291. 291. Marziam descobre por que Jesusreza todos os dias à hora nona.


30 de setembro de 1945.

291.1Tinha razão o mercador. O mês de outubro não podia oferecer um dia mais bonito aos peregrinos. Tendo-se dissipado as névoas ligeiras, que cobriam a campina, como se a natureza tivesse querido estender um véu sobre o sono das plantas, durante a noite, a campina nos mostra agora sua majestosa vastidão cheia de culturas, que o sol começa a aquecer. Parece que as névoas tenham ido recolher-se, para encherem de flocos de espuma transparente os cumes distantes, tornando-os ainda mais esfumados no céu sereno.

 Que montanhas são aquelas? Teremos que subir por elas? –pergunta, preocupado, Pedro.

 Não, não. São os montes de Auran. Nós ficamos na planície, para cá deles. Durante a tarde, estaremos chegando a Bozra de Auranítide. É uma bela e boa cidade. Há muitos negócios –encoraja-o o mercador.

E faz seus elogios, ele que toma a beleza de um lugar como base de toda prosperidade comercial.

291.2Jesus está sozinho, atrás, como às vezes faz, quando quer ficar isolado. Marziam se vira muitas vezes, a fim de olhar para Ele. Depois, não resiste mais, deixa Pedro e João de Zebedeu, assenta-se à beira do caminho, sobre um cipó, que deve ser um marco militar romano, e lá fica esperando. Quando Jesus chega à altura do lugar onde ele está, o menino se levanta e, sem dizer nada, vai pôr-se ao lado de Jesus, ficando um pouco atrás, para não dar-lhe aborrecimento nem mesmo com a vista, e fica observando…

E continua a observar, até que Jesus, tendo saído de sua meditação, se vira, ao ter ouvido um barulho leve, feito com os pés atrás dele, e sorri, estendendo a mão ao menino, e dizendo:

 Oh! Marziam! Que estás fazendo aqui sozinho?

 Eu estava olhando para Ti. Há muitos dias que te venho olhando. Todos têm olhos, mas nem todos veem as mesmas coisas. Eu tenho visto que Tu, de vez em quando, te pões sozinho… Nos primeiros dias, eu pensava que estivesses ofendido por alguma coisa. Mas depois eu vi que Tu o fazes sempre, nas mesmas horas, e que a Mamãe, que sempre te consola quando estás triste, não te diz nada, quando ficas com aquele rosto. Mas, ao contrário, se Ela estava falando, se cala, e se recolhe toda, Ela também. Eu vejo, sabes? Porque eu olho sempre para Ti e para Ela, para fazer o que vós estiverdes fazendo. Eu perguntei aos apóstolos que é que ficas fazendo, pois certamente ficas fazendo alguma coisa. Eles me disseram: “Ele reza.” E eu lhes perguntei: “O que Ele diz?” Ninguém me respondeu, porque eles não sabem. Hoje eu vim atrás de Ti, todas as vezes que te vi ficar com aquele rosto, e fiquei te olhando, quando estavas rezando. Mas, não é sempre o mesmo o teu rosto. Nesta manhã, ao romper do dia, parecias um anjo de luz. Olhavas para as coisas com certos olhos, que eu creio que as tiravam das trevas mais do que o sol, tanto as coisas, como as pessoas. E depois olhavas para o céu, e tinhas o rosto que tens, quando à mesa, ofereces o pão. Mais tarde, quando íamos atravessando aquela cidadezinha, Tu te foste colocar sozinho, no último lugar, e me parecias um pai, pois estavas muito ansioso para dizer, enquanto ias passando, palavras boas aos pobres daquele lugar. A um deles, Tu disseste: “Suporta com paciência, que logo Eu te aliviarei, e aliviarei aos outros teus companheiros.” Era o escravo daquele homem mau, que açulou contra nós os seus cães. Depois, enquanto se preparava a comida, Tu ficavas olhando para nós, com olhos cheios de bondade e de amor. Parecias uma mãe… Mas agora o teu rosto tem sido de dor… Que estás pensando, Jesus, nessas horas, sempre que ficas assim?… E também, às vezes, pela tarde, se não estou dormindo, eu te vejo muito sério. 291.3Tu me dizes como rezas, e por que rezas?

 Certamente, eu te direi. E assim tu rezarás comigo. O dia quem no-lo dá é Deus. O dia todo: tanto em sua parte luminosa, como na escura, tanto o dia, como a noite. É um dom de Deus podermos viver e ver a luz. É um meio de santificação a vida que vivemos. Não é verdade? Então é necessário santificar os momentos do dia inteiro, para conservar-nos em santidade e termos sempre presente em nosso coração o Altíssimo e as suas bondades e, durante esse mesmo tempo, manter longe o demônio. Observa os passarinhos. Ao primeiro raio do sol, eles já cantam. Eles bendizem a luz. Também nós devemos bendizer a luz, que é um dom de Deus, e bendizer a Deus, que a concede, a Deus, que é a Luz. Ter desejo dele, desde a primeira luz da manhã, como para pôr um selo de luz, uma nota de luz, sobre todo o dia que vem chegando, a fim de que ele seja todo luminoso e santo. E unir-se a todas as criaturas para cantar hosanas ao Criador. Depois, a medida que as horas vão passando, com o seu passar elas nos levam a verificar quanta dor e ignorância há neste mundo, e então é preciso rezar também para que as dores sejam aliviadas, para que a ignorância cesse, e Deus seja conhecido, amado, louvado por todos os homens que, se conhecessem a Deus, seriam sempre consolados também em seus sofrimentos. E na hora de sexta, rezar por amor à família. Saborear este dom de podermos estar unidos com quem nos ama. Isto também é um dom de Deus. E rezar para que o nosso alimento não se transforme de alimento em pecado. E, ao pôr-do-sol, rezar, pensando que a morte é o pôr-do-sol que espera a todos nós. Então, rezemos para que o nosso pôr-do-sol, tanto o de cada dia, como da vida inteira, seja sempre realizado com nossa alma em estado de graça. E, quando se acenderem as luzes, rezai para dar graças por mais um dia que se foi, e para pedir proteção e perdão, a fim de podermos entregar-nos ao sono, sem medo de sermos julgados sem estarmos preparados, e dos assaltos dos demônios. Rezai, enfim, durante a noite, — mas isto é para aqueles que não são mais meninos — em reparação pelos pecados da noite, para afastar satanás dos fracos, a fim de que nos culpados nasçam a reflexão, a contrição e os bons propósitos, que deverão tornar-se realidades, ao nascer do sol. Aí está como há de rezar, e porque é que reza um justo, durante o dia inteiro.

291.4 Mas, não me disseste porque é que te apartas dos outros, ficas sério e com um ar grave, à hora nona…

 Porquê… Eu digo: “Pelo sacrifício desta hora, venha o teu Reino ao mundo, e sejam redimidos todos aqueles que creem no teu Verbo.” Dize assim também tu.

 Que sacrifício é? O incenso, como disseste1, se oferece pela manhã e à tarde. As vítimas também na mesma hora todos os dias, sobre o altar do Templo. Depois, as vítimas, que são um cumprimento de votos, ou expiações. Essas se oferecem em todas as horas. A hora de nona não está indicada para nenhum rito especial.

Jesus para, segura o menino pelas duas mãos, e o levanta, conservando-o firme diante de Si, e, como se estivesse recitando um salmo, com o rosto levantado, diz:

 E entre a sexta e a nona, Aquele que veio como Salvador e Redentor, Aquele do qual falam os profetas, consumará o seu sacrifício, depois de ter comido o pão amargo da traição, e dado o doce Pão da Vida, depois de ter-se espremido a Si mesmo como um cacho na tina, e depois de ter usado a Si mesmo para matar a sede dos homens e das ervas, de ter feito para Si púrpura de Rei com o seu sangue, depois de ter recebido uma coroa, de ter em suas mãos o cetro, e de ter transportado o seu trono para um lugar alto a fim de que pudesse ser visto por Sião, por Israel e pelo mundo. Levantado, com a purpurina veste de suas chagas inumeráveis, no meio das trevas, para fazer brilhar sua Luz, na morte para dar Vida, morrerá na hora nona e o mundo será redimido.

291.5Marziam, espantado e muito pálido, olha para Ele, dando sinal, com seus lábios e com seus olhos assustados, de uma grande vontade de chorar. E, com uma voz sem firmeza, diz:

 Mas o Salvador és Tu. E, então, serás Tu que irás morrer naquela hora?

As lágrimas começam a correr-lhe ao longo das faces e a pequena boca as vai bebendo, enquanto, entreaberta, espera ainda um desmentido.

Mas Jesus diz:

 Serei Eu, ó pequeno discípulo. E por ti também.

E, como o menino prorrompe em convulsivos soluços, Ele o aconchega sobre o seu coração, e diz:

 Ficas triste se Eu morrer?

 Oh! Minha única alegria! Eu não quero isto! Eu… Faze-me morrer no teu lugar…

 Tu terás que pregar-me por todo o mundo. Está dito. Mas escuta. Eu morrerei contente, porque sei que tu me amas. E depois ressuscitarei. Tu te lembras de Jonas? Ele saiu mais bonito do ventre da baleia, descansado, forte. Eu também, e virei logo a ti, e te direi: “Pequeno Marziam, o teu pranto me tirou a sede. O teu amor me fez companhia no sepulcro. Agora, Eu venho dizer-te: ‘Sê meu sacerdote’” –e Eu te beijarei, tendo, então, em Mim o odor do Paraíso.

 Mas eu onde estarei? Não estarei com Pedro? Ou com a Mãe?

 Eu te salvarei das ondas infernais naqueles dias. Aos mais fracos e aos mais inocentes Eu os salvarei, menos a um… Marziam, pequeno apóstolo, queres ajudar-me a rezar para aquela hora?

 Oh! sim, Senhor! Mas, e os outros?

 Este é um segredo entre Mim e ti. Um grande segredo. Porque Deus gosta de revelar-se aos pequenos… Não chores mais. Sorri, agora, pensando que depois Eu não sofrerei nunca mais e me lembrarei somente de todo o amor dos homens, e, em primeiro lugar, do teu. 291.6Vem, vem. Olha como os outros estão longe. Vamos dar uma corrida para alcançá-los –e Jesus o põe no chão, depois pega-o pela mão e se põem a correr, até se reunirem ao grupo.

 Mestre, que estavas fazendo?

 Estava explicando a Marziam as horas do dia.

 E o rapazinho chorou? Terá sido mau e, nesse caso, Tu, por bondade, perdoa-lhe –diz Pedro.

 Não, Simão. Ele me ficou olhando rezar. Vós não fizestes isso. Ele me perguntou a razão. Eu lhe expliquei. O menino ficou comovido com as minhas palavras. Agora deixai-o em paz. Vai à minha Mãe, Marziam. E vós, ouvi todos. Não fará mal nem a vós a lição.

E Jesus explica de novo a utilidade da oração nas horas principais do dia, deixando de lado a explicação da hora nona e terminando com estas palavras:

 A união com Deus é isto: tê-lo presente em todos os momentos para louvá-lo ou invocá-lo. Fazei isto e progredireis na vida do espírito.

Bozra já está perto. Estendida pela planície, parece vasta, e sempre bonita, com seus muros e torres. A tarde, que vem descendo, amortece as cores das casas e das campinas, dando-lhes a cor de um lilás acinzentado, sem firmeza, no qual os contornos se confundem, enquanto os balidos e grunhidos das ovelhas e dos porcos, fechados em recintos fora dos muros, quebram o silêncio da campina. Esse silêncio somente cessa quando, depois de atravessado o portão, a caravana entra por um labirinto de caminhos que decepcionam aos que, tendo olhado de fora, achavam que era uma bela cidade. Vozes, odores e… fedores estão acumulados nos becos contorcidos, e vão acompanhando os peregrinos, até que eles cheguem a uma praça, onde certamente há uma feira e na qual está o albergue.

E foi assim que aconteceu a chegada a Bozra.

1 disseste, em 197.5.


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