380. 380. O amor dos Apóstolos da contemplaçãoà ação, retiro no monte Carit.


9 de fevereiro de 1944.

380.1 De um grupo de montanhas, que parece ocupado e preocupado

 

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em elevar-se cada vez mais — e cada, direi assim, cada fase do seu esforço é marcada por uma cadeia áspera de colinas rochosas, de costas abruptas, a pique, cortadas por vales estreitos mas por cortes gigantescos, coroadas por cristas selvagens —, de lá se podem entrever ocasionalmente partes do Mar Morto, que fica a sudeste do lugar onde estão os apóstolos com o Mestre. O Jordão e os seus vales férteis e pacíficos não são vistos daqui, nem se vê Jericó e nenhuma outra cidade. Somente montes e mais montes, que vão-se erguendo na direção da Samaria e do escuro Mar Morto, no meio entre duas áreas cheias de montes com picos alcantilados. Lá em baixo passa uma torrente que vai na direção oeste-leste e que certamente vai para o Jordão. Ouve-se um grande estridular de falcões e um grasnar de corvos num céu azul vivo. Há um intenso chilrear de passarinhos por entre as folhagens das encostas selvagens. Produzindo um som de muitas flautas, os ventos passam pelas gargantas, trazendo também odores e rumores de longe ou então dominando os que estão perto, conforme eles soprem levemente ou com intensidade. Também quaisquer rumores de guizos sobem da estrada, que certamente deve estar em algum vale, e todos os balidos das ovelhas, que estão pastando nos planaltos. ouve-se ainda o rumor das águas, que pingam das rochas ou das torrentes. Mas o tempo está bom, a terra está enxuta, o ar tépido, as encostas parecem esmaltadas com flores por cima da esmeralda da grama, e mais flores que estão em cachos e festões, pendentes dos troncos e das copas, é aprazível o aspecto do lugar.

Muito alegres, de uma alegria sobrenatural, estão os rostos dos treze, que ali estão recolhidos. o mundo ficou esquecido. Ficou lá longe… Os espíritos recuperaram o equilíbrio, que havia sido sacudido por muitos gritos e puderam entrar no halo divino, isto é, da paz. É paz o que se lê naqueles rostos.

380.2 Mas a permanência conclui-se e Jesus fala. E Pedro repete a sua prece no Tabor:

– Oh! Por que não permanecemos aqui? É bom estar contigo!

– É porque o trabalho nos está esperando, Simão de Jonas. Não podemos ser somente contemplativos. O mundo nos espera para ser ensinado. Não podem parar os operários do Senhor, enquanto houver campos para semear.

– Mas, então, eu, que me torno um pouco bom somente quando fico assim isolado, não poderei nunca… O mundo é tão grande! Como poderemos trabalhá-lo e, antes de morrer, conseguir ter recolhimento assim em Ti.

– Certamente vós não o trabalhareis todo. Serão necessários séculos e mais séculos para isso. E, quando uma parte estiver trabalhada, Satanás nela entrará para estragar o que foi feito. Por isso terá de ser um trabalho contínuo, até o fim dos séculos.

– Oh! Então, como é que eu vou preparar-me para morrer?

Pedro está de fato desconsolado.

Jesus o encoraja, abraçando-o e dizendo:

– Terás tempo para isso. Não é preciso muito tempo. Basta um ato de recolhimento perfeito para preparar-se a fim de comparecer diante de Deus. Mas tu terás todo o tempo. Afinal, fica sabendo que a execução da vontade de Deus é sempre uma preparação para uma morte em estado de santidade. Se Deus te quer em ação e tu lhe obedeces, tu te preparas melhor pela a ação obediente, do que se te fechasses por entre as rochas mais solitárias a fim de rezar e contemplar. Estás persuadido disso?

– Com certeza! Pois és Tu que dizes! E, então, que devemos fazer?

– Espalhar-vos pelos caminhos dos vales. Reunir os que estiverem Me esperando, pregar o Senhor e a fé até que Eu volte.

– Vais ficar sozinho?

– Vou sim. Não temais. 380.3Vede que o mal serve para o bem, algumas vezes. Aqui Elias foi alimentado pelos corvos1. Nós podemos dizer que os abutres ferozes nos alimentarão.

– Achas que já tenha havido algum movimento de conversão?

– Não. Mas a caridade, seja ela também movida pelo pensamento de que usando a generosidade, eles nos teriam posto em condições de não traí-los…

– Mas nós não os teríamos traído! –exclama André.

– Não. Mas eles, infelizes ladrões, não sabem disso. Nada de obras espirituais há neles, carregados, como estão, de delitos.

– Senhor, Tu estavas falando que a caridade… O que querias dizer? –pergunta João.

– Eu queria dizer: a caridade que usaram para conosco não ficará sem recompensa, pelo menos nos melhores deles. A conversão que, por enquanto, não aconteceu, pode acontecer lentamente, mas ela pode vir. É por isso que Eu vos disse: “Não os rejeiteis em suas ofertas.” E eu as aceitei, ainda que elas me fizessem sentir um cheiro de pecado.

– Mas Tu nem quiseste comer delas…

– Mas não humilhei os pecadores, rejeitando-os. Eles tinham um movimento inicial de bondade. Por que destruí-lo? Aquela torrente lá em baixo não tem sua origem na nascente que goteja daquele despenhadeiro? Lembrai-vos sempre disso. É uma lição para vossa vida futura. Para quando Eu não estiver mais entre vós. Se encontrardes pelos caminhos por onde estiverdes viajando pessoas delinquentes, não façais como os fariseus, que desprezam a todos e não tratam de desprezar primeiro a si mesmos, corruptos como eles são. Mas aproximai-vos delas com um grande amor. Eu gostaria de poder dizer com “infinito amor”. E Eu o digo. E é possível que assim aconteça, mesmo sendo o homem “finito e limitado” em seus atos e ações.

380.4 Sabeis como o homem pode possuir um infinito amor? Sendo ele de tal modo unido a Deus, que forme um todo com Deus. Então é que verdadeiramente desaparecendo a criatura em seu Criador, opera nela o Criador, que é infinito. E assim, unidos com o seu Deus pelo poder do amor que tanto se une à sua origem a ponto de se fundir junto com ela, assim deverão ser os meus apóstolos. Não será pelo modo como falareis, mas pelo modo como amareis, que convertereis os corações. Encontrareis pecadores? Amai-os. Sofrereis por causa dos discípulos que se extraviam? Procurai salvá-los pelo amor. Lembrai-vos da parábola da ovelhinha perdida. Oh! Pelos séculos dos séculos, essa parábola será o chamado mais carinhoso que foi dirigido aos pecadores. Mas será também a ordem segura dada aos meus sacerdotes. Com toda arte, com todo sacrifício e até à custa de perder a vida, na tentativa de salvar uma alma, com toda paciência vós devereis ir buscar os extraviados para trazê-los de novo para o Ovil. O amor vos dará alegria. Ele vos dirá: “Não tenhais medo”. Ele vos dará um poder de expansão no mundo, um poder tal que nem Eu mesmo tive.

Se de agora em diante, o amor dos justos deve ser colocado como um sinal exterior, não sobre o coração ou o braço (como diz2 o Cântico dos Cânticos) e sim dentro do coração, como alavanca que impele a alma para todas as ações. E todas as ações hão de ser uma superabundância da caridade, que não se contenta mais com amar só mentalmente a Deus ou ao próximo, mas desce para a liça, para lutar com os inimigos de Deus, para amar a Deus e ao próximo, ainda que em certas circunstanciais deva fazê-lo, acudindo-o em suas necessidades materiais, o que o conduzirá a obras em um horizonte mais amplos e perfeitos, que terminam com a redenção e santificação dos irmãos. Pela contemplação se ama a Deus, mas pela ação se ama ao próximo, e, amando o próximo, amamos a Deus que nos ordena esse amor, e que nos deu o nosso próximo como nosso irmão.

380.5 Não podereis vós, e não o poderão dizer os sacerdotes futuros que sois meus amigos, se a vossa caridade e a deles não se voltar toda para a salvação das almas, pelas quais Eu me encarnei e pelas quais irei sofrer. Eu vos dou o exemplo de como se ama. Mas o que Eu faço, vós e os que virão depois de vós, deveis fazer. O novo tempo vem aí. O tempo do amor. Eu vim para acender esse fogo nos corações, e esse fogo crescerá ainda mais, depois de minha Paixão e Ascensão, e vos incendiará, quando o amor do Pai e do Filho descer para consagrar-vos ao ministério.

Diviníssimo Amor! Por que tardas em consumir a Vítima e em abrir os olhos e os ouvidos, em soltar as línguas e os membros deste meu rebanho para que vá pelo meio dos lobos, e ensine que Deus é caridade e que quem não tem em si a caridade não é mais do que um animal e um demônio? Oh! Vem Espírito tão amável e tão forte, e incendeia a Terra, não para destruí-la mas para purificá-la. Incendeia os corações! Faze deles outros Eu, Cristos, isto é, Ungidos pelo amor, operando pelo amor, santos e santificados por amor.

Felizes daqueles que amam, porque serão amados e sua alma não cessará um só momento, de cantar a Deus junto com os anjos até chegarem a cantar a eterna glória na luz dos Céus. Assim aconteça convosco, meus amigos. Agora, ide e fazei com amor o que Eu vos disse.

1 alimentado pelos corvos, como é mencionado em 1 Reis 17,2-6.
2 diz em Cântico dos cânticos 8,6.


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