128. 128. Os discursos de Águas Belas: Não desejara mulher do próximo. Cura de um jovem luxurioso.
12 de março de 1945.
128.1 Jesus passa no meio de uma pequena multidão que o chama de todos os lados. Alguém lhe mostra as feridas, outro enumera suas desventuras, outro se limita a dizer: “Tem piedade de mim”, enquanto outro lhe apresenta o filhinho para que seja abençoado. O dia claro e sem vento trouxe muita gente.
Quando Jesus já está quase chegando ao seu lugar, vem da estradinha, que conduz ao rio, o lamento de alguém que implora:
– Filho de Davi, tem piedade deste teu infeliz!
Se viram naquela direção, Jesus o povo e os discípulos. Mas uma moita cerrada de buxos esconde quem fez a súplica.
– Quem és? Vem para a frente.
– Não posso. Estou infeccionado. Devo apresentar-me ao sacerdote para ser eliminado do mundo. Eu pequei e a lepra se espalhou pelo meu corpo. Eu espero em Ti!
– Um leproso! Um leproso! Maldição! Vamos apedrejá-lo!
A multidão tumultua.
Jesus faz um gesto, que impõe silêncio e imobilidade:
– Ele é alguém não mais infeccionado do que os que estão em pecado. Aos olhos de Deus está ainda mais imundo o pecador impenitente, do que o leproso arrependido. Quem é capaz de crer, venha Comigo.
Alguns curiosos, além dos discípulos, vão atrás de Jesus. Os outros esticam o pescoço, mas ficam onde estão.
Jesus se encaminha para além da casa e da estradinha, em direção à moita de buxos. Depois para e ordena:
– Mostra-te!
Deixa-se ver, então, alguém que é pouco mais do que um jovenzinho, de rosto ainda bonito, apenas coberto pelo bigode e uma barba rala, um rosto ainda novo e cheio, olhos avermelhados de choro.
Um grande grito o saúda, partindo de um grupo de mulheres, todas cobertas, que estavam chorando na eira da casa, quando Jesus passou e começaram a chorar mais forte, por causa das ameaças da multidão: “Meu filho!”, e a mulher se deixa cair nos braços de uma outra, não sei se parente ou amiga.
Jesus se adianta sozinho, dirigindo-se ainda para o infeliz:
– És muito jovem. Como é que estás leproso?
O jovem abaixa o olhar, fica muito corado, gagueja, mas não tem coragem para mais nada. Jesus repete a pergunta. Ele, então, diz alguma coisa mais claramente. Mas não se compreende senão as palavras:
– … o pai… eu fui… e pecamos… não eu só…
– Lá está a tua mãe, que espera e chora. No Céu está Deus, que sabe. Aqui estou Eu que sei. Mas, para ter piedade, preciso da tua humilhação. Fala.
– Fala, meu filho. Tem piedade das entranhas que te trouxeram –geme a mãe, que veio se arrastando até junto de Jesus, e agora, de joelhos, segurando inconscientemente uma orla da veste de Jesus com uma mão, estende a outra em direção ao filho e mostra um pobre rosto queimado pelas lágrimas.
Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça.
– Fala –torna a dizer.
– Eu sou o primogênito e ajudo meu pai nos negócios. Ele me mandou a Jericó muitas vezes para ir falar com os seus clientes e… e um… um deles tinha uma bela e jovem mulher… e… ela me agradou… Eu fui até ela mais vezes do que era preciso… E agradei a ela… Nós nos desejamos e… pecamos nas ausências do marido… Não sei como foi, porque ela estava sã. Sim. Não somente eu estava são e a quis. Mas ela estava sã e me quis. Não sei se… depois de mim ela esteve com outros e se contagiou… Sei que ela murchou depressa, e agora está junto aos sepulcros, como uma morta e viva… E eu… e eu… Mãe! Tu o viste. É pouca coisa, mas dizem que é lepra… e vou morrer disso. Quando?? Não mais vida… não mais casa… não mais mãe!! Oh! Mãe! Eu te vejo e não posso te beijar! Hoje virão descoser as minhas vestes e expulsar-me de casa… do povoado… Eu sou pior do que um morto. E não terei nem mesmo o pranto da mãe sobre o meu cadáver…
O jovem chora. A mãe parece uma árvore agitada pelo vento, de tanto que os soluços a sacodem. O povo comenta o caso, mas com modos de pensar opostos.
128.2 Jesus está triste. E fala:
– E quando pecavas não pensavas em tua mãe? Tão louco estavas, que não te lembravas mais de que tinhas uma mãe na terra e um Deus no Céu? E se a lepra não tivesse aparecido, terias te lembrado de que tinhas ofendido a Deus e ao próximo? Que é que fizeste de tua alma? Que fizeste de tua juventude?
– Fui tentado…
– És ainda tão criança, para não saberes que aquele fruto era maldito? Merecerias morrer sem piedade.
– Oh! Piedade! Só Tu podes…
– Não Eu. Deus. Se prometes que não pecarás mais.
– Prometo. Eu prometo. Salva-me, Senhor. Só tenho poucas horas antes da condenação. Mãe!! Mãe!! Ajuda-me com o teu pranto!! Oh! Minha mãe!
A mulher já não tem mais voz. Somente abraça-se às pernas de Jesus e levanta o rosto, com os olhos dilatados pela dor, um trágico rosto de alguém que está se afogando e sabe que aquele é o último apoio que o mantém e que o pode salvar.
Jesus olha para ela. Sorri-lhe piedoso:
– Levanta-te, mãe. Teu filho está curado. Mas, por causa de ti. Não por causa dele.
A mulher ainda não acredita. Parece-lhe que, assim à distância, ele não possa ter sido curado, e entre soluços contínuos, faz sinais de que não concorda com o que Jesus está dizendo.
– Homem, tira a túnica do peito. Era aí que tinhas a mancha. Que tua mãe seja consolada.
O jovem retira a veste aparecendo meio desnudo aos olhos de todos. Nada há senão uma pele unida e lisa, de um jovem bem robusto.
– Olha mãe –diz Jesus, e se inclina para erguer a mulher. Gesto que serve também para detê-la, quando o seu amor de mãe e a vista do milagre a atirariam contra o filho, sem esperar que ele fôsse purificado. Sentindo-se impossibilitada de ir para onde a impelia o seu amor materno, ela se abandona sobre o peito de Jesus e o beija, em um verdadeiro delírio de alegria. Chora, ri, beija, abençoa… e Jesus a acaricia com piedade.
Depois diz ao jovem:
– Vai ao sacerdote. E lembra-te de que Deus te curou por causa de tua mãe e para que sejas justo no futuro. Vai.
O jovem vai-se embora, depois de ter bendito o Salvador e, à distância, o seguem sua mãe e as outras mulheres que estavam com ela. A multidão dá gritos de hosana.
128.3 Jesus volta ao seu lugar.
– Também este tinha-se esquecido de que há um Deus que ordena a honestidade nos costumes. Havia-se esquecido de que é proibido fazer-se deuses e que não é Deus. Tinha esquecido de santificar o seu sábado, como tenho ensinado. Tinha esquecido o respeito amoroso para com sua mãe. Tinha esquecido de que não se deve fornicar, nem roubar, nem ser falsos, nem desejar a mulher do próximo, nem matar a si nem à própria alma, nem cometer adultério. De tudo se esquecera. E vede como foi castigado.
“Não desejar a mulher do próximo” está unido à “não cometer adultério.” Porque o desejo precede sempre a ação. O homem é fraco demais para poder desejar, sem que depois chegue a consumar o seu desejo. E, o que é sumamente triste, é que o homem não sabe fazer a mesma coisa com os desejos justos. Nas coisas más, ele deseja e depois se realiza. Nas coisas boas, ele deseja e depois se detém, se é que não retrocede.
Como disse a ele, digo a todos vós, porque o pecado de desejo está tão espalhado, como a grama, que por si mesma se propaga: sois vós umas crianças, para não saberdes que aquela tentação é venenosa e deve ser evitada? “Fui tentado”. Aí está uma antiga palavra! Mas, assim como é também um antigo exemplo, deveria o homem lembrar-se das consequências disso e saber dizer Não. Em nossa história não faltam exemplos de castos que assim se conservaram, não obstante todas as seduções do sexo e as ameaças dos violentos.
É a tentação um mal? Não o é. É obra do Maligno. Mas se transforma em glória para aquele que a vence.
O marido que vai para outros amores é um assassino da esposa, dos filhos e de si mesmo. Aquele que entra na morada alheia para cometer adultério, é um ladrão, dos mais vis. É semelhante ao chupim que, sem despesa, goza do ninho alheio. Aquele que solapa a boa fé do amigo é um falsário, porque testemunha uma amizade que na realidade não tem. Aquele que age assim, desonra a si mesmo e o seus pais. Pode então ter Deus consigo?
128.4 Fiz o milagre para aquela pobre mãe. Mas a luxúria me dá tanta repugnância, que contra ela fico revoltado. Vós gritastes por medo e por horror da lepra. Eu, com minha alma, gritei por horror da luxúria1. Todas as misérias estão ao meu redor e para todas Eu sou o Salvador. Mas prefiro tocar num morto, um justo já em decomposição em sua carne, que foi honesta e já está em paz com o seu espírito, do que aproximar-se daquele que tem cheiro de luxúria. Sou o Salvador, mas também sou o Inocente. Lembrem-se disso todos aqueles que vêm, ou que falam de Mim, imputando à minha personalidade os fermentos da personalidade deles.
Compreendo que vós queríeis outra coisa de Mim. Mas Eu não posso. A ruína de uma juventude, que mal se formou e já está destruída pela libidinagem, turbou-me mais do que se tivesse tocado na Morte. Vamos aos doentes. Não podendo, por causa do nojo que me está sufocando, ser a Palavra, serei a Saúde dos que esperam em Mim.
A paz esteja convosco.
Jesus, de fato, está muito pálido, como quem está sofrendo. Não retoma o seu sorriso, a não ser quando se inclina para as crianças doentes e para os enfermos em suas pequenas padiolas. Então volta a parecer como é. Especialmente quando, pondo o seu dedo na boca de um mudinho de uns dez anos, o manda dizer “Jesus” e depois “Mamãe.”
O povo vai saindo lentamente.
128.5 Jesus fica dando uns passos ao sol, que inunda de luz a eira, até que o alcança Iscariotes:
– Mestre, eu não estou tranquilo…
– Por que, Judas?
– Por causa dos de Jerusalém… Eu os conheço. Deixa-me ir até lá por alguns dias. Não te peço nem para mandar-me sozinho. Ao contrário, peço que não seja assim. Manda-me junto com o Simão e João. Eles foram tão bons para comigo na primeira viagem pela Judeia. Um deles me freia e o outro me purifica até no pensamento. Nem podes crer o que João é para mim! É um orvalho que acalma os meus ardores e um óleo sobre as minhas águas agitadas… Podes crê-lo.
– Eu sei. Não te deves admirar, por isso, se Eu o amo tanto. Ele é a minha paz. Mas tu também, se fores sempre bom, serás o meu conforto. Se usares os dons de Deus, que tu tens muitos, no bem, como vens fazendo há alguns dias, tornar-te-ás um verdadeiro apóstolo.
– E Tu me amarás como João?
– Eu te amo tanto quanto, Judas. Somente que te amarei então sem preocupação ou dor.
– Oh! Meu Mestre, como és bom!
– Vai, então, a Jerusalém. Não vai adiantar nada. Mas não quero decepcionar o teu desejo de ajudar-me. Agora, vou dizê-lo logo a Simão e a João. Vamos. Estás vendo como teu Jesus sofre por certas culpas? Sou como alguém que levantou um peso muito grande. Não me causes mais esta dor. Nunca mais…
– Não, Mestre. Não. Eu te quero bem. Tu o sabes… Mas eu sou fraco…
– O amor fortalece.
Entram em casa e tudo termina.
128.6 E é bom, porque eu estou muito mal: de moral. O Senhor sabe a causa. Também de físico porque — ou porque é tempo de Paixão, ou porque escrevi muito, não sei precisamente por que — estou num período tremendo de febres e de dores nos pulmões, na espinha dorsal e no abdômen. Creio que a doença continue a se desenvolver em mim. Estou sofrendo por causa de toda a umidade e falta de sol daquele querido lugar.
1 gritei por horror da luxúria: De onde resulta – assim anota MV numa cópia datilografada – que a infinita Pureza do Verbo apenas por misericórdia e para redenção aproximava os pecadores na luxúria.