453. 453. Chegada a Hipo e discurso em favordos pobres. Cura de um escravo paralítico.
2 de julho de 1946.
453.1 Jesus entra em Hipo, durante uma clara manhã. Deve ter pernoitado na casa de campo de algum dos moradores da cidade que veio para ouvi-lo, querendo entrar na cidade às primeiras horas da manhã de um tumultuado dia de feira. Muitas pessoas de Hipo estão com Ele e muitos correm ao seu encontro, porque foram avisados por outros que o Rabi já chegou. Mas não são somente os moradores de Hipo que estão ao redor de Jesus. Também os da vila à beira do lago estão presentes. Só faltam algumas mulheres que, por suas condições físicas, ou por terem meninos muito pequenos, não puderam afastar-se muito de suas casas.
A cidade, situada pouco acima do nível do lago, estende-se por sobre as primeiras ondulações do altiplano que fica do outro lado do lago e que vai subindo para o rumo do oriente, até atingir, ao sudeste, os montes de Auranítide e a nordeste o grupo de montanhas que forma o trono do grande Hermon, e se apresenta como uma cidade muito comercial, com altas entradas fiscais, também muito importante como ponto de encontro de muitas estradas, um anel que serve de conjunção para diversas regiões do outro lado do lago, como no-lo permitem ver os marcos das rodovias colocadas em sua vizinhança, trazendo escritos os nomes de Gamala, Guedara, Pela, Arbela, Bozra, Guerguesa e muitos mais.
Muito povoada e muito frequentada por forasteiros vindos de diversos lugares vizinhos, para fazerem compras ou vendas, ou outros negócios. Vejo que há muitos romanos, civis ou militares pelo meio da multidão, que eu não sei se é toda desta cidade, ou desta região, pois ela não me parece muito agressiva para com os romanos, nem os repele. Provavelmente os negócios serviram para uni-los, se não pela amizade, pelo menos pela convivência, muito mais do que nas regiões da outra margem.
453.2 A multidão vai aumentando à medida que Jesus se aproxima do centro da cidade, até chegar e parar numa grande praça arborizada, na qual, à sombra das árvores, movimenta-se a feira, isto é, fazem-se os negócios mais importantes, pois que a compra e a venda de alimentos a granel e de móveis se fazem para lá desta praça, em um aterro que o sol já está castigando e contra o qual os compradores e vendedores se defendem com uns panos estendidos sobre varas, que projetam um pequeno espaço de sombra sobre as mercadorias expostas no chão. O lugar, coberto como está com panos de todas as cores, colocados a pouca altura da terra, e fervendo de gente com vestes multicores, mais parece um prado cheio de flores gigantescas, umas fixas, outras movediças, que vão de uma barraca para outra. Isso ainda dá ao lugar o aspecto de alguma beleza, que certamente ele não terá, quando forem desmanchados os… botecos pré-históricos, e o aterro aparecer em sua amarelenta desolação própria de um lugar estéril e deserto.
Agora ele está cheio de vozearia. Mas quanto gritam estas pessoas e quantas palavras são ditas aos brados para disputar, talvez, um pedaço de madeira, uma peneira, ou então um punhado de sementes. E, à vozearia dos que compram e vendem vem unir-se o grande coro dos mendicantes, que procuram falar bem alto para poderem ser ouvidos mais do que aquelas outras vozes.
– Mas aqui Tu não podes falar, Mestre! –exclama Bartolomeu. A tua voz é forte, mas não pode ser mais forte do que esse barulho!
– Esperaremos. Estais vendo? A feira está terminando. Alguns já estão retirando suas mercadorias. Enquanto isso, ide dar a esmola aos mendigos com as ofertas dos ricos daqui. Isso será o começo e a bênção para a pregação, porque a esmola dada com amor passa do grau de socorro material para o de amor ao próximo e atrai graças
–responde Jesus.
Os apóstolos vão cumprir a ordem recebida.
453.3 Jesus continua a falar pelo meio da multidão atenta:
– Esta cidade é rica e próspera, pelo menos deste lado. Eu vos vejo vestidos com vestes limpas e bonitas. Os vossos rostos são de pessoas bem nutridas. Tudo me diz que vós não passais necessidades. Agora, Eu vos pergunto se esses que estão se lamentando são daqui de Hipo, ou são mendicantes que, de vez em quando, vêm de outros lugares para cá a fim de receberem alguma ajuda. Sede sinceros…
– Eis. Nós te diremos, ainda que a censura já esteja aparecendo em tuas palavras. Alguns vieram de fora, mas em sua maior parte são de Hipo.
– E, não há trabalho para eles? Eu vim vendo que aqui se constrói muito, que deveria haver trabalho para todos…
– São quase sempre os romanos que pagam pelos trabalhos feitos…
– Quase sempre. Falaste bem. Porque Eu já vi até moradores daqui superintendendo os trabalhos… E entre esses já vi muitos que empregam pessoas não daqui. Por que não socorrer primeiro os cidadãos daqui?
– Porque… É dificil trabalhar aqui, porque, sobretudo há anos atrás, antes que os romanos fizessem boas estradas, era muito fadigoso trazer até aqui os blocos de pedra e abrir as estradas… E muitos ficaram doentes e inválidos… e agora são mendigos, pois não podem mais trabalhar.
– Mas vós tirais proveito do trabalho que eles fizeram?
– Sim, Mestre! Estás vendo como bonita e cômoda ficou a cidade, tendo em abundância água de cisternas profundas e belas estradas, que vão ligar-se com outras cidades ricas. Olha que construções sólidas. Olha quantos trabalhadores. Olha…
– Estou vendo tudo. E todas estas coisas quem vos ajudou a construí-las não foram esses que agora, por entre queixumes, vos pedem um pão? Vós dizeis que sim? E, então, porque é que, se vos estais aproveitando do que eles vos ajudaram a ter, não dais a eles nem uma migalha de prazer? O pão, sem que eles o peçam. Uma pequena cama, para que eles não sejam obrigados a dividir as cavernas com os animais selvagens. Um socorro para suas doenças que, se forem curadas, eles teriam ainda um modo de fazer alguma coisa, em vez de ficarem se aviltando em um ócio forçado e humilhante. Como podeis sentar-vos contentes à mesa e repartir com alegria o alimento abundante por entre os filhos sorridentes, sabendo que pouco longe deles estão alguns vossos irmãos passando fome? Como ir tomar descanso em um leito bem confortável, quando sabeis que lá fora, no meio da noite, há homens sem uma enxerga, sem poderem descansar? Não vos queimam a consciência aquelas moedas que pondes nos cofres, sabendo que muitos não têm nem uma moedinha para comprar um pão?
453.4 Vós me dissestes que credes no Senhor Altíssimo e que observais a Lei, que conheceis os profetas e os livros da Sabedoria. Vós me dissestes que credes em Mim e que estais ávidos da minha Doutrina. Mas, então, haveis de ter um coração bom, porque Deus é amor e prescreve o amor, porque a lei é Amor, porque os profetas e os livros da Sabedoria aconselham o amor, se a minha doutrina é uma doutrina de amor. Os sacrifícios e as orações são vazios, se eles não tiverem por base e altar o amor do próximo, especialmente do próximo indigente, ao qual podem ser dadas as formas de amor com o pão, a cama, a roupa, junto com o conforto e o ensino e com um acompanhamento para levá-los a Deus. A miséria, aviltando o homem, leva o espírito à perda daquela fé na Providência que é essencial para se poder resistir nas provações desta vida. Como podeis pretender que o miserável seja sempre bom, paciente, piedoso, quando ele vê que os beneficiados nesta vida, que segundo o conceito comum, assim o são pela Providência, ficam duros de coração e sem uma verdadeira religião, porque à religião deles faz falta a primeira e a mais essencial das partes: o amor, e ficam sem paciência, e, aqueles que tudo têm não sabem suportar nem mesmo o pedido de quem está com fome? Às vezes eles maldizem a Deus e a vós? Mas, quem os leva a este pecado? Nunca pensais vós, ó ricos cidadãos de uma cidade rica como esta, que tendes um grande dever: o de ensinar a Sabedoria aos que ficam abandonados pelo vosso modo de agir?
Eu já ouvi alguém dizer: “Todos gostaríamos de ser teus discípulos, para pregarmos a tua doutrina.” A todos Eu digo: bem que o podeis fazer. Esses que vêm com medo, com vergonha, porque suas vestes estão rasgadas, com seus rostos chupados, são os que estão esperando a Boa Nova, a que veio sobretudo para os pobres, a fim de que eles tenham um conforto sobrenatural, na esperança de uma vida gloriosa, depois da realidade de sua triste vida presente. Vós a podeis viver com menos cansaço material, mas com mais cansaço espiritual, pois que as riquezas são perigosas para a santidade e a justiça. Esta é a minha doutrina. Eles, com cansaços de toda sorte, o podem fazer. O pão que falta, a roupa insuficiente, o teto inexistente os movem a fazer esta pergunta: “Como eu posso crer que Deus é meu Pai, se eu não tenho nem o que um passarinho do ar tem?” As durezas do próximo como é que podem fazer crer a eles que é preciso que se amem como irmãos? Vós tendes a obrigação de ensinar-lhes que Deus é Pai e que vós sois irmãos, com o vosso amor por meio de boas obras. A Providência existe e dela vós sois os ministros, vós, os ricos do mundo. Considerai que estes meios são como a maior honra que Deus vos faz, como único meio para tornar santas as perigosas riquezas.
453.5 E agi, como se em cada um deles vísseis a Mim mesmo. Eu estou neles. Eu quis ser pobre e perseguido para ser como eles, porque a lembrança do Cristo pobre e perseguido continuasse pelos séculos afora, projetando uma luz sobrenatural sobre os pobres e os perseguidos como Cristo, uma luz que vo-los fizesse amar como a outros Mim mesmo. Pois Eu de fato estou no mendigo, ao qual matastes a fome, ao qual matastes a sede ao que vestistes, ao que abrigastes. Eu estou no órfão que foi recolhido com amor, no velhinho socorrido, na viúva ajudada, no peregrino hospedado, no doente curado. Eu estou no aflito confortado, no ignorante que foi instruído. Eu estou onde se recebe amor. E tudo o que for feito a um irmão pobre, tanto com meios materiais, como espirituais, a Mim foi feito. Porque Eu sou o Pobre, o Aflito, o Homem das dores, e o sou para dar Riqueza, Alegria, Vida sobrenatural a todos os homens, que muitas vezes nem o sabem, mas assim é, são ricos apenas na aparência, ale-gres com uma alegria apenas aparente, são todos pobres das riquezas e alegrias verdadeiras, porque estão sem a Graça por causa da Culpa Original que os priva dela.
Vós sabeis que sem a Redenção, não há Graça, não há alegria nem Vida. Eu, para dar-vos Graça e Vida, não quis nascer como um rei ou poderoso, mas como um pobre, um homem do povo, um humilde, porque nada é a coroa, nada é o trono, nada é o poder para Quem vem, do Céu, a fim de conduzir para o céu, pois tudo isso é o exemplo que um verdadeiro Mestre deve dar, para dar força à sua Doutrina. Porque os em maior número são os pobres e os infelizes, ao passo que os poderosos e os felizes são em menor número. Porque a bondade é Piedade. Para isto é que Eu vim, e que o Senhor ungiu o seu Cristo: para que Eu anunciasse a Boa Nova aos mansos, cuidasse dos que têm o coração amargurado, para pregar a liberdade a ser dada aos escravos, a liberdade aos prisioneiros, para consolar aos que choram, colocar nos filhos de Deus, nos filhos que sabem permanecer tais, tanto na alegria como na dor, o seu diadema, a veste da justiça, e transformá-los de árvores selvagens em plantas do Senhor, em seus campeões, em suas glórias.
453.6 Eu sou tudo para todos e a todos quero comigo no Reino dos Céus. Este para todos está aberto, contanto que se saiba viver na justiça. A justiça está na prática da Lei e no exercício do amor. A esse Reino não se chega por direitos de censo, mas pelo heroísmo de santidade. Quem quer entrar nele, que me siga e faça o que Eu faço: ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Eu o amo, não blasfeme contra o Senhor santifique as suas festas, honre os seus pais, não levante a mão violenta contra o seu semelhante, não cometa adultério, não roube ao seu próximo de maneira nenhuma, não dê falso testemunho, não deseje o que não tem e que os outros têm, mas fique contente com a sua sorte, pensando que ela é sempre transitória, é o caminho e o meio para conquistar uma sorte melhor e eterna, ame os pobres, os aflitos, os peregrinos da terra, os órfãos, as viúvas, não pratique a usura. Quem fizer isto, seja qual for a sua nação e língua, sua condição e categoria, poderá entrar no Reino de Deus, do qual Eu vos abro as portas.
Vinde a Mim, todos vós de reta vontade. Que não vos espante o que sois, ou o que fostes. Eu sou a Água que lava o passado e fortifica o futuro. Vinde a mim, vós que sois pobres de sabedoria. Na minha palavra há sabedoria. Vinde a Mim.. Em minha palavra há sabedoria. Vinde a mim. Refazei para vós uma vida nova, baseada em novos conceitos. Não tenhais medo de não saberdes, de não poderdes fazer. A minha doutrina é fácil, o meu jugo é leve. Eu sou o Rabi, que dá sem pedir compensação, sem pedir outra compensação a não ser o vosso amor. Se me amardes, amareis a minha Doutrina e por isso também ao vosso próximo e tereis a Vida e o Reino. Ricos, despojai-vos do apego às riquezas, comprai com elas o Reino, com todas as obras de um misericordioso amor ao próximo. Pobres, despojai-vos do vosso aviltamento, vinde para o caminho do vosso Rei. Com Isaías, Eu vos digo1: “Sedentos, vinde às águas, vós também, que não tendes dinheiro, vinde comprar.” Com o amor comprareis o que é amor, o que é alimento que não perece, alimento que realmente sacia e fortifica.
453.7 Eu vou-me embora, ó homens, ó mulheres, ó ricos, ó pobres de Hipo. Eu vou-me embora para obedecer à Vontade de Deus. Mas Eu quero partir do meio de vós menos aflito do que quando aqui entrei. A vossa promessa é o que aliviará a minha aflição. Para o bem de vós, ricos, para o bem da vossa cidade, sede, prometei que o sereis, misericordiosos para o futuro, para com os mais pobres entre vós. Tudo aqui é bonito. Mas, assim como uma nuvem negra de temporal faz ficar medrosa até a cidade mais bonita, assim aqui o que vos ameaça, como uma sombra que faz desaparecer a beleza, é a dureza de vossos corações. Tirai-a e sereis abençoados. Lembrai-vos disto: Deus prometeu2 não destruir Sodoma, se nela tivessem sido encontrados dez justos. Vós não sabeis o futuro. Eu sei. E em verdade Eu vos digo que o futuro já está grávido para trazer a punição, mais do que uma nuvem de granizo no tempo de verão. Salvai a vossa cidade com vossa justiça, com vossa misericórdia. Vós fareis assim?
– Nós o faremos, Senhor, em teu nome. Fala-nos, fala-nos ainda. Nós temos sido duros e pecadores. Mas Tu nos salvas. És o Salvador. Fala-nos…
– Estarei convosco até a tarde. Mas Eu falarei com as minhas obras. Agora, enquanto o sol está fora, ide cada um para sua casa e meditai sobre as minhas palavras.
– E Tu, aonde vais, Senhor? Para minha casa! Para a minha casa.
Todos os ricos de Hipo o querem, e quase começam a discutir, cada um para defender seu motivo pelo qual Jesus deve ir para a casa deste ou daquele.
Ele levanta a mão, impondo silêncio. E o consegue com dificuldade. E diz:
– Eu fico com estes.
E mostra os pobres que, bem juntos, em um grupo ao lado da multidão, estão olhando para Ele, com uns olhos de quem foi sempre escarnecido, e que agora se sente amado. E repete:
– Eu fico com estes para consolá-los e repartir com eles o pão. Para dar-lhes uma antecipação da alegria do Reino onde o Rei estará sentado entre os súditos, num mesmo banquete de amor. E, enquanto isso, visto que a fé deles está escrita em seus rostos e em seus corações, Eu lhes digo: “Que vos seja feito aquilo que em vosso coração estais pedindo, e que a alma e o corpo se rejubilem com este primeiro brinde que vos faz o Salvador.”
Os pobres chegarão a ser talvez uns cem. Desses, pelo menos dois terços estão com os seus membros emagrecidos, ou cegos, ou visivelmente doentes, enquanto que o outro terço é de meninos que pedem esmola para as mães viúvas, ou para os avós. Pois bem. É surpreendente a vista que se tem dos braços aleijados, dos quadris desancados, das colunas encolhidas, de olhos sem vida, de extenuados que se arrastam, uma flora completa e dolorosa de doenças e desventuras, contraídas em acidentes de trabalho, ou pelo excesso de cansaço e de esforço, como agora se restauram, deixando de o ser, e esses infelizes retornam a viver, a se sentirem capazes de agir por si mesmos, e uma gritaria enche a grande praça e ressoa até ao longe.
453.8 Um romano consegue com dificuldade, abrir caminho pelo meio do povo, que está delirando, chegar até Jesus, enquanto este, também com dificuldade, vai-se dirigindo para os pobres que foram curados, que o bendizem, lá do lugar em que estão, incapazes de abrir passagem por entre a multidão compacta.
– Salve, ó Rabi de Israel. Isto que Tu fizeste, é só para os que são do teu povo?
– Não, homem. Nem isto que Eu fiz, nem o que Eu disse. O meu poder é universal, porque universal é o meu amor. E a minha doutrina é universal, porque para ela não existem castas nem religiões, nem nações, que sirvam de limites. O Reino dos Céus é para a Humanidade que sabe crer no verdadeiro Deus. Eu sou para aqueles que sabem crer no poder do verdadeiro Deus.
– Eu sou pagão. Mas creio que Tu és um deus. Tenho um escravo que me é muito querido. É um velho escravo que me acompanha desde quando eu era menino. Agora a paralisia o vai matando lentamente e causando-lhe muitas dores. Mas é um escravo e talvez Tu…
– Em verdade Eu te digo que não conheço mais do que uma verdadeira escravidão, que me causa repugnância: é a do pecado, e do pecado com obstinação. Por que quem peca e se arrepende, encontra a minha piedade. O teu escravo vai ficar bom. Vai, cura-te do teu erro e entra na verdadeira fé.
– Não vais à minha casa?
– Não, homem.
– Deveras… eu pedi demais. Um deus não vai às casas dos mortais. Como se lê, somente nas fábulas… Mas nenhum deles jamais hospedou a Júpiter, nem a Apolo.
– Porque deuses eles não são. Porque Deus, o verdadeiro Deus, entra nas casas do homem que crê nele e a elas leva a cura e a paz.
– Quem é o verdadeiro Deus?
– Aquele que é.
– Não és Tu? Não mintas. Eu percebo que és deus…
– Eu não minto. Tu o disseste. Eu o sou. Eu sou o Filho de Deus que veio para salvar também a tua alma, como salva o teu querido escravo. Não é aquele que lá vem gritando em altas vozes?
453.9 O romano se volta e vê um velho que vem acompanhado por outros, e que, envolvido em uma coberta, vem correndo e gritando:
– Mário! Mário! Meu patrão!
– Por Júpiter! É o meu escravo! Mas, como?… Eu… disse Júpiter… Não. Eu digo: Pelo Rabi de Israel. Eu… Eu… –e o homem nem sabe mais o que dizer…
O povo abre alas com gosto para deixar passar o velho curado.
– Estou curado, patrão. Senti um fogo em meus membros e uma ordem que dizia: “Levanta-te!” Parecia-me a tua voz. E eu me levantei… e me pus de pé. Toquei nas feridas como o fazia na cama… não havia mais feridas. Eu gritei. Nereu e Quinto correram para mim. E me disseram onde é que tu estavas. Nem esperei que me dessem roupas. Agora, eu ainda posso servir-te…
E o velho, de joelhos, beija os pés do romano.
– A mim, não. A Ele. Ele é o Rabi, foi Ele que te curou. Será preciso crer, Áquila. Ele é o verdadeiro Deus. Ele curou aqueles com sua palavra e a ti… não sei com quê… É preciso crer… Senhor… eu sou pagão, mas… aqui estou… Não. É pouco demais. Dize-me aonde vais e eu te prestarei honras.
Ele ia oferecendo uma bolsa, mas guardou-a de novo.
– Eu vou para debaixo daquele pórtico escuro com estes.
– Eu te mandarei para eles. Salve, ó Rabi. Eu contarei isso aos que não creem…
– Adeus. Eu te espero nos caminhos de Deus.
O romano lá se vai com os seus escravos. Jesus se vai com os seus pobres, com os apóstolos e as discípulas. O pórtico é sombreado e fresco, a alegria é tão grande que até o lugar fica parecendo bonito, apesar de ser muito comum. De vez em quando um dos moradores vem e dá esmolas. O escravo do romano volta com uma bolsa pesada. E Jesus distribui palavras de luz e algum conforto em dinheiro e, tendo os apóstolos voltado, com viveres diversos, Jesus parte o pão, abençoa o alimento, e dá aos pobres, os seus pobres…
1 digo, como em Isaías 55,1.
2 prometeu, em Gênesis 18,32.
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