162. 162. As conversões humanasdo fariseu Eli e de Simão de Alfeu.


13 de maio de 1945.

162.1 Do meio das hortaliças, que já estão começando a ficar muito viçosas por todos os lados, Jesus passa para uma cozinha muito espaçosa, onde as duas Marias, já anciãs, (Maria de Cléofas e Maria Salomé) estão cozinhando e preparando a ceia.

– A paz esteja convosco!

– Oh! Jesus! Mestre!

As duas mulheres se viraram para saudá-lo, tendo uma nas mãos um belo peixe, que ela estava destripando, e a outra segurando ainda o caldeirão cheio de verduras, que estão sendo cozidas, e que ela tinha acabado de tirar do gancho para ver em que ponto estava o cozimento. Os rostos delas, tranquilos e cheios de rugas, aquecidos pelas chamas do fogo e pelo esforço no trabalho, estão sorridentes e alegres, parecendo terem-se tornado mais jovens e belos, pela felicidade que sentem.

– Daqui a pouco estará pronto, Jesus. Estás cansado? Deves estar com fome –diz a tia Maria com uma confiança de parenta, de quem ama Jesus, mais até do que aos seus próprios filhos.

– Não estou mais do que de costume. Mas certamente irei comer com prazer a boa comida que tu e Maria me preparastes. Creio que os outros farão a mesma coisa. Ei-los que já vêm chegando.

– A mamãe está no quarto de cima. Sabes!… Simão chegou… Oh! Eu estou completamente contente nesta tarde! Não. Completamente, não, porque… Tu sabes quando é que eu estaria completamente contente.

– Sim, Eu sei.

Jesus puxa para perto de Si a tia, e a beija na fronte. E depois diz:

– Eu sei qual é o teu desejo e qual a tua inveja que, sem pecado, tens de Salomé. Mas chegará o dia em que, como ela, poderás dizer: “Todos os meus filhos estão com Jesus.” 162.2Agora Eu vou à Mamãe.

Jesus sai, e sobe pela escadinha externa, chegando ao terraço, que está sobre a casa, cobrindo talvez a metade dela, enquanto a outra metade está ocupada por um vasto salão, do qual estão vindo as vozes grossas dos homens e, nos intervalos, a voz doce de Maria, a límpida voz virginal de menina, que os anos não conseguiram fazer desafinar, aquela mesma voz que pronunciou as palavras: “Eis aqui a escrava do Senhor”, e que depois cantou o canto de ninar para o seu Menino.

Jesus se aproxima, sem fazer barulho, sorrindo porque está ouvindo sua mãe dizer:

– A minha morada é o meu Filho. E não sinto pena por estar fora de Nazaré, a não ser quando Ele está longe. Mas, se estiver perto de mim… oh! nada mais me falta. E também não me preocupo pela minha casa. Porque aqui estais vós…

– Oh! Olha lá Jesus –grita Alfeu de Sara que, estando virado para a porta, é o primeiro a ver Jesus.

– Estou aqui, sim. A paz esteja com todos vós. Minha mãe!

Beija sua mãe na fronte, e por ela é beijado. Depois, vira-se para os hóspedes inesperados, que são o seu primo Simão, Alfeu de Sara, o pastor Isaque e aquele José, que tinha sido acolhido por Jesus em Emaús1, depois do veredito do Sinédrio.

– Nós tínhamos ido para Nazaré, mas Alfeu nos disse que precisava vir aqui. Então, viemos. E Alfeu quis acompanhar-nos, e Simão também –explica Isaque.

– Pareceu-me um sonho poder vir –diz Alfeu.

– E eu também queria te cumprimentar, estar um pouco contigo e com Maria –termina Simão.

– Eu estou muito contente por estar convosco. Fiz bem em não ficar mais tempo, como queriam os habitantes de Kedeque, onde Eu tinha chegado, quando fui de Guerguesa até o Meron, passando pelo outro lado.

– É de lá que estás vindo?

– Sim. Eu Me fiz ver nos lugares onde já tinha estado, e também em outros. Fui até Gíscala.

– Que caminhada!

– Mas também, que colheita! Sabes, Isaque? Fomos hóspedes do rabi Gamaliel. Ele foi muito bom. Depois, encontrei-me com o sinagogo de Águas Belas. Ele também vem. Entrego-o aos teus cuidados. E depois… adquiri três discípulos…

Jesus sorri abertamente, todo feliz.

– Quem são eles?

– Um velhinho, em Corozaim. Eu o ajudei por algum tempo, o pobrezinho, que é um verdadeiro israelita sem prevenções, para mostrar-me o seu amor, preparou para Mim toda a região, como um perfeito arador prepara o solo. O outro é um menino: tem cinco anos, ou pouco mais. É inteligente, corajoso. Também a ele Eu tinha falado, desde a primeira vez que fui a Betsaida, e ele se recordou disso melhor do que os grandes. O terceiro é um antigo leproso. Eu o curei perto de Corozaim, numa tarde, há já bastante tempo, e depois o deixei. Agora o reencontrei como meu anunciador nos montes de Neftali. E, para confirmar as suas palavras, ele costuma levantar os restos de suas mãos, curadas, mas parcialmente mutiladas, e mostra também os seus pés curados, ainda que deformados, com os quais ele anda por tantas estradas. O povo pode fazer uma ideia de quanto ele estava doente, ao vê-lo, e crê nas palavras dele, temperadas com suas lágrimas de reconhecimento. Para Mim foi fácil falar por lá, porque havia alguém que já me havia tornado conhecido, e persuadido os outros a crerem em Mim. Pude fazer muitos milagres. Tudo isso pode alcançar quem crê de verdade…

Alfeu concorda sem falar, concorda continuamente movendo a cabeça, enquanto Simão inclina a fronte, sob a repreensão que se subentende, e Isaque se alegra abertamente com a alegria do Mestre, que está para contar o milagre operado, pouco, antes sobre o neto de Eli.

162.3 A ceia já está pronta, e as mulheres, com Maria, preparam a mesa no grande salão, levando os pratos, e retirando-se depois para baixo. Ficam somente os homens, e Jesus faz o oferecimento, abençoa e distribui as partes.

Poucos bocados haviam sido consumidos, quando Susana sobe para dizer:

– Chegou Eli com seus servos e muitos presentes. Mas ele gostaria de falar contigo.

– Vou imediatamente. Ou melhor, faze-o subir.

Susana vai, e volta pouco depois com o velho Eli, acompanhado de dois servos que vêm trazendo um grande cesto. Atrás, as mulheres, menos a Virgem Maria, olham com curiosidade.

– Deus esteja contigo, meu Benfeitor –saúda o fariseu.

– E contigo também, Eli. Entra. Que queres? Ainda não está bem o netinho?

– Oh! Ele está muito bem. Pula no jardim como um cabrito. Mas eu estava tão atordoado, tão confuso, que acabei faltando com o meu dever. Quero mostrar-te a minha gratidão e peço-te que não recuses a ninharia que te ofereço. É um pouco de alimento para Ti e para os teus. São produtos dos meus campos. E depois… eu gostaria… eu gostaria de convidar-te amanhã à minha mesa. Para dizer-te de novo os meus agradecimentos e prestar-te uma honra, em meio aos meus amigos. Não recuses, Mestre. Senão, eu ficaria pensando que não me amas e que, se curaste Eliseu, foi só por amor a ele, não a mim.

– Eu te agradeço. Mas não eram necessários os presentes.

– Todos os grandes e doutos aceitam. É o costume.

– Eu também. 162.4Só que há um presente que Eu aceito de muito boa vontade e até procuro.

– Qual é? Dize-o. Se eu puder, te darei.

– O vosso coração. O vosso pensamento. Dai-me. Para o vosso bem.

– Mas eu tos consagro, Jesus bendito. Será que poderás duvidar disto? Eu tenho cometido… sim… tenho cometido injustiças para contigo. Mas agora compreendi. Fiquei sabendo também da morte de Doras, que te ofendeu… Por que é que estás sorrindo, Mestre?

– Porque eu estava me lembrando de uma coisa.

– Pensei que não estivesses acreditando no que estou dizendo.

– Oh! Não. Eu sei que ficaste comovido com a morte de Doras. Mais ainda do que com o milagre desta tarde. Mas, não tenhas medo de Deus, se realmente chegaste a compreender, e se realmente queres, de agora em diante, ser meu amigo.

– Vejo que és realmente um profeta. Eu, realmente, estava mais é com medo… e vinha a Ti mais por medo de um castigo igual ao de Doras do que pela desventura. Nesta tarde eu disse: “Aí está. O castigo chegou. E ainda mais atroz, porque veio ferir, não o velho carvalho em sua própria vida, mas em seu afeto, em sua alegria de viver, fulminando o meu carvalhinho, que me fazia feliz.” Cheguei a compreender que teria sido justo, como foi para Doras…” Chegaste a compreender que teria sido justo. Mas ainda não acreditavas em quem é bom.

– Tens razão. Mas agora não sou mais assim. Eu compreendi.

162.5 Irás, então, à minha casa amanhã?

– Eli, Eu havia resolvido partir amanhã, ao romper da aurora. Mas, para que não fiques pensando que Eu te desprezo, vou adiar um dia. Amanhã estarei em tua casa.

– Oh! És bom de verdade. Eu me lembrarei sempre disso.

– Adeus, Eli. Obrigado por tudo. Tuas frutas são muito bonitas, e estes pequenos queijos devem estar amanteigados, e o vinho deve ser ótimo. Mas tu podias dar tudo aos pobres em meu nome.

– Aí dentro, há também para eles, se assim queres. Está no fundo, por debaixo de tudo. A oferta era para Ti.

– Isto, então, vamos distribui-lo amanhã juntos, antes ou depois da refeição. Que a noite te seja agradável, Eli.

– E a Ti também. Adeus –e ele vai-se embora com os seus servos.

Pedro, que tirou tudo o que estava na cesta para poder entregá-la aos servos, revelando em seu rosto toda espécie de impressões, pega a bolsa e a põe sobre a mesa, diante de Jesus, e diz, como para terminar o seu discurso interior:

– Será esta a primeira vez que aquela velha coruja faz uma esmola.

– É verdade –confirma Mateus–. Eu era avarento, mas ele era mais do que eu. Dobrou as suas posses com a usura.

– Mas,… Se ele se corrige… É uma bela coisa, não e mesmo? –diz Isaque.

– É uma bela coisa, certamente. Parece que é mesmo –concordam Filipe e Bartolomeu.

– O velho Eli convertido! Ah! Ah!

Pedro ri com prazer.

162.6 O primo Simão, que ficou o tempo todo pensativo, diz:

– Jesus, eu gostaria… de acompanhar-te. Não como estes. Mas, pelo menos como as mulheres. Deixa que eu me una à minha mãe e à tua. Todos vão a Ti… e eu, eu que sou um parente… Não pretendo ter um lugar entre estes. Mas, pelo menos, como um bom amigo…

– Deus te abençoe, meu filho! Há quanto tempo eu esperava esta palavra de ti –grita Maria de Alfeu.

– Vem. Eu não rejeito a ninguém, nem forço ninguém. Também não exijo tudo de todos. Tomo o que me podeis dar. É bom que as mulheres não estejam sempre sozinhas, quando sairmos por regiões que, para elas, são desconhecidas. Obrigado, meu irmão.

– Eu vou contá-lo a Maria –diz a mãe de Simão.

E termina dizendo:

– Ela está lá em baixo, no seu quartinho, rezando. Ficará bem alegre com esta notícia.

162.7 … A tarde vem chegando rápida. Acende-se uma luz para se poder descer pela escada, que já está ficando escura com o crepúsculo, e uns vão para a direita, outros para a esquerda, descansar.

Jesus também sai, e vai para a beira do lago. A cidade está toda parada, as ruas desertas, como também a beira do lago, e o próprio lago está “despovoado”, nesta tarde sem luar. Só se vêem as estrelas no céu e só se ouve o barulho da ressaca espraiando-se na areia. Jesus entra na barca, que foi puxada para a beira, assenta-se, põe um braço sobre a borda, sobre ele inclina a cabeça, ficando assim. Não sei se Ele está pensando ou rezando.

Com muito cuidado, aproxima-se dele Mateus:

– Mestre, estás dormindo? –pergunta-lhe em voz baixa.

– Não. Estou pensando. Fica comigo, já que não estás dormindo.

– Parecias-me perturbado, e vim te acompanhando. Não estás contente com o trabalho de hoje? Tocaste o coração de Eli, adquiriste como discípulo Simão de Alfeu…

– Mateus, tu não és simples como Pedro e João. Tu és astuto, és instruído. Sejas também sincero. Sentir-te-ias feliz com estas conquistas?

– Mas…Mestre… Eles são sempre melhores do que eu, e Tu me disseste naquele dia, que estavas muito feliz por eu ter me convertido…

– Sim. Mas tu estavas realmente convertido. E eras sincero em tua evolução para o Bem. Vinhas a Mim sem todo aquele trabalho de pensamento, vinhas por vontade do teu espírito. Com Eli não é assim… nem com Simão. O primeiro foi tocado apenas na superfície: é o homem-Eli, que foi abalado. Não é o espírito-Eli. Aquele é sempre igual. Quando cair a efervescência que o milagre de Doras e do netinho produziu nele, será de novo o Eli de antes e de sempre. Simão!… Simão, ele também não é outra coisa senão um homem. Se me tivesse visto sendo insultado, em vez de exaltado, teria tido dó de Mim, mas teria me abandonado, como sempre. Nesta tarde, ele percebeu que um velhinho, um menino e um leproso sabem fazer o que ele, que é meu parente, não sabe; ele viu que o orgulho de um fariseu curvou-se diante de Mim, e decidiu: “Eu também.” Mas não são essas conversões, acontecidas sob o estímulo de considerações humanas, que me fazem feliz. Pelo contrário, elas até me aviltam. 162.8 Fica comigo, Mateus. No céu não há luar, mas pelo menos as estrelas estão brilhando. Em meu coração, nesta tarde, não há mais do que lágrimas. Que a tua companhia seja a estrela do teu aflito Mestre…

– Mas, Mestre, imagina só… se eu posso! É que eu sou um grande infeliz, sempre, um pobre inepto. Pequei demais, para que possa agradar-te. Não sei falar. Não sei ainda falar as palavras novas, puras, santas, agora que eu deixei a minha antiga linguagem de fraude e de luxúria. E tenho medo de que nunca seja capaz de falar contigo e sobre Ti.

– Não, Mateus. Tu és o homem com toda a tua penosa experiência de homem. És, pois, como alguém que, por ter comido lama, e comendo agora o mel celeste, podes dizer quais são os dois sabores e dar deles a verdadeira análise e compreender, compreender e fazer compreender aos teus semelhantes de agora e do futuro. Acreditarão em ti, porque de fato és o homem, o pobre homem que, por sua vontade, torna-se o homem, o homem justo sonhado por Deus. Deixa que Eu, o Homem-Deus, me apoie em ti, humanidade que Eu amo, a ponto de deixar o Céu por ti e morrer por ti.

– Não. Morrer, não. Não digas que morres por mim!

– Não por ti, Mateus, mas por todos os Mateus da terra e dos séculos. Abraça-me, Mateus, beija o teu Cristo, por ti e por todos. Alivia a meu cansaço de Redentor incompreendido. Eu te aliviei do teu cansaço de pecador. Enxuga o meu pranto… por ser assim tão pouco compreendido, Mateus, esta é que é a minha amargura.

– Oh! Senhor! Sim! Sim!…

E Mateus, sentado ao lado do Mestre, que ele cinge com um braço, consola-o com o seu amor…



1 em Emaús, no episódio de 140.4/6