382. 382. Uma Permanência na casa de Nique.
12 de fevereiro de 1946.
382.1 A estrada, ainda que atravesse verdes campinas, e esteja margeada por muitas árvores copadas, assim mesmo ainda é como uma fornalha, sob os raios do Sol do meio-dia. Dos campos, onde as messes estão chegando rapidamente à maturação, vem um calor e um cheiro do feno, como o de quando a flor da farinha se está transformando em pão. A luz está deslumbrante. A essa luz, cada espiga fica parecendo uma pequena lâmpada de ouro, por entre os grumos dourados e as arestas pungentes, e a incidência dos raios do sol sobre a palha dos caules é um tormento para os olhos, como também a estrada que os ofusca, toda ensolarada. É em vão que os olhos procuram alívio à sombra das copas. Pois, se eles se levantam para ver onde elas estão, mais ainda vão ao encontro do sol desapiedado, e precisam abaixar-se de novo, a fim de evitar aquela violência, ficando meio fechados, reduzindo-se a umas pequenas aberturas por entre os cílios, e mostrando-se avermelhados e doloridos. Os pés, cansados, estão se arrastando e levantando ondas de poeira que incomodam muito.
Jesus procura encorajar seus cansados apóstolos. Ainda que Ele também esteja suando, pôs o seu manto sobre a cabeça, para proteger-se do sol, e aconselha os outros a fazerem o mesmo. Eles obedecem, sem dizerem nada, pois estão exaustos demais para terem fôlego e serem capazes nem de um dos seus habituais queixumes. Vão indo como uns bêbados.
– Coragem. Lá está uma casa no meio dos campos… –diz Jesus.
– Se for como as outras… continuaremos só com o desconforto de ter que caminhar muito pelo meio de campos pegando fogo, e sem sabermos para onde estamos indo –resmunga Pedro, coberto pelo manto.
E os outros confirmam com um “hum!” sem consolo.
– Deixai que Eu vá. Vós ficareis aqui, por baixo deste pouco de sombra.
– Não. Não. Nós também vamos. Pelo menos um poço eles terão aqui neste terreno, onde água não falta… e beberemos para apagar o fogo que temos aqui dentro.
– Beber assim, cheios de calor, nos faria mal.
– Morreremos… mas sempre será melhor do que tudo o que estamos passando agora…
Jesus não contesta nada. Ele suspira e vai para a frente, como primeiro, por um caminho estreito, através dos campos das searas.
382.2 Os campos não chegam até à casa, mas terminam no fim de um pomar maravilhoso, sombreado, muito agradável, tanto pela claridade, como pela temperatura, e que faz ao redor da casa um anel de fartura, que serve para restaurar as forças. E os apóstolos, com um “ah!” de alívio, vão-se enfiando por ele adentro. E Jesus vai à frente, sem dar ouvidos às propostas deles, de fazerem uma pequena parada.
Um arrulho de pombos, um barulho de roldanas, umas vozes tranquilas de mulher chegam da casa até os ouvidos deles, e se espalham, através do completo silêncio da campina.
Jesus chega sobre uma pequena área, que circunda a casa, uma espécie de calçada larga, sobre a qual uma latada de videira estendeu um bordado de folhagem, formando um recanto alegre e acolhedor. Há dois poços, um do lado direito e o outro do lado esquerdo da casa à sombra da videira. Há canteiros, ao lado das paredes da casa. Toldos leves, com listras escuras, estão fazendo ondas ao vento, que passa pelas portas abertas. Ouvem-se vozes de mulheres e um barulho de louças vem saindo de um quarto.
Jesus se dirige para aquele quarto e, à sua passagem, uma dúzia de pombos, que estavam bicando uns grãos espalhados pelo chão, erguem o voo, com um forte bater de asas. O barulho chamou atenção de quem estava no quarto, e, ao mesmo tempo se ouve um afastamento do toldo, feito por Jesus, que o moveu com a mão para a direita e pela mão de uma empregada, que o move para a esquerda, e fica estupefata, diante daquele Desconhecido.
– A paz a esta casa! Posso Eu, como um peregrino, receber uma refeição? –diz Jesus, estando de pé na soleira da sala, que é uma ampla cozinha, na qual as empregadas estão lavando as louças, que foram usadas na refeição do meio-dia.
– A patroa não te rejeitará. Eu vou avisá-la.
– Tenho comigo outros doze e, se Eu tivesse que receber a refeição só para Mim, Eu preferiria não recebê-la.
– Nós o diremos à patroa, e certamente…
382.3 – Mestre e Senhor! Tu por aqui? E em minha casa? Que graça é esta? –interrompe-a uma voz de uma mulher, Nique; vem para a frente rapidamente, ajoelhando-se para beijar os pés de Jesus.
As empregadas ficaram como umas estátuas. A que estava lavando os pratos ficou com o pano na mão direita e um prato gotejando na esquerda, corada por causa da água fervendo. Uma outra, atenta em polir as facas, de cócoras em um canto, levanta-se apoiando-se nos joelhos e as facas caem no chão, fazendo um grande barulho. Uma terceira, ocupada em tirar a cinza dos forninhos, ergue o rosto coberto de cinza e assim fica, passando em altura do nível do fogão e de boca aberta.
– Aqui estou. Repeliram-nos de muitas casas. Estamos cansados e com sede.
– Oh! Vem! Vem!! Não fiquemos aqui. vamos para as salas do lado norte, que são frescas e sombreadas. E vós, preparai água para lavar os membros e bebidas aromáticas. E tu, menina, vai correndo despertar o feitor para que ele te entregue os primeiros pratos, enquanto ficamos esperando o banquete…
– Não, Nique! Eu não sou um hóspede mundano. Eu sou o teu Mestre perseguido. Eu te peço mais abrigo e amor do que alimento. Peço piedade. E mais ainda para com os meus amigos do que para mim mesmo…
– Sim Senhor. Mas, quando foi que fizestes a última refeição?
– Eles, Eu não sei. Eu, foi ontem, ao romper da aurora que comi com eles.
– Vê, então, Senhor… não farei nada demais. Mas, como uma irmã ou uma mãe darei a todos o necessário e a ti, como uma serva e discípula, prestarei honra e darei ajuda. Onde estão os irmãos?
– Estão no pomar. Mas talvez já venham vindo. Já estou ouvindo as vozes deles.
Nique corre para fora e os vê, e os chama. Depois os leva junto com Jesus para um vestíbulo fresco, onde já estão os jarros e as toalhas e onde podem lavar o rosto, os braços e os pés da poeira e do suor.
– Eu vo-lo peço. Tirai as vossas vestes, e entregai-as logo às empregadas. Um grande conforto será para vós todos, se vestirdes vestes cômodas e colocardes sandálias frescas. Depois ireis para aquela sala.. Lá eu vos estarei esperando.
E Nique sai dali, fechando a porta.
382.4 – Ah! Como se está bem nesta sombra e com este frescor! –suspira Pedro, ao entrar na sala onde Nique os está esperando, toda desvelada e respeitosa para com eles.
– A minha alegria, ao poder dar-vos alívio, é certamente maior do que o teu próprio alívio, ó apóstolo do meu Senhor.
– Hum! Apóstolo… Está bem. Mas escuta, Nique, façamos como amigos. Tu, sem levares em conta que és rica e sábia e eu sem levar em conta que sou um apóstolo. Mas que nos tratemos assim como uns bons irmãos que precisam um do outro, tanto em suas almas, como em seus corpos. Pois… eu sinto muito medo só de pensar que eu sou um “apóstolo.”
– Medo de quê? –pergunta a mulher estupefata. E sorri.
– Medo de ser muito, muito grosseiro, sendo eu esta massa de barro que eu sou, e de talvez ter que desmoronar pelo peso. Medo de ficar cheio de soberba... Medo de… com a ideia de que sou um apóstolo, os outros… quero dizer, os discípulos e as almas simples me deixem muito à vontade, ficando calados, quando eu cometo algum erro… E isso eu não quero, porque entre os discípulos e também entre os que creem, assim em sua simplicidade de serem apenas fiéis — e são tantos os que são melhores do que eu —, uns nisto, outros naquilo, enquanto eu fico querendo fazer… como aquela abelha ali, que entrou e, das cestas de frutas que mandaste trazer para nós, chupou um pouco disso e um pouco daquilo e agora ainda vai indo para fora, a fim de chupar os trevos e as flores-de-lis, as camomilas e os convólvulos. Ela apanha alguma coisa de todos. E eu tenho necessidade de fazer como ela…
– Mas tu chupas a mais bela flor: o Mestre.
– Sim, Nique. Mas dele eu aprendo a tornar-me filho de Deus. Dos homens bons, eu aprenderei a tornar-me homem.
– Tu já o és.
– Não, mulher. Eu sou pouco menos que um animal. E nem sei como é que o Mestre me suporta…
– Eu te suporto porque sabes o que és e, por isso, podes ser trabalhado como massa. Mas, se tu resistisses, fosses teimoso e sobretudo soberbo, Eu te expulsaria como a um demônio –diz Jesus.
382.5 Entram as serventes com tigelas de leite frio e com ânforas porosas em que os líquidos certamente estão muito frescos.
– Por favor, servi-vos –diz Nique–. Depois podeis descansar até a tarde. A casa tem quartos e leitos. E, se não os tivesse, eu daria os meus para o vosso descanso. Mestre, eu vou afastar-me para os trabalhos da casa. Vós todos sabeis onde encontrar-me e onde encontrar as serventes.
– Vai, e não te preocupes conosco.
Nique sai. Os apóstolos dão valor à pequena refeição que lhes foi oferecida. E, comendo com um bom apetite, vão falando e fazendo comentários.
– Que boas frutas!
– E que boa discípula.
– É uma bela casa. Não é luxuosa, mas é sem miséria.
– E é governada por uma que é delicada e forte ao mesmo tempo. Que ordem, que asseio, que respeito e, ao mesmo tempo, quanta amabilidade!
– E que belos campos tem ao redor! Uma riqueza!
– Sim. E uma fornalha! –diz Pedro, que ainda não se esqueceu do que teve que sofrer.
Os outros riem.
– Mas aqui se está bem. E Tu sabias que Nique morava aqui? –pergunta Tomé.
– Eu não sabia mais do que vós sabíeis. Sabia que em Jericó havia terras recentemente adquiridas. Não mais do que isso. O querido anjo dos peregrinos foi quem nos guiou.
– Na verdade, ele guiou foi a Ti. Nós não queríamos vir.
– Eu já estava disposto a jogar-me no chão e a deixar-me queimar pelo sol e a não dar mais nem um passo –diz Mateus.
– Não se pode mais caminhar de dia. Este ano o sol já está forte, desde muito cedo. Parece que ele também esteja ficando doido.
– É verdade, iremos caminhar nas primeiras horas do dia e de tarde. Mas brevemente iremos pelos montes. Lá o calor é mais tolerável.
– Iremos à minha casa? –pergunta Iscariotes.
– Sim, Judas. E de lá iremos a Juta e a Hebron.
– Mas a Ascalon, não?
– Não, Pedro. Iremos aonde ainda não fomos. Mas certamente ainda teremos sol e calor. Um pouco de sacrifício por amor de Mim e das almas. Agora, ide descansar. Eu vou rezar no pomar.
– Mas, Tu não estás cansado? Não seria melhor que fosses descansar Tu também? –pergunta Judas de Alfeu.
– Talvez o Mestre queira parar aqui… –observa o Zelotes.
– Não. Ao romper do dia partiremos, para podermos atravessar a vau o rio nas horas frescas.
– Para onde e para que vamos ao Além-Jordão?
– As multidões, depois da Páscoa, voltam para as suas casas. Em Jerusalém Eu fui procurado em vão por muita gente. Junto ao vau, Eu irei pregar e curar. Depois iremos pôr em ordem a casinha do Salomão. Vai ficar uma beleza…
– Mas, não voltamos à Galileia?
– Iremos lá também. Mas ficaremos muito tempo nestas partes do sul e será necessário um abrigo. Agora, ide dormir. Eu já me vou.
382.6A ceia já deve ter acabado. Já é noite. Um orvalho abundante está caindo, e fazendo um ruído, ao cair das cornijas sobre as folhas da videira. No céu há umas estrelas inacreditáveis. Elas são em um número incalculável e, por entre elas, nossos olhares se perdem. O que se ouve é o canto dos grilos e dos pássaros noturnos e o silêncio da campina.
Os apóstolos já se retiraram. Mas Nique está de pé e ouvindo o Mestre. Ele está firmemente sentado em uma cadeira de pedra a frente da casa. A mulher está de pé diante dele, em uma postura de atento respeito.
Jesus deve estar terminando um discurso já começado:
– Sim. A observação é justa. Mas Eu estava certo de que ao penitente, ou melhor, ao “renascente” não teria faltado a ajuda do Senhor. Durante a ceia, quando tu fazias perguntas, à medida que ias servindo, eu pensava que a ajuda eras tu. Tu disseste: “Eu não posso acompanhar-te senão por breves períodos, para que a casa e os servos nossos sejam vigiados.” E tu te lamentavas disso, dizendo que, se tivesses sabido que ias encontrar-me no lago, não terias feito a aquisição que agora te amarra. Mas tu estás vendo como isso serviu para hospedar os evangelizadores. Portanto, foi bom. Mas podes servir ainda… Na esperança de servir perfeitamente ao teu Senhor. Eu te peço um serviço, por amor daquela alma que está renascendo, que é cheia de boa vontade, mas que é muito fraca. O excesso de penitência poderia angustiá-la e Satanás poderia querer servir-se da angústia dela.
– Que devo fazer, meu Senhor?
– Andar. A cada lua, andar, como se fosse um rito. E o é. É um rito de amor fraterno. Irás ao Carit e, subindo pelo caminho que está por entre os carvalhos, chamarás: “Elias, Elias!” Ele te aparecerá, espantado, e tu o saudarás assim: “A paz esteja contigo, irmão, em nome de Jesus o Nazareno!” Tu lhe levarás tantos pães, em forma de biscoito quantos são os dias de uma lua. Nada mais no verão. Da festa dos Tabernáculos para a frente junto com os pães lhe levarás quatro medidas de óleo, cada mês. E nos Tabernáculos lhe levarás uma veste de couro de cabra, pesada e impermeável, e uma coberta. Nada mais.
– E nenhuma palavra?
– Só as que forem estritamente úteis. Ele te perguntará por Mim. Dirás aquilo que souberes. Ele te confidenciará as suas dúvidas, esperanças e cansaços. Tu dirás aquilo que a tua fé e a tua piedade te inspirarem. Não durará muito, aliás, o sacrifício, nem doze Luas. Queres ser piedosa para comigo e para com o penitente?
– Sim, meu Senhor… 382.7Mas, por que estás tão triste?
– E tu, por que estás chorando?
– Porque nas tuas palavras estou sentindo um presságio de morte… Será que tão cedo te perderei, Senhor?
Nique chora sob o seu véu.
– Não chores! Haverá tão grande paz para Mim, depois… Não haverá mais ódio. Não mais emboscadas. Não mais nada disso… o horror do pecado sobre Mim… ao redor de Mim… Não mais vizinhanças cruéis… Oh! Não chores, Nique! O teu Salvador estará em paz. Estará vitorioso.
– Mas, antes… mas antes… Com meu marido, nós sempre líamos os Profetas… E tremíamos de horror pelas palavras de Davi e de Isaías… Mas será, será assim mesmo contigo?
– Assim, e mais ainda…
– Oh! Quem te dará alívio? Quem te fará morrer com… esperança ainda?
– O amor dos discípulos, e especialmente das discípulas fiéis.
– Também o meu, então. Porque eu não estarei longe de nenhum dos gestos do meu Redentor. Somente… Oh! Senhor! Exige de mim qualquer penitência, qualquer sacrifício, mas dá-me uma coragem viril para aquela hora, quando Tu estiveres1 “como um caco ressecado”, “com a língua pegada ao céu-da-boca” por causa da sede, quando estiveres parecendo “o leproso que cobre o rosto”, faze que eu te reconheça como o Rei dos reis, e vá até a Ti como uma serva devota. Não me escondas o teu rosto torturado, ó meu Deus, mas, como agora estás deixando que eu me felicite no teu fulgor, ó Estrela da Manhã, faze que eu possa olhar, então, para Ti e que o teu rosto se imprima no meu coração que, oh! tanto o meu, como o teu, serão moles como a cera naquele dia por causa da dor…
Nique está agora de joelhos, quase prostrada e de vez em quando levanta o rosto lacrimoso, a fim de olhar para o seu Senhor, um candor de carne ao candor da lua, contra o escuro da muralha.
– Terás tudo isso. E Eu terei a tua piedade. Ela subirá comigo para cima do meu patíbulo, e de lá subirá comigo para o Céu. Será a tua coroa eternamente. Os anjos e os homens dirão sobre ti o louvor mais belo: “Na hora da desventura, do pecado e da dúvida, ela foi fiel, não pecou e socorreu ao seu Senhor.” Levanta-te, mulher, e que tu sejas bendita, desde agora e para sempre.
Jesus lhe impõe as mãos, enquanto ela vai se pondo em pé e depois eles entram na casa silenciosa para o repouso da noite.
1 estiveres, como é mencionado em Salmo 22,16; Isaías 53,3.
1
2