342. 342. Em Quedes. O sinal pedidopelos fariseus e a profecia de Habacuc.
26 de novembro de 1945.
342.1A cidade de Quedes está sobre um pequeno monte, que do norte ao sul fica do lado do oriente, enquanto que do lado oeste há uma cadeia de colinas, quase paralela à outra, estendendo-se também do norte ao sul. São duas linhas paralelas, mas que em certa altura estreitam a distância entre si, tomando as duas a forma aproximada de um X. No ponto em que estão mais perto uma da outra, e tendendo um pouco uma mais para a cadeia oriental do que para a ocidental, lá está o monte, que tem em suas encostas a cidade de Quedes, a qual se estende dos cumes até às costas um tanto planas e domina um grande vale fresco e verdejante, mais estreito a leste e mais largo a oeste. É uma bela cidade murada, com bonitas casas e uma vistosa sinagoga, como também vistosa é a fonte de muitas bicas, que deixam cair uma água fresca e abundante em numa cavidade do terreno, da qual partem os córregos, que vão formar outras fontes, ou talvez dessedentar os jardins. Eu não sei.
Jesus entra na cidade num dia de mercado. Sua mão não está mais enfaixada, mas ainda está com uma crosta escurecida e uma grande equimose no dorso. Também Tiago de Alfeu tem uma pequena crosta moreno-avermelhada na têmpora e uma larga equimose ao redor. André e Tiago de Zebedeu, menos feridos, já não encontram mais os sinais da aventura passada e lá se vão, caminhando desembaraçados, mas olhando ao redor de si, especialmente para os lados e para trás, pois eles se escalonaram perto de Jesus, adiante e atrás dele. Tenho a impressão de que eles se tenham detido no lugar descrito ontem ou em suas vizinhanças, por dois ou três dias, talvez para descansarem, ou para que fiquem para longe os rabinos, em seu receio de que eles tivessem ido pelas cidades principais e com a esperança de apanhá-los em faltas e atacá-los de novo. Pelo menos isso é o que fazem pensar as conversas deles.
– Mas esta é uma das cidades de refúgio –diz André.
– É. E vão ser eles que hão de respeitar o refúgio e a santidade de um lugar! Como tu és ingênuo, meu irmão –responde-lhe Pedro.
Jesus está entre os dois Judas. Diante dele estão Tiago e João como vanguarda, depois o outro Tiago com Filipe e Mateus. Atrás dele estão Pedro, André e Tomé. Os últimos são Simão Zelotes e Bartolomeu.
342.2 Tudo vai indo bem até chegarem à entrada de uma bonita praça, aquela do tanque e da sinagoga e na qual estão as firmas, que tratam de seus negócios. O mercado se realiza lá mais abaixo e fica a sudoeste da cidade, no ponto em que desemboca a estrada mestra que vem do sul e a outra por onde Jesus chegou, que vem do oeste, estradas estas que, confluindo em ângulo reto, formam uma única, que entra por baixo da porta, até transformar-se na vasta praça oblonga, onde estão os asnos e as esteiras, os vendedores, os compradores e a barulheira de costume.
Mas, quando chegam a esta praça mais bonita — ela é o coração da cidade, creio eu, não somente por estar a igual distância do perímetro dos muros, mas também porque é aqui que pulsa a vida espiritual e comercial de Quedes, e parece até o estar dizendo a posição mais elevada do que o resto do lugar, dominadora, apta a defender-se, como uma cidadela — aí é que começam os ais. Como uns cães rosnadores, que esperam dar de cima de um inofensivo cachorrinho, ou melhor, como uns sabujos na trilha da caça, cujo cheiro eles já perceberam, trazido pelo vento, um grupo numeroso de fariseus e saduceus, tendo misturado, para temperá-lo, um punhadinho daqueles rabinos que vimos em Gíscala, entre os quais está Uziel, estão encostados ao portal amplo e vistoso, cheio de esculturas e ornatos, da rica sinagoga. E logo fazem sinais uns aos outros, mostrando Jesus e os apóstolos.
– Ai de mim, Senhor! Eles estão aqui também! –diz, amedrontado, João, voltando para trás, a fim de ir falar com Jesus.
– Não tenhas medo. Vai para diante com segurança. Mas os que não se sentem com coragem de enfrentar aqueles infelizes, que se retirem daqui e vão para o albergue. Eu quero, de qualquer maneira, falar aqui, uma cidade levítica e de refúgio.
Todos protestam:
– Mestre, podes pensar que alguém te vai deixar sozinho? Que nos matem a todos, se o quiserem. Mas nós participamos da tua sorte.
342.3 Jesus passa pela frente do grupo inimigo e vai colocar-se perto do muro de um jardim, do qual estão chovendo, cândidas, as pétalas de uma pereira toda florida. O muro escuro e aquela nuvem cândida são a moldura e a coroa para Cristo, que está com os doze à sua frente.
Jesus começa a falar, e é a sua bela voz, bem entoada, que diz:
– Ó vós, aqui recolhidos, vinde escutar a Boa Nova, porque mais úteis do que os negócios e as moedas é a conquista do Reino dos Céus.
E a praça se enche e os que nela estão se viram para Ele.
– Oh! Mas Aquele é o Rabi da Galiléia! –diz um–. Vinde, vamos escutá-lo. Talvez Ele faça algum milagre.
E um outro:
– Eu, em Betgina, o vi fazer um. E como fala bem! Não como aqueles lobos rapaces e aquelas serpentes astutas.
Jesus é logo circundado pela multidão. E Ele continua a falar a uma multidão atenta.
– Do coração desta cidade levítica, Eu não quero só ficar recordando a Lei. Eu sei que ela está presente aos vossos corações, como em poucas cidades de Israel. É o que demonstra a ordem que nela pude observar e a honestidade de que me deram prova os negociantes, aos quais comprei alimentos para Mim e para meu pequeno rebanho, e esta sinagoga, ornada como é conveniente que seja o lugar onde se presta honra a Deus. Mas em vós próprios há um lugar onde também se honra a Deus, um lugar onde estão as aspirações mais santas e onde ressoam as palavras mais docemente esperançosas da nossa fé e as orações mais ardentes para que a esperança se transforme em realidade. É a alma. Aí é que está o lugar santo e singular, onde se fala de Deus e com Deus, à espera de que se cumpra a Promessa.
Mas a Promessa já se cumpriu. Israel já tem o seu Messias, o qual vos vem trazer a palavra e a certeza de que o tempo da Graça já chegou, de que a Redenção está próxima, de que o Salvador está no meio de vós, de que o Reino sem derrotas está começando.
342.4 Quantas vezes já tereis ouvido ler em Habacuc! E os mais meditadores entre vós terão murmurado: “Eu também posso dizer: ‘Até quando, Senhor, deverei eu gritar, sem ser por ti ouvido?’” Há séculos que Israel geme assim. Mas agora o Salvador já veio. A grande rapinagem, a contínua preocupação, a desordem e a injustiça causada por Satanás estão para acabar, porque o Mandamento de Deus está para reintegrar o homem em sua dignidade de filho de Deus e de co-herdeiro do Reino de Deus. Olhemos para a profecia de Habacuc com novos olhos, e perceberemos que ela dá testemunho de Mim e já fala a linguagem da Boa Nova, que Eu trago aos filhos de Israel.
Mas aqui sou Eu que devo gemer: “Fez-se o juízo, mas a oposição esta ganhando.” E Eu gemo por isso, com grande dor. Não só por mim, que estou acima do juízo humano, mas por aqueles que, por serem opositores, se condenam, e por aqueles que por esses opositores são extraviados. O que Eu digo vos espanta? Entre vos há negociantes de outros lugares de Israel. Eles vos podem dizer que Eu não estou mentindo. Não vos estou mentindo, levando uma vida contrária ao que Eu ensino e não fazendo o que se espera do Salvador. E não estou mentindo ao dizer que a oposição humana se levanta contra o Juízo de Deus, que Me mandou, e contra o juízo das turbas humildes e sinceras, que Me ouviram e me julgaram por aquilo que Eu sou.
Alguns dentre a multidão murmuram:
– É verdade! É verdade! Nós do povo o queremos e percebemos que Ele é santo. Mas esses aí –(e mostram os fariseus com seus companheiros)– o hostilizam.
Jesus continua:
– Para fazerem esta oposição, rasgaram a Lei e sempre mais a rasgarão, até ficar abolida, a ponto de cometerem a suprema injustiça a qual, porém, não durará muito tempo. E felizes daqueles que, na breve e medonha permanência, na qual irá parecer que a oposição chegou a triunfar contra Mim, souberem continuar a crer em Jesus de Nazaré, no Filho de Deus, no Filho do Homem, predito pelos profetas. Eu poderia cumprir o Juízo de Deus até o fim, salvando a todos os filhos de Israel. Mas não o poderei, porque o ímpio triunfará contra si mesmo, contra esse seu simesmo melhor e, como ele conculca os meus direitos e conculca os que crêem em Mim, não poderá conculcar os direitos do seu espírito, que tem necessidade de Mim para ser salvo, ainda que tenha sido permitido a Satanás negar que Eu tenha esse poder.
342.5 Os fariseus estão murmurando. Mas um velho respeitável, em certo momento, aproximou-se de Jesus e agora, aproveitando uma pausa da pregação, lhe diz:
– Eu te peço uma coisa. Entra na sinagoga e ensina de lá. Ninguém mais do que Tu tem esse direito. Eu sou Matias, o sinagogo. Vem, e que a palavra de Deus esteja em minha casa como está em tua boca.
– Obrigado, justo de Israel. A paz esteja sempre contigo.
E Jesus, através da multidão, que se divide como uma onda para deixá-lo passar e depois se une de novo, como as águas de uma esteira, e o acompanham, torna a atravessar a praça e entra na sinagoga, passando de novo diante dos fariseus rosnadores. Estes, porém, entram também na sinagoga, procurando abrir caminho com sua prepotência. Mas as pessoas olham mal para eles, e lhes di-zem:
– De onde é que estais vindo? Ide para as vossas sinagogas e esperai lá o Rabi. Aqui a casa é nossa e nela estamos.
Os rabinos, os saduceus e fariseus devem, então, suportar aquelas palavras e ir ficar humildemente perto da porta de saída, para não serem expulsos pelos habitantes de Quedes.
Jesus está em seu lugar, junto ao sinagogo e a outros da sinagoga, não sei se filhos dele ou ajudantes. E recomeça a falar:
– Diz Habacuc — e como ele vos convida com amor a observar —: “Lançai vossos olhares para as nações e observai, e ficai maravilhados, estupefatos. Porque em vossos dias aconteceu uma coisa na qual ninguém acreditará quando lhe for contada.” Também agora temos inimigos materiais em Israel. Mas deixai de lado o pequeno pormenor da profecia e vamos olhar somente para o grande vaticínio, completamente espiritual dela. Porque as profecias, mesmo quando parecem ter uma referência ao que é material, são sempre portadoras de um conteúdo espiritual. E por isso, a coisa que aconteceu, — e é uma coisa tal, que ninguém poderá aceitá-la, se não estiver convicto da infinita bondade do verdadeiro Deus, — que Ele tenha mandado o seu Verbo para salvar e redimir o Mundo. Deus que se separa de Deus1 para salvar sua criatura culpada. Pois bem. Eu fui mandado para isso. E nenhuma das forças do mundo poderá deter o meu ímpeto de Triunfador sobre reis e tiranos, sobre os pecados, sobre as estultícias. Eu vencerei, porque Eu sou o Triunfador.
342.6 Uma risada de escárnio e um grito vêm lá do fundo da sinagoga. O povo protesta. O sinagogo, que estava com os olhos quase fechados, por estar muito concentrado em ouvir a Jesus, põe-se de pé e exige silêncio, ameaçando aos perturbadores com a expulsão.
– Deixa-os fazer. Ao contrário, convida-os a que exponham as suas contradições –diz Jesus, em voz alta.
– Oh! Muito bem. Assim está bem. Deixa-nos ir para perto de Ti. Nós queremos interrogar-te –gritam, irônicos, os contraditores.
– Vinde. Deixai-os passar, ó vós de Quedes.
E a multidão, com olhares hostis e fazendo caretas, — sem deixar de fazer algum insulto, — os deixa ir para frente.
– Que quereis saber? –pergunta sério, Jesus.
– Então, Tu dizes que és o Messias? Estás mesmo certo disso?
Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, olha para quem falou com um tal domínio, que o homem sente a percussão violenta da ironia e se cala.
Mas um outro retoma a palavra e diz:
– Não podes pretender que se creia em Ti só porque o dizes. Qualquer um pode mentir, estando em boa fé. Mas, para que se creia, exigem-se provas. Dize, pois, quais são as provas de que Tu és o que dizes que és.
– Israel está cheio das minhas provas –diz, em poucas palavras, Jesus.
– Oh! Aquelas!… pequenas coisas que qualquer santo pode fazer. Já foram feitas e continuarão a ser feitas pelos justos de Israel –diz um fariseu.
Um outro acrescenta:
– Delas se diz que Tu as fazes por tua santidade e com a ajuda de Deus! Assim se diz, mas, na verdade, pode-se bem crer que Tu sejas ajudado é por Satanás! Nós queremos outras provas! Provas superiores. Provas que Satanás não pode dar.
– Isto mesmo! Por exemplo, uma morte vencida… –diz um outro.
– Vós já a tivestes.
– Eram apenas aparências de morte. Mostra-nos um cujo corpo já se desfez e que se reanime e se recomponha, por exemplo. Para termos a certeza de que Deus está contigo. Deus é o único que pode dar de novo a respiração ao barro que já está a caminho de virar pó.
– Nunca foi pedido isso aos profetas para se poder crer neles.
Um saduceu grita:
– Tu és mais que um profeta. Tu, pelo menos Tu o dizes, és o Filho de Deus… Ah! Ah! Por que então não ages como Deus? Vamos, pois! Dá-nos um sinal! Um sinal!
– Isto mesmo. Um sinal do Céu, que nos mostre que és o Filho de Deus e, então, nós te adoraremos –grita um fariseu.
– Estás certo! Tu falaste bem, Simão! Não queremos cair no pecado2 de Aarão. Não adoraremos o ídolo, o bezerro de ouro. Mas poderíamos adorar o Cordeiro de Deus! Não és Tu? Contanto que o Céu nos indique que Tu o és –diz aquele chamado Uziel, que estava em Gíscala e que agora está rindo sarcasticamente.
Começa um outro a gritar:
– Deixa-me falar a mim, que sou Sadoc, o escriba de ouro. Escuta-me, ó Cristo. Tu foste precedido por muitos que Cristos não eram. Basta de fraudes. Um sinal de que és o tal. E Deus, se estiver contigo, não o pode negar. E nós creremos em Ti e te ajudaremos. Se assim não fizeres, sabes o que te espera, conforme o mandamento3 de Deus.
Jesus levanta a mão ferida e a mostra bem ao seu interlocutor.
– Estás vendo este sinal? Foste tu que o fizeste. Mostraste com o dedo um outro sinal. E, quando vires que ele está cravado na carne do Cordeiro, tu te alegrarás. Olha para ele! Tu o estás vendo? Também o verás no Céu, quando lá apareceres para prestar contas do teu modo de viver. Porque Eu te julgarei e estarei com o meu corpo glorificado lá em cima, com os sinais do meu ministério e do vosso, do meu amor e do vosso ódio. E tu o verás, Uziel, e tu, Simão, e o verão Caifás e Anás, e muitos outros, no Último Dia, dia de ira, dia terrível e, por isso, preferiríeis estar nas profundezas do abismo, porque o sinal da minha mão direita ferida lançará como que uns dardos sobre vós, mais do que os fogos do Inferno.
– Oh! Isto são palavras e blasfêmias! Tu no Céu com teu corpo? Blasfemador! Tu como juiz no lugar de Deus? Que a maldição caia sobre Ti! Tu, insultador do Pontífice? Bem que merecerias ser apedrejado –urram em coro os fariseus, os saduceus e os doutores.
342.7 O sinagogo se levanta de novo, patriarcal, esplêndido em suas cãs, como um outro Moisés, e grita:
– Quedes é cidade de refúgio e cidade levítica. Respeitai…
– Isso são velhas histórias! Não valem mais nada!
– Oh! Línguas blasfemas! Vós é que sois pecadores e não Ele, e eu o defendo. Ele não diz nada de mal. Ele explica os profetas e nos traz a Boa Promessa, e vós o interrompeis, vós o tentais e o ofendeis. Eu não o permito. Ele está sob a proteção do velho Matias, da estirpe de Levi por parte do pai, e de Aarão, por parte da mãe. Saí daqui, e deixai que Ele ensine à minha velhice e à virilidade dos meus filhos.
E põe sua mão rugosa de velho sobre o antebraço de Jesus, como para defendê-lo.
– Que Ele nos dê um sinal verdadeiro. E nós sairemos daqui convencidos –gritam os inimigos.
– Não te preocupes, Matias. Eu vou falar –diz Jesus, para acalmar o sinagogo.
E, virando-se para os fariseus, saduceus e doutores, diz:
– Quando chega a tarde, vós ficais examinando o céu e, se ele está avermelhado, ao pôr-do-sol, vós, segundo o antigo costume, dizeis: “Amanhã o tempo vai ser bom, porque ao pôr-do-sol, o céu se avermelhou.” Igualmente, pela manhã cedo, quando vedes que o ar esta carregado de névoas e vapores no céu, também dizeis: “Não passará o dia, sem que haja temporal.” Portanto, vós sabeis ler no céu qual vai ser o futuro do dia, pelos instáveis sinais no céu, e pelos sinais ainda mais volúveis dos ventos. E não sabeis distinguir os sinais dos tempos? Isso não é uma honra para a vossa inteligência, nem para a vossa ciência, mas uma coisa que desonra a vossa capacidade de prever, e a vossa presunçosa sabedoria. Vós pertenceis a uma geração má e adúltera, nascida em Israel do casamento de quem andou fazendo fornicação com o Mal. Vós sois os herdeiros dele, e aumentais a vossa maldade e o vosso adultério, ao repetirdes os pecados dos pais deste erro. Pois bem. Ficai sabendo, tu, Matias, e ficai sabendo vós, de Quedes, e todos os que estão aqui presentes, como fiéis ou como inimigos. Esta é a profecia que Eu vos digo, a minha, no lugar da de Habacuc, que Eu estava desejando explicar-vos: a esta geração má e adúltera, que está pedindo um sinal, não lhe será dado senão o sinal de Jonas4… A paz esteja com os de boa vontade.
E, saindo por uma porta lateral, que se abre para uma estrada silenciosa, por entre jardins e casas, Ele vai-se afastando, junto com os seus apóstolos.
342.8 Mas os moradores de Quedes não se dão por vencidos. Alguns o acompanham e, tendo-o visto entrar num pequeno albergue nos subúrbios orientais da cidade, vão levar notícia disso ao sinagogo e aos concidadãos. E Jesus ainda está comendo, quando o pátio do albergue, cheio de sol, fica apinhado de gente e o velho sinagogo, com outros anciãos de Quedes, põe-se na saída da sala onde está Jesus e se inclina, implorando:
– Mestre, nós ficamos com o desejo de tua palavra. Como era bela, explicada por Ti, a profecia5 de Habacuc! E, porque existe quem te odeia, poderão ficar sem conhecer-te os que te amam, e creram em tua verdade?
– Não, pai. Não seria justiça punir os bons por causa dos maus. Então, escutai…
(E Jesus deixa a comida na mesa e vai ficar à porta, começando a falar aos que se aglomeraram no pequeno pátio).
– As palavras do vosso sinagogo são como um eco das de Habacuc. Ele, por si mesmo e por todos vós, confessa e professa: “Desde o principio Tu existes e estás conosco, e não morremos.” E assim será. Não perecerá quem crer em Mim. O Profeta me apresenta como Aquele que Deus estabeleceu para julgar, como Aquele que Deus tornou forte para castigar, como Aquele cujos olhos são extremamente puros para verem o mal e que terá uma intolerância para com a iniqüidade. Mas, se é verdade que o pecado me causa repugnância, contudo, vede como Eu abro os braços, porque sou o salvador, a todos aqueles que estão arrependidos dos seus pecados. Por isso, Eu volvo o meu olhar também para o culpado e convido ao ímpio a se arrepender…
342.9Ó vós de Quedes, cidade levítica, cidade santificada pela proclamação da caridade para com quem está culpado de algum delito — e todo homem tem delitos aos olhos de Deus, delitos contra a sua alma, contra o seu próximo, — vinde então a Mim, Refúgio dos pecadores. Aqui, no meu amor, nem mesmo a maldição de Deus poderia atingir-vos, porque o meu olhar suplicante em vosso favor muda a maldição de Deus em bênção de perdão. Escutai, escutai! Escrevei em vossos corações esta promessa, como Habacuc escreveu bem a sua profecia sobre os rolos. Lá está dito: “Se Ele tardar, espera-o, porque quem está para vir, virá sem tardar.” Eis-me aqui. Aquele que devia vir já veio. Sou Eu.
“Quem é incrédulo não tem em si uma alma justa”, diz o Profeta, e em sua palavra está a condenação daqueles que me tentaram e insultaram. Eu não os condeno. Mas, sim, o Profeta que me previu e creu em Mim. Ele que me apresenta como o Triunfador, assim fala do homem soberbo, dizendo que ele é sem honra, tendo aberto a sua alma à cupidez e à insaciabilidade, como cobiçoso e insaciável é o inferno. E ameaça: “Ai daquele que acumula coisas que não são suas e leva nas costas uma lama grossa.” As más ações contra o Filho do homem são essa lama e o querer despojá-lo de sua santidade, para que ela não ofusque a dele, é cupidez.
“Ai”, diz o Profeta, “de quem ajunta em sua casa os frutos de sua perversa avareza para colocar lá em cima o seu ninho, pensando livrar-se assim das garras do mal.” Isto é desonrar-se a si mesmo e matar a sua própria alma.
“Ai daquele que edifica uma cidade sobre o sangue, e constrói castelos sobre a injustiça.” Na verdade, Israel fundamenta demais as suas cobiçosas fortalezas sobre lágrimas e sangue, e fica esperando o último, para preparar com ele uma massa mais dura. Mas, que pode uma fortaleza contra os dardos de Deus? Que vale um punhado de homens contra a justiça do mundo inteiro que gritará de horror pelo delito sem igual?
Oh! Como bem diz Habacuc! “Para que serve uma estátua?” E a mentirosa santidade de Israel já é como a estátua de um ídolo. Só o Senhor está em seu Templo Santo e só diante dele é que se inclinará a terra, e tremerá em adoração e assombro, enquanto o sinal prometido será dado uma e mais vezes e o Templo verdadeiro, no qual Deus repousa, subirá glorioso para ir dizer nos céus “Está consumado!”, como o terá dito, entre soluços, à terra, para limpá-la antes com o seu anúncio.
“Fiat!”, faça-se, diz o Altíssimo. E o mundo apareceu. “Fiat”, faça-se, dirá o Redentor, e o mundo será redimido. Eu darei ao mundo com que ser redimido. E redimidos haverão de ser aqueles que tiverem a vontade de o serem.
342.10 Agora, levantai-vos. Vamos dizer a oração do profeta mas do modo como é justo dizê-la, neste tempo de graça:
“Eu ouvi, ó Senhor, o teu anúncio, e jubilei com ele.” Não é mais tempo de assombro, ó vós que credes no Messias.
“Senhor, a tua obra está no meio dos anos, faze-a viver, apesar das insídias dos inimigos. No meio dos anos a tornarás conhecida.” Sim. Quando chegar à idade perfeita, será completada.
“E na indignação brilhará a misericórdia”, porque a indignação será para com aqueles que tiverem lançado suas redes e laços e atirado flechas contra o Cordeiro Salvador
“Deus virá da Luz ao mundo.” Eu sou a Luz, que veio trazer-vos Deus. O meu esplendor inundará a terra, desembocando em rios “lá onde os chifres pontudos” terão rasgado as Carnes da Vítima na última vitória “da Morte e de Satanás, que fugirão vencidos, diante do Vivente e do Santo.”
Glória ao Senhor! Glória Aquele que tudo fez. Glória a quem nos deu o sol, os astros! Ao Artífice dos montes. Glória, infinita glória ao Bom que quis o Cristo para a salvação do seu povo, para a redenção do homem.
Uni-vos, cantai comigo, porque a Misericórdia veio ao mundo e já vem perto o tempo da Paz. Aquele que vos estende as mãos vos exorta a crer e a viver no Senhor, porque se aproxima o tempo no qual Israel será julgado segundo a verdade.
A paz esteja convosco que aqui estais presentes, com as vossas famílias, com vossas casas.
Jesus faz um amplo sinal de bênção, e parece querer retirar-se.
Mas o sinagogo lhe roga:
– Fica ainda.
– Não posso, pai.
– Pelo menos manda-nos os teus discípulos.
– Vós os tereis sem falta. Adeus. Vai em paz.
342.11 Eles ficam sozinhos…
– Mas eu queria saber quem foi que no-los mandou, por entre nossos rastros.Parecem uns necromantes… –diz Pedro.
Iscariotes anda para frente, pálido. Ajoelha-se aos pés de Jesus.
– Mestre, eu sou o culpado. Eu falei naquela cidade… com um deles do qual eu era hóspede…
– Como? Em vez de penitência! Tu és…
– Silêncio, Simão de Jonas! Teu irmão sinceramente se está acusando. Presta-lhe honra por esta humilhação. Não fiques preocupado, Judas. Eu te perdôo. Tu sabes que Eu te perdôo. Sê mais prudente de outra vez… E agora vamos. Caminhemos enquanto houver luar. Devemos atravessar o rio antes da aurora. Vamos. Ali atrás começa o bosque. Lá perderão os nossos rastros, tanto para os bons como para os malvados. Amanhã já estaremos no caminho, que vai para Panéades.
1 Deus que separa de Deus, uma expressão que MV justifica com a seguinte nota em uma cópia datilografada: Apesar de ainda ser uma “coisa” com o Pai, a Palavra não estava no Pai, como antes da Encarnação. Mesmo no texto de 381.2 a distinção é feita entre a Palavra do Pai que está no Céu, e do Filho do homem.
2 pecado, aquele dito em Êxodo 32,1-6.
3 mandamento, que está em Levítico 24,16.
4 o sinal de Jonas, já em 269.10.
5 profecia, cuja explicação, que começou com citações Habacuque 1,2.3.5, recomeça após a interrupção dos fariseus, com citações Habacuque 1,12-13; 2,3.4.6.9.12.18; 3,2-5.
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