467. 467. Parábola da distribuição das águas.Perdão condicionado para o camponês Jacó.Admoestações aos apóstolos enquanto vão a Corozaim.


5 de agosto de 1946.

467.1 Certamente ja se espalhou a notícia de que o Mestre está no lugarejo e de que vai falar, antes da tarde. Nas vizinhanças da casa, é grande já o afluxo da multidão, todos estão falando, em voz baixa, porque já souberam que o Mestre está descansando e não o querem despertar. Estão esperando com paciência por baixo das árvores, defendidos contra o sol, mas o calor ainda está muito forte. Não há doentes, pelo menos assim me parece, mas, como sempre, aí estão os meninos e Ana, para conservá-los quietos, faz distribuir frutas entre eles.

Jesus, porém, não tem sono longo. O sol ainda está alto, quando Ele aparece, levantando o toldo e sorrindo para a multidão. Ele está sozinho. Os apóstolos, provavelmente, continuam a dormir. Jesus se dirige para as pessoas, indo colocar-se junto à beira baixa de um poço que deve servir para a irrigação das plantas deste pomar, pois os canaizinhos de irrigação partem, como os raios de um círculo, do poço, e de lá se estendem por entre um e outro tronco. Jesus se assenta na beira baixa do poço e imediatamente começa a falar.

467.2 – Ouvi esta parábola.

Um rico senhor tinha muitos empregados, espalhados por muitos lugares em suas propriedades, mas que não tinham uma distribuição igual das águas e das terras férteis. Havia também lugares onde até faltava água, e neles, mais do que os lugares, sofriam as próprias pessoas porque, se o terreno era cultivado com plantas que resistiam à estiagem, as pessoas sofriam muito pela escassez de água. Contudo, o rico senhor tinha justamente no ponto do terreno em que ele morava, uma lagoa com muitas águas que nela jorravam de nascentes subterrâneas.

Um dia o patrão quis dar uma volta por todas as suas propriedades e viu que alguns dos que moravam mais perto da lagoa tinham bastante água enquanto os outros, que ficavam mais longe tinham pouca. Estes só tinham aquela água que Deus lhes mandava com as chuvas. Viu também que aqueles que tinham bastante água não eram bons para com os seus irmãos e se recusavam a dar-lhes até um balde de água, com a desculpa de terem medo de ficar sem água. O patrão, então, se pôs a pensar. E decidiu o seguinte: “Eu vou fazer desviar as águas de minha lagoa para os que estão mais perto, dando-lhes a ordem de não recusar mais a água aos meus empregados que moram longe e que estão sofrendo por causa da aridez do solo.”

E começou logo os trabalhos, fazendo cavar regos que levavam a água da lagoa para as propriedades mais vizinhas, onde fez cavar grandes cisternas, de modo que a água nelas se reunisse em grande quantidade, aumentando a reserva de água naquele lugar e delas fez partir regos menores para alimentarem outras cisternas mais distantes. Depois ele chamou aos que moravam naqueles lugares e lhes disse: “Lembrai-vos de que o que eu fiz não é para dar-vos uma coisa não necessária, mas para poder favorecer, por meio de vós, àqueles a quem está faltando até o necessário. Portanto, sede misericordiosos, como eu o sou.” E os despachou.

467.3 Passou algum tempo e o rico senhor quis dar uma nova volta por todas as suas propriedades. Ia vendo que aquelas mais de perto estavam mais bonitas e que, não só estavam enriquecidas com plantas úteis, mas também com plantas ornamentais, com tanques, piscinas, chafarizes colocados por toda parte e perto das casas.

“Vós fizestes destas moradas casas de ricos, observou o dono. “Nem eu tenho tantas belezas supérfluas”, e ainda perguntou: “E os outros, não vieram? Tendes dado a eles em abundância? Os regos menores também estão recebendo água?”

“Sim. Quando eles pediram, receberam. Mas eles são exigentes, nunca estão contentes, não usam a água com cuidado e moderação, vêm pedir a toda hora como se nós fossemos empregados deles, e nós temos que defender-nos para guardar o que é nosso. Eles já não se contentavam com os regos pequenos e com as cisternas pequenas. Mas estão indo até às grandes.”

“Será por isso que vós cercastes certos lugares e pusestes em cada um deles aqueles cães bravos?”

“Foi por isso, Senhor. Eles entravam sem cuidado, pretendiam tirar-nos tudo, e tudo estragavam.”

“Mas vós realmente lhes destes o que devíeis dar? Sabeis que por causa deles é que eu fiz isso, e que a vós eu fiz intermediários entre a lagoa e as terras áridas deles? Eu não compreendo… Eu tinha feito que apanhassem da lagoa o tanto que desse para todos, sem desperdiçar nada.”

“E contudo podes acreditar que nós nunca negamos água.”

O patrão se dirigiu às propriedades mais distantes. As plantas altas, que se haviam adaptado ao solo árido, estavam verdes e copadas. “Eles disseram a verdade”, pensou o patrão, ao ver como elas, lá ao longe, estremeciam levemente ao soprar do vento. Mas, quando ele se aproximou das plantas, e depois foi entrando pelo meio delas, viu a terra ressequida, quase mortas as ervas que, com dificuldade as ovelhas, ofegantes, conseguiam abocanhar, as verduras recobertas de poeira perto das casas. Depois viu os primeiros cultivadores: eles estavam emagrecidos, com os olhos febris e dasanimados. Eles olhavam para ele, abaixavam a cabeça, como se estivessem com medo.

O patrão, admirado com aquele comportamento, os chamou para perto de si. Eles se aproximaram tremendo.

“Por que estais com medo? Não sou eu o vosso patrão bom, que tomou cuidado de vós, com trabalho providenciou para que ficásseis livres da falta de água? Por que estas terras áridas? Por que os rebanhos estão magros assim? E vós, por que pareceis estar com medo de mim? Falai sem temor. Dizei ao vosso patrão o que é que vos faz sofrer.”

Um homem falou por todos:

“Senhor, nós tivemos uma grande desilusão e muito sofrimento. Tu nos tinhas prometido socorro. Nós perdemos até aquele que antes tínhamos, perdemos a esperança em ti.”

“Como? Por quê? Eu não fiz vir a água em abundância para os vizinhos, dando-lhes a ordem de que a abundância chegasse até vós?”

“Foi assim que disseste? Assim mesmo?”

“Foi assim. Com toda a certeza. Eu não podia, por causa das condições do solo, fazer que a água viesse diretamente para aqui. Mas, com boa vontade, vós podíeis ir aos pequenos regos das cisternas, ir até lá com odres e assim apanhar o tanto de água que quisésseis. Não vos bastavam os odres e os asnos? E não estava eu aí para vo-los dar?”

“Eis. Eu o havia dito: ‘não pode ter sido o patrão que deu ordens para que a água nos fosse negada.’ Estávamos para ir embora!”

“Mas nós ficamos com medo. Eles nos diziam que a água era uma recompensa para eles, que nós estávamos sendo castigados.”

E contaram ao bom patrão que os chefes das propriedades beneficiadas lhes haviam dito que o patrão, para punir os servos das terras áridas, os quais não sabiam produzir mais, havia dado ordem de regrar não somente a água das cisternas, mas também a dos poços antigos, de maneira que, se antes podiam apanhar até duzentos batos1 por dia, para eles e para suas terras, levados com grande dificuldade por causa do caminho e do peso da água, agora nem mesmo cinquenta eles tinham e, para terem água, tanto para os homens como para os animais, deviam ir pelos regos que vinham da divisa com os lugares abençoados, de lá de onde transbordavam as águas que iam para os jardins e os banhos, deviam apanhar qualquer água lodosa. Morriam. Morriam pelas doenças e pela sede. Também as hortaliças morriam e as ovelhas

“Oh! isto é demais, é tempo de acabar com isso! Apanhai os vossos utensílios e os vossos animais e vinde comigo. Ficareis um pouco cansados e exaustos, mas depois estareis em paz. Eu irei andando devagar já estais exaustos, a fim de que vós, em vossa fraqueza, possais acompanhar-me. Eu sou um patrão bom, um pai para vós, e para com os meus filhos eu tomo providências.” E se pôs lentamente a caminho, acompanhado pela triste multidão dos seus servos e dos animais, mas todos já se alegravam pelo amoroso conforto que já lhes dava o bom patrão.

467.4 Chegaram às terras mais ricas em águas. Estavam no divisor dessas àguas. O patrão separou alguns entre os mais fortes, e disse:

“Ide em meu nome pedir comida.”

“E se eles açularem os cães contra nós?”

“Eu irei indo atrás de vós. Não tenhais medo. Ide e dizei que eu vos mandei e que eles não fechem seus corações ao que é justo, porque as águas são de Deus, todos os homens são irmãos. E que abram imediatamente os regos.”

Eles, então, lá se foram. E o patrão ia atrás deles. Apresentaram-se junto à cancela. O patrão ficou escondido atrás do muro. Eles chamaram. E os chefes apareceram.

“Que quereis?”

“Tende piedade de nós. Estamos morrendo. O patrão nos manda com a ordem de apanhar as águas que ele mandou que corressem para nós. Ele diz que as águas Deus lhas deu, e ele a vós para nós, pois somos irmãos, e que abrais imediatamente os regos.”

“Ah! Ah!”, gargalharam eles cruelmente. “Irmãos? Esta turma de esfarrapados? Estais morrendo? Mas que bom. Nós tomaremos os vossos lugares, levaremos para lá as águas. Para lá, sim, que as levaremos! E faremos que aqueles lugares fiquem bons. Mas as águas para vós? Sois uns estultos. As águas são nossas.”

“Piedade. Estamos morrendo. Abri. É o patrão quem manda.”

Aqueles maus chefes consultaram-se uns aos outros. Depois disseram: “Espera um momento”, e saíram correndo. Em seguida, voltaram e abriram a cancela. Mas, quando eles voltaram vieram trazendo os cães e pesados cacetes… Aqueles coitados ficaram com medo. “Entrai, entrai… Não quereis entrar, agora que vos estamos abrindo? Depois ireis dizer que não somos generosos.”

Um descuidado entrou e uma chuva de cacetadas caiu sobre suas costas, enquanto os cães, livres das correntes, se lançavam sobre os outros.

O patrão saiu de detrás do muro.

“Que estais fazendo, ó desumanos? Agora vos estou conhecendo a vós e aos vossos animais, e vos ataco”, e com as flechas flechou os cães, depois entrou, severo e indignado.

“É assim que cumpris as minhas ordens? Ide chamar a todos os vossos. Eu vos quero falar. E vós”, disse ele aos servos sedentos, “entrai com as vossas mulheres e vossos filhos, com as ovelhas e os asnos, pombos e outros animais, e bebei, refrescai-vos, apanhai destas frutas suculentas, e vós, pequeninos inocentes, ide correndo pelo meio das flores. Aproveitai. A justiça está no coração do bom patrão e será para todos.”

E, enquanto os sedentos corriam para as cisternas, mergulhavam nas piscinas, os animais iam aos tanques, tudo para eles era motivo de uma alegria ruidosa, enquanto os outros iam chegando de todos os lados e cheios de medo.

467.5 O patrão subiu para a beira de uma das cisternas e disse:

“Vós fizestes estes trabalhos e eu vos havia feito depositários de minhas ordens e deste tesouro, porque eu vos havia escolhido para meus ministros. Mas nessa prova vós fostes reprovados. Parecíeis ser bons. E devíeis sê-lo, porque o bem-estar devia tornar-vos bons, cheios de reconhecimento para com o vosso benfeitor. Eu vos tinha feito sempre o bem, dando-vos o manejo destas terras, que conseguistes tornar completamente áridas e mais doentes do que estes que estão cheios de sede. Porque estes, com a água, ainda podiam ficar curados, enquanto que vós, com vosso egoísmo, ressecastes o vosso espírito, que dificilmente ficará curado, e só com muita di-ficuldade fará voltar a vós a água da caridade. Agora eu os vou castigar. Ide para as terras deles, e sofrei o que eles sofreram.”

“Piedade, senhor! Piedade de nós. Queres, então, que nós morramos? Serás tu menos piedoso conosco do que nós com os animais?”

“E estes, que é que são? Não são homens, vossos irmãos? Que piedade vós tivestes deles? Eles vos pediam água e vós lhes destes pancadas com vossos bastões e sarcasmos. Eles vos pediam o que é meu e que eu havia dado, e vós o negastes, dizendo que era ‘vosso.’ De quem são as águas? Nem eu digo que a água da lagoa é minha, porque a lagoa é minha. A água é de Deus. Quem é de vós que criou uma só gota de orvalho? Ide… E a vós eu digo, a vós que tendes sofrido: sede bons. Fazei com eles o que teríeis querido que fosse feito a vós mesmos: Abri os regos que eles fecharam, fazei que as águas escorram para eles, logo que puderdes. Eu faço de vós os meus distribuidores para estes irmãos culpados, aos quais dou ainda os meios e o tempo de darem uma reparação. E o Senhor Altíssimo, mais do que eu, vos confia as riquezas de suas águas para que vos torneis providência para aqueles que delas estão privados. Se souberdes fazer isso com amor e justiça, contentando-vos com o necessário, dando o supérfluo aos necessitados, sendo justos, não dizendo que é vosso o que é um dom gratuito,e mais do que um dom, um depósito, então grande será a vossa paz, o amor de Deus e o meu estarão sempre convosco.”

467.6A parábola terminou, e cada um a pode compreender. Eu somente

vos digo que quem e rico é um depositário dessa riqueza que Deus lhe concede, com a ordem de ser distribuidor dela aos que sofrem. Pensai em qual é a honra que Deus vos faz, chamando-vos a serdes seus sócios na obra da Providência em favor dos pobres, dos doentes, das viúvas, dos órfãos. Deus poderia fazer chover dinheiro, vestes, alimentos, por onde passam os pobres. Mas assim Ele tiraria do homem rico grandes ocasiões de merecimento: os merecimentos da caridade para com os irmãos. Nem todos os ricos podem ser doutos, nem todos podem ser bons. Nem todos os ricos podem cuidar dos doentes, sepultar os mortos, visitar os enfermos e os encarcerados. Mas todos os ricos, e também simplesmente quem não é pobre, podem dar um pão, um copo d’água, uma roupa usada, acolher ao lado do fogo a quem está tremendo de frio, ou do lado do seu telhado a quem não tem casa e está tomando chuva, ou exposto ao sol ardente. Pobre é aquele a quem falta o necessário para viver. Os outros não são pobres, pois têm meios, ainda que restritos, para viver, e que são sempre ricos em comparação com os que morrem de fome, ou de trabalhar, ou de frio.

Eu vou-me embora. Eu já não posso mais fazer o bem aos pobres destes lugares. E o meu coração sofre, pensando que eles perdem um amigo… Pois bem. Eu que vos estou falando, vós sabeis quem Eu sou, peço-vos que sejais a providência dos pobres, que vão ficar sem o seu Amigo misericordioso. Dai-lhes a esmola, amai-os em meu Nome, lembrando-vos de Mim… Sede os meus continuadores. Aliviai o meu coração esmagado com esta promessa: que nos pobres vereis sempre a Mim, que os acolhereis como os mais verdadeiros representantes de Cristo, que é pobre, que quis ser pobre, por amor aos mais infelizes da terra e para expiar, com suas limitações e com o seu ardente amor, as prodigalidades injustas e os egoísmos dos homens.

Lembrai-vos disso! A caridade, a misericórdia é premiada para sempre. Lembrai-vos! A caridade, a misericórdia é uma absolvição das culpas. Deus muito perdoa a quem ama. E o amor aos indigentes, que não podem retribuir, é o amor mais meritório aos olhos de Deus. Lembrai-vos destas minhas palavras até o fim da vossa vida e sereis salvos e felizes no Reino de Deus.

Que a minha bêmção desça sobre quem aceita a palavra do Senhor, e age de acordo com ela.

467.7 Os apóstolos e Marziam com os discípulos foram saindo pouco a pouco da casa, enquanto Ele estava falando, e formaram um grupo, bem juntos uns dos outros, atrás da multidão. Mas eles foram para a frente, quando Jesus terminou de falar e, enquanto iam passando, recebiam as esmolas que muitos ofereciam. E foram levar o dinheiro a Jesus.

Por detrás vem entrando pelo meio deles um homem muito emagrecido e que parece muito pobre. Vai assim andando para a frente, de cabeça inclinada, de modo que não posso ver o seu rosto. Ele se põe aos peés de Jesus e, batendo no peito, geme:

– Eu pequei, Senhor, e Tu me castigaste. Eu o mereci. Mas, pelo menos, dá-me o teu perdão, antes de partires. Tem piedade de Jacó pecador!

Ele levanta o rosto, e eu o reconheço melhor, porque ele disse o seu nome, e não por suas feições, que agora estão destruídas. É ele o camponês que uma vez foi beneficiado2 e outra vez foi castigado por sua dureza para com dois orfãozinhos.

– O meu perdão! Tu querias ficar curado disso, há tempo. E estavas aborrecido porque o trigo estava estragado. Estes aqui são os que semearam para ti. Estás talvez sem pão?

– Tenho o suficiente.

– E isso não é o perdão?

Jesus está muito severo.

– Não. Eu quereria morrer de fome, mas sentindo que minha alma está em paz. Tenho procurado, com o pouco que possuo fazer uma reparação… Tenho rezado e chorado… Mas somente Tu podes perdoar e dar paz ao meu espírito. Senhor, eu não te peço nada mais do que o perdão…

Jesus olha para ele fixamente. Faz que o homem levante o rosto que estava inclinado, o atravessa com o olhar de seus olhos resplandecentes, ficando um pouco encurvado sobre ele… Depois diz:

– Vai. Terás, ou não terás o perdão, conforme o teu modo de viver neste tempo que ainda te resta.

– Oh! Senhor meu! Assim não! Já perdoaste culpas muito maiores…

– Não eram pessoas beneficiadas como o estavas tu, e não haviam pecado contra os inocentes. Sempre é sagrado o pobre, mas os mais sagrados de todos são o órfão e as viúvas. Tu não conheces a Lei?

O homem chora. Ele queria um perdão rápido.

Mas Jesus resiste:

– Tu desceste duas vezes, não tiveste pressa de tornar a subir… Lembra-te… O que permitiste a ti mesmo, tu, que és um homem, só Deus pode permitir a Si mesmo. E sempre tão bom é Deus, se te diz que não te nega absolutamente o perdão, mas o condiciona ao teu modo de viver até à tua morte. Vai.

– Pelo menos, abençoa-me… Para que eu tenha mais força para ser justo.

– Eu já te abençoei.

– Não, assim não. A mim em particular. Estás vendo o meu coração…

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça e diz:

– Eu já o disse. Mas que esta cabeça te persuada de que, se Eu sou severo, não te odeio. O meu amor severo é para salvar-te, é para tratar-te como a um amigo infeliz, não porque és pobre, mas porque foste mau. Lembra-te de que Eu, tive compaixão de tua alma e que esta lembrança te torne desejoso de ter-me como um amigo não mais severo.

– Quando, Senhor? Onde é que te encontrarei, se Tu dizes que vais embora?

– No meu Reino.

– Qual? Onde o vais fundar? Eu irei para lá?

– O meu Reino será no teu coração, se o tornares bom, e depois no Céu. Adeus. Devo partir, porque a tarde vem chegando, devo abençoar aos que Eu vou deixar.

E Jesus os despede, voltando-se depois para os discípulos e para os donos da casa, abençoando-os um por um.

467.8 Depois toma o caminho, tendo dado a Judas o dinheiro… O verde dos campos o envolve, enquanto Ele vai caminhando para o sudoeste em direção de Cafarnaum…

– Tu caminhas demais, Mestre! –exclama Pedro–. Nós estamos cansados. Já percorremos muitos estádios…

– Sê bom, Simão. Daqui a pouco estaremos vendo Corozaim. Vós entrareis lá, indo àquelas poucas casas que são nossas amigas, e especialmente à casa da viúva. E direis ao pequeno José que Eu o quero saudar ao clarear do dia. Tu me levarás para a estrada que vai para Giscala…

– Mas Tu não vais a Corozaim?

– Não. Eu vou rezar sobre o monte.

– Tu estás acabado. Estás pálido. Por que não tomas cuidado? Por que não entras na cidade? E por que não andas conosco?

Eles o enchem com perguntas. O afeto deles algumas vezes se torna incômodo.

Mas Jesus é paciente… e pacientemente responde:

– Vós o sabeis. Para mim a oração é um repouso. Cansaço é Eu ter que estar por entre o povo quando não há ninguém para curar ou para evangelizar. Irei, pois, para o monte. Lá para onde outras vezes já tenho ido. Vós conheceis o lugar.

– No caminho que vai para a casa de Joaquim?

– Sim. Vós sabeis onde encontrar-me. Ao clarear do dia, virei ao vosso encontro…

– E… iremos a Gíscala?

– É o caminho certo para se ir rumo aos confins da Siro-Fenícia. Eu disse em Alfeca que estaria lá. E lá estarei.

– É porque… Não te lembras da outra vez?

– Não tenhas medo, Simão. Eles já mudaram seus modos. Agora eles me honram…

– Oh! Então eles te amam?

– Não. Eles me odeiam mais do que antes… Mas, não podendo abater-me com suas forças, eles querem fazê-lo com os seus enganos. Tentam seduzir o Homem… E, para seduzir, usam-se as honras, ainda que falsas. Antes… 467.9Vinde todos aqui para perto –diz depois aos outros, que iam andando em grupo, ao verem que Jesus estava falando só com Pedro.

Eles se reúnem. E Jesus lhes diz:

– Eu estava dizendo a Simão, e o digo que aqueles que são meus inimigos mudaram o modo de prejudicar-me, mas não mudaram seu pensamento a meu respeito. Por isso, como antes eles usavam o insulto e a ameaça, agora usam as honras. Isso para Mim, e, certamente também para vós. Sede fortes e sábios. Não vos deixeis enganar por palavras mentirosas, nem pelos presentes, nem pelas seduções. Lembrai-vos do que diz3 o Deuteronômio: “Os presentes cegam os olhos dos sábios e alteram as palavras dos justos”. Lembrai-vos de Sansão. Ele era Nazareu de Deus, desde o seu nascimento, desde o seio de sua mãe que o concebeu e formou na abstinência, por ordem de um anjo, para que ele fosse um justo juiz em Israel. Mas tantos bens em que foi que deram? E como? E por quem? E não foi assim noutras vezes, com honras e moedas, e com mulheres vendidas, que foi abatida a virtude para fazer-se o jogo dos inimigos? Agora estai atentos, vigiai para não serdes enleados pelos enganos e, inconscientemente, servir aos inimigos. Sabei conservar-vos livres, como os passarinhos, que preferem alimento pouco e um ramo onde repousar, em vez das gaiolas douradas, onde o alimento é muito, a caminha é cômoda, mas onde eles são prisioneiros do capricho dos homens. Pensai que vós sois meus apóstolos e, por isso, servos somente de Deus, como Eu que sou servo somente da Palavra do Pai. Eles procurarão seduzir-vos, e talvez até já o tenham feito, pegando a cada um pelo seu lado fraco, porque os servos do Mal são astutos, tendo sido instruídos pelo Maligno. Não acrediteis nas palavras deles. Elas não são sinceras. Se o fossem, Eu seria o primeiro a dizer-vos: “Saudemos a estes homens como a nossos bons irmãos.” Ao contrário. É preciso desconfiar de suas ações, rezar por eles, a fim de que fiquem bons. Eu assim faço. Rezo por vós para que não sejais arrastados pelos enganos da nova guerra, nem por eles. Para que cessem de urdir enganos para o Filho do Homem e ofensas a Deus, seu Pai. E vós, imitai-me. Rezai muito ao Espírito Santo. Ele vos dê luz para ver. E sede puros, se quereis tê-lo como amigo. Eu, antes de deixar-vos, quero fortalecer-vos. Eu vos absolvo, se até aqui houverdes pecado. De tudo Eu vos absolvo. Sede bons para o futuro. Bons, sábios, castos, humildes e fiéis. A graça da minha absolvição-vos fortifique… 467.10Por que estás chorando, André? E tu, por que estás perturbado, meu irmão?

– Porque isso me está parecendo um adeus –diz André.

– E crês que com tão poucas palavras Eu iria saudar-vos? Não é mais do que um conselho para estes tempos. Vejo que estais todos perturbados. Isso não vos deve acontecer. A perturbação tira a paz. A paz deve estar sempre em vós. Vós estais a serviço da Paz, ela vos ama tanto, que vos escolheu como a seus primeiros servos. Ela vos ama. Deveis, pois, pensar que ela vos ajudará, mesmo quando tiverdes ficado sós. A paz é Deus. Se fordes fiéis a Deus, Ele estará em vós. Com Ele em vós, que é que tendes a temer? E quem poderá separar-vos de Deus, se vós não vos colocais em condições de perdê-lo? Só o pecado é que separa de Deus. Tudo mais: as tentações, as perseguições, a morte e nem mesmo a morte separam de Deus. Mas, pelo contrário, a Ele unem, porque cada tentação vencida é mais um degrau que se sobe rumo ao Céu, pois as perseguições vos obtêm um redobrado amor e proteção de Deus, e a morte do santo ou do mártir não é mais do que uma união íntima com o Senhor Deus. Em verdade Eu vos digo4 que, a não serem os filhos da perdição, nenhum dos meus grandes discípulos morrerá, antes que Eu tenha aberto as portas do Céu. Por isso nenhum dos meus discípulos fiéis deverá ficar esperando o abraço de Deus, depois de ter passado deste escuro exílio para as luzes da outra vida. Eu não vos diria isso, se não fosse verdade. Vós o estais vendo. Hoje mesmo vós vistes como um que, depois de ter-se extraviado, voltou aos caminhos da justiça. Não seria preciso pecar. Mas Deus é Misericordioso, perdoa a quem se arrepende. E quem se arrepende pode até superar a quem não pecou, se o seu arrependimento for perfeito, heroóica for a sua virtude, depois do arrependimento. Será uma coisa tão doce, encontrar-nos lá em cima. Ver-vos subindo até Mim, correr ao vosso encontro para abraçar-vos, levando-vos até o meu Pai, dizendo: “Aqui está um teu querido. Ele sempre me amou, por isso sempre te amou, desde quando Eu lhe falei de Ti. Agora ele veio. Abençoa-o, meu Pai, e a tua bênção seja a sua coroa resplandecente. Meus amigos… Amigos aqui e amigos no Céu. Não vos parece que todo sacrifício seja leve para obter esta eterna alegria? 467.11Tranquilizai-vos afinal! Separemo-nos aqui. Eu vou lá para cima, vós, sede bons…

E os beija, um por um. Judas chora ao beijá-lo. Ele esperava ser o último, ele que procura sempre ser o primeiro, está agarrado a Jesus, beijando-o muitas vezes, sussurrando-lhe, por entre os cabelos, junto ao ouvido:

– Reza, reza, reza por mim…

Separam-se, indo Jesus para a colina e os outros prosseguindo para Corozaim, cuja brancura já se vê por entre o verde das árvores.

467.12Diz Jesus:

– Aqui colocareis a visão de 23 de setembro de 1944. Não tenho repouso melhor do que dizendo: “Salvei a um que estava perecendo” e o ditado que vem a seguir.

1 batos equivale a bat, medida de capacidade para os líquidos (mencionada, por exemplo, em 1 Reis 26.38) que podia corresponder a 36,44 litros. Outra medida é log, vista em 382.6.
2 beneficiário, em 110.5/6; castigado, em 298.2/6 e 338.1; disso, isto é, do perdão.
3 diz, em Deuteronômio 16,19.
4 vos digo, como jé mencionado em 346.10.


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