97. 97. O chamado de Mateus.


4 de fevereiro de 1945.

[…].

97.1 Quase logo depois, vejo isto.

Ainda a praça da feira de Cafarnaum. Mas em uma hora mais quente, na qual a feira já acabou, e na praça estão apenas uns desocupados que conversam e alguns meninos que brincam.

Jesus, no meio do seu grupo, vem do lago em direção à praça, acariciando as crianças que correm ao seu encontro, e interessando-se por suas confidências.

Uma menina mostra um grande arranhão sangrando na fronte e acusa o irmãozinho de ter-lhe feito aquilo.

– Por que machucaste a tua irmã? Não está certo.

– Não fiz isso de propósito. Eu queria apanhar uns figos e peguei um pau. Mas ele era muito pesado e tombou em cima dela… Eu estava apanhando para ela também.

– É verdade, Joana?

– É verdade.

– Então, como estás vendo, teu irmão não quis te machucar. Ao contrário, queria dar-te uma alegria. Por isso, fazei logo as pazes, e beijai-vos um ao outro. Os bons irmãozinhos, e também as boas crianças, não devem conhecer nunca o rancor. Vamos….

As duas crianças chorosas se beijam. Choram as duas: ela, por causa da dor do arranhão, ele por lhe ter causado aquela dor.

Jesus sorri diante daquele beijo temperado com grandes lágrimas.

– Oh! Eis. Agora, vendo que sois bons, vou apanhar os figos para vós. E sem pau.

Claro! Alto como Ele é, e com o braço tão comprido, consegue fazer sem esforço. Colhe e os distribui.

Aproxima-se Dele uma mulher:

– Toma, Mestre. Estou te trazendo pão.

– Não. Não é para Mim. É para a Joana e o pequeno Tobias. Eles tinham vontade.

– E vós, incomodastes o Mestre por isso? Oh! Que indiscretos! Perdoa, Senhor.

– Mulher, era preciso fazer as pazes… e Eu as fiz com o próprio objeto da guerra: os figos. Mas os meninos não são nunca indiscretos. Os figos doces agradam a eles, e a Mim… agradam as suas doces almas inocentes. Elas me tiram tanta amargura…

– Mestre… são os senhores aqueles que não te amam. Mas nós, povo, te queremos bem. E eles são poucos, enquanto que nós somos muitos…

– Eu sei, mulher. Obrigado pelo teu conforto. A paz esteja contigo. Adeus, Joana! Adeus, pequeno Tobias! Sede bons. Sem vos machucardes e sem vos quererdes mal. Não é verdade?

– Sim, sim, Jesus! –respondem os dois pequeninos.

97.2 Jesus põe-se a caminho, e diz sorrindo:

– Oh! Agora que com a ajuda dos figos, tornou-se sereno onde havia nuvens, vamos para… Aonde achais que vamos?

Os apóstolos não sabem. Uns dizem um lugar, outros, outro. Mas Jesus sacode sempre a cabeça, e ri.

Pedro diz:

– Eu desisto. A não ser que Tu o digas… Hoje estou com umas ideias funestas. Tu não o viste. Mas, quando desembarcávamos, estava lá Eli, o fariseu. Mais esverdeado que de costume. E olhava para nós de um jeito!

– Deixa-o olhar!

– É. Forçosamente! Mas te asseguro Mestre, que para fazer as pazes com aquele ali, não bastam dois figos!

– Que foi que Eu disse à mãe do pequeno Tobias? “Fiz as pazes com o próprio objeto da guerra.” E assim procurarei fazer as pazes, reverenciando os notáveis de Cafarnaum, posto que, no entender deles, os ofendi. Assim também mais alguém vai ficar contente.

– Quem?

Jesus não responde à pergunta, e continua:

– Não conseguirei, provavelmente, porque falta neles a vontade de fazer as pazes. Mas escutai: se, em todas as contendas o mais prudente soubesse ceder e, em lugar de obstinar-se em ter razão, se conciliasse, talvez partindo pela metade aquilo que, também quero admitir, fôsse seu por direito, seria sempre melhor e mais santo. Nem sempre um prejudica o outro, por ter tomado a resolução de prejudicar. Às vezes faz mal sem querer. Pensai sempre nisso e perdoai. Eli e os outros acham que estão servindo a Deus com justiça, agindo como fazem. Com paciência e constância e tanta humildade e amabilidade, Eu procurarei persuadi-los que chegou um novo tempo, e que Deus, agora, quer ser servido, segundo o que Eu ensino. A esperteza do apóstolo é a amabilidade, a arma a constância, o êxito do seu trabalho depende do bom exemplo e da oração por aqueles que haverão de converter-se.

97.3 Chegaram à praça. Jesus vai direto para a banca dos impostos, onde Mateus está fazendo as suas contas e verificando as moedas, que ele separa conforme os valores, colocando-as em saquinhos de cores diferentes e pondo-as num cofre de ferro, que dois servos estão esperando para o levarem a outro lugar.

Mal a sombra lançada pelo corpo alto de Jesus se projeta sobre a banca, Mateus levanta a cabeça para ver quem é o pagador retardatário. Pedro, entretanto, puxando Jesus por uma manga, lhe diz:

– Não temos nada que pagar Mestre. Que fazes aqui?

Mas Jesus não lhe dá atenção. Olha fixo para Mateus, que de repente se pôs de pé, em ato reverente. Um outro olhar penetrante. Mas este não é o olhar do juiz severo da outra vez. É um olhar de chamado e de amor. É um olhar que o envolve, o satura de amor. Mateus fica vermelho. Não sabe o que fazer, o que dizer…

– Mateus, filho de Alfeu, chegou a hora. Vem. Segue-me! –impõe Jesus majestosamente.

– Eu? Mestre, Senhor! Mas, sabes quem eu sou? Eu digo isto por Ti, e não por mim….

– Vem. Segue-me, Mateus, filho de Alfeu –repete com mais doçura.

– Oh! Como posso eu ter achado graça junto a Deus? Eu… Eu….

– Mateus, filho de Alfeu, Eu li o teu coração. Vem, segue-me.

O terceiro convite é uma carícia.

– Oh! Imediatamente meu Senhor! –e Mateus, chorando, sai detrás da banca, sem nem mesmo ocupar-se em recolher as moedas espalhadas sobre a banca, em fechar o cofre. Nada.

– Onde vamos, Senhor? –pergunta ele ao chegar perto de Jesus–. Onde me levas?

– À tua casa. Queres hospedar o Filho do homem?

– Oh! Mas… mas… que irão dizer aqueles que te odeiam?

– Eu ouço o que se diz no Céu, e lá se diz: “Glória a Deus por um pecador que se salva!”, e o Pai diz: “Em eterno a Misericórdia se levantará nos Céus, e pairará sobre a terra, e, visto que Eu te amo com um eterno e perfeito amor, também para contigo uso de Misericórdia.” Vem, e com a minha chegada, além do teu coração, fique santificada também a tua casa.

– Já a purifiquei, por uma esperança que eu tinha em minha alma… mas que minha razão não podia crer que fôsse verdade… Oh! Eu com os teus santos! –e olha os discípulos.

– Sim. Com meus amigos. Vinde. Eu vos uno. E sede irmãos.

Os discípulos estão de tal modo estupefatos, que ainda não encontraram um jeito de dizer uma palavra. Caminharam em grupo atrás de Jesus e de Mateus pela praça cheia de sol, e já absolutamente vazia, por um curto trecho de estrada, debaixo de um sol ofuscante. Pelas estradas não há viva alma. Só o sol e a poeira.

97.4 Entram em casa. Uma bonita casa com um portão largo que se abre para a estrada. Um belo átrio, sombreado e fresco, além do qual se vê um amplo pátio ajardinado.

– Entra, meu Mestre! Trazei água e bebidas.

Os servos acorrem com o que foi pedido. Mateus sai para dar ordens, enquanto Jesus e os seus se refrescam. Depois volta.

– Vem agora, Mestre. A sala é mais fresca… Os amigos já vão chegar… Oh! Quero que se faça uma grande festa! É a minha regeneração… É a minha… esta é a minha verdadeira circuncisão… Tu me circundaste o coração com o teu amor… Mestre, será a última festa… Daqui em diante não haverá mais festas para o publicano Mateus. Não haverá mais festas deste mundo… Somente a festa interior por ter sido redimido e poder servir-te… por ser amado por Ti… Quanto eu chorei… Quanto, nestes meses… São quase três meses que choro… Eu não sabia como fazer… eu queria ir… Mas como ir a Ti, Santo, com a minha alma suja?…

– Tu a estavas lavando com o arrependimento e a caridade. Caridade para Comigo e para com o próximo. Pedro, vem aqui.

Pedro, que ainda não falou de tanto que está assombrado, vem para a frente. Os dois homens igualmente idosos, de baixa estatura, robustos, estão um à frente do outro, e entre eles, Jesus, sorridente, bonito.

– Pedro, tu me tens perguntado tantas vezes quem era o desconhecido daquela bolsa levada por Tiago. Ei-lo, ei-lo à tua de frente!

– Quem? Este ladr… Oh! Perdoa-me, Mateus! Mas, quem poderia pensar que eras tu? E justamente tu, o nosso desespero por causa da tua usura, fosses capaz de arrancar todas as semanas um pedaço do teu coração, dando aquele rico óbolo?

– Eu sei. Eu cobrei de vós taxas injustas. Mas eis, eu me ajoelho diante de todos vós, e vos digo: Não me rejeiteis! Ele me acolheu. Não sejais mais severos do que Ele.

Pedro, a cujos pés se encontra Mateus, o levanta de repente, com o seu peso todo, de um modo rude mas afetuoso:

– Vamos, vamos! Não a mim, nem aos outros. A Ele pede perdão. Nós… olha lá… somos, uns mais outros menos, todos ladrões, como tu… Oh! Que foi que eu disse! Maldita língua! Mas eu sou assim: aquilo que penso eu digo, aquilo que tenho no coração tenho sobre os lábios. Vem, vamos fazer um pacto de paz e de amor –e beija Mateus nas faces.

Os outros também fazem o mesmo, mais ou menos afetuosamente. Digo assim, porque André é reservado por causa da sua timidez, e Judas Iscariotes é frio. Parece que está abraçando um feixe de répteis, pelo modo como o seu abraço é afastado e rápido.

97.5 Mateus ouve um barulho e sai.

– Mas, Mestre –diz Judas Iscariotes–, parece-me que isso não é prudente. Já te acusam os fariseus daqui, e Tu… Um publicano entre os teus! Um publicano depois de uma meretriz!! Decidiste arruinar-te? Se é assim, diz que…

– Que nós vamos embora, não é mesmo? –termina Pedro, irônico.

– E quem é que está falando contigo?

– Eu sei que tu não estás falando comigo, mas eu, ao invés, estou falando com a senhora tua alma, com a tua puríssima alma, com a tua sábia alma. Sei que tu, membro do Templo, sentes o fedor do pecado em nós, pobres, que não somos do Templo. Eu sei que tu, completo judeu, amálgama de fariseu, saduceu e herodiano, meio escriba e uma migalha de essênio — queres outras dessas nobres palavras? — te sentes mal entre nós, como um esplêndido sável, caído em uma rede cheia de lambaris. Mas, que é que queres fazer? Ele nos pegou, e nós… aqui ficamos. Se te sentes mal… vai embora tu. Todos nós respiraremos melhor. Também Ele que, não o estás vendo? Foi desdenhado por mim e por ti. Por mim, por minha falta de paciência e também… sim, também de caridade, mas mais por ti, que não entendes nada, com todo este teu cartaz de nobres atributos, e que não tens caridade, nem humildade, nem respeito. Não tens nada, rapaz. Mas só uma grande fumaça… e queira Deus que seja fumaça inócua.

Jesus deixou que Pedro falasse, permanecendo em pé, severo, com os braços cruzados, a boca bem fechada e os olhos… pouco convidativos. Finalmente diz:

– Disse tudo, Pedro? Também tu limpaste o teu coração do fermento que estava dentro? Fizeste bem. Hoje é a Páscoa dos Ázimos para um filho de Abraão. O chamado de Cristo é como o sangue do cordeiro sobre as vossas almas, e onde esse está não descerá mais a culpa. Não descerá se aquele que o recebe, a ele for fiel. Libertador é o meu chamado e é festejado sem fermentos de espécie alguma.

A Judas não diz uma palavra. Pedro cala-se, mortificado.

– Nosso hospedeiro está de volta –diz Jesus–. E com os seus amigos. Não mostremos a eles outra coisa senão virtudes. Quem não conseguir fazer assim, que saia. Não sejais como os fariseus, que oprimem com ordens que eles são os primeiros a não observar.

97.6 Mateus reentra com outros homens, e o banquete começa. Jesus está no centro, entre Pedro e Mateus. Falam de muitas coisas, e Jesus explica, com paciência, a este e àquele o que eles querem saber. Há também queixas contra os fariseus, que os desprezam.

– Pois bem, vinde a quem não vos despreza. Depois, agi de modo que, ao menos, os bons não vos possam desprezar –responde Jesus.

– Tu és bom. Mas estás sozinho!

– Não. Estes são como Eu e, além disso… está Deus Pai, que ama a quem se arrepende e quer tornar-se seu amigo. E, se faltasse ao homem tudo, mas ficasse o Pai, não seria já plena a alegria do homem?

O banquete está na sobremesa, quando um servo faz um sinal ao dono da casa e lhe diz qualquer coisa.

– Mestre, Eli, Simão e Joaquim estão pedindo para entrar e falar a Ti. Queres vê-los?

– Certamente.

– Mas… os meus amigos são publicanos.

– E eles vieram justamente para verem isto. Deixemos que vejam. Não seria proveitoso escondê-lo. Não seria proveitoso para o bem, porque o mal aumentaria o episódio até dizer que aqui também estavam meretrizes. Que eles entrem.

97.7 Os três fariseus entram, olham em torno com um sorriso maldoso, prontos para falar.

Mas Jesus, que se levantou e foi ao encontro deles junto com Mateus, os precede. Coloca uma mão sobre o ombro de Mateus e diz:

– Ó verdadeiros filhos de Israel, Eu vos saúdo, e vos dou uma grande notícia, que certamente fará jubilar o vosso coração de perfeitos israelitas, que suspiram pela observância da Lei por parte de todos os corações para dar glória a Deus. Eis: Mateus, filho de Alfeu, a partir de hoje não é mais o pecador, o escândalo de Cafarnaum. Uma ovelha sarnenta de Israel ficou curada. Jubilai! Atrás dele, outras ovelhas pecadoras serão curadas e a vossa cidade, por cuja santidade tanto vos interessais, tornar-se-á agradável ao Senhor, como santa. Ele deixa tudo para servir a Deus. Dai o beijo de paz no israelita desviado, que volta ao seio de Abraão.

– E volta com os publicanos? Em alegre banquete? Oh! É verdade que é uma conversão propícia! Olha lá, Eli, aquele é o Josias, o procurador de mulheres.

– E aquele é o Simão de Isaque, o adúltero.

– E aquele? É o Azarias, o dono da casa de jogo, na qual romanos e judeus jogam, brigam, se embriagam e vão às mulheres.

– Mas, Mestre, sabes, ao menos, quem são estes? Já o sabias?

– Eu sabia.

– E vós, então, vós de Cafarnaum, vós discípulos, por que o permitistes? Fico pasmado, Simão de Jonas!

– E tu, Filipe, também conhecido aqui, e tu, Natanael! Mas eu me admiro! Tu, um verdadeiro israelita! Como podias ter permitido que o teu Mestre comesse com os publicanos e os pecadores?

– Mas então não há mais freio em Israel.

Os três estão completamente escandalizados.

Jesus diz:

– Deixai em paz os meus discípulos. Fui Eu quem quis. Somente Eu.

– É! Certo! Compreende-se. Quando se quer parecer santos sem o ser, logo se cai em erros imperdoáveis!

– E quando os discípulos são educados na falta de respeito — e ainda me queima a risada irreverente daquele judeu do Templo, a mim Eli, o fariseu — não se pode esperar senão falta de respeito à Lei. Ensina-se o que se sabe.

– Estás enganado, Eli. Estais todos enganados. Ensina-se aquilo que se sabe. É verdade. E Eu, que sei a Lei, a ensino a quem não a sabe: aos pecadores, portanto. Vós… Eu sei que sois donos de vossa alma. Os pecadores não o são. Eu vou em busca da alma deles, restituo-a a eles, para que eles tornem a trazê-la a Mim, assim como está: doente, ferida, suja, e Eu a cure e limpe. Eu vim para isso. São os pecadores que precisam do Salvador. E Eu venho para salvá-los. Compreendei-me… e não me odieis sem razão.

Jesus é doce, persuasivo, humilde… Mas os três são três cardos eriçados e cheios de espinhos… e saem com sinais de desgosto.

– Foram embora… Agora vão criticar-nos por toda parte, murmura Judas Iscariotes.

– Deixa que o façam! Age apenas de maneira que o Pai não tenha o que criticar em ti. Não fiques mortificado, Mateus, nem vós seus amigos. A consciência nos diz: “Não façais o mal.” E isto basta.

Jesus torna a sentar-se em seu lugar e tudo termina.