553. 553. Início do sábado em Efraim. Os ladrõesde Adonim e o socorro a três crianças.
11 de janeiro de 1947.
553.1Os dez, cansados e cobertos de poeira, voltam para casa. À mulher que os saúda abrindo-lhes a porta, eles logo lhe perguntam:
– Onde está o Mestre?
– Está no bosque, acho eu. Rezando, como sempre. Ele saiu muito cedo esta manhã e não voltou ainda.
– E ninguém saiu para procurá-lo? Mas o que é que estão fazendo aqueles dois?! –grita, já agitado, Pedro.
– Não te inquietes, homem. Entre nós Ele está em segurança como na casa de sua Mãe.
– Segurança! Segurança! Estais lembrados do Batista? Estava ele em segurança?
– Não estava porque não soube ler no coração de quem lhe falava. O Altíssimo permitiu isso com o Batista, mas certamente não o permitirá com o seu Messias. Tu deves crer isso ainda mais do que eu, que sou uma mulher e samaritana.
– Maria tem razão. Mas para onde é mesmo que Ele foi?
– Não sei, não. Numa hora vai para um lado, na outra, para outro. Às vezes está sozinho, outras vezes está com os meninos, que gostam muito dele. Ele os ensina a rezar e a ver Deus em todas as coisas. Mas talvez hoje esteja sozinho, pois não chegou até à sexta hora. Quando tem consigo os meninos, então Ele volta, porque eles são como uns passarinhos, que querem dar suas bicadas nas horas certas… –diz sorrindo a velhinha, lembrando-se talvez dos seus dez filhos, e depois suspira… também, porque alegrias e tristezas, estão em todas as recordações da vida.
– E Judas e João, onde estão?
– Judas foi à fonte. João foi buscar lenha. Terminei tudo porque lavei a roupa de todos, a fim de vo-las entregar limpas quando fordes partir.
– Deus te pague, mãe. Tens muito trabalho conosco… –diz Tomé, passando a mão sobre o ombro magro e curvo da mulher como para acariciá-la.
– Oh!… Não é cansaço. É como se eu tivesse de novo os meus filhos… –sorri ela, ainda com um brilho em seus olhos encovados de velhinha.
553.2Vem entrando João debaixo de um grande feixe de lenha, e parece até que o corredor, que é um tanto escuro, fique um pouco mais claro com a vinda dele. Sempre notei a luminosidade que parece acender-se onde está João. O seu sorriso é tão doce, franco como o de um menino, e os seus olhos tão límpidos e sorridentes como um belo céu de abril, e sua voz agradável em suas saudações afetuosas aos companheiros parece um raio de sol ou um arco-íris de paz. Todos o amam, menos Judas de Keriot, que eu não sei se o ama ou o odeia, mas que certamente tem inveja dele, e frequentemente caçoa dele, e por vezes o ofende. Mas, no momento, Judas não está presente.
Ajudam-no a pôr no chão sua carga e lhe perguntam onde é que pode estar Jesus. Também João fica um pouco alarmado com o atraso. Mas mais confiante em Deus do que os outros, ele diz:
– O Pai dele o preservará do mal. Devemos crer no Senhor. –E acrescenta:– Mas vinde. Estais cansados e cobertos de poeira. Conservamos prontos para vós alimentos e água quente. Vinde, vinde…
553.3Torna a entrar também Judas de Keriot com seus cântaros gotejando.
– A paz esteja convosco. Para vós foi fácil a viagem? –pergunta ele.
Mas não há bondade em sua voz. Pois ela está entremeada de escárnio e descontentamento.
– Sim. Começamos pela Decápole.
– Pelo medo de serdes recebidos a pedradas ou de vos contaminardes? –pergunta com ironia Iscariotes.
– Nem uma coisa nem outra. Mas por uma prudência de principiantes. E foi uma proposta minha que, não o digo para censurar-te de nada, embranqueci meus cabelos curvado sobre os pergaminhos
–diz Bartolomeu.
Judas não retruca a nada. E sai da cozinha, onde os que voltaram estão se refocilando com tudo o que foi preparado.
Pedro olha para Iscariotes, que vai saindo, e sacode a cabeça. Mas não diz nada. Tadeu, ao contrário, agarra João por uma manga, e pergunta:
– Como foi que ele procedeu nestes dias? Esteve sempre assim inquieto? Sê sincero…
– Sincero sempre, Judas. Mas eu te garanto que ele não deu aborrecimentos. O Mestre está quase sempre sozinho. Eu estou com a velha mãe, que é tão boa, e ouço os que vêm falar com o Mestre e depois lhe digo. Judas, por sua vez, prefere ir pelo povoado. Ele granjeou muitas amizades… Que quereis? Ele é assim… Não sabe ficar quieto como nós saberíamos fazer…
– Por mim, que ele faça o que quiser. Basta-me que não cause aborrecimentos.
– Não. Isto não. Ele certamente é que se aborrece. 553.4Mas… Lá vem o Mestre. Estou ouvindo a voz dele. Está falando com alguém…
Correm para fora e veem Jesus que vem vindo, na hora em que o crepúsculo vai descendo, com dois meninos nos braços e um agarrado à sua veste, e Ele os está consolando porque estão chorando.
– Deus te abençoe, Mestre. Mas de onde é que estás vindo, assim tão tarde?
Jesus, ao entrar na casa, responde:
– Estou vindo de um encontro com uns ladrões. E Eu também fiz minha presa. Caminhei até depois do pôr do sol, mas meu Pai me absolverá, porque Eu fiz um ato de misericórdia… Toma, João, e tu, Simão… Estou com os braços quebrados… e estou cansado mesmo.
E Ele vai sentar-se em um escabelo à beira do caminho. E sorri, cansado, mas feliz.
– Estás vindo de um encontro com ladrões? Mas onde foi que estiveste? E quem são estes meninos? Já comeste alguma coisa? Onde estavas? Não é prudente ficar fora de casa com essa escuridão, e tão longe!… Nós já estávamos pensativos. Não estavas no bosque? –falam todos juntos.
– Eu não estava no bosque. Fui para Jericó…
– Que imprudência! Naquelas estradas podes encontrar quem te odeia! –censura-o Tadeu.
– Eu fui pelo caminho que nos ensinaram. Havia muitos dias que Eu queria ir lá… Há infelizes que precisam ser redimidos. A Mim nada podiam fazer de mal. Eu fui e cheguei a tempo de ajudar estes meninos. Dai-lhes de comer. Creio que estão quase em jejum pelo medo com que estavam dos ladrões. E Eu não levava alimento algum comigo. Se Eu tivesse encontrado pelo menos um pastor!… Mas o sábado, que já estava chegando, já tinha feito deixado os pastos desertos…
553.5– É sim! Somente nós é que não respeitamos o sábado, de uns tempos para cá… –observa Judas de Keriot, sempre mordaz.
– Como falas assim? Que queres insinuar? –perguntam-lhe.
– Eu digo que já são dois sábados em que nós trabalhamos depois do pôr do sol.
– Judas, tu sabes por que tivemos que caminhar no sábado passado. O pecado, nem sempre é de quem o comete, mas pode ser de alguém que obrigue outro a fazê-lo. E hoje… Eu sei. Tu queres dizer-me que também hoje Eu violei o sábado. E Eu te respondo que, se grande é a lei do repouso sabático, muito maior é o preceito do amor. Eu não sou obrigado a justificar-me aos teus olhos. Mas Eu o faço para ensinar-te a mansidão, a humildade e a grande verdade que diante de uma necessidade santa se deve saber aplicar a lei com agilidade de espírito. Nossa história tem episódios que se referem a esta necessidade. Ao romper da aurora, Eu fui para os montes Adonim porque Eu sei que lá há uns infelizes que têm o delito como uma lepra em suas almas. Eu esperava encontrá-los, falar com eles e voltar antes do pôr do sol. E os encontrei. Mas não pude fazer-lhes o sermão que Eu desejava, porque havia outras coisas que era preciso dizer-lhes… Eles haviam encontrado estes três meninos chorando junto à entrada de um pobre ovil na planície. Haviam descido de noite para roubar os cordeirinhos e até para matar, se o pastor lhes tivesse oferecido resistência. A fome é feia sobre os montes, durante o inverno… E quando ela é sofrida por homens de coração cruel faz que eles se tornem mais ferozes do que os lobos. Estes meninos estavam lá com um pastorzinho pouco maior do que eles e tão amedrontado como eles. O pai dos meninos, não sei por qual motivo, havia morrido de noite. Talvez tivesse sido morto por algum animal ou lhe tivesse falhado o coração. Estava fazendo frio sobre as palhas perto das ovelhas. Percebeu isso o filho mais velho, que agora estava dormindo ao lado. E assim os ladrões, em vez de fazerem uma matança, encontraram lá um morto e quatro meninos chorando. Deixaram lá o morto e tocaram as ovelhas para a frente, atrás do pastorzinho, mas, visto que até nos mais malvados pode haver uma compaixão, eles recolheram os meninos. E Eu os encontrei quando estavam trocando ideias entre si sobre o que é que deviam fazer. Os mais ferozes queriam matar o pastorzinho de dez anos, pois ele seria uma perigosa testemunha do seu furto e do lugar do seu refúgio, enquanto que os menos ferozes queriam mandá-lo embora com ameaças e ficar com o rebanho. Mas afinal todos resolveram ficar com os meninos.
– Para fazerem o quê com eles? Será que eles não têm família?
– A mãe deles morreu. Por isso o pai os tinha levado consigo para os pastos de inverno, e agora ia subindo e atravessando estes montes para chegar à sua casa deserta. Podia Eu deixar os pequenos nas mãos dos ladrões para que fizessem deles outros tantos semelhantes? Então, Eu lhes falei… E em verdade vos digo que eles me compreenderam melhor do que muitos outros. E compreenderam tanto que me entregaram os meninos, e amanhã acompanharão o pastorzinho a caminho de Siquém. Porque naqueles campos estão os irmãos da mãe deles. Enquanto isso, passei a recolher os meninos. E os conservarei conosco até que apareçam os parentes deles.
– E tu te iludes pensando que os ladrões… –diz Iscariotes, e dá uma risada…
– Eu estou certo de que eles não arrancarão nem um fio de cabelo do pequeno pastor. São uns infelizes. Não devemos querer julgar por que são assim. Mas devemos procurar salvá-los. Um ato pode ser o começo da salvação deles…
Jesus inclina a cabeça, absorto, quem sabe com que pensamento.
553.6Os apóstolos e a velhinha falam entre si, se compadecem e procuram fazer alguma coisa para confortar os pequeninos, que estão espavoridos…
Jesus levanta a cabeça ao ouvir o pranto do menor deles, um moreninho que terá talvez uns três anos, e diz a Tiago, que inutilmente se está esforçando, querendo dar-lhe leite:
– Dá-me o menino e vai apanhar minha sacola… –e sorri, porque o menino fica quieto sobre os seus joelhos e bebe avidamente o leite que antes se recusava a beber.
Os outros, um pouco maiores, estão tomando a sopa que foi posta na frente deles, mas as lágrimas estão caindo de seus olhos.
– Mas quantas misérias! Aí está! Que nós soframos, é justo, mas os inocentes!… –diz Pedro, que não pode ver os meninos sofrendo.
– Eu serei um pecador. Mas não faço censuras a Deus –observa o Iscariotes.
– Serei pecador. Mas não faço repreensão a Deus. E somente digo: “Mestre, por que haverão de sofrer os meninos? Eles não têm pecados.”
– Todos têm pecados, pelo menos o original –diz Iscariotes.
Pedro não lhe responde. Mas fica esperando a resposta de Jesus. E Jesus, que estava ninando o menino que já está saciado e com sono, responde:
– Simão, a dor é consequência da culpa.
– Está bem. Então… depois que Tu tiveres perdoado a culpa os meninos não sofrerão mais.
– Sofrerão ainda. Não te escandalizes com isso, Simão. A dor e a morte sempre estarão sobre a terra. Até os mais puros sofrem, e sofrerão. Aliás, serão eles que sofrerão por todos. São as vítimas propiciatórias diante do Senhor.
– Mas por quê? Não entendo isso…
– Muitas são as coisas que sobre a terra não são entendidas. Que saibais crer pelo menos que são coisas queridas pelo Amor perfeito. E quando a graça restituída aos homens fizer mais santos e conhecedores das verdades escondidas, então se verá que até os mais santos quererão ser vítimas, porque terão compreendido o poder da dor…
553.7O meninozinho está dormindo. Maria, tu o levas contigo?
– Certamente, Mestre. Menino espavorido, sono breve e muito pranto, e o passarinho sem ninho precisa da asa materna, assim nós dizemos. A minha cama é grande, e agora está ocupada por mim sozinha. Eu levarei daqui os meninos e tomarei conta deles. Também eles precisam esquecer-se de suas dores durante o sono. Vinde e vamos levá-los para que eles repousem.
Ela apanha o pequenino do colo de Jesus e, acompanhada por Pedro e por Filipe, sai dali, enquanto vem voltando Tiago de Zebedeu, trazendo a bolsa de Jesus.
Jesus a abre e procura alguma coisa dentro dela. Tira de lá uma veste pesada, a desdobra, e examina o seu tamanho. Mas não fica satisfeito. Procura o manto que é escuro como a veste. Depois o põe de lado e fecha a bolsa, entregando-a a Tiago.
Pedro está de volta com Filipe. A velhinha ficou com os três meninos, e Pedro vê logo as vestes desdobradas e postas a um lado. E diz:
– Queres mudar de roupa, Mestre? Cansado como estás, um banho quente te deveria fazer bem. Temos água, esquentaremos tuas vestes, depois iremos cear e tomar algum descanso. A história dos pobres meninos me comoveu muito…
Jesus sorri, mas não comenta o assunto. Ele somente diz:
– Louvemos o Senhor que Me conduziu a tempo para salvar os inocentes.
Depois Ele se cala, cansado…
Torna a entrar a velhinha com as roupinhas dos meninos.
– Precisariam ser mudadas… Estão rasgadas e sujas de barro. Mas eu não tenho mais as vestes de meus filhos para pô-las no lugar destas. Eu as lavarei amanhã…
– Não, mãe. Ao passar o sábado, coserás três pequenas vestes com o pano destas minhas…
– Mas, Senhor, sabes que a essa altura tens somente três vestes? Se delas tiras uma, com que é que ficas? Não está aqui Lázaro, como naquela vez do manto à leprosa! –diz Pedro.
– Deixa estar. Sobram duas e já são demais para o Filho do homem. Toma, Maria. Amanhã ao pôr do sol começarás o teu trabalho, e o Perseguido terá a alegria de socorrer o pobre, cujas aflições Ele compreende.