182. 182. Sermão para alguns pastorescom o pequeno órfão Zacarias.
9 de junho de 1945.
182.1 A volta de Pedro só se deu na manhã seguinte. Ele está mais calmo, desde a partida, porque só achou boa acolhida em Cafarnaum, e a cidade limpa e livre da presença de Eli e Joaquim.
– Devem ser eles que promoveram aquele conluio. Porque eu perguntei a alguns amigos, quando eles saíram de lá e fiquei sabendo que eles não tinham voltado, depois de terem estado com o Batista, fingindo-se penitentes. E eu creio que nem voltarão logo, agora que eu disse que eles estiveram presentes à prisão… Há um grande alvoroço por causa desta prisão do Batista. E eu cuidarei de fazer que isso fique sabido até pelos mosquitos… É esta para nós a melhor arma. Encontrei também o fariseu Simão e… Mas, se ele é como me pareceu ser, parece-me bem disposto. Ele me disse: “Aconselha o Mestre a não ir acompanhando o Jordão pelo vale ocidental. O outro lado é mais seguro”, disse ele , destacando bem as palavras. E terminou dizendo: “Eu não te vi. Nem te falei nada. Lembra-te disso. E toma cuidado para o meu bem, para o teu e o de todos. Dize ao Mestre que eu sou amigo dele”, e olhava para o alto, como se estivesse falando ao vento. Sempre, mesmo quando fazem coisas boas, eles são falsos… e até direi que são estranhos, para não ter a tua desaprovação. Mas… eu também fui fazer uma sondagenzinha no centurião. Eu lhe disse assim: “Vai bem o teu criado?” e tendo recebido resposta afirmativa, eu lhe disse também: “Ainda bem! Trata de conservá-lo são, porque já estão armando emboscadas ao Mestre. O Batista já foi preso…” e o romano pegou o assunto no vôo. Homem esperto que ele é, assim respondeu “Onde houver uma insígnia, haverá um guarda para protegê-lo e haverá alguém que lembre aos israelitas que, sob o domínio de Roma, não são permitidos os conluios, sob pena de morte ou das galés.” Eles são pagãos. Mas eu quase o beijei. Eu gosto das pessoas que compreendem e agem. Podemos ir andando, então.
– Então vamos. Mas não era preciso nada disso –diz Jesus.
– Era preciso. Era preciso!
Jesus se despede da família hospitaleira e também do novo discípulo, ao qual Ele deve ter dado suas instruções.
182.2 Agora estão de novo sozinhos, o Mestre com os apóstolos, e vão indo pelas campinas frescas, por um caminho que Jesus tomou, para grande surpresa de Pedro, que queria tomar um outro.
– Por aqui vamos ficar mais longe do lago…
– Mas chegaremos sempre em tempo para fazer o que devo fazer.
Os apóstolos não falam mais e estão indo para uma vila pequenina, um punhado de casas espalhadas pela campina. Ouve-se um grande barulho dos sininhos dos rebanhos, que vão indo para as pastagens das montanhas. Quando Jesus para, a fim de deixar passar um rebanho mais numeroso, os pastores acenam para Ele e se reúnem em grupo. Fazem perguntas uns aos outros, mas ficam só nisso.
Então Jesus é que quebra o silêncio e as incertezas, atravessando o rebanho que parou para comer a erva que por ali está bem viçosa. Ele vai diretamente acariciar um pastorzinho, que está no centro de um grande grupo de ovelhas lanudas e berrantes. Ele lhe pergunta:
– Elas são tuas?
Jesus sabe muito bem que elas não são do rapazinho, mas quer fazê-lo falar.
– Não, Senhor. Eu trabalho com aqueles lá. E estes rebanhos são de muitos donos. Nós estamos todos reunidos por causa dos bandidos.
– Como te chamas?
– Zacarias, filho de Isaac. Mas meu pai morreu, e eu estou trabalhando, porque minha mãe tem outros três mais novos do que eu.
– Faz muito tempo que ele morreu?
– Há três anos, Senhor… e eu não sei mais rir, porque a mamãe está sempre chorando, e eu não tenho mais quem me acaricie… Eu sou o primeiro filho, e a morte de meu pai fez que eu me tornasse homem, quando eu era ainda menino… Eu não tenho que chorar, mas ganhar… Mas é difícil!
De fato, até agora mesmo as lágrimas estão descendo sobre aquele rostinho sério demais para a idade que tem.
Os pastores se aproximam e os apóstolos também. Agora é um grupo de homens, no meio de um mover-se de ovelhas.
– Não estás sem pai, Zacarias. Tu tens um Pai Santo, que está no Céu, e que te ama sempre, se fores bom, e o teu pai não cessou de te amar, pois ele está no seio de Abraão. Precisas crer nisto. E, por causa dessa fé, precisas ser sempre melhor.
Jesus fala com doçura e acaricia o menino.
182.3 Um pastor cria coragem, e pergunta:
– Tu és o Messias, não é mesmo?
– Sim. Eu sou. Como é que me conheces?
– Fiquei sabendo que estás andando pela Palestina, e que dizes palavras santas. É por isso que Te reconheço.
– Vós ides para longe?
– Vamos para os montes altos. O calor está chegando… Não irás dizer algumas palavras para nós? Lá em cima, onde nós estamos, quem fala para nós são somente os ventos e, às vezes também o lobo, que faz carnificinas, como fez com o pai de Zacarias. Nós temos desejado ver-te, durante o inverno todo, mas nunca pudemos encontrar-te.
– Vamos, então, para a sombra daquele pequeno bosque. Lá Eu vos falarei.
E Jesus vai à frente, segurando o pastorzinho pela mão e acariciando com a outra as cordeirinhas, que estão levantando o focinho e soltando balidos. Os pastores reúnem o rebanho debaixo de um bosque de árvores para o corte e, enquanto as ovelhas se deitam para ruminar ou então ficam apanhando folhas ou se esfregando nos troncos, Jesus começa a falar.
182.4 – Vós me dissestes: “Lá em cima, onde estamos, só nos falam os ventos e, às vezes, o lobo que faz carnificinas.” O que acontece lá em cima, acontece também nos corações por obra de Deus, ou do homem, ou de satanás. Por isso, vós podeis ter lá em cima o que poderíeis ter em qualquer outro lugar.
Conheceis bem a Lei, para saber os dez mandamentos? E tu também, menino? Então já sabeis o que é suficiente. Se vós praticardes com fidelidade todas as ordens que Deus vos deu, sereis santos. Não vos queixeis por estar longe do mundo. É por isso que estais preservados de muitas corrupções. E Deus não está longe de vós, mas até mais perto naquela solidão, onde Ele vos faz ouvir sua voz na voz dos ventos que Ele criou, nas ervas e nas águas, do que entre os homens. Este rebanho vos ensina uma grande, ou até muitas grandes virtudes. Ele é manso e obediente. Ele se contenta com pouco e agradece pelo que recebe. Ele sabe amar e ser reconhecido para com quem cuida dele e o ama. Fazei vós também a mesma coisa, dizendo: “Deus é o nosso Pastor, e nós somos as ovelhas do seu rebanho. Os olhos dele estão sobre nós. Ele nos guarda e nos concede, não o que é uma fonte de vícios, mas o que é necessário para a vida.” Conservai o lobo longe do coração. Esse lobo são os homens maus, que talvez vos incitem e seduzam para más ações, por ordem de satanás. É o próprio satanás, que vos tenta para o pecado, a fim de rasgar-vos em pedaços.
Vigiai. Vós, pastores, sabeis quais os costumes do lobo. Ele é tão astuto, quanto simples e inocentes são as ovelhas. Ele se aproxima devagar, depois de ter observado, lá do alto, os costumes do rebanho, vem deslizando por entre as moitas, vem-se avizinhando e, para não chamar a atenção, ele até se imobiliza depois, como se fosse uma pedra. Não fica ele parecendo mesmo uma grande pedra que tivesse vindo rolando por cima das ervas? Mas depois, quando tem certeza de que ninguém está vigiando, ele salta e dá suas dentadas. O mesmo faz satanás. Ele vos vigia, para ficar sabendo quais são os vossos pontos fracos; depois, anda ao redor de vós, fica parecendo inofensivo e até como se não estivesse por ali, olhando para outras coisas, enquanto, na verdade, está de olhos sobre vós e, de repente, salta para arrastar-vos ao pecado e, algumas vezes, consegue. Mas junto a vós está um médico e um piedoso: Deus e o vosso anjo. Se vos feristes, se caístes doentes, não vos afasteis deles, como faz o cão que ficou doente de raiva. Mas, ao contrário, chorando, gritai-lhes: “Ajudai-me.” Deus perdoa a quem se arrepende, e vosso anjo está pronto a suplicar a Deus por vós, e convosco.
182.5 Amai-vos uns aos outros, e amai este menino. Cada um de vós deve sentir-se um pouco como pai deste órfão. A presença de um menino entre vós sirva para moderar todos os vossos atos com o freio santo do respeito para com a criança. E a vossa presença junto a ele sirva para substituir o pai que a morte lhe tirou. É preciso amar ao próximo. Este pequeno é para vós o próximo que Deus vos confia de um modo especial. Educai-o para que seja bom e cheio de fé, para que seja honesto e sem vícios. Ele é muito mais do que uma destas ovelhas. Pois bem. Se vós tomais cuidado delas, porque são do patrão, que vos castigaria se deixásseis que elas se perdessem, quanto mais deveis tomar cuidado desta alma que Deus vos confia, em nome dele e do pai morto. A condição de órfão em que ele está é bem triste. Não a torneis ainda mais pesada, querendo aproveitar-vos de sua condição de pequenino só para fazê-lo trabalhar. Pensai que Deus está vendo os atos e as lágrimas de cada homem, e toma nota de tudo para premiar e para punir.
E tu, menino, lembra-te de que não estás nunca sozinho. Deus te vê e a alma do teu pai também. Quando alguma coisa te perturbar, ou te aconselhar a fazer o mal, dize assim: “Não. Não quero ser órfão para sempre.” E tu o serias, se condenasses o teu coração, pecando.
Sede bons. Eu vos abençôo para que todo bem esteja convosco. Se tivéssemos que ir pelo mesmo caminho, eu vos teria falado mais longamente. Mas o Sol já se levanta, e vós tendes que ir e Eu também. Vós ides pôr as ovelhas ao abrigo do calor e Eu livrar os corações de um outro ardor ainda mais terrível. Rezai para que eles reconheçam em Mim o seu Pastor. Adeus, Zacarias. Sê bom. A paz esteja convosco.
Jesus beija o pastorzinho e o abençoa e, enquanto o rebanho lentamente vai tomando o caminho, Ele o acompanha com o olhar, depois retoma o seu caminho.
182.6 – Disseste que vamos tirar os corações de um outro ardor… Aonde é que vamos? –pergunta Iscariotes.
– Por enquanto, vamos até aquele ponto sombreado, por onde passa aquele rio. Aí tomaremos a refeição. E depois ficareis sabendo aonde vamos.
Jesus diz:
– Inserireis aqui o segundo momento da conversão de Maria Madalena, que aconteceu no ano passado, aos 12 de agosto de 1944(B964) (título: Pedro, não a insultes. Reza pelos pecadores).