389. 389. Chegada a Engadi com dez apóstolos.


20 de fevereiro de 1946.

389.1 Os peregrinos, ainda cansados por uma longa viagem, feita talvez em duas etapas, desde o pôr-do-sol até o romper do dia, por caminhos certamente não fáceis, não podem conter-se sem que façam uma exclamação de admiração, quando, depois de ultrapassarem o último trecho da estrada, por uma estrada que se incendeia com os seus diamantes, aos primeiros raios do sol da manhã, encontram-se diante do panorama do Mar Morto, vendo-se suas duas margens1.

 

 

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Enquanto a margem ocidental deixa um pequeno espaço plano entre o Mar Morto e a linha dos pequenos montes que, pouco altos como são, ficam parecendo a última onda das cadeias dos montes da Judeia, onda que se projetou para a frente, por sobre o litoral desolado, e permaneceu lá, cheia de vegetação, depois de ter interposto o deserto nu entre si e a cadeia judaica mais próxima, a beira oriental, ao contrário, tem montes que desabam, quase a pique, na bacia do Mar Morto. Tem-se até a impressão de que o terreno, em alguma espantosa catástrofe telúrica, tenha-se desmoronado assim, num corte retilíneo, deixando algumas fendas verticais sobre o lago, das quais descem torrentes mais ou menos volumosas, destinadas a se evaporarem, ao caírem no sal das águas escuras e malditas do Mar Morto. Atrás, para lá do lago e da primeira moldura formada pelos montes, outros e mais outros montes vão aparecendo, muito bonitos, ao se exporem ao sol desta manhã. Ao norte, a desembocadura verde azulada do Jordão e ao sul outros montes que servem de moldura para o lago.

É um espetáculo de majestosa grandeza, mas triste admoestadora, com a qual se fundem os vagos aspectos dos montes com o escuro aspecto do Mar Morto, que parece querer fazer lembrar do que é capaz o pecado e o que é capaz de fazer a ira do Senhor. Porque é uma coisa impressionante ver-se um tão vasto espelho d’água sem nem um barco a vela, nenhuma outra embarcação, nenhum outro animal que o atravesse ou o sobrevoe nenhuma ave marinha a beber em suas margens. E, como um contraste desse aspecto punitivo do mar, veem-se as maravilhas produzidas pelo sol sobre os pequenos montes e sobre as dunas, e até sobre as areias do deserto, onde os cristais de sal tomam a aparência de jaspes preciosos, espalhados sobre a areia, sobre as pedras, sobre os troncos rígidos das árvores do deserto, transformando tudo em beleza, com sua pulverização de pequenos diamantes, recobrem todas as coisas. E, coisa ainda mais maravilhosa, é o aspecto de fertilidade oferecido por um pequeno planalto, a uns cento e cinquenta metros acima do mar de palmeiras, de outras árvores e vinhas de todas as espécies, sobre o qual escorrem as águas azuladas e se estende uma bonita cidade rodeada de campinas, onde as plantas crescem com extraordinário viço. Parece, quando se passa o olhar daquela cor escura do mar e daquele aspecto atormentado da beira oriental, que mostra uma triste paz, e somente uma faixa de terra baixa e verde, que se lança para o sudeste do mar, e daquele aspecto desolado do deserto de Judá, ou daquele, severo, dos montes da Judeia, para este, tão ameno, tão risonho e florido, que se esteja desfazendo em nós um sonho febril de incubo, e se transformando em uma suave visão de paz.

389.2– Aquela é Engadi2, cantada pelos poetas de nossa Pátria. Observai como é bonita toda esta região, sustentada pelas águas gratuitas, em meio de tanta tristeza! Vamos descer e entrar em seus jardins, pois tudo aqui é jardim: o prado, o bosque e o vinhedo. Esta é a Assasson Tamar, cujo nome já se refere às suas belas palmeiras, sob as quais era ainda mais bonito erguer as cabanas e cultivar a terra, amarem-se, criar os filhos e os rebanhos, ao ruído cantarolante das folhas das palmeiras. Este é o oásis sorridente, sobrevivente entre as terras dos Édens proibidos por Deus, rodeado, como uma pérola no castão pelos caminhos só transitáveis pelas cabras com seus cabritinhos, como está dito no livro dos Reis, caminhos nos quais se abrem para os perseguidos, os cansados e os abandonados, cavernas hospitaleiras. Lembrai-vos de Davi, o nosso rei, e lembrai-vos de sua bondade para com Saul, seu inimigo. Esta é Assasson Tamar, que é Engadi, a fonte, a bendita, a beleza, da qual partiram os inimigos contra o rei Josafá e os filhos do seu povo que, apavorados, se dirigiram para a casa de Jaasiel, filho de Zacarias, e foram confortados, pois falava nele o Espírito de Deus. E grande vitória conseguiram, porque tiveram fé no Senhor e mereceram sua ajuda pela penitência e a oração, que fizeram antes da batalha. Este é o canto de Salomão, na comparação com as belezas da Bela e a das belas. Esta foi nomeada por Ezequiel como uma das que foram alimentadas pelas águas do Senhor… Desçamos. Vamos levar a Água viva, que desce do Céu à gema, que é Israel.

E começa, quase correndo, a descida por um caminho quebra-pescoço, todo cheio de curvas e zigazagues, talhado na rocha calcária avermelhada, na qual os pontos em que mais se aproxima do mar são justamente os do fim do monte, e faz assim uma moldura para ele. É um caminho de dar vertigem até nos mais peritos montanheses. Os apóstolos se esforçam para acompanhá-lo, e os mais velhos estão bastante distanciados do Mestre, quando Ele pára, junto às primeiras palmeiras e vinhas do fértil planalto, onde cantarolam as águas cristalinas e cantam pássaros de todas as espécies.

Umas ovelhas brancas estão pastando por baixo do teto barulhento das palmeiras, das sensitivas, das árvores balsâmicas, das árvores de pistacho e de outras, que exalam aromas sutis ou agudos, unindo-se ao dos roseirais, do espinafre florido, da canela, do cinamomo, da mirra, do incenso, do açafrão, dos jasmins, lírios, lírios do vale e da flor do aloés, que aqui é gigante, dos cravos e benjoins, que soltam, lágrimas junto com outras resinas, dos cortes feitos nos troncos. Verdadeiramente, este é3 outro lugar bonito como este, por sua vastidão natural. Compreendem-se melhor, ao olhar-se para ele, muitas páginas dos poetas do Oriente, em que eles cantam as belezas desses oásis, como as de verdadeiros paraísos espalhados sobre a terra.

389.3 Os apóstolos estão suados, mas admirados, e se unem ao Mestre para juntos descerem por uma estrada bem conservada, para a beira da qual eles chegam, depois de terem passado por sucessivos terraplenos, todos cultivados, dos quais, como umas pequenas cascatas sorridentes, descem as águas benéficas, que irão irrigar todas as culturas, até chegarem à planície, e terminarem na praia. No meio da encosta, eles entram na cidade branca, que está sob o ruído das folhas das palmeiras, soltando odores dos roseirais e das mil flores dos seus jardins, e vão procurar alojamento, em nome de Deus, nas primeiras casas. E as casas, tão benignas como a natureza, abrem-se para eles sem hesitações, enquanto os habitantes delas estão perguntando quem é “o Profeta que se parece com o rei Salomão, vestido de linho e radiante de beleza…”

Jesus, com João e Pedro entra em uma casinha, onde mora uma viúva com seu filho. Os outros se espalham para um lado e para outro, depois da bênção do Mestre e da combinação de se reunirem, ao pôr-do-sol, na praça maior.

1 margens. Segue o esboço de MV, que colocou ao centro o mar Morto, em sua margem ocidental Engadi em um quadrinho vermelho, e a oeste o deserto (escrito duas vezes).
2 Engadi, celebrada pela sua beleza ou mencionada como lugar de eventos históricos em 1 Samuel 24; 26; 2 Crônicas 20,1-30; Cântico dos cânticos 1,14; Siraque 24,14; Ezequiel 47,6-12.
6 este é, como se lê em Cântico dos cânticos 4,12-15.
3 Não há na Palestina e o sucessivo Compreendem-se melhor são corrigidos por MV, seja no manuscrito original como na cópia datilografada, em Não tem na Palestina e em Sim Compreende-se olhando-o. O sentido destas correções é explicado em uma nota em 335.7, no tópico a.


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