637. 637. Adeus à Mãe antes de subir ao Pai.Por Maria nós temos tudo.


22 de fevereiro de 1944.

637.1Eu vejo sempre o quarto de Maria. Os sinais da Paixão desapareceram.

A Virgem está sentada e lê. Devem ser livros sagrados, porque não lê certamente outra coisa naquele rolo que tem nas mãos. Não está mais torturada. O seu rosto permanece mais grave desde a Paixão, mais maduro. Mas não está mais trágico. Agora está majestoso e sereno.

Parece manhã, porque já se vê um belo sol que entra no quarto quieto pela janela aberta, mas se vê que o jardim, fechado com altos muros, para o qual se abre a janela, está ainda todo fresco de orvalho.

637.2Jesus entra. Ainda está com aquela esplêndida veste da manhã da Ressurreição. O seu Semblante emana fulgor e as Feridas são pequenos sóis.

Maria se ajoelha sorrindo e depois se levanta e o beija sobre a Mão direita. Jesus a abraça ao Coração e a beija na fronte, sorrindo, e lhe pede um beijo que Maria dá também sobre a Fronte dele.

– Mamãe! O meu tempo de permanência sobre a terra terminou. Subo ao Pai. Vim dar-te um adeus particular e mostrar-me a ti ainda uma vez, assim como estarei no Céu. Não pude mostrar-me aos homens com esta veste de esplendor. Não teriam podido suportar a beleza do meu Corpo glorificado. Essa é muito superior às suas possibilidades. Mas a ti, Mamãe, sim. E venho alegrar-te ainda um vez com ela.

Beija as minhas feridas. Que Eu sinta no Céu o perfume dos teus lábios e que permaneça sobre eles a doçura do meu Sangue.

637.3Mas fique certa, Mãe, que eu não te deixarei nunca. Sairei do teu coração aqueles poucos instantes, que são necessários para a consagração do Pão e do Vinho, para voltar em seguida, depois de ter-me separado de ti com esforço, com uma ânsia de amor equiparada à tua, ó meu Céu vivo de quem Eu sou o Céu.

Não estaremos jamais tão unidos como de agora em diante. Antes havia a minha incapacidade embrional, depois a minha infância, depois a luta da vida e do trabalho, e depois a missão, e depois a Cruz e o Sepulcro, que me mantinham distante e impedido de dizer-te quanto te amo. Mas agora serei em ti não apenas criatura que se forma, não mais junto a ti entre os obstáculos do mundo que impede a fusão de dois que se amam. Agora estarei em ti como Deus, e nada, nada na terra e no Céu será capaz de separar-me de ti, tu de Mim, Mãe santa. Direi a ti palavras de inefável amor, darei carícias de inexprimível doçura. E tu me amarás por quem não me ama.

Oh! Tu plenificas a medida do amor que o mundo não dará ao Cristo, com teu amor perfeito, Mamãe. Por isso, mais que um adeus, a minha é uma saudação de quem sai por um momento, como se fosse colher rosas e lírios neste jardim florido. Mas te trarei do Céu rosas e outros lírios mais belos que estes que aqui floriram. Plenificarei o teu coração, Mamãe, para fazer-te esquecer a podridão da terra, que não quer ser santa, e antecipar-te a auréola do bem-aventurado paraíso, onde és esperada com tanto amor.

E o Amor, que não sabe esperar, virá sobre ti dentro de dez dias. Faze-te bela, com tua mais bela alegria, ó Mãe Virgem, que o teu Esposo vem. O inverno já passou… as vinhas em flor exalam o seu perfume, e Ele canta1: “Vem, ó toda bela. Vem, ó minha Esposa, serás coroada.” Ele te coroará com seu Fogo, ó Santa, e te fará feliz com o teu Espírito, que se infundirá em ti com todos os seus esplendores, ó Rainha da Sabedoria, sua Rainha, que soubeste compreendê-lo desde a manhã de tua vida e amá-lo como criatura no mundo jamais o amou.

637.4Mãe. Eu subo ao nosso Pai. Sobre ti, Bendita, a benção do teu Filho.

Maria irradia êxtase, no quarto que permanece luminoso pela luz de Cristo.

637.5Diz Jesus:

– Não discutais, ó homens, se era ou não era possível que Eu mudasse a veste. Não era mais o Homem ligado às necessidades do homem. Tinha o Universo de escabelo aos meus pés e todas as potências como servas obedientes. E se, enquanto era Evangelizador, tinha podido transfigurar-me no Tabor, não teria podido, tendo-me tornado o Cristo glorioso, transfigurar-me para minha Mãe? Antes, não: mudar-me para os outros homens e aparecer a Ela assim como Eu era então: divino, glorioso, transfigurado, de Homem como me mostrava a todos, naquele que Eu era na realidade. Havia me visto, pobre Mãe, transfigurado de sofrimentos. Era justo que me visse transfigurado pela Glória.

637.6Não discutais se Eu podia estar realmente em Maria. Se vós dizeis que Deus está nos Céu e na Terra e em toda parte, como podeis duvidar que Eu pudesse estar contemporaneamente no Céu e no Coração de Maria, que era um Céu vivo? Se vós acreditais que Eu esteja no Sacramento e fechado nos vossos cibórios, por que duvidais que Eu estivesse nesse Cibório puríssimo e ardentíssimo que era o Coração da minha Mãe?

O que é a Eucaristia? É o meu Corpo e o meu Sangue unidos à minha Alma e à minha Divindade. Pois bem, quando Ela engravidou de Mim, o que possuía em seu seio de diferente? Não tinha o Filho de Deus, o Verbo do Pai com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade? Vós não me tendes talvez porque Maria me teve e me deu a vós, depois de ter-me carregado por nove meses? Pois bem, como Eu deixei o Céu para permanecer no seio de Maria, assim agora que deixo a terra, elejo o seio de Maria como meu Cibório. E há algum cibório, em alguma catedral, mais belo e santo do que este?

A Comunhão é um milagre de amor que Eu fiz para vós, homens. Mas, no topo dos meus pensamentos de amor, raiava o pensamento de infinito amor para poder viver com minha Mãe e fazê-la viver comigo enquanto não estivermos reunidos novamente no Céu.

637.7Eu fiz o primeiro milagre para a alegria de Maria, em Caná da Galileia. O último milagre, aliás, os últimos milagres, foram para o conforto de Maria, em Jerusalém: a Eucaristia e o véu da Verônica. O véu foi para dar um fio de mel ao amargor da Desolada. A Eucaristia, para não fazê-la sentir que Jesus não estava mais sobre a terra.

Tudo, tudo, tudo, mas compreendei uma vez, vós tendes por Maria! Devereis amá-la e bendizê-la a cada respiração vossa.

O véu de Verônica é também um aguilhão para a vossa alma cética. Confrontai, vós que fazeis áridos exames, ó racionalistas, ó tépidos, ó vacilantes na fé, o Rosto do Sudário e o da Síndone. Um é o Rosto de um vivo, o outro é o de um morto. Mas comprimento, largura, caracteres somáticos, características, são iguais. Sobreponde as imagens. Vereis que correspondem. Sou Eu. Eu que quis recordar-vos como era e como me tornei por amor de vós. Se não fôsseis perdidos, cegos, deveriam bastar aqueles dois Rostos para trazer-vos ao amor, ao arrependimento, a Deus.

O Filho de Deus vos deixa, abençoando-vos com o Pai e com o Espírito Santo.

1 canta, como em: Cântico dos cânticos 2,11-13.


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