401. 401. Pedro e Bartolomeu em Beterpor um grave motivo. Êxtase da escritora.


13 de março de 1946.

401.1 Jesus está passeando pelos pequenos bosques de roseiras, onde é ativo o trabalho dos colhedores. Assim Ele acha oportunidade para falar de uma coisa e de outra, até com a mulher viúva e os seus filhos, que Joana, em seu amor, acolheu como serva, no tempo da Páscoa, depois do banquete que foi dado aos pobres. Eles nem parecem mais aqueles. Renovados, serenos, fazem o seu trabalho com alegria, cada um conforme sua capacidade, e os mais pequeninos que não sabem nem distinguir uma rosa da outra, pela cor, pelo frescor, pela qualidade, brincam com outros pequenos nos lugares mais tranquilos, e os seus gritinhos de filhos da raça humana se confundem com os dos pipiadores, ainda implumes, que estão nos ninhos e soltam pios estridentes, por entre as copas das árvores, para saudarem os seus pais, que estão de volta com um bom bocado para os seus bicos.

Jesus se dirige para essas pequenas ninhadas humanas, e se inclina, se interessa, acaricia, desfaz pequenas brigas, ajuda quem caiu e está choramingando a levantar-se todo sujo de terra, com a fronte e as mãozinhas arranhadas pelo chão. E os choros, as brigas, os ciúmes cessam num instante, devido à carícia e à palavra do Inocente aos inocentes, e se transformam talvez na oferta que lhe fazem do objeto que foi causa da briga ou da queda, a saber, por exemplo, um besouro dourado ou uma pedrinha colorida ou brilhante, uma flor que foi apanhada… Jesus está com as mãos e a cintura já cheias delas, e não se deixa ver, quando vai soltando os besouros e outros coleópteros sobre as folhas, devolvendo-os à liberdade.

Quantas vezes eu já tenho notado o perfeito tato de Jesus para tratar até com os pequenos, a fim de não humilhá-los e para não decepcioná-los. Ele tem a arte e o fascínio para saber melhorá-los, e fazer-se amar com qualquer coisinha pequena na aparência, mas que na realidade mostra a perfeição do amor adaptado à pequenez da criança.

Como a Mim. 401.2Oh! Ele sempre me tratou como um “pequeno”, a fim de melhorar-me em minha miséria, para fazer-se amar. Depois, quando eu o amei com toda mim mesma, Ele me apertou a mão, tratou-me como adulta, e ficou surdo às minhas súplicas: “Mas, não estás vendo que eu não sou boa para nada?” Ele sorriu, e me obrigou a fazer obras de adultos… Oh! somente quando a pobre Maria está mesmo muito aflita, é que Ele torna a ser o Jesus dos meninos para minha pobre alma tão incapaz, e se contenta com… os meus escaravelhos, pedrinhas, florzinhas… que eu consigo dar-lhe… e me dá a entender que acha todas aquelas coisas bonitas… e que Ele me ama, porque eu sou “o nada que se lhe confia, e se perde no Tudo.”

Querido é o meu Jesus! Amado, amado até a loucura! Amado com toda mim mesma! Sim, eu o posso proclamar! Na véspera do meu 49º aniversário, examinando atentamente, na véspera da sentença humana sobre a minha obra como porta-voz, perscrutando atentamente o meu espírito e toda mim mesma, a fim de decifrar as verdadeiras palavras que lia em mim, eu posso dizer, agora, que eu amo e compreendo que amo ao meu Deus com toda mim mesma. Tive que esperar 48 anos para chegar a este amor total, tão total, que não lia nem um pensamento de temor pessoal, na previsão de uma condenação, mas apenas uma angústia pela repercussão que ela poderia ter sobre almas que eu levei para Deus, e que estão convictas de terem sido redimidas por Jesus que vive em mim, e que se separariam da Igreja, que é um anel de conjunção entre a humanidade e Deus.

Dirão alguns: “Não te envergonhas de ter-nos detido tanto tempo?” Não. Na verdade, não. Eu me sentia tão fraca, como um nada, que vos detive todo esse tempo. E, afinal, eu estou convicta de que vos detive exatamente o tanto de tempo que Jesus quis, nenhum um minuto a mais, nenhum a de menos, porque isso eu posso dizer: desde quando eu comecei a compreender o que é Deus, nunca mais recusei nada a Deus. Desde quando, com a idade de quatro anos, eu o percebia tão onipresente, que eu o cria presente até na madeira da pequena cadeira em que eu estava sentada, e lhe pedia desculpas por lhe estar virando as costas, e por me estar apoiando nele, desde quando, ainda aos quatro anos, até durante o sono, eu meditava que os nossos pecados o haviam ferido e matado, e me punha em pé na cama, suplicando, em meu camisolão de dormir, sem ficar olhando para nenhum quadro religioso, mas dirigindo-me ao meu Amado, que foi morto por nós, e suplicando-lhe: “Eu, não! Eu não! Faze-me morrer, mas não digas que eu te feri!” Eia!

Tu bem conheces, ó Amor meu, os meus ardores. Nenhum deles te é desconhecido. Tu sabes que somente o sinal de uma tua proposta imediatamente era aceito pela tua Maria. Mesmo se me propunhas que eu te desse o amor de noiva — e até, justamente naquele tempo, no Natal de 21, é que se firmou o meu amor por Ti —, o amor dos pais, a vida, a saúde, a comodidade… e de me tornar cada vez mais um nada na vida social, um resto que o mundo olha com compaixão, ou com escárnio, uma que não pode tomar um copo d’água, quando está com sede e não tem quem lho dê, uma que está pregada como Tu, como Tu, e como tanto desejei estar, e como eu gostaria tanto de tornar a ficar, se Tu me amasses. Tudo! O nada deu tudo, o seu tudo como criatura… Pois bem, até agora, que eu posso ser julgada mal e interdita, ferida, que é que eu te digo? “Deixa-me a Ti, a tua Graça. Tudo o mais nada é. Somente te peço que não me tires o teu amor, e não permitas que aqueles que eu te dei caiam de novo nas trevas.”

Mas, por onde foi que eu estive andando, ó meu Sol, enquanto Tu ficas dando voltas pelos roseirais? Leva-me para onde o meu coração, que está sujeito a Ti, me leva. E palpita, e incendeia o sangue em minhas veias. E as pessoas dirão: “Ela está com febre e taquicardia!” Não. É que nesta manhã Tu te derramas em mim com a força de um divino furacão de amor. E eu… eu me anulo em Ti, que me penetras, e não consigo entender mais como criatura, mas experimento o que deve ser o modo de viver dos serafins… e ardo, e deliro, e te amo, te amo muito. Tem piedade em teu amor. Piedade, se queres que eu viva ainda para servir-te, ó Amor diviníssimo, eterno, ó Amor dulcíssimo, ó Amor dos Céus e das Criaturas, em tudo ó Amor de Deus…

Mas, não! Não piedade, mas, mais ainda. Até a morte, na fogueira do Amor! Unamo-nos! A fim de que estejamos no Pai, como Tu disseste, ao orares por nós: “Estejam (aqueles que te amam) onde Nós estamos. Uma só coisa.” Uma só coisa! Aí está uma das palavras do Evangelho que sempre me fizeram meditar em um abismo de adoração amorosa. Que foi que pediste para nós, ó meu Divino Mestre e Redentor? Que foi que pediste, ó meu Divino louco de amor! Que nós sejamos uma só coisa contigo com o Pai, com o Espírito Santo, pois quem está em Um, está nos Três, o indivisível e, contudo, livre Trindade do Deus Uno e trino! Bendito! Bendito! Bendito, com todas as minhas palpitações e respiros!…

401.3 Mas, continuemos a visão, pois que estou vendo vir para a frente, em passos rápidos, de tal modo que suas vestes se agitam, como uma vela sacudida pelo vento, Pedro, seguido por Bartolomeu, que anda com mais calma. Esbarra nas costas do Mestre, que está inclinado, acariciando aos que ainda estão mamando, certamente filhos das colhedoras, colocados sobre pequenos colchões, tomando a aragem, à sombra das plantas.

– Mestre!

– Simão! Como estás aqui? E tu, Bartolomeu? Devíeis partir amanhã de tarde, depois do pôr-do-sol de sábado…

– Mestre, não nos censures. Ouve-nos, antes…

– Eu estou ouvindo. E não vos censurarei só porque acho que tenhais desobedecido, mas por algum grave motivo. Garanti-me somente que nenhum de vós está doente ou ferido.

– Não, não, Senhor. Nenhum mal nos sobreveio –apressa-se a dizer Bartolomeu.

Mas Pedro, sempre sincero e impetuoso, diz:

– Hum! Por mim eu digo que melhor seria, se estivéssemos todos com as pernas quebradas, e talvez a cabeça quebrada, do que…

– Que foi que aconteceu, então?

– Mestre, pensamos que era melhor virmos, para pôr fim a… –vai dizendo Bartolomeu, quando Pedro o interrompe:

– Mas, fala mais depressa!

E termina:

– Judas se tornou um demônio, desde que Tu partiste. Não podia mais falar, não raciocinava mais. Brigou com todos… E escandalizou a todos os servos de Elisa e mais outros…

– Talvez se tenha enciumado por teres tomado Simão contigo…

–diz Bartolomeu, vendo que o rosto de Jesus fica muito severo.

– Que ciúme, nada! Deixa de ficar desculpando-o! … Ou então, eu vou brigar contigo, para desforrar-me por não ter podido brigar com ele… Porque, Mestre, eu consegui calar-me! Pensa só consegui calar-me! Justamente por obediência e por amor a Ti … Mas, que canseira! Bem. Em certo momento em que o Judas se afastou de lá, e saiu batendo as portas, resolvemos reunir-nos e trocar ideias… e pensamos que era melhor partir de lá, para pormos um fim no escândalo em Betsur e… evitar que fosse preciso pegá-lo, e dar-lhe umas bofetadas. Então, eu e Bartolomeu partimos logo. Eu pedi aos outros que me deixassem partir logo, antes que ele voltasse, porque… porque eu percebia que não me conteria mais… É isto o que eu disse. Agora, podes censurar-me, se te parece que eu errei.

– Fizeste bem. Todos fizestes bem.

– Judas também? Ele, não, meu Senhor. Nem o digas! Ele deu um espetáculo feio!

– Não. Ele não fez bem. Mas, não o julgues, tu.

– … Não, Senhor…

Aquele “não” foi proferido com muito esforço.

401.4 Um silêncio. E logo o Pedro perguntou:

– Mas, pelo menos, por que Judas terá ficado daquele jeito assim, de repente? Ele parecia já ter ficado bom. As coisas iam indo tão bem. Eu havia feito orações e sacrifícios, para que aquilo fosse duradouro… Pois não te posso ver aflito. E Tu ficas aflito, quando nós agimos mal… E, desde as Encênias, eu fiquei sabendo que até o sacrifício de uma colher de mel tem valor… Mas foi preciso que mo ensinasse1, com todas as minhas forças, assim como está mandado. E agora compreendo também isso, e o digo também, como o diz sempre João o nosso anjo, e eu te peço (e se ajoelha aos pés de Jesus) que aumente o amor no teu pobre Simão, para que aumente o meu amor a Ti, ó meu Deus.

E Pedro se inclina para beijar os pés de Jesus, e fica naquela posição. Bartolomeu, que o ouviu, admirado e com os mesmos sentimentos, o imita.

– Levantai-vos, meus amigos. O meu amor cresce sempre em vós, e crescerá sempre mais. E, sede benditos pelo coração que tendes. 401.5Quando virão os outros?

– Antes do pôr-do-sol.

– Está bem, Também Joana, com Elisa e com Cusa, voltarão antes do pôr-do-sol. Passaremos o sábado aqui, e depois partiremos.

– Sim, Senhor. Mas, para que foi que a Joana te chamou com tanta urgência? Não podia ela esperar? Estava marcado que viríamos para cá. Com a sua imprudência, causou uma bela coisa!

– Não a reproves, Simão do Jonas. Ele agiu por prudência e por amor. Ela me chamou porque havia almas que precisavam ser fortalecidas na boa vontade.

– Ah! Então, não falo mais… Mas, Senhor, por que foi que Judas se alterou daquele jeito?

– Não fiques pensando nisso! Não penses. Alegra-te com este Éden, todo flores e paz. Alegra-te com o teu Senhor. E deixa, esquece-te da humanidade em todas as suas formas, em seus assaltos sobre o espírito de teu pobre companheiro. Lembra-te somente de rezar por ele, muito, muito mesmo. Vinde. Vamos àqueles pequenos, que estão olhando, espantados, para nós. Eu lhes estava falando de Deus, há pouco, de uma alma para outra, com amor, e aos maiorzinhos sobre as belezas de Deus…

E abraça pela cintura os seus dois apóstolos, dirigindo-se para um círculo de meninos, que o estão esperando.

2 Mas foi preciso que mo ensinasse…, em 311.3/5.
1 a minha alma, ao invés de a tua alma, é a transcrição correta datilografada; como está mandado, em Deuteronômio 6,5; como o diz sempre João, de modo especial em 149.6.


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