562. 562. Boatos em Nazaré.
6 de fevereiro de 1947.
562.1– Eu vos digo que sois todos uns tolos por acreditardes em certas coisas. Tolos e ignorantes mais do que uns castrados, que não conhecem nem as regras do instinto, pois que eles são uns mutilados. Eles estão andando por toda parte, uns dizendo maldições contra o Mestre e outros dando umas ordens, que não podem vir do Deus verdadeiro, pela boca do Mestre. Vós não o conheceis. Mas eu o conheço. E não posso acreditar que Ele tenha mudado tanto! Nem que eles fiquem dando voltas por aí. Vós dizeis que eles são discípulos dele? E quem foi que os viu alguma vez com Ele? Vós dizeis que uns rabis e uns fariseus disseram quais são os pecados dele, ou que viram os seus pecados? Por acaso, já o ouvistes falar de coisas obscenas? Já o vistes em pecado? E então? E podeis pensar que, se Ele fosse pecador, Deus lhe concederia o poder de fazer obras tão grandes? Estultos, é como eu vos chamo. Estultos, atrasados, ignorantes como os vilões que, tendo visto pela primeira vez um histrião em uma feira, acreditam ser verdade o que ele apenas fingiu ser e fazer. Assim é que sois vós. Olhai se aqueles que são sábios e de boa visão intelectual se deixam seduzir pelas palavras dos falsos discípulos, que são os verdadeiros inimigos do Inocente, do nosso Jesus que vós não sois dignos de ter como filho! Olhai se Joana de Cusa — Ó! Vou dizer! A mulher do intendente de Herodes, a princesa Joana — se afasta de Maria! 562.2Olhai se… Será que eu faço bem em dizê-lo? Acho que sim! Eu faço bem porque não falo por falar, mas para persuadir a todos vós. Tereis visto, no mês passado, aquele carro tão bonito que chegou ao povoado e foi parar diante da casa da Maria? Estais sabendo disso? Aquele que tinha aquele toldo bonito, que chegou ao povoado e foi parar diante da casa da Maria? Lázaro de Teófilo, Lázaro de Betânia, estais entendendo? O filho do primeiro magistrado da Síria, o nobre Teófilo, casado com Euquéria, da tribo de Judá e da família de Davi, o mais rico e mais instruído homem de Israel, tanto em nossa história como na do mundo todo, o amigo dos romanos, o benfeitor de todos os pobres. E, enfim, o que foi ressuscitado da morte, depois de ter estado quatro dias no sepulcro. Será que ele abandonou Jesus para acreditar no Sinédrio? Vós dizeis que é porque o ressuscitou? Não. É porque ele sabe quem é o Cristo que é Jesus. E sabeis o que ele veio dizer a Maria? Que ficasse pronta, que ele a acompanharia de novo até à Judéia, ele mesmo. Ele, Lázaro, como se fosse o servo de Maria. Eu sei disso porque eu estava lá quando ele entrou e a saudou, prostrando-se sobre os pobres tijolos da salinha, ele, vestido como Salomão, afeito aos tapetes, e agora lá no chão, beijando a orla da veste de Nossa Senhora e saudando-a: “Eu te saúdo, ó Maria, Mãe do meu Senhor. Eu, teu servo, o último dos servidores de teu Filho, venho falar-te nele e pôr-me às tuas ordens.” Entendeis? Eu fiquei tão comovido… que, quando ela saudou também a mim, chamando-me de “irmão no Senhor”, eu não pude mais falar nem uma palavra. Mas Lázaro compreendeu. Porque ele é inteligente. Ele dormiu na cama de José, mandando à sua frente seus servos para que o esperassem em Séforis. Pois ele estava indo para suas terras em Antioquia. E disse às mulheres que estivessem prontas, porque lá pelo fim deste mês ele passará para levá-las, a fim de evitar o cansaço delas durante a viagem. E Joana vai unir-se à caravana com o seu carro para levar as discípulas de Cafarnaum e de Betsaida. 3E tudo isso não vos diz nada?
562.3Finalmente o bom Alfeu de Sara toma fôlego no meio de uma roda de homens que se formou no centro da praça. E Aser, com Ismael, e também os dois primos de Jesus, Simão e José — mais abertamente Simão e de modo mais reservado José — ajudam-no, aprovando tudo o que ele disse.
José diz:
– Jesus não é um bastardo. Se houver necessidade de saber alguma coisa, aqui há parentes dele prontos para agir como seus embaixadores. E há também discípulos fiéis e poderosos, como Lázaro. Lázaro nada falou sobre aquilo de que os outros falaram.
– E também nós, aqui estamos. Porque antes nós éramos condutores de burros, e tão burros como os nossos burros. Mas agora nós somos discípulos dele, e para dizer “Fazei isto ou aquilo” nós também somos capazes –diz Ismael.
– Mas a condenação que está pendente lá na porta da sinagoga foi trazida por alguém enviado pelo Sinédrio e traz o selo do Templo
–objetam alguns.
– Isto é verdade. Mas e daí? Nós, que temos em todo Israel a fama de sabermos entender o Sinédrio como ele realmente é, e por isso somos desprezados como menos bons, só por isso é que já iremos crer que o Templo é sábio? Será que não conhecemos mais, então, os escribas e os fariseus e os chefes dos sacerdotes? –replica o Alfeu.
– É verdade. Alfeu tem razão. 562.4Eu decidi descer até Jerusalém para saber dos verdadeiros amigos como vão indo as coisas. E o farei amanhã mesmo –diz José de Alfeu.
– E vais ficar lá?
– Não. Eu volto. Para depois descer até lá na Páscoa. Não posso ficar por muito tempo fora de casa. É um esforço que me imponho. Mas para mim é um dever fazê-lo. Eu sou o chefe da família e sobre mim cai a responsabilidade de Jesus estar na Judéia. Eu insisti1 para que Ele fosse lá… O homem falha em seus julgamento! Eu pensava que iria ser um bem para Ele. Mas, ao contrário… Deus me perdoe! Mas eu devo pelo menos acompanhar de perto as consequências do meu conselho para dar um alívio ao meu irmão –diz com seu vagaroso e pacato modo de falar José de Alfeu.
– Tempos atrás tu não falavas assim. Pois tu também foste seduzido pelas amizades dos grandes. Os teus olhos estão cheios de fumaça –diz um nazareno.
– Não são as amizades com os grandes que me seduzem, ó Eliaquim. Mas o que me preocupa é o modo de proceder do meu Irmão. Se me enganei e agora me arrependo, mostro que sou um homem justo. Porque errar é humano, mas ser teimoso é próprio do animal.
562.5– E dizes que Lázaro virá mesmo? Oh! Nós o queremos ver! Como é que alguém volta da morte? Ele deve estar desvairado, espantado. Que é que ele diz de sua estada entre os mortos? –perguntam muitos a Alfeu de Sara.
– Ele está como eu e vós. Está alegre, vivaz e tranquilo. Nada diz do outro mundo. É como se de nada se lembrasse. Mas ele se lembra de sua agonia.
– Por que não nos avisaste, quando ele estava no povoado?
– Ora! Para que invadisses a casa! Até eu me retirei. Um pouco de boa educação não faz mal, não é?
– Mas quando ele voltar, não se poderá vê-lo? Avisa-nos. Certamente tu serás, como sempre, o guarda da casa de Maria.
– Certamente! Eu tenho a sorte de ser vizinho dela. Mas eu não avisarei ninguém. Cuidai de vós mesmos. O carro é visto, e Nazaré não é Antioquia nem Jerusalém para deixar de ser observada uma tão grande multidão. Montai guarda e… contai convosco mesmo.
Mas isso é inútil. 562.6Esforçai-vos pelo menos para que a cidade não tenha uma fama de estulta, crendo nas palavras dos inimigos do nosso Jesus. Não creiais, não creiais! Nem em quem o chama de Satanás nem em quem vos provoca a agir em nome dele. Caso contrário, um dia teríeis remorso de tê-lo feito. Porque, se o resto da Galileía cair na armadilha e acreditar no que não é verdade, pior será para ela. Adeus. Eu vou indo, pois a tarde vem chegando.
E vai-se embora contente por ter defendido Jesus.
Os outros ficam discutindo. Mas ainda que estejam divididos em dois campos, o grupo mais numeroso é infelizmente o dos ingênuos, mas acaba prevalecendo a medida proposta por uns poucos amigos de Cristo, a de esperar para se agitarem, a aceitar as calúnias e convites à insurreição, quando o farão as outras cidades da Galileia que “por enquanto, mais astuciosas do que Nazaré, riem-se no rosto dos falsos embaixadores”, diz Aser, o discípulo.
1 insisti, em 478.5/11.
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