379. 379. Uma premonição do Apóstolo João.
7 de fevereiro de 1946.
379.1 – Para onde vamos indo? A tarde está chegando, perguntam os apóstolos uns aos outros.
Eles estão conversando sobre tudo o que sucedeu. Não falam nada em voz alta para não desagradarem o Mestre, que está visivelmente muito pensativo.
Realmente a tarde vem chegando, enquanto eles vão andando, sempre atrás do pensativo Mestre. Mas uma pequena vila aparece, aos pés de uma cadeia de montes muito desiguais.
– Vamos parar, a fim de pernoitarmos aqui –ordena Jesus–. Ou melhor, parai vós aqui, que Eu vou rezar no alto daqueles montes…
– Irás sozinho? Ah! Não! Para o alto do Adomin sozinho não vais. Com todos aqueles ladrões, que te armam ciladas, não, para lá não vais –diz Pedro, decidido.
– E que queres que me façam? Eu não tenho nada!
– Tens! Tens a Ti mesmo. Eu estou falando dos ladrões verdadeiros, que te odeiam. Para eles, basta-lhes a tua vida. Tu não deves ser morto como… como… assim em uma emboscada. Para dar um pretexto aos teus inimigos para inventarem eles talvez que afastaram as turbas da tua doutrinação –replica Pedro.
– Simão de Jonas tem razão, Mestre. Seriam capazes de fazer desaparecer teu corpo, e dizer que Tu fugiste ao veres que tinhas sido desmascarado. Ou então… que te levassem para lugares de gente devassa, para a casa de alguma meretriz para poderem dizer: “Vede onde e como foi morto! Numa briga por causa de uma meretriz.” Tu disseste bem. “Perseguir uma doutrina, é o mesmo que aumentar o poder dela”, e eu notei, porque não o perdi mais de vista, que o filho de Gamaliel ia aprovando com a cabeça enquanto Tu falavas. Contudo, está dito bem, se disser que cobrir de ridículo um santo e sua doutrina é a arma mais segura para fazê-la cair e para tirar a estima das turbas pelo santo –diz Judas Tadeu.
– Sim. E isso contigo não deve acontecer –termina dizendo Bartolomeu.
– Não te prestes ao jogo dos teus inimigos. Pensa que não somente Tu, mas também a Vontade, que te mandou ficaria anulada por esta imprudência, e se veria assim que os filhos das trevas foram, pelo menos por um momento, vencedores da Luz –acrescenta o Zelotes.
– Mas é verdade. Tu sempre dizes, e isso nos traspassa o coração, quando o dizes, que deves ser morto. Eu me lembro da tua censura a Simão Pedro e, por isso, não te digo “Que isso não aconteça nunca.” Mas eu creio que não serei Satanás, se te disser: “Pelo menos que isso seja de tal modo, que sirva de glorificação para Ti, um sinal inequívoco do teu ser santo, e uma condenação segura para os teus inimigos. Que as turbas fiquem sabendo, e possam ter elementos para distinguir e crer.” Isto pelo menos, oh Mestre. A missão1 santa dos Macabeus nunca pareceu tal como quando Judas, filho de Matatias, morreu como um herói e salvador sobre o campo de batalha. Queres ir para o alto do Adomin? E nós contigo. Nós somos os teus apóstolos! Onde estiveres Tu, o Chefe, estejamos nós também, os teus ministros –diz Tomé, e poucas vezes o ouvi falar com tão solene eloquência.
– É verdade! É verdade! E, se te assaltarem, que nos assaltem, antes a nós –dizem muitos.
– Oh! Não nos assaltarão assim tão facilmente! Eles devem estar fazendo os seus curativos, depois da queimadura que lhes causaram as palavras de Cláudia e… são muito astutos ! Não deixam de refletir que Pôncio saberia quem golpear pela sua morte. Estão muito expostos aos olhos de Cláudia e o meditarão, estudando as emboscadas mais seguras doe uma vulgar agressão. Não somos mais os pobres ignorados de antes. Agora há Cláudia! –diz Iscariotes.
– Bem, bem. Não nos metamos em perigos. 379.2Que queres fazer lá no alto do Adomin? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Rezar, e procurar um lugar para todos rezarem nos dias futuros, a fim de preparar-nos para as novas, e cada vez mais encarniçadas lutas.
– Com os inimigos!
– Até com o nosso eu. Ele tem muita necessidade de ser fortalecido.
– Mas, não disseste que querias ir para os confins da Judeia e para o Além-Jordão?
– Sim. E irei para lá. Mas depois da oração. Irei a Acor, e depois, passando por Doc, a Jericó.
– Não, não, Senhor. Esses são lugares agourentos para os santos de Israel. Não vás para lá. Eu te digo. Eu o pressinto. Alguma coisa está dizendo-o a mim. Não vás para lá. Em nome de Deus, não vás
–grita João, que parece quase fora de si, como sendo arrebatado por um êxtase amedrontador.
Todos, estupefatos, olham para ele, pois nunca o viram assim. Mas ninguém escarnece dele, pois todos percebem que estão diante de um fato sobrenatural e, respeitosos, ficam em silêncio.
Também Jesus fica calado, até ver que João se recompõe em seu aspecto habitual, e diz:
– Ó meu Senhor! Quanto eu sofri!
– Eu sei, iremos para Carit. Que diz o teu espírito?
Fico profundamente comovida, pelo respeito com que Jesus se dirige ao inspirado…
– A mim o perguntas, Senhor? Ao pobre rapaz estulto, sendo Tu a Sabedoria Santíssima?
– A ti, sim. O menor é o maior quando, com humildade, se põe em comunicação com o Senhor para o bem dos irmãos. Fala…
– Senhor, vamos para Carit. Lá há gargantas seguras para nelas nos recolhermos em Deus e por perto passam as estradas para Jericó e para a Samaria. Nós desceremos para reunir os que te amam e estão te esperando e os traremos a Ti, e depois ainda nos nutriremos de oração… E o Senhor descerá para falar aos nossos espíritos, para abrir os nossos ouvidos que ouvem o Verbo, mas não o entendem inteiramente… e invadir, sobretudo, os nossos corações com os seus fogos. Porque somente se ardermos saberemos resistir aos martírios da Terra. Porque somente, se antes tivermos passado pelo doce martírio do completo amor é que poderemos estar prontos para sofrer os do ódio humano… Senhor… que foi que eu disse?
– As minhas palavras, João. Não tenhas medo. Agora, paremos aqui e amanhã cedo iremos para o alto dos montes2.
1 missão, narrada em 1 Macabeus 9,1-22.
2 dos montes. Reproduzimos aqui o esboço que MV desenha entre a data e as primeiras palavras do capítulo seguinte. À direita, o Mar Morto.
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