339. 339. A noite pecaminosa de Judas Iscariotes.
23 de novembro de 1945.
339.1 Uma bela aurora de primavera torna o céu rosado e aprazíveis colinas. Os discípulos se alegram uns com os outros, enquanto estão reunidos na entrada do povoado, à espera dos retardatários.
– É o primeiro dia sem fazer frio depois da saraivada –diz Mateus, esfregando as mãos.
– Bem que já seria tempo dele chegar! Já estamos na Lua nova de Adar! –exclama André.
– Bem! Bem! Se tivéssemos que andar pelos montes com o frio dos dias passados!… –comenta Filipe.
– Mas, aonde iremos depois? –pergunta André.
– Quem sabe… Daqui se vai a Sefet ou a Meron… Mas depois? –lhe responde Tiago de Zebedeu
E se vira para perguntar aos dois filhos do Alfeu:
– Vós Sabeis para onde vamos?
– Jesus nos disse que quer ir para o norte. Nada mais –diz lacônico Judas de Alfeu.
– Outra vez? Na próxima Lua devemos começar a peregrinação da Páscoa… –diz Pedro, não muito entusiasmado.
– Faremos mais que a tempo –replica-lhe Tadeu.
– Sim. Mas nenhum repouso em Betsaida…
– Com certeza passaremos por lá, para levarmos as mulheres e Marziam –responde Filipe a Pedro.
– O que eu vos peço é que não vos mostreis aborrecidos, sem vontade ou coisa semelhante. 339.2Jesus está muito aflito… Ontem de tarde Ele estava chorando. Eu o encontrei chorando, enquanto nós estávamos preparando a ceia. Ele não estava rezando lá fora no terraço, como nós pensávamos. Mas estava chorando –diz João.
– Por quê? Tu lhe perguntaste? –perguntam todos.
– Sim. Mas Ele só me disse: “Ama-me, João.”
– Talvez seja por causa dos de Corozaim.
O Zelotes, que está acabando de chegar, diz:
– O Mestre está aqui e vem vindo com Bartolomeu. Vamos ao encontro dele.
E eles lá se vão, mas continuam o seu assunto.
– Talvez seja por causa de Judas. Ontem de tarde, eles dois tinham ficado sozinhos… –diz Mateus.
– É verdade. E Judas havia declarado antes que estava inquieto e que não queria ninguém consigo –observa Filipe.
– Nem mesmo com o Mestre ele quis ficar! Enquanto que eu teria ficado com muito boa vontade! –suspira João.
– Eu também –dizem todos os outros.
– Aquele homem não me agrada. Ou ele é um doente, ou um enfeitiçado, ou um doido, ou um endemoninhado… Qualquer coisa ele tem –diz, com segurança, Tadeu.
– E, no entanto, na viagem de volta ele foi exemplar. Sempre defendeu o Mestre e os interesses do Mestre, como nenhum de nós nunca fez. Eu mesmo o vi, eu o ouvi. E espero que não tenhais dúvida sobre o que eu estou dizendo –afirma Tomé.
– Achas que nós não creiamos em ti? Isso não, Tomé! E temos prazer pelo fato de Judas ser melhor do que nós. Mas, tu não o estás vendo? É uma coisa estranha. Sim, ou não? –pergunta André.
– Oh! Que é estranho é. Mas quem sabe ele esteja sofrendo por causas íntimas… Talvez também porque não fez milagres. Ele é um pouco orgulhoso. Oh! Será para algum bom fim. Mas ele tem a intenção de fazer muitas coisas para ser elogiado…
– Hum! Será. O fato é que o Mestre está triste. Olhai, vede-o lá, e dizei se ainda se parece com o homem que nós conhecíamos. Mas, viva o Senhor! Se eu conseguir conhecer quem é aquele que faz sofrer o Mestre… Basta! Eu sei o que vou fazer –diz Pedro.
339.3 Jesus, que está conversando reservadamente com Natanael, os vê e apressa o passo, sorrindo:
– A paz esteja convosco. Estais todos aqui?
– Falta Judas de Simão… e eu pensava que ele estivesse contigo, porque na casa onde ele ia dormir, me disseram que encontraram o quarto vazio e tudo em ordem… –explica André.
Jesus enruga a fronte por um momento e se concentra em seu pensamento, inclinando a cabeça. Depois diz:
– Não tem importância. Vamos para frente, assim mesmo. Direis aos que moram nas últimas casas que estamos indo para Meron e depois para Gíscala. E que se Judas nos for procurar, que o mandem para lá. Vamos.
Todos pressentem alguma tempestade no ar e obedecem sem dizerem nada.
Jesus continua sua conversa com Bartolomeu, indo alguns passos na frente dos outros. E, na conversa deles, eu percebo que estão falando de diversos nomes: Hilel, Jael, Baruc e outras glórias da Pátria, que vão passando de suas mentes para a palavra, e comentários de admiração sobre os grandes doutores. E as saudades de Bartolomeu…
– Oh! Se ainda estivesse vivo o sábio Hilel! Ele era bom, mas também enérgico. Não se teria deixado perturbar. Por si mesmo ele te diria quem és!
– Não te aflijas, filho de Tolmai! E, bendize ao Altíssimo, que o levou à sua paz. O espírito de um sábio assim não chegou a conhecer a perturbação causada por tanto ódio contra mim.
– Meu Senhor, se fosse somente o ódio!…
– Mais ódio que amor, meu amigo. E assim sempre será.
– Não fiques triste. Nós te defenderemos…
– O que me angustia não é a morte… É ficar vendo o pecado dos homens.
– A morte, não!… Não fales de morte… Não chegarão a tanto… porque eles têm medo…
– O ódio vai ser mais forte do que o medo. Bartolomeu, quando Eu estiver morto e depois, quando estiver longe daqui no Céu Santo, dize tu aos homens: “Ele sofreu mais pelo vosso ódio, do que pela morte…”
– Mestre! Mestre! Mestre! Não fales assim. Ninguém te odiará tanto a ponto de matar-te! E Tu podes impedir isso, pois Tu és poderoso…
339.4 Jesus sorri tristemente, eu diria cheio de cansaço, enquanto vai subindo, com seu passo moderado, pela estrada da montanha, que vai para Meron, quanto mais sobe, mais vai descobrindo o vasto e belo panorama do lago de Tiberíades, que se pode ver através do corte profundo de uma garganta, por sobre as colinas vizinhas, que formam um arco e servem de para-vento, à vista do lago Meron, e depois, para lá do lago de Tiberiades, por sobre o altiplano do além-Jordão, até os recortados e distantes montes de Auran, da Traconítide e da Peréia.
Jesus, porém, acena em direção ao nordeste, dizendo:
– Depois da Páscoa, deveremos ir até lá, à tetrarquia de Filipe. E teremos apenas o tempo para estarmos de novo em Jerusalém para o Pentecostes.
– Não seria melhor para ti fazer isso agora? Passando pelo além-Jordão, pelo lado das nascentes… depois voltando pela Decápole…
Jesus passa a mão sobre sua própria fronte, com um movimento de cansaço, com a mente anuviada e murmura:
– Não sei, ainda não sei!… Bartolomeu!…
Quanto desconforto, quanta dor, quanta invocação há naquela voz! …
Bartolomeu se inclina um pouco, como se tivesse sido ferido por aquele tom estranho e novo em Jesus e diz, com uma ansiedade amorosa:
– Mestre? Que tens? Que queres do velho Natanael?
– Nada, filho de Tolmai… Quero a tua oração… Para que Eu veja bem o que é preciso fazer… 339.5Mas nos estão chamando, filho de Tolmai… vamos parar aqui…
E param perto de um capão de árvores. Lá na curva do caminho, apontam os outros em grupo:
– Mestre, Judas nos vem acompanhando e quase perdendo o fôlego, de tanto correr…
– Pois então, vamos esperá-lo.
E, de fato, Judas logo chega correndo…
– Mestre… eu me atrasei. Eu adormeci e…
– Onde, se na casa eu não te encontrei? –pergunta, espantado André.
Judas fica por um minuto como fora de si, mas logo volta a si, dizendo:
– Oh! Não me agrada que minha penitência seja revelada! Eu estava no bosque, durante toda a noite, a rezar, a fazer sacrifícios… Ao chegar a aurora, sobreveio-me o sono… Eu sou um fraco. Mas o Senhor Altíssimo se compadecerá do seu pobre servo. Não é verdade, Mestre? Eu despertei já tarde e todo entorpecido.
– De fato, estás com um rosto muito emagrecido –observa Tiago de Zebedeu.
Judas ri:
– É. Não faz mal. Porque estou com a alma mais alegre. A oração faz bem. A penitência alegra o coração. Dá humildade e generosidade. Mestre, perdoa ao teu estulto Judas… –e se ajoelha aos pés de Jesus.
– Sim. Levanta-te, e vamos.
– Dá-me a paz com um teu beijo. Será o sinal de que me terás perdoado os maus humores do ontem. Eu não te quis, é verdade. Mas foi porque eu queria rezar…
– Teríamos podido rezar juntos…
Judas ri e diz:
– Tu não podias rezar comigo esta noite, nem estar onde eu estive…
– Oh! Essa é boa! Por que, não? Ele está sempre conosco, e foi Ele quem nos ensinou a rezar –diz, admirado, Pedro.
Todos riem. Mas Jesus não ri. Olha fixamente para Judas, que o beijou e que também está olhando para Ele com um olhar maroto de pura malícia, como se o estivesse desafiando.
E ousa repetir:
– Não é verdade que não podias estar comigo na noite passada?
– Não podia. Não podia e não poderei nunca, de fato, partilhar os abraços do meu espírito com o Pai, dando um terceiro abraço, todo de carne e de sangue, como és tu, e pelos lugares por onde tu andas. Eu amo a solidão povoada pelos anjos, para esquecer-me de que o homem tem o fedor da carne corrompida pela sensualidade, pelo ouro, pelo mundo e por Satanás.
Judas não está mais rindo, nem com os olhos. E responde com seriedade:
– Tens razão. O teu espírito viu a verdade. 339.6Para onde vamos agora?
– Vamos venerar os túmulos dos grandes rabis e dos heróis de Israel.
– O quê? Como? Mas Gamaliel não te ama. E os outros te odeiam –dizem-lhe muitos.
– Não importa. Eu me inclino diante das tumbas dos justos, que estão esperando a Redenção. Vou dizer aos seus ossos: “Em breve Aquele que vos deu, como um hálito, o vosso espírito, estará no seu Reino dos Céus, pronto para descer de lá, no último Dia, a fim de fazer-vos reviver para sempre no Paraíso.”
Vão indo, vão indo, até chegarem à povoação de Meron. É bonita, bem conservada, cheia de luz e de sol, por entre colinas férteis e picos de montanhas.
– Permaneçamos aqui. Nesta tarde iremos daqui para Gíscala. Os grandes túmulos estão espalhados pelo meio destes declives, esperando o despertar glorioso1.
1 glorioso. Aqui segue o padrão. Para o noroeste são os nomes das cidades de Giscala, Meieron e Safed (em outro lugar chamado Sefet) para o nordeste é a cordilheira com a inscrição Grande Hermon, mas mais ao norte, a leste é o Gaulanite e Auran; para o sul é a Pereia. No centro são esboçados, sem nomes, o Mar da Galiléia e Rio Jordão como um afluente e como emissário.
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