497. 497. Uma hora de desconforto de Simão Pedro.


20 de setembro de 1946.

497.1 Não sei onde estão. Certamente não estão mais no vale do Jordão, mas já sobre os montes que o contornam, pois estou vendo o vale verde e o belo rio azul lá em baixo, enquanto os cumes de montes bem altos emergem do vasto antiplano, que se estende a oriente do Jordão.

Vejo Pedro que está sozinho sobre uma pequena elevação, olhando fixamente para o nordeste, suspirando, muito triste. Há um feixe de lenha aos seus pés que deve ter sido apanhada nos bosques que cobrem esta colina. Um pequeno povoado se aninha no meio do verde. Pedro está de fato abatido. Acaba indo sentar-se sobre o seu pequeno feixe, a pôr a cabeça entre as mãos, todo encolhido. Fica assim esquecido do tempo e de qualquer outra coisa, tão absorto, que não o fazem voltar a si nem alguns meninos que vão passando e indo atrás de algumas cabras inquietas. Os meninos o observam, depois se põem a correr atrás das cabras, indo para o pequeno povoado. O sol vai descendo lentamente e Pedro não se move.

497.2Por um atalho, que sobe do povoado para o morro, Jesus vai caminhando. Vai devagar, evitando fazer barulho. Assim chega ao lugar onde está Pedro. Chama-o, estando já de pé, diante dele:

– Simão!

– Mestre!

Pedro tem um sobressalto. Levantou um rosto perturbado, ao dizer aquela palavra.

– Que estavas fazendo, Simão? Os teus companheiros todos já voltaram. Somente tu não tinhas voltado. Estávamos preocupados. Tanto assim, que o teu irmão e os filhos de Zebedeu, juntos com Tomé e Judas, se espalharam pelos montes, enquanto os meus irmãos, juntos com Isaque e Marziam, desceram para a planície.

– Isso me desagrada. Desagrada-me ter dado tanto trabalho e canseira…

– Os teus companheiros te querem bem… Foi justamente Judas quem passou a ficar pensativo por primeiro, e censurou Marziam por ter-te deixado sair sozinho.

– Hum!

– Simão, que tens?

– Nada, Mestre.

– Que estavas fazendo aqui neste outeiro, sozinho, enquanto a tarde já vem descendo?

– Eu estava olhando…

– Tu podes ter olhado, Simão. Mas agora não estavas olhando… Passaram por perto de ti uns meninos, ficaram com um pouco de medo de que tu estivesses morto, porque tu estavas muito inclinado sobre ti mesmo. Eles foram correndo para o aprisco que nos hospedou, nos contaram. Então, Eu vim… Que estavas olhando, Simão?

– Eu estava olhando, olhando para Ramot Galaad, para Gerasa, para Bozra, Arbela… a nossa viagem do ano passado, tão bela, tão… A Mãe estava conosco! As discípulas… João de Endor… O mercador… Até ele era bom, e ainda ajudava a tornar boa a viagem… Quantas coisas mudaram! Quanta diversidade… e quanta dor! Eis aí o que eu estava olhando: o passado.

– E o futuro, ó meu Simão?

Jesus se assenta sobre o pequeno feixe, ao lado de Pedro, passa-lhe um braço pelas costas, dizendo-lhe:

– Estavas olhando o horizonte… e a tristeza te ofuscou. O presente, como um turbilhão, levantou nuvens pavorosas, te escondeu a serena lembrança, cheia de promessas e esperanças, te amedrontou. Simão, tu estás submetido a uma daquelas horas de tristeza e de tédio que nossa natureza humana encontra em seu caminho. Disso ninguém está isento. Porque estas horas são suscitadas por quem odeia o homem. Quanto mais o homem serve a Deus, mais Satanás procura amedrontá-lo e fazer que ele descanse, a fim de afastá-lo do seu ministério. Tu também estás submetido a uma hora de cansaço… O contínuo martelar da perseguição contra o teu Mestre te cansa. Enfim — não sabes que não és tu, mas que é o Tentador —, tu ouves uma voz que te sussurra: “E amanhã? Que será o amanhã?”

497.3 – Senhor, é verdade. Tu estás lendo o meu coração. Mas também Tu estás vendo que, se eu pergunto assim, não o faço por medo, por causa de mim. É porque… Não. Eu não poderia nunca ver-te sendo atormentado… Tu falas frequentemente de delito, de traição. Eu… oh! não sou eu somente. Quantos, especialmente os velhos, já não te pediram para morrer, antes de verem ofendido o seu Rei? E eu… Eu, Tu sabes. Tu és tudo para mim. Nada mais me interessa a não seres Tu. Não é como diz Judas. Saudades de minha barca e de minha mulher… Olha: Tu estás vendo se eu estou dizendo a verdade. Eu insisti tanto para ficar com Marziam. A minha humanidade queria pelo menos um filho adotivo, em lugar dos filhos que a mulher não me deu, humilhando a minha virilidade que queria perpetuar-se… Mas agora, hoje, eu… Eu o amo, sim. Mas, se Tu me tirasses, eu não reagiria… Eu só te diria… Mas, não! Não diria nada!

– Só me dirias? Termina.

– É inútil, Mestre.

– Fala!

– Eu diria: “Entrega-o a quem, mais do que eu, possa fazê-lo crescer como um justo.” Nada mais! Ou, então… e isto eu te digo, chorando por ele, por mim, por meu irmão, e também por João e Tiago… e ainda pelos outros, mas nós… nós somos os teus primeiros.

Pedro cai de joelhos, apoiando-se aos joelhos de Jesus, com as mãos para cima, abertas para cima, suplicantes, com lágrimas sobre o rosto e que vão escorrendo por sob a barba…

– Eu o digo por nós… Oh! Eu pensava, penso sempre, há meses, e Tu estás vendo se é esse pensamento que me está roendo e fazendo-me envelhecer. É um contínuo temor que não me deixa sossegado, nem durante o sono. Eu penso que, se for mesmo como Tu dizes, até eu poderia ser o traidor, podia sê-lo André, João, Tiago, Marziam. Se não se chegar a isso, poderia ser um daqueles de que Tu falavas, há três tardes, a respeito de Ananias, um daqueles que chegam a querer que seja derramado o teu Sangue, sim, ele também, pois é um daqueles que não sabem, por vileza, opor-se a isso, mas consentem no mal, por medo do mal. Eu, se tivesse ainda que somente consentir, e não reagir por medo… Mestre, oh! Mestre meu, eu me mataria para punir-me, ou mataria, se os encontrasse, os teus matadores. Eu… se não queres isso, faze-me morrer antes, logo, aqui mesmo. A vida não é nada, mas faltar ao amor para contigo… Ser um daqueles… ser… ver, e não…

Ele está tão agitado que até lhe faltam as palavras. Inclina-se com o rosto por entre os joelhos de Jesus, chorando em um pranto áspero de homem rústico. Já ancião, pouco acostumado ao pranto e transtornado por tão grandes sentimentos.

497.4 Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, como para abrandar aquela dor e afastar os pensamentos perturbadores, e fala:

– Meu amigo, crês tu que mesmo que tivesses que… não ser perfeito naquela hora, o Senhor, que é justo, não iria comparar o peso do teu erro como peso do teu amor, e querer-te presente? Tens medo de que esse amor de ouro e essa vontade possam pesar menos do que uma momentânea imperfeição, ser insuficiente para obter a indulgência de Deus, e, com essa indulgência, também todos os socorros para fazer de ti o meu dileto Simão?

– Faze-me morrer! Salva-me! Estou com medo!

– Tu és a minha pedra, Simão. Posso Eu despedaçar a Pedra sobre a qual colocarei Aquela que me deve perpetuar sobre a terra?

– Eu sou indegno disso. Eu o percebo. Sou um pobre homem ignorante, pecador. Em mim há todas as más tendências. Eu não sou digno, não sou digno. Tornar-me-ei um perverso. Um homicida. Tudo o que for pior… Faze-me morrer. Compreendes que, se eu tivesse que descobrir quem é que te odeia…

– É o mundo que me odeia, Simão. É preciso perdoar.

– Eu falo do principal culpado. Um há de ser o principal e…

– Haverá tantos um, cada um deles terá sua mansão principal…

– Que mansão? A de… Oh! Não me obrigues a dizê-lo! Mas eu…

– Mas tu deves perdoar como Eu e comigo. Por que te perturbas assim, Simão, pensando no que poderias fazer para punir? Deixa para o Senhor essa tarefa. Tu, ama e perdoa, compadece-te, e perdoa. Eles, todos aqueles que forem culpados para com o teu Jesus, têm grande necessidade de serem ajudados a terem perdão!

– Não existe perdão para eles.

– Oh! Como és severo para com os teus irmãos, Simão. Sim que há perdão também para eles, se eles se arrependerem. Ai deles, se todosos meus ofensores não pudessem ser perdoados! 497.5Vamos, levanta-te, Simão. Certamente a preocupação dos teus companheiros já aumentou ao verem que Eu também não estou lá no aprisco. Mas ainda que seja a custo de fazê-los sofrer por algum tempo ainda, antes de irmos a eles, vamos rezar. Vamos rezar juntos. Não há outra coisa que fazer para reconquistarmos a paz, a força espiritual, o amor, a compaixão… até para conosco mesmos. A oração afugenta os fantasmas de Satanás e nos faz sentir que Deus está perto de nós. Com Deus perto de nós, tudo podemos enfrentar e suportar com justiça e merecimento. Rezemos assim, Eu e tu juntos daqui, deste monte, do qual se descortina tão grande parte da nossa Pátria, como para Moisés se descortinou a vista da Terra Prometida. Nós, mais afortunados do que ele, a essa Terra que será do Cristo, levemos a Palavra e a Salvação. Eu, por primeiro, e depois tu. Olha! Ao luzir das últimas luzes do dia, veem-se ainda os montes da Judeia. Mas, para além deles está a planície, o mar e depois outras terras, o mundo… Elas e ele te estão esperando, Pedro. Esperam-te para saber que existe um Deus verdadeiro, um Deus que dará a verdadeira luz às almas que estão tateando na escuridão da gentilidade e da idolatria. Olha, a luz da terra está diminuindo. Como poderiam os viajantes deixar de perder a direção em uma noite sem luz? Mas lá está a Estrela Polar. Ela já está surgindo para guiar os viajantes. A minha Religião será a estrela que haverá de guiar os viajantes espirituais pelo caminho do Céu. E tu estarás tão unido a ela, que formarás uma só luz comigo e com a minha Doutrina, ó meu Pedro, ó minha Pedra bendita. Rezamos pela hora em que os homens haverão de ser salvos pelo meu Nome: “Pai nosso que estás nos Céus…”

Diz lentamente o Pai-nosso, segurando Pedro pela mão, e parece o estar apresentando ao Pai, levantando para isso os braços e as mãos, estando a mão esquerda do apóstolo em sua direita.

497.6 – Agora vamos descer. Deixemos aqui as tristezas inúteis e as cruzes inúteis para amanhã. Junto com o pão de cada dia, o Pai nos dará amanhã os seus auxílios. Estás persuadido, Simão?

– Sim, Mestre, eu creio –diz com firmeza Pedro, que está com um rosto não mais perturbado, mas austero, como nestes poucos meses o tem tido, e que o faz aparecer muito diferente daquele pescador rústico e brincalhão que ele era nos primeiros dois anos.

Vão descendo, Jesus vai à frente e Pedro vem atrás com o seu feixinho, e, já perto da primeira casa, encontram os apóstolos agitados.

– Para onde é que tinhas ido? –gritam a Pedro.

– Já deveríamos estar aqui há muito tempo, mas eu parei com ele a falar, virados para Gerasa… –respondeu Jesus por ele.

Tomam um caminho à direita, indo para as ruínas de um aprisco meio derrubado. Vão para dentro dele, passando por uma estacada caída pela metade, e, quanto ao mais, mofada e bamboleante, um telheiro com paredes toscas, mal aberto, mal fechado, com muretas de três lados e com mesas no quarto.

Dentro não há nada, a não ser um pouco de palha no chão e um fogão primitivo em um canto. Penso que no povoado não os tenham acolhido e que por ali eles se tenham refugiado…