166. 166. Os milagres após a eleição apostólica.Primeira pregação de Simão, o Zelote, e de João.


18 de maio de 1945.

166.1 Jesus, ao descer até o meio da encosta, vai-se encontrando com muitos dos seus discípulos, e também com muitos outros que, pouco a pouco foram se unindo aos discípulos e que vieram até este lugar longe das estradas, pela necessidade de algum milagre e pelo desejo de ouvir a palavra de Deus. Eles vieram, confiando nas informações que lhes deram outras pessoas, ou por algum piedoso instinto de suas almas. Eu acho que os anjos da guarda é que guiavam estes homens desejosos de Deus, a chegarem até o Filho de Deus. E acho também que, dizendo isso, não estou criando nenhuma lenda. Pois, se pensarmos com que pronta e astuta constância satanás levava os inimigos a Deus e ao seu Verbo, naqueles momentos em que o espírito demoníaco podia mostrar aos homens alguma aparência de culpa no Cristo, que nos seja lícito poder pensar — é mais que lícito, é justo — que os anjos não sejam inferiores aos demônios, e possam levar a Cristo os espíritos não demoníacos.

A todos esses que O esperam, sem sentirem canseiras nem temores Ele distribui a todos prodigamente o socorro dos milagres e o socorro da palavra. Quantos milagres! Uma florada igual à que embeleza as saliências do monte: milagres grandes, como aquele de um menino, tirado gravemente queimado de um palheiro em chamas, e trazido até aqui numa padiola. Era um monte de carne queimada, que gemia com dificuldade, debaixo do pano com que o cobriram, pois tão repulsivo era o seu aspecto, de tão queimado que estava, já quase morrendo. Jesus o curou, bafejando-o por cima com o seu hálito e refazendo os lugares das queimaduras, que foram se reconstituindo completamente, a ponto de o menino levantar-se, nu como estava, e sair correndo para sua mamãe, que, chorando de alegria, acariciou suas carnes totalmente curadas, sem nem sinal do fogo, beijando-lhe os olhos, que todos pensavam estivessem queimados, mas que, pelo contrário, estavam vivos e cintilantes de alegria. Seus cabelos ficaram somente mais curtos, mas não destruídos, como se a labareda tivesse feito neles um trabalho de navalha, e não de destruição. Também houve o pequeno milagre de um velhinho tossidor, que dizia:

– Não por mim, mas porque devo servir de pai para os meus netinhos órfãos, não podendo trabalhar a terra com algo parado aqui na garganta, que me sufoca…

Depois, o milagre não visível, mas que certamente aconteceu, pois é lembrado pelas palavras de Jesus:

– Entre vós, há alguém que está chorando com a alma, e não tem coragem de Me dizer com a palavra “Tem compaixão!” Mas Eu lhe respondo: “Seja como pedes. Toda a compaixão. Para que saibas que Eu sou a Misericórdia.” De minha parte só te digo “Tem generosidade.” Sê generoso para com Deus. Arranca toda ligação com o passado. Deus está te ouvindo; vai, então, a Ele com um coração livre, com um amor total.

Quem quer que seja, por entre o povo, ele ou ela ao qual foram dirigidas estas palavras, eu não sei.

166.2 Jesus diz ainda:

– Estes são os meus apóstolos. São outros tantos Cristos, porque para isto os escolhi. Dirigi-vos a eles com confiança. Eles sabem, por Mim, tudo o que é necessário para as vossas almas…

Os apóstolos olham para Jesus completamente assombrados. Mas Ele sorri, e continua:

– … darão às vossas almas uma luz de estrela e o conforto do orvalho, a fim de impedir-vos de ficar enlanguescendo nas trevas. Depois, Eu virei, e vos darei plenitude de sol e de ondas, toda a sabedoria para tornar-vos fortes e felizes, com uma fortaleza e alegria sobrenaturais. A paz esteja convosco, meus filhos. Eu estou sendo esperado por outros, mais infelizes e mais pobres do que vós. Mas não vos deixo sozinhos. Deixo convosco os meus apóstolos, e é como se deixasse os filhos do meu amor confiados aos cuidados das mais amorosas e confiáveis nutrizes.

Jesus faz um gesto de despedida e de bênção, e se põe a caminho, abrindo passagem por entre a multidão, que não quer deixá-lo partir, e é então que se dá o último milagre. Uma velhinha semi-paralitica, que vem sendo conduzida por seu neto, e agita festivamente o braço direito, antes inerte, gritando:

– Ele apenas passou roçando em mim com o seu manto, e eu estou curada! Eu nem lhe havia pedindo, porque já estou velha… Mas Ele teve dó do meu desejo secreto. Com o manto, com uma fímbria dele, que me roçou pelo braço perdido, me curou! Oh! Que grande Filho teve o nosso Santo Davi! Glória ao seu Messias. Mas, olhai! Olhai! Minha perna também ficou boa, como o braço… Oh! Parece-me que estou com vinte anos!

Tendo todos corrido ao redor da velhinha, que está proclamando com todo o seu fôlego a sua felicidade, Jesus pode se afastar, sem ser impedido. Os apóstolos vão atrás dele.

166.3 Quando chegam a um lugar deserto, quase na planície, pelo meio de uma quiçaça fechada, ao redor do lago, param por um momento. Jesus também parapara e diz:

– Eu vos abençôo! Voltai para o vosso trabalho, até que Eu venha, como vos disse.

Pedro, até agora sempre calado, não aguenta mais:

– Mas, Senhor meu, que foi que fizeste? Por que dizer que nós temos tudo o necessário para as almas? É verdade. Tu nos disseste muitas coisas. Mas nós somos uns cabeçudos; eu, pelo menos… de tudo o que me deste ficou pouco, ficou muito pouco. É como alguém que, de uma refeição só tem no estômago, o mais pesado. O resto não existe mais.

Jesus sorri abertamente:

– E, onde foi o resto da comida?

– Eu não sei. Só sei que, se eu como uns pratinhos delicados, depois de uma hora parece-me não ter mais nada no estômago. Ao passo que, se comer umas raízes pesadas ou umas lentilhas com óleo, oh! que trabalhão para mandá-las para baixo!

– Certo! Mas, podes crer que as raízes e as lentilhas, que parecem satisfazer-te mais, são as que menos substância têm: é tudo uma escória que passa, mas com pouca vantagem. Agora, os pratinhos, que depois de uma hora nem os percebes mais, estão, não no teu estômago, mas já estão no teu próprio sangue. Quando um alimento foi digerido, não fica mais no estômago, mas seu suco está no sangue, sendo mais útil. Agora, a ti e aos teus companheiros vos parece que de tudo o que Eu vos disse nada mais haja em vós? Talvez vos estejais lembrando dos assuntos que fazem vibrar a vossa natureza particular: os violentos se lembram dos assuntos de violência; os meditativos, dos assuntos de meditação; os amorosos, dos assuntos cheios de amor. Sem dúvida, é assim mesmo. Mas, crede-me: tudo está em vós. Mesmo, se pensais que tenha desaparecido. Vós o absorvestes. Vosso pensamento se desenrolará, como um fio multicor, fornecendo-vos as tintas suaves ou severas, conforme fordes precisando. Não tenhais medo. Pensai também que Eu sei o que faço e que nunca vos mandaria, se os considerasse incapazes. Adeus. Pedro. Eia! Sorri! Tem fé! Um belo ato de fé na Sabedoria Onipresente. Adeus a todos. O Senhor fica convosco.

E rapidamente Jesus os deixa espantados e inquietos.

166.4 – Pois é. É preciso obedecer –diz Tomé.

– Ah! Sim! Oh! Pobre de mim! Quase que saio correndo atrás dele… –murmura Pedro.

– Não. Não faças isso. A obediência é amor a Ele –diz Tiago de Alfeu.

– E vamos começar, enquanto Ele está aí por perto, e pode aconselhar-nos, se errarmos. Isso é elementar, e também é uma santa prudência. Nós temos que ajudá-lo –aconselha Zelotes.

– É verdade. Jesus está um tanto cansado. É preciso ajudá-lo um pouco, como pudermos. Não basta andar carregando sacos, preparando camas e comida. Isto qualquer um pode fazer. Mas ajudá-lo, como Ele quer, na sua missão –confirma Bartolomeu.

– Tu falas bem, porque és instruído. Mas eu… Sou quase um ignorante… –geme Tiago de Zebedeu.

- Ó Deus! Aí estão chegando os que estavam lá em cima! Como é que vamos fazer? –exclama André.

E Mateus diz:

– Perdoai-me, se eu, o mais miserável de todos, vos dou um conselho. Não seria melhor orar ao Senhor, em vez de ficarmos assim a lamentar-nos de certas coisas que com lamentos não se consertam? Vamos, Judas, tu que conheces tão bem a Escritura, dize aí para todos nós a oração1 de Salomão para alcançar a Sabedoria. Logo! Antes que eles cheguem.

E Tadeu, com sua bela voz de barítono, começa:

– “Deus dos meus pais, Senhor de misericórdia, que tudo criaste…” –etc. etc…, e chega até o ponto em que se lê: “pela sabedoria foram salvos todos aqueles que a Ti, Senhor, agradaram, desde o princípio.”

Mal tendo tempo, antes que o povo chegue, e os envolva e os assalte com mil perguntas como: “Aonde é que foi o Mestre? Quando Ele voltará?” E a mais difícil de ser respondida: “Como faremos para acompanhar o Mestre, não com as pernas, mas com as almas pelas trilhas que levam ao Caminho de que Ele fala?”

Com esta pergunta, os apóstolos ficam embaraçados. Olham-se uns aos outros, e Iscariotes responde:

– Seguindo a perfeição –como se esta fosse uma resposta capaz de explicar tudo!…

Tiago de Alfeu, mais humilde e mais moderado, fica pensando e depois diz:

– A perfeição de que fala o meu companheiro consegue-se obedecendo à Lei. Porque a Lei é justiça e a justiça é perfeição.

166.5 O pessoal ainda não está contente, e um chefe pergunta:

– Mas nós somos pequenos no bem, como crianças. As crianças não sabem ainda o significado do Bem e do Mal, não distinguem um do outro. Nós, neste caminho que Ele nos indica, estamos ainda tão rudes, que somos incapazes de distinguir. Nós tínhamos um caminho conhecido. O caminho antigo que nos haviam sido ensinado nas escolas. Era difícil, longo, medonho! Agora, pelas palavras dele, percebemos que é como aquele aqueduto, que estamos vendo daqui. Por baixo dele passa o caminho dos animais e do homem, e por cima, por sobre os arcos leves, exposto ao Sol e ao azulperto dos ramos mais altos, que fazem ruído e cantam com o vento e com os passarinhos, há um outro caminho liso, tão limpo e tão luminoso, quanto escabroso, sujo e escuro é o debaixo. Ele é um caminho para a água límpida e cantante, que é uma bênção. Esta água que vem de Deus, acariciada por tudo o que é de Deus: raios de Sol e de estrelas, copas novas de árvores, flores, asas de andorinhas. Nós gostaríamos de subir para aquele caminho mais alto, e que é o dele, mas não sabemos, porque estamos fincados embaixo, sob o peso de toda a construção antiga. Como faremos?

É um jovem dee vinte e cinco anos, moreno, robusto, olhar inteligente, com o aspecto menos popular em meio à maioria dos presentes. Ele tem o apoio de um outro já mais maduro.

Iscariotes, alto como é, o vê, e sussurra:

– Vamos logo. Falai bem. Aí estão Hermes com Estêvão, o predileto do Gamaliel.

Estas palavras vêm perturbar completamente os apóstolos.

166.6 Enfim, Zelotes responde:

– O arco da construção não existiria, se não houvesse uma base no caminho escuro. Esta é a fonte de onde nasce o arco que leva ao azul, do qual estás desejoso. As pedras fincadas no chão, que suportam o peso, e não desfrutam da visão dos raios e dos vôos, elas não deixam de saber que estas duas coisas existem, porque, de vez em quando, uma andorinha desce com um grito até à lama, e vem acariciar a base do arco, e desce também um raio do sol ou de estrela, para dizer quanto é belo o firmamento. Foi assim que nos séculos passados desceu, de tempos em tempos, uma palavra do céu como promessa, um raio celeste de sabedoria, para acariciar as pedras oprimidas pela ira divina. Pois as pedras eram necessárias. Não são, nunca foram, nem serão inúteis nunca. Sobre elas elevou-se lentamente o tempo e a perfeição do conhecimento humano, até chegar à liberdade do tempo presente e à sabedoria do conhecimento sobre-humano.

Já estou lendo a objeção, que está escrita em teu rosto. É a mesma que todos nós tivemos, antes que soubéssemos compreender que esta é a nova Doutrina, a Boa Nova pregada àqueles que, por um processo retrógrado, não conseguiram tornar-se adultos. Não acompanharam o elevar-se das pedras do saber, mas ficaram cada vez mais obscurecidos, como um muro que se mergulha num abismo sem luz.

Nós, para sairmos desta doença de obscurecimento sobrenatural, devemos libertar corajosamente a pedra fundamental de todas as outras pedras, sobrepostas a ela. Não tenhais medo de demolir o que é um muro alto, mas que não tem a linfa pura da nascente eterna. Voltai para a base. Ela não deve ser mudada. Vem de Deus. É imóvel. Antes de tirar as pedras, porque nem todas são más e inúteis, tirai a prova de cada uma, ao som da palavra de Deus. Se o som delas não discorda da palavra, conservai-as, e usai-as de novo na construção. Mas, se nelas perceberdes o som desafinado da voz humana, ou o som dilacerante da voz de satanás despedaçai as pedras más. Não há perigo de enganar-vos porque, se a voz é de Deus, seu som é de amor, e, se a voz é humana, seu som é de sensualidade, e, se a voz é de satanás, é uma voz de ódio. Eu digo despedaçai, porque é caridade não deixar atrás os germes e outros objetos maus, que possam seduzir o viandante, induzi-lo a fazer uso deles, ficando prejudicado. Quebrai literalmente cada coisa que foi vossa tanto em obras, como em escritos, ensinamentos ou atos, se ela não for boa. É melhor ficar com pouco, ganhando altura de apenas um côvado, com pedras boas, do que chegar a alguns metros, mas com pedras más. Os raios do Sol e as andorinhas descem até sobre os muros de pedras soltas, que pouco se elevam do chão, e as flores humildes da beira do caminho com facilidade conseguem acariciar as pedras baixas. Enquanto as pedras soberbas, que querem elevar-se, inúteis e escabrosas, não recebem mais do que os arranhões, das sarças, e o abraço das ervas venenosas. Demoli para reconstruir e subir, avaliando a bondade de vossas antigas pedras, ao som da voz de Deus.

166.7 – Falas bem, meu homem. Mas, como subir? Nós te dissemos que somos menos que umas crianças. Quem nos fará subir por uma coluna tão a pino? Nós vamos avaliar as pedras, ao som da palavra de Deus, despedaçando as menos boas. Mas, como subir? Só pensar nisso nos dá vertigem! –diz Estevão.

166.8 João, que ficou o tempo todo escutando, de cabeça inclinada e sorrindo para si mesmo, levanta um rosto iluminado, tomando a palavra.

– Meus irmãos! Só pensar em subir me dá vertigem. É verdade. Quem está dizendo que é preciso procurar atingir as alturas diretamente? Não são só os pequenos, mas nem os adultos, podem fazer isso. Somente os anjos podem projetar-se no azul, porque eles estão livres de todo peso da matéria. Só os heróis da santidade podem fazer isso.

Nós temos alguém, que ainda está vivo neste mundo tão envilecido, que sabe ser herói de santidade como os antigos de que Israel se gloria, quando os Patriarcas eram amigos de Deus, e a palavra do Código eterno era a única obedecida por toda criatura integra. João, o Precursor, ensina como é que se atinge as alturas diretamente. E João é um homem. Mas a Graça que o fogo de Deus lhe comunicou, purificando-o desde o ventre de sua mãe, do mesmo modo que foi purificado pelo Serafim o lábio do Profeta a fim de que ele pudesse preceder ao Messias, sem deixar o fedor da culpa original sobre o caminho real do Cristo, deu a João asas de anjo que a penitência fez crescer, abolindo, o peso de humanidade que a natureza de nascido de mulher lhe havia conservado. É daí que João, de sua caverna onde prega a penitência, e do seu corpo no qual arde o espírito desposado com a Graça, se projeta, ao ápice do arco, além do qual está Deus, o Altíssimo Senhor nosso Deus. Dominando os séculos passados, o presente e o futuro, pode anunciar, com voz de profeta e com olhos de águia, capazes de fixar o Sol eterno: “Eis o Cordeiro de Deus, O que tira os pecados do mundo”, morrendo depois desse seu canto sublime, que será usado, não só no tempo limitado, mas no tempo sem fim na Jerusalém eterna e feliz, para aclamar a Segunda Pessoa, invocá-la nas misérias humanas, e cantar-lhe hosanas nos fulgores eternos.

166.9 O Dulcíssimo Cordeiro deixou a sua luminosa morada dos Céus, nos quais Ele é Fogo de Deus em abraço de fogo. Oh! eterna geração, do Pai que concebe com Pensamento ilimitado e santíssimo o seu Verbo, absorvendo-o, produz uma fusão de amor que cria o Espírito de Amor, no qual se concentra o Poder e a Sabedoria! Mas o Cordeiro de Deus, que deixou a sua puríssima e incorpórea forma, para encerrar sua pureza infinita, sua santidade, sua natureza divina em carne mortal, sabe que nós não somos os purificados pela Graça. Sabe que não poderíamos, como a águia que é João, projetar-nos às alturas, ao cume onde está Deus Uno e Trino. Nós somos pequenos pássaros dos telhados e da rua, somos andorinhas que tocam o azul, e vivem comendo insetos; somos cotovias, que querem cantar para imitar os anjos, mas diante deste canto, o nosso se torna um frêmito desafinado de cigarra de verão. O Doce Cordeiro de Deus, que veio para tirar os pecados do mundo, sabe muito bem tudo isso. Porque, não sendo mais o Espírito Infinito dos Céus, porque limitado na carne mortal, a sua infinidade não fica diminuída, e tudo conhece, sendo a sua sabedoria sempre infinita.

E eis que agora Ele nos está ensinando o seu caminho. O caminho do amor. Ele é o Amor que, por misericórdia se faz carne. Eis que agora este Amor Misericordioso cria para nós um caminho por onde até os pequeninos podem subir. Ele, não por necessidade, mas para nos ensinar, o percorre por primeiro a nossa frente. Ele nem teria necessidade de abrir as asas para voar, pois estaria intimamente unido ao Pai. O seu espírito, eu vo-lo garanto, está encerrado aqui, nesta pobre terra, embora sempre com o Pai, porque Deus tudo pode, e Ele é Deus. Mas Ele está à frente, deixando atrás de Si os aromas da santidade, o ouro e o fogo do amor. Observai o seu caminho. Oh! Como chega até ao ápice do arco! Como é tranquilo e seguro! Não segue em linha reta, mas numa espiral. É mais longo o caminho, e o seu sacrifício de amor misericordioso, se revela assim, quando Ele se detém por amor dos fracos. Sendo mais longe é mais apropriado à nossa miséria. A subida para o Amor, para Deus, é simples, como simples é o Amor. Mas é profunda, porque Deus é um abismo inatingível, se Ele não se abaixasse para fazer-se atingível, para sentir-se beijar pelas almas enamoradas dele. –(João fala e chora, sorrindo com a boca, no êxtase da revelação que faz de Deus)–. É longo o caminho simples do Amor, porque o Abismo, que é Deus, não tem fim. Pode-se subir, até quanto quiser. O Abismo Admirável chama o nosso abismo miserável. Chama com as suas luzes, dizendo: “Vinde a Mim!” Oh! O convite de Deus! Convite de Pai!

166.10 Ouvi! Ouvi! Dos Céus abertos, porque Cristo escancarou as suas portas, com os anjos da Misericórdia e do Perdão na expectativa da Graça, enviando luzes, perfumes, cantos e orvalhos, a fim de seduzir santamente os corações dos homens, com palavras suavíssimas. É a voz de Deus que fala: “A vossa inocência? É a vossa melhor moeda! Eu gostaria que todos vós vos tornásseis pequenos, para possuirdes a humildade, a sinceridade e o amor das crianças, o confiante amor infantil para com o pai. Sereis incapazes? Esta é a minha glória! Oh! Vinde. Eu nem vos peço para, avaliar o som das pedras boas ou más. Dai-as a Mim! Eu as escolherei, e vós vos reconstruireis. Será uma subida para a perfeição? Oh! não, meus pequenos filhos. Aqui com a mão na mão do meu Filho, vosso Irmão, ao lado dele, subi…” Subir! Ir a Ti, Eterno Amor! Tomar a tua semelhança, isto é o Amor!

Amar! Aí está o segredo!… Amar! Dar-se. Amar! Aniquilar-se, Fundir-se. A Carne? A dor? Não é nada. E o tempo? Não é nada. Até o pecado se torna um nada, se eu o dissolvo no teu fogo, ó Deus! Só o Amor é tudo. O Amor. O Amor que nos deu o Verbo Encarnado nos dará todo o perdão. Amar é uma coisa que ninguém sabe melhor do que as crianças. E ninguém é mais amado do que uma criança.

166.11 Ó tu, que eu não conheço, mas que queres conhecer o Bem para distingui-lo do Mal, para teres o azul, o Sol celeste, tudo o que é alegria sobrenatural, ama, e o terás. Ama a Cristo. Morrerás na vida, mas ressuscitarás no espírito. Com um espírito novo, sem teres mais necessidade de fazer uso de pedras, serás por toda a eternidade um fogo que não morre. Sua chama sobe. Ela não precisa de degraus nem de asas para subir. Livra o teu eu de toda construção, coloca em ti Amor. Inflamar-te-ás. Deixa que isso aconteça sem restrições. Excita, pelo contrário, aumenta a chama, com todo o teu passado de paixões, de saber. Na chama se destruirá o que for menos bom, e o que é metal nobre, se tornará puro. Joga-te, ó irmão, no amor ativo e jubiloso da Trindade. Compreenderás isto que agora te parece incompreensível, porque compreenderás a Deus, que é compreensível somente por aqueles que se entregam, sem medida, ao seu fogo sacrificador. Fixar-te-às finalmente em Deus, num abraço de chama, rezando por mim, a criança de Cristo, que ousou falar-te do Amor.

166.12 Estão todo estupefatos: os apóstolos, os discípulos e os fiéis… O interpelado está pálido, enquanto que João está cor de purpura, não tanto pelo cansaço, como pelo amor.

Enfim, Estêvão dá um grito:

– Bendito sejas tu! Mas, diz-me quem és?

João faz um gesto que me faz lembrar muito a Virgem no Ato da Anunciação, diz em voz baixa, curvando-se em adoração dAquele de quem fala:

– Eu sou João. Em mim estás vendo o menor de todos, entre os servos do Senhor!

– Mas, quem foi o teu mestre, antes desta hora?

– Alguém, que é Deus, pois eu recebi o leite espiritual de João, pressantificado de Deus, nutro-me do pão de Cristo, do Verbo de Deus, e bebo do fogo de Deus, que me vem dos Céus. Glória seja ao Senhor!

– Ah! mas eu não vos deixo mais. Nem a ti, nem a este não deixo a ninguém. Tomai-me convosco!

– Quando… Oh! Aqui está Pedro, que é o nosso chefe –e João segura o atordoado Pedro, e o proclama assim “o primeiro.”

Pedro reencontra a si mesmo:

– Filho, para uma grande missão, é necessária uma severa reflexão. Este é o nosso anjo e acende, a chama. Mas é preciso saber se a chama em nós será duradoura. Mede-te a ti mesmo. Depois vem ao Senhor. Nós te abriremos o coração como a um irmão caríssimo. Por enquanto, se quiseres conhecer melhor a nossa vida, fica. Os rebanhos de Cristo podem crescer sempre para serem escolhidos os verdadeiros cordeiros entre falsos carneiros.

Com isto, chega ao fim a primeira manifestação apostólica.



1 oração que está em Sabedoria 9.