos e prepotentes não possuem os corações de seus familiares, ou dos concidadãos, ou de seus súditos. Os mestres do: “Eu disse, e está dito!” Não conquistam inteligências e espíritos para as suas doutrinas. Eles criam apenas autodidatas, que vivem buscando e rebuscando uma chave capaz de abrir as portas fechadas de uma sabedoria e de uma ciência, justamente oposta à que lhes está sendo imposta.

Os sacerdotes que não se entregam à conquista dos espíritos, com doçura, paciência, humildade, amor. Não estão levando almas para Deus. Mais parecem uns guerreiros armados, que se lançam a um assalto feroz, avançando impetuosamente e com intransigência contra as almas… Oh! pobres almas! Se elas fossem santas, não teriam necessidade de vós, sacerdotes, para chegarem à luz. Pois já a teriam consigo. Se fossem justos, não teriam necessidade de vós, juízes para serem contidos pelo freio da justiça, pois já a teriam em si. Se fossem sãos, não precisariam de quem os curasse. Por isso sede mansos. Não façais que as almas fujam, espavoridas. Mas, atraí-as com amor. Porque a mansidão é amor, assim como o é a pobreza de espírito.

Se assim fordes, conquistareis a Terra, levando para Deus o lugar, que era de satanás, porque a vossa mansidão, que, além de ser amor, é também humildade, vence o ódio e a soberba, matando nos ânimos o rei abjeto da soberba e do ódio.E então, o mundo será vosso, isto é, de Deus, pois sereis justos, ao reconhecerdes Deus como Senhor Absoluto da criação, ao Qual há de ser dado todo louvor, e entregue tudo o que é seu.

170.8Feliz serei eu, se souber chorar sem revoltar-me.”

A dor está sobre a terra. A dor arranca lágrimas ao homem. Antes não existia a dor. Mas o homem a colocou sobre a terra e, por uma depravação de sua inteligência, esforça-se por descobrir o modo de aumentá-la sempre, de todos os modos. Além das doenças e das desventuras provindas de raios, de tempestades, de avalanchas, de terremotos, eis que o homem, para sofrer, mas principalmente para fazer sofrer — pois gostaríamos somente que os outros sofressem por meios estudados por nós para fazer sofrer — eis, então, que o homem inventa armas mortíferas sempre mais tremendas e danos morais cada vez mais astuciosos. Quantas lágrimas o homem faz o outro derramar, por instigação do seu rei oculto, que é satanás! Pois bem. Em verdade, Eu vos digo que essas lágrimas não o diminuem, mas levam o homem à perfeição.

O homem é um menino descuidado, despreocupado superficial, alguém nascido com inteligência tardia, enquanto o pranto não o tornar adulto, reflexivo e inteligente. Somente os que choram, ou que já choraram, sabem amar e compreender. Amar os irmãos que choram, compreendê-los em suas dores, ajudá-los com bondade, sabendo por experiência quanto se sofre, estando sozinho no pranto. E sabe amar a Deus porque se compreende que fora de Deus tudo é dor, porque compreende que a dor se mitiga, se for chorada sobre o coração de Deus, compreendendo que o choro resignado, não quebranta a fé, não torna árida a oração, que não conhece o que é revolta, mas muda de natureza, transformando-se a dor em consolação.

Sim. Os que choram amando o Senhor, serão consolados.

170.9 Feliz serei eu, se tiver fome e sede de justiça.”

Desde o momento em que nasce, até o momento em que morre, o homem se inclina avidamente para o alimento. Ele abre a boca, quando nasce, para agarrar o bico do seio, abre os lábios para engolir algum sustento, numa aflição de agonia. Trabalha para se alimentar. Ele faz da terra um enorme mamilo, do qual suga insaciável aquilo que morre. Mas, que é o homem? Um animal? Não. É um filho de Deus. Ele está aqui no exílio por poucos ou muitos anos. Mas sua vida não termina com a mudança da sua morada.

Existe uma vida na vida, assim como em uma noz existe o miolo. A noz é o miolo, e não a casca. Se semeardes uma casca de noz, nada nasce. Mas, se semeardes a casca com sua polpa, nascerá uma grande árvore. Assim é o homem. Não é a carne que se torna imortal, é a alma. Ela é nutrida para alcançar a imortalidade, onde, por amor, elalevará também a carne, na feliz ressurreição. O alimento da alma é a sabedoria, e a justiça. Como uum alimento líquido, elas são absorvidas, fortalecendo a alma, e quanto mais se prova delas, mais cresce a santa avidez de possuir a sabedoria e de conhecer a justiça. Contudo, há de chegar um dia no qual a alma, insaciável nesta santa fome, ficará saciada. Chegará esse dia. Deus se dará ao seu filho e o apertará diretamente ao seu seio, e o filho, nascido para o Paraíso se saciará da mãe admirável, que é o próprio Deus, não sabendo mais o que é fome, mas repousando feliz sobre o seio divino. Nenhuma ciência humana iguala esta ciência divina. A curiosidade da mente pode ser satisfeita, mas não a necessidade do espírito. Pelo contrário, na diversidade dos sabores, o espírito sente desgosto, vira a boca para longe do amargo mamilo, preferindo passar fome a encher-se com um alimento, que não tenha vindo de Deus.

Não tenhais medo, ó sedentos e famintos de Deus! Sejais fiéis e sereis saciados por Aquele que vos ama.

170.10 Feliz serei eu, se for misericordioso.

Quem é entre os homens o que pode dizer: “Eu não preciso de misericórdia?” Ninguém. Pois bem, se até na antiga Lei está dito2: “Olho por olho e dente por dente” por que não se pode dizer na Nova Lei: “Quem for misericordioso, encontrará misericórdia?” Todos precisam de perdão.

Pois bem! não é a fórmula e a forma de um rito, figuras externas concedidas por causa da opaca mentalidade humana. Ela não obtêm o perdão. É o rito interno do Amor, isto é, o rito da misericórdia: Porque, se foi imposto o sacrifício de um bode ou de um cordeiro e a oferta de algumas moedas, isto foi feito porque na base de todo mal se encontram duas raízes: a avidez e a soberba. A avidez é punida com a despesa para a aquisição da oferta; e a soberba com a evidente confissão do rito: “Eu celebro este sacrifício, porque pequei.” Também se fez isso para percorrer os tempos e os sinais dos tempos. No sangue que se espalha está a figura do Sangue que vai ser derramado, para cancelar os pecados dos homens.

Feliz, pois, daquele que sabe ser misericordioso com os famintos, com os nus, com os que não têm casa, com os maiores miseráveis, que possuem mau caráter, fazendo-os sofrer e também os que com ele convivem. Tende misericórdia. Perdoai, compadecei-vos, socorrei, instruí, amparai. Não vos fecheis em uma torre de cristal, dizendo: “Eu sou puro, e não desço no meio dos pecadores.” Não digais: “Eu sou rico e feliz e não quero ouvir falar das misérias dos outros.” Tomai cuidado, porque, mais depressa do que a fumaça, que se dissipa no ar por algum forte vento, pode desvanecer-se também a vossa riqueza, a vossa saúde, o vosso bem-estar familiar. E lembrai-vos de que o cristal serve de lente, e aquilo que, ao misturar com a multidão, poderia passar inobservado, se vos colocardes numa torre de cristal, sozinhos, separados, recebendo luz de todos os lados, não podeis mais conservar escondido.

Misericórdia também para levar a termo um sacrifício de expiação secreto e continuo, para com ele obter misericórdia.

170.11 Feliz de mim, se eu for puro de coração.”

Deus é pureza. O Paraíso é um reino de pureza. Nada de impuro pode entrar no céu, onde está Deus.

Por isso, se fordes impuros, não podereis entrar no Reino de Deus. Mas,que alegria! Uma alegria antecipada, concedida pelo Pai aos filhos! Quem é puro já tem, nesta terra, um começo do céu, porque Deus se inclina para o puro, e o homem vê o seu Deus nesta terra. Ele não conhece o sabor dos amores humanos, mas experimenta, até ao êxtase, o sabor do amor divino, podendo dizer: “Eu estou contigo, e Tu estás em Mim, por isso eu te possuo e conheço como esposo amabilíssimo de minha alma.” Crede-me, quem possui a Deus, realiza também em si mudanças substanciais inexplicáveis, fazendo-o santo, sábio, forte. Sobre seus lábios florescem palavras, e seus atos assumem poderes, que não são da criatura, mas de Deus que vive nela.

O que é a vida daquele que vê a Deus? É felicidade. E quereríeis privar-vos de tão grande dom, por causa de fétidas impurezas?

170.12 Feliz serei eu, se tiver um espírito de paz.”

A paz é uma das características de Deus. Deus está na paz. Porque a paz é amor, enquanto que a guerra é ódio. Satanás é ódio. Deus é paz. Ninguém pode se dizer filho de Deus, e nem pode Deus dizer que um homem será seu filho, se este tiver um espírito irascível, sempre pronto a desencadear tempestades. E mais: não pode dizer-se filho de Deus quem, ainda não sendo um desencadeador de tempestades, contudo, não contribuindo em nada, com a grande paz, que acalma as tempestades levantadas por outros. Quem é pacífico, difunde a paz, mesmo sem falar nada. Senhor de si, ouso dizer até senhor de Deus3, ele O leva como uma lâmpada leva a sua luz, como um turíbulo que vai soltando os seus perfumes, como um odre que transporta o seu líquido, e brilha a luz nas névoas fumegantes dos rancores, purifica o ar das invejas, se acalmam as ondas enfurecidas das contendas, por meio deste óleo suave, que é o espírito de paz, que emana dos filhos de Deus.

Fazei com que os homens venham a chamar-vos com este nome.

170.13 Feliz de mim, se eu for perseguido por amor da Justiça.”

O homem é tão endemoninhado que odeia o bem onde quer que se encontre, que odeia quem é bom, como se, sendo bom, mesmo calado, o acuse e censure. De fato a bondade de alguém evidencia ainda mais a maldade do malvado. De fato, a fé de quem verdadeiramente crê, faz que apareça mais viva a hipocrisia do que só finge crer. Na verdade, não pode deixar de ser odiado pelos injustos quem, com seu modo de viver, é uma testemunha constante da justiça. Então, acontece que o mau se enfurece contra os amigos da justiça. Também aqui acontece como nas guerras. O homem progride na arte satânica de perseguir, muito mais do que na arte santa de amar. Mas, só pode perseguir quem tem vida curta. Pois o eterno, que existe no homem, escapa da armadilha, adquirindo pela perseguição uma vitalidade ainda mais vigorosa. A vida foge das feridas que abrem as veias ou dos sofrimentos que consomem o perseguido. Mas o sangue faz a púrpura do futuro rei e os sofrimentos são como outros tantos degraus para subir ao trono que o Pai preparou para os seus mártires, o trono régio do Reino dos Céus.

170.14 Feliz serei eu, se for ultrajado e caluniado.”

Fazei com que vosso nome possa ser escrito só nos livros do Céu, nos quais não há nomes, feitos das mentiras humanas, que louvam os que não merecem louvor. Mas, com justiça e amor, estão escritas as obras dos bons, para dar-lhes o prêmio prometido por Deus.

Antes de nosso tempo, os profetas foram caluniados e ultrajados. Mas, quando forem abertas as portas dos céus, eles entrarão na Cidade de Deus, com a imponência de reis, e, diante deles, os anjos se inclinarão, cantando cheios de alegria. Vós também, os ultrajados e caluniados por terdes sido de Deus, tereis o triunfo no céu. Quando o tempo terminar e o Paraíso estiver completo, todas as lágrimas serão estimadas, porque por elas tereis conquistado a glória eterna, que Eu, em nome do Pai, vos prometo.

Ide. Amanhã eu vos falarei ainda. Fiquem aqui agora somente os doentes para que Eu os socorra em seus sofrimentos. A paz esteja convosco, e a meditação sobre a salvação, através do amor, vos encaminhe pela estrada, cujo fim é o céu.



1 sendo deuses. Em uma cópia datilografada MV direciona a Salmo 82,6; Romanos 8,16; 2 Pedro 1,4; e explica com a seguinte nota a expressão “Portanto são outros Si mesmos” de dezesseis linhas mais a cima: Justamente São Tomás de Aquino diz que Deus não pode fazer maiores obras dividas das três realizadas: a Encarnação do Filho, a Maternidade da Santa Virgem e a divinização da alma humana. E Santo Agostinho: As almas são divinamente associadas, por meio do Pai, ao mistério da geração eterna e, por meio do Pai e do Filho, a manifestação do Espírito Santo. Assim a alma divinizada pela Graça é divinizada pela participação com as Três Pessoas, e este é a obra-prima do Amor Infinito que nos eleva de criatura a criatura divinizada.
2 está dito em Exodo 21,24-25; Levítico 24,19-20; Deuteronômio 19,21. É a conhecida “lei de talião” que será citada outras vezes de 171.4 a 566.9.
3 senhor de Deus, porque, como explica MV em uma nota em uma cópia datilografada, Deus ama de tal forma os pacíficos – que são totalmente caridade, porque caridade inspira sentimento de paz, e a paz restabelece o amor entre os irmãos os quais o egoísmo pertubou – que parece realmente colocar-se ao serviços deles, para ajudá-los neste mistério de paz que difunde um dos seus atribuos mais doces entre os homens.