557. 557. Chegada, de Siquém, dos parentesdas três crianças arrancadas aos ladrões.


18 de janeiro de 1947.

557.1Jesus está sozinho na ilhazinha que está no meio da torrente. Sobre a margem, para lá da pequena torrente, os três meninos estão brincando e cochichando em voz baixa, para não perturbarem Jesus, que está meditando. De vez em quando, o menorzinho dá um pequeno grito de alegria, por ter achado uma pedrinha de cor bonita, ou então, alguma florzinha nova. Os outros dois o fazem calar-se, dizendo:

– Cala-te! Jesus está rezando…

Mas o cochicho continua, enquanto as mãozinhas morenas estão construindo com areia pequenos blocos e cones que, na imaginação das crianças, deveriam ser casas e montanhas.

Lá no alto o sol está brilhando e fazendo crescer, cada vez mais, os brotos nos galhos das árvores e fazendo que se abram os botões das flores nos prados. Os álamos deixam tremular suas folhas verde-cinzentas, e os passarinhos, bem no alto das copas, brigam uns com os outros, e às vezes terminam, ou com um canto, ou com um grito de dor.

Jesus está rezando. Sentado na grama, com uma moita de salgueiro servindo-lhe de anteparo entre Ele e o caminho da margem, está absorto em sua oração mental. De vez em quando, Ele levanta os olhos para observar os pequenos que estão brincando na grama. Depois, torna a baixá-los e se entrega de novo aos seus pensamentos.

557.2Um barulho de passos por entre as plantas da margem e a chegada imprevista de João na pequena ilha põem em fuga os passarinhos, que partem como flechas lá do alto do álamo, pondo fim às suas brigas com um grito de medo.

João não enxerga logo Jesus, que está escondido pelos salgueiros e, um pouco confuso, grita:

– Onde estás, Mestre?

Jesus se põe de pé, enquanto os três meninos gritam, da margem oposta:

– Ele está ali, atrás das plantas altas.

Mas João já viu Jesus e vai até Ele, dizendo:

– Mestre, chegaram os pais. Os pais dos meninos. E com muita gente de Siquém. Eles foram à casa de Malaquias. E Malaquias os guiou até chegarem à casa. Eu vim procurar-te.

– E Judas, onde está?

– Não sei, Mestre. Ele saiu logo depois que Tu vieste para cá e não voltou mais. Deve estar pela cidade. Queres que eu vá procurá-lo?

– Não, não é preciso. Fica aqui com os meninos. Eu vou falar antes com os parentes deles.

– Como quiseres, Mestre.

Jesus se vai, e João reúne os meninos e se põe a ajudá-los na grande empreitada de lançar uma ponte sobre um rio imaginário, feito com longas folhas de caniço colocadas sobre o chão que representam a água…

557.3Jesus entra na casa de Maria de Jacó, que está à porta esperando-O, e lhe diz:

– Eles subiram para o terraço. Eu os conduzi para lá, oferecendo-lhes um repouso. Mas eis que Judas vem chegando da cidade. Eu o esperarei, e depois irei preparar algum alimento para os peregrinos, que estão muito cansados.

Também Jesus está esperando Judas na entrada um pouco escura em comparação com a claridade lá de fora. Judas não vê logo a Jesus e, entrando, vai logo dizendo com arrogância à mulher:

– Onde estão os de Siquém? Será que já foram embora? E o Mestre? Ninguém o chama? João…

Então ele vê Jesus e muda de tom, dizendo:

– Mestre! Eu corri, quando fiquei sabendo por mero acaso… Tu já estavas em casa?

– João estava e foi me procurar.

– Eu… também teria ficado aqui. Mas lá na fonte alguns me pediram que lhes explicasse algumas coisas…

Jesus não lhe responde nada. Só abre a boca para saudar aqueles que o estão esperando, sentados, uns sobre as muretas do terraço e outros no quarto que se dá para ele. E, ao verem Jesus, se levantam em atenção a Ele.

Jesus, depois da saudação coletiva, saúda alguns pelo nome, com um espanto alegre por parte deles, que lhe dizem:

– Tu te lembras ainda dos nossos nomes?

Devem ser moradores de Siquém.

E Jesus lhes responde:

– Lembro-me de vossos nomes, de vossos rostos e de vossas almas. Viestes acompanhando os parentes dos meninos? São aqueles?

– São aqueles. Eles vieram para levá-los e nós nos unimos a eles para agradecer-te por tua piedade para com aqueles pequeninos, filhos de uma mulher da Samaria. Só Tu é que sabes fazer estas coisas!… Tu és sempre o Santo, que só faz obras santas. E nós sempre temos nos lembrado de Ti. E agora, ao sabermos que estavas aqui, viemos. Para ver-te e para dizer-te que te somos muito agradecidos por nos teres acolhido em teu refúgio e por nos teres amado nos filhos do nosso sangue. 557.4E agora escuta os parentes deles.

Jesus, acompanhado por Judas, se dirige a eles e os saúda novamente, convidando-os a falar.

– Nós, não sei se Tu sabes, somos os irmãos da mãe dos meninos. E estávamos muito irados com ela, porque estultamente, e contra o nosso conselho, ela quis aquelas núpcias infelizes. Nosso pai foi fraco para com a filha única de sua numerosa prole, tanto que nós ficamos irados também com ele, e por muitos anos houve silêncio entre nós e separação. Depois, sabendo que a mão de Deus estava pesando sobre a mulher, e que havia miséria na casa dela, porque uma união impura não tem a defesa da bênção divina, levamos de novo para nossa casa o velho pai, para que sentisse dor da miséria em que estava a mulher. Depois ela morreu. E nós ficamos sabendo. Tu havias passado, pouco tempo antes, e de Ti se estava falando entre nós… Por isso, vencendo o desprezo, oferecemos ao homem, por meio deste homem e deste outro (os dois de Siquém), de retirar as crianças. Eles eram sangue nosso, pela metade. Eu disse que, antes eles morressem todos de má morte do que viverem com o nosso pão. Não quisemos nem os meninos nem o corpo da irmã, nem isso, para que ela tivesse uma sepultura de acordo com os nossos ritos! E juramos ódio a ele e à sua descendência. E o ódio o feriu como uma maldição, a ponto de o fazer, de homem livre, um servo; e, de servo… um morto como um chacal em um covil fedorento. Nunca o teríamos sabido, porque havia muito tempo que tudo havia terminado entre nós.

557.5E tivemos muito medo, só isto, quando, oito noites atrás, vimos aparecer em nosso terreiro aqueles ladrões. E depois, ao sabermos por que é que haviam aparecido, sentimos ódio, e não mais dor, que nos mordeu com o seu veneno; e nos apressamos em despachar aqueles ladrões, oferecendo-lhes uma boa recompensa para tê-los como amigos, mas ficamos espantados ao ouvi-los dizer que já haviam sido pagos e que nada mais queriam.

Judas, de repente, rompe o silêncio de todos, dando uma risada irônica e gritando:

– A conversão deles! Total! De verdade!

Jesus olha para ele com um olhar severo, e os outros olham espantados para ele, e o que estava falando continua:

– E que podias esperar ainda deles? Já não é muito eles terem vindo, guiando o pastorzinho e desafiando os perigos, sem pedir pagamento? Em uma vida desgraçada, só podem ser também desgraçados os costumes. Certamente não foi grande a rapina feita ao tolo vagabundo que morreu. Não foi grande. E isso só basta a quem precisa deixar de depredar durante uns dez dias. E essa honestidade deles nos causou tanta admiração, mas tanta mesmo, que nós lhes perguntamos qual tinha sido a voz que lhes havia falado, aconselhando-os a terem tanta piedade. E assim ficamos sabendo que foi um rabi que lhes falou… Um rabi! Só podes ser Tu. Porque nenhum outro rabi de Israel poderia fazer o que fizeste. E quando eles foram embora, perguntamos melhor ao espavorido menino pastor e ficamos sabendo mais exatamente as coisas. No início, sabíamos somente que o marido de nossa irmã estava morto e que os meninos estavam em Efraim com um justo, e que Ele, como era justo, pois era um rabi, lhes havia falado, e logo pensamos que eras Tu. E tendo entrado, ao romper da aurora, em Siquém, consultamos estes, pois eles ainda não haviam decidido se iriam acolher os meninos. Mas eles nos disseram: “E então? Quereis dizer que foi em vão que o Rabi de Nazaré tratou com amor os meninos? Pois é certo que é Ele. Não duvideis. Vamos todos a Ele, isto sim, porque a sua benignidade é grande para com os filhos de Samaria.” E tendo programado os nossos trabalhos, viemos. 557.6Onde estão os meninos?

– Estão perto da torrente. Judas, vai dizer-lhes que venham.

E Judas se vai.

– Mestre, este é um duro encontro para nós. Eles nos fazem lembrar de todos os nossos cansaços, e nós ainda estamos em dúvida se os acolheremos. Eles são filhos do mais feroz dos inimigos que já tivemos no mundo.

– Eles são filhos de Deus. São inocentes. A morte anula o passado e a expiação consegue o perdão, até o de Deus. Quereis ser mais severos do que Deus? E mais cruéis do que os ladrões? E mais obstinados do que eles? Os ladrões queriam matar o pastorzinho e ficar com os meninos: aqueles por prudente defesa; e estes, por uma piedade humana para com os indefesos. O Rabi falou e eles não mataram, mas até concordaram em guiar o pequeno pastor até vós. Deverei Eu achar que fui derrotado pelos corações retos, tendo Eu evitado um delito?…

– É que… Somos quatro irmãos, e trinta e sete meninos já estão em nossa casa…

– Ora, onde encontram alimento trinta e sete passarinhos, porque o Pai do Céu os faz encontrar os grãozinhos, será que quarenta não os encontrarão? Será que o poder do Pai não poderá dar alimento a outros três, ou melhor, a quatro de seus filhos? Será que tem um limite essa divina Providência? Será que o Infinito vai ficar com medo de fecundar ainda mais as vossas sementes, as vossas plantas, as vossas ovelhas, a fim de que sejam sempre suficientes o pão, o óleo, o vinho, a lã e a carne para os vossos filhos e para quatro outros pobres meninos que ficaram sozinhos?

– São três, mestre!

– São quatro. O pastorzinho também é órfão. Poderíeis vós, se aqui Deus vos aparecesse, afirmar que é tão medido o vosso pão que não podeis matar a fome de um órfão? A piedade para com o órfão é ordenada pelo Pentateuco…

– Não o poderíamos, Senhor. É verdade. Não iremos ser inferiores aos ladrões. Daremos pão, vestes e alojamento também ao menino pastor. E por amor a Ti.

– Por amor. E tudo por amor. Amor a Deus, ao seu Messias, à vossa irmã, ao vosso próximo. Esta é a homenagem e o perdão que vós deveis dar ao vosso sangue! Não há de ser somente um frio sepulcro para recolher o pó deles. Porque do perdão vem a paz. Paz para o espírito do homem que pecou. Mas não seria mais do que um mentiroso perdão, uma coisa só para ser vista e que não traria nenhuma paz ao espírito da morta, que é irmã e mãe para vós e os meninos, se vós, à expiação justa, oferecida a Deus, quisésseis ajuntar o pecado, a fim de ter como um penoso tormento, o conhecimento que os filhos inocentes chegariam a ter do que aconteceu no passado e pelo qual estão agora pagando. A misericórdia de Deus é infinita. Mas uni a vossa à dele para dardes paz à morta.

– Oh! Nós o faremos! Faremos! A ninguém teria cedido o nosso coração, mas a Ti, sim, ó Rabi, que passaste um dia entre nós semeando uma semente que não morreu, e não morrerá.

– Assim seja! 557.7Eis os meninos…

Jesus os mostra na margem da torrente, virados para a casa. E os chama.

Eles deixam as mãos dos apóstolos e correm para Jesus, gritando: “Jesus! Jesus!” Depois entram, sobem pela escada, já estão no terraço, mas lá eles param assustados, diante de tantos estranhos que estão olhando para eles.

– Vem cá, Ruben, e tu, Eliseu, e tu, Isaque. Estes são os irmãos da vossa mamãe, e vieram para levar-vos, e para unir-vos aos seus filhos. Estais vendo como é bom o Senhor? É bom como aquele pombo de Maria de Jacó, que nós vimos anteontem, tomando na boca o filho, não o filho dele, mas do irmão dele que morreu. Ele vos recolhe, e vos dá estes para que cuidem de vós e não sejais mais órfãos. Vamos, saudai vossos parentes.

– O Senhor esteja convosco, senhores –diz timidamente o maior deles, olhando para o chão.

E os dois menores lhe fazem eco.

– Este é muito parecido com a mãe, e este também, mas este aqui (o maior) é a cara do pai –observa um dos parentes.

– Meu amigo, não creio que tu sejas tão injusto a ponto de fazer diferenças de amor só por uma semelhança de rosto –diz Jesus.

– Oh! Não. Isto não. Eu estava observando… estava pensando… Não gostaria que fosse parecido com o pai também no coração.

– É um menino ainda novo. E suas palavras tão simples mostram o seu amor pela mãe, bem mais vivo do que qualquer outro amor.

557.8– Ele cuidava deles mais do que pensávamos. Eles estão vestidos e bem calçados. Quem sabe se ele tinha ganhado a sorte grande…

– Eu e meus irmãos estamos com roupas novas porque Jesus nos vestiu. Não tínhamos nem calçados, nem mantos, e em tudo estávamos como o pastor, diz o segundo, que é menos tímido do que o primeiro.

– Nós te compensaremos por tudo, Mestre –responde um dos parentes.

E acrescenta:

– Joaquim de Siquém tinha as ofertas da cidade. Mas uniremos a estas mais dinheiro…

– Não. Eu não quero dinheiro. Eu só quero uma promessa. A vossa promessa de que tereis amor para com estes, que Eu arranquei das mãos dos ladrões… As ofertas… Malaquias, recebe-as para os pobres que tu conheces, e delas dá uma parte a Maria de Jacó, porque a casa dela é bem pobre.

– Como quiseres. Se forem bons, nós os amaremos.

– Nós o seremos, Senhor. Sabemos que é necessário sê-lo para podermos encontrar de novo a nossa mãe e subir de novo pelo rio até o seio de Abraão, e não tirar o cordel de nossa barca das mãos de Deus, a fim de não sermos levados embora pela correnteza do demônio –diz o Ruben, falando tudo sem tomar fôlego.

– Mas o que o menino está dizendo?

– Uma parábola minha, que ele ouviu. Eu a narrei para consolar o coração deles e dar um norte para o espírito deles. E os meninos se lembram dela e a aplicam em tudo o que fazem. Familiarizai-vos com eles, enquanto eu vou falar a estes de Siquém…

557.9– Mestre, ainda uma palavra! O que nos espantou nos ladrões foi o pedido para dizermos ao Rabi que tinha consigo os meninos, que os perdoasse pelo longo tempo levado para nem todos os caminhos estavam abertos para eles, e que a presença entre eles de um menino os impedia de fazer longas marchas pelos desfiladeiros selvagens.

– Estás ouvindo, Judas? –diz Jesus o Iscariotes, que nada responde.

Depois Jesus se separapara ficar só com os de Siquém, que lhe arrancam a promessa de uma visita, ainda que breve, antes do calor do verão. E contam a Jesus, ao mesmo tempo, coisas da cidade e como os curados de alma e de corpo se recordam dele.

Enquanto isso, Judas e João tentam confraternizar os meninos com os parentes deles.