392. 392. A hostilidade em Massada, cidade fortaleza.
25 de fevereiro de 1946.
392.1 Vão subindo, por um caminho de cabras, para uma cidade, que mais parece ser um ninho de águia, sobre algum pico de montanha dos Alpes. E este, que eles, com tanta fadiga querem atingir, vai do ocidente para o oriente, virando eles as costas para uma cadeia contínua de montes, que já fazem parte do sistema de montanhas da Judeia, e que, com uma ramificação vigorosa, semelhante ao contraforte de uma colossal muralha, estende-se para o lado do Mar Morto; é mesmo um pouco mais alto, solitário, desbarrancado, do jeito que gostam as águias para os seus amores reais, desdenhosas quanto a testemunhos e ajuntamentos.
– Que estrada, meu Deus –diz Pedro.
– Pior ainda do que aquela de Jeftael –confirma Mateus.
– Mas aqui não chove, não é úmido, aqui não se escorrega. Isso já é alguma coisa… –observa Judas Tadeu.
– Ah! Sim. Este conforto existe … Mas não passa disso. Vai, então, para o lugar onde não te agarrem os teus inimigos! Se não te derrubar algum terremoto, pela mão do homem é que tu não cais!
–diz Pedro, falando na cidade-fortaleza, encerrada dentro do apertado anel com duas defesas, com casas postas tão perto umas das outras, como as sementes de uma romã dentro do escrínio da casca.
– Achas que é assim, Pedro? –interroga-o Jesus.
– Se eu acho? Eu o estou vendo. É até mais do que isso.
Jesus sacode a cabeça, e nada responde.
– Talvez teria sido melhor ter vindo pelo lado do mar. Se fosse o Simão… ele, que é prático conhecedor desses lugares –suspira o Bartolomeu, que não pode mais conter-se.
– Quando estivermos na cidade, e virdes o outro caminho, me havereis de agradecer por ter escolhido este. Por este aqui com dificuldade um homem pode subir. Mas no outro caminho é com dificuldade que uma cabra sobe –responde Jesus.
– Como sabes disso? Foi alguém que te falou, ou…?
– Eu o sei. E, além disso, deste lado é que mora a nora do Ananias. E a primeira coisa que Eu quero fazer é ir falar com ela.
– Mestre, não iremos encontrar perigos lá em cima?… Porque… daqui não se pode sair com rapidez, e, se nos perseguem… não voltaremos mais para casa. Olha só que precipícios e que pontas afiadas as dos penhascos! –diz Tomé.
– Não tenhas medo. Não iremos encontrar uma Engadi. Engadis há muito poucas em Israel. Mas não nos acontecerá nada de mal.
– Porque … Tu sabes que é a fortaleza de Herodes?
– E daí? Não tenhas medo, Tomé! Enquanto não chegar a hora, nada irá acontecer de verdadeiramente grave.
392.2 Eles vão indo, e chegando já para perto dos muros carrancudos, ao mesmo tempo que o sol já vai alto. Mas a altitude do lugar abranda o calor.
Entram na cidade, passando por baixo do arco de uma porta estreita e escura. As muralhas dos bastiões são muito firmes, com torres de muita espessura, e aberturas estreitas.
– Que armadilha para pegar animais! –diz Mateus.
– Eu fico pensando naqueles infelizes que trouxeram até aqui estes materiais, esses blocos de pedra, esses vergalhões de ferro… –diz Tiago do Alfeu.
– Um amor santo à Pátria e à independência tornou leves os pesos para os homens1 de Judas Macabeu. Um amor malvado a si mesmo, e o temor da ira do povo foi o que impôs o jugo pesado, não a súditos, mas uns piores do que escravos, por vontade de Herodes, o Grande. E, batizada com lágrimas e sangue, no sangue e nas lágrimas perecerá, quando chegar a hora da punição divina.
– Mestre, mas os habitantes que têm a ver com isso?
– Nada. E tudo. Porque, quando os súditos imitam os chefes nas culpas ou nos méritos, terão o mesmo prêmio ou castigo dos chefes.
392.3Mas eis a casa, que é a terceira da segunda rua, e tem na frente um poço. Vamos…
Jesus bate à porta fechada de uma casa alta e estreita. Um menino a abre.
– És parente de Ananias?
– Eu tenho o nome dele, porque ele é o pai do meu pai.
– Chama tua mãe. Dize-lhe que Eu estou vindo do lugar onde está Ananias e o sepulcro do falecido esposo.
O menino vai e volta.
– Disse que não quer saber nada do velho. E que podes ir-te embora.
Jesus fica com um rosto muito severo.
– Eu não irei, a não ser depois de ter falado com ela. Menino, vai dizer-lhe que Jesus de Nazaré, no qual o marido dela acreditava, está aqui, e quer lhe falar. Dize-lhe que não tenha medo. O velho não está aqui…
O menino torna a ir. A espera é longa. As pessoas pararam para observar, e algumas fazem perguntas aos discípulos. Há, porém, uma atmosfera pesada, dura, indiferente ou irônica… Os apóstolos procuram mostrar-se corteses, mas estão visivelmente impressionados. E ficam ainda mais impressionados, quando começam a chegar os notáveis do lugar e alguns soldados. Tanto uns como outros, com certa aparência de gente bagunceira, que não inspira a menor confiança.
Jesus, junto à soleira, apoiado à ombreira, de braços cruzados, espera com paciência, absorto.
392.4 Finalmente, aparece a mulher. É alta, morena, de olhos duros e de um perfil atrevido. Não é feia nem velha, mas a expressão do seu rosto a faz ficar feia e velha.
– Que queres? Dize logo, que eu tenho o que fazer –diz ela, arrogante.
– Não quero nada. Nada. Fica certa disso. Eu venho somente trazer-te o perdão de Ananias e o seu afeto, o seu pedido…
– Não o recebo de volta. É inútil pedir. Não quero saber de velhos que se lamentam. Entre nós, tudo se acabou. E, além disso, logo irei casar-me de novo, e não posso trazer para casa de um rico o grosseiro camponês que ele é. Já sofri bastante com o filho dele! Mas naquele tempo eu era uma menina tola e olhei só para a beleza do homem. Infeliz de mim! Pobre infeliz! Maldito seja aquele motivo que o trouxe para diante dos meus passos! Seja maldita até a lembrança de…
Ela parece uma máquina.
– Basta! Respeita os vivos e os mortos, que tu não merecias ter, mulher mais árida do que as pedras. Infeliz de ti. Infeliz! Que tremas, ó mulher! Que tremas, porque as lágrimas do velho, e tua falta de amor não se tornem uma chuva de fogo sobre tudo o que amas. Tu tens filhos, mulher!
– Filhos! Antes não os tivesse. Estaria desfeito até esse último laço. E, afinal, não quero ouvir nada. Não quero ouvir-te. Vai-te embora! Estou em minha casa, na casa do meu irmão. Eu não te conheço. Não quero nem pensar no velho. Não…
E ela grita, como uma pega, que está sendo depenada viva. É uma verdadeira harpia…
– Olha! –diz Jesus.
– Tu estás me ameaçando?
– Eu te quero fazer pensar em Deus, em sua Lei, e que tenhas dó de tua alma. Com esses teus sentimentos, que filhos estarás querendo educar? Não tens medo do julgamento de Deus?
– Oh! agora basta. Saul, vai chamar o meu irmão, e dize-lhe que venha cá com o Jônatas. Eu vou te fazer ver! A Ti… e…
– Oh! Não. Não é preciso nada disso. A tua alma não vai ser forçada por Deus. Adeus.
E Jesus lá se vai, abrindo caminho pelo meio do povo.
392.5 A estrada é estreita, e vai por entre casas altas. Mas a cidade, apta para defender-se, tem o coração dessa mesma defesa na parte oriental, justamente onde tudo está fora de prumo, ao longo de centenas de metros, e onde a fita estreita e pouco espessa de um caminho, que vai serpenteando, de uma ingremidade verdadeiramente impressionante, sobe da planície, das beiras do mar, até o alto do pico.
Jesus vai indo justamente para o lugar onde há uma pequena praça para as máquinas de guerra, e começa a falar, repetindo mais uma vez o seu convite para entrarem no Reino dos Céus, e começa a traçar as linhas esquemáticas do assunto.
Já vai começar a desenvolver o assunto, quando, abrindo-se um vazio por entre a pequena multidão, que lá está mais por curiosidade, do que por fé, vêm chegando para a frente uns notáveis, que falam em alta voz uns com os outros. E, mal chegam diante de Jesus, o intimam, de um modo confuso, pois falam todos ao mesmo tempo, e estão de acordo somente em expulsar a Jesus:
– Vai-te embora! Aqui já estamos nós para educar os filhos de Israel!
– Fora! Nossas mulheres não precisam ser censuradas por Ti, ó galileu!
– Fora, ofensor! Como tomas a liberdade de ofender a mulher de um herodiano, e em uma das cidades prediletas do grande Herodes? Usurpador, desde o teu nascimento, dos direitos soberanos dele! Fora daqui!
Jesus olha para eles, especialmente para estes últimos, e só diz uma palavra:
– Hipócritas!
– Fora! Fora!
Um verdadeiro tumulto de vozes discordantes, em que, cada qual por sua conta, acusa ou defende sua casta. Não se pode entender nada. Na pracinha apertada, umas mulheres gritam, outras desmaiam, as crianças choram, homens armados procuram sair da verdadeira e propriamente dita fortaleza e, para saírem, vão pisando em alguns pela praça, e estes reagem, maldizendo Herodes e aos seus soldados, ao Messias e aos seus acompanhantes.
Uma grande confusão! Os apóstolos, reunidos ao redor de Jesus, são os únicos que o defendem, mais ou menos corajosamente, e, por sua vez, gritam impropérios bem apimentados, que eles têm para todos os casos.
Jesus chama a atenção deles, dizendo:
– Vamos sair daqui. Daremos uma volta por detrás da cidade, e iremos embora dela.
– E para sempre, sabes? –grita Pedro, vermelho de raiva.
– Sim, para sempre…
Vão desfilando, um após o outro, e o último, não obstante toda a pressão que lhe fazem os outros, é Jesus. Os guardas, mesmo fazendo chacota do “profeta chacoteado,” como eles dizem em suas chalaças de todas as espécies, ainda têm o bom senso de se apressarem em fechar o portão da muralha, para irem encostar-se nela, com suas armas viradas para a praça.
392.6 Jesus vai à frente, caminhando por uma trilhazinha, que fica junto à muralha, um caminho que tem a largura de dois palmos, e por baixo do qual está o vazio, a morte. Os apóstolos o acompanham, evitando olhar para o abismo pavoroso. E ei-los de novo junto à porta pela qual haviam entrado. Jesus, sem parar, continua a descer. A cidade está com a porta fechada deste lado também…
A muitos metros da cidade, Jesus se detém, e põe a mão sobre o ombro de Pedro, que, enxugando o suor, lhe diz:
– Afinal, conseguimos escapar desse lugar. Maldita cidade! E maldita aquela mulher! E pobre do Ananias! Aquela é pior do que a minha sogra!… Que serpente!
– Sim. Tem um coração frio como as serpentes… Simão de Jonas, que dizes a isso? Será que, com todas as suas defesas, te parece segura esta cidade?
– Não, Senhor! Ela não tem Deus em si. Eu acho que ela terá a mesma sorte que Sodoma e Gomorra.
– Tu disseste bem, Simão de Jonas! Ela está acumulando contra si os raios da ira divina. E não somente por me ter expulsado, mas porque nela o Decálogo é violado em todos os seus mandamentos. Agora, vamos. Uma gruta vai acolher-nos com sua sombra fresca nestas horas de sol a pino.E, ao pôr-do-sol, iremos para Keriot, enquanto o luar o permitir.
– Mestre meu! –geme João, em uma imprevista explosão de pranto.
– Mas, que é que tens? –perguntam-lhe todos.
João não se explica. Fica chorando, com as mãos sobre o rosto, um pouco inclinado. Já se está parecendo com o João aflito do dia da Paixão…
– Não chores! Vem cá… Temos ainda algumas horas agradáveis diante de nós –diz Jesus, puxando-o para Si.
Uma coisa que se consola o coração faz também aumentar o pranto.
– Oh! Mestre! Mestre meu! Como farei?! Como farei?!
– Mas por que, meu irmão? Por que, amigo? –perguntam-lhe Tiago e os outros.
João sente dificuldade para falar. Mas depois, levantando o rosto aflito, grita, e responde a Jesus, em vez de responder aos que o interrogam:
– Ao ver-te morrer!
– Deus te socorrerá, dileto filho dele! Não te faltará ajuda. Não chores mais… Vamos! Vamos…
E Jesus vai caminhando, e segurando pela mão ao que está como um cego, por causa das lágrimas…
1 homens, dos quais se fala em 1 Macabeus 9,62.
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