418. 418. Cura do discípulo José, feridona cabeça e conduzido à casa de Salomão.
13 de abril de 1946.
418.1 No vilarejo de Salomão, Jesus chega na noite alta. A lua, pela posição em que se encontra, faz-nos pensar que já sejam duas da madrugada. Uma bela lua, já um pouco minguante, que brilha no meio de um céu sereno, espalhando a paz sobre a terra. Paz e abundantes orvalhadas, as fortes orvalhadas das regiões quentes, muito boas para as plantas, depois do ardor diurno do sol.
Os peregrinos devem ter acompanhado o leito do rio, que nas margens está seco, e o rio está restrito ao fundo do leito, devido à estiagem do verão. E estão saindo do meio dos caniços para o bosque que limita as duas margens, e as sustenta junto com a rede de raízes, plantadas no terreno perto da água.
– Permaneçamos aqui à espera do amanhecer –diz Jesus.
418.2 – Mestre… eu estou todo dolorido… –diz Mateus.
– E eu estou com medo de estar com febre. Durante o verão, o rio é doentio… Tu o sabes –insiste Filipe.
– Pior teria sido, porém, se da margem do rio tivéssemos subido de novo para os montes da Judeia. Isto também se sabe –diz Zelotes, com dó de Jesus, ao qual todos estão dizendo os seus pequenos medos e lamentações, e de quem nenhum deles está compreendendo qual é o seu estado de espírito.
– Deixa que o façam, Simão. Eles têm razão. Mas daqui a pouco, iremos descansar… Eu vos peço que andemos ainda um pouco de caminho… E um pouco de espera aqui. Vede como a lua vai perfazendo o seu percurso, rumo ao ocidente. Por que despertar aquele velho, e talvez José ainda esteja doente1, se daqui a pouco já será dia?
– É que aqui o terreno está mole, por causa da orvalhada. Não se sabe onde ficar… –resmunga Iscariotes.
– Estás com medo de estragar as tuas vestes? Mais esta, se, depois destas marchas como uns galeotes, pelo meio da poeira e das orvalhadas, ainda quisermos gloriar-nos disso! E, afinal… Isso seria mais um prazer para o amável Elquias. As tuas gregas… ali! ah! as da orla e das mangas ficaram reduzidas a frangalhos, por cima dos arbustos espinhosos do deserto de Judá, e a do pescoço, o suor a destruiu. Agora és um perfeito judeu… –diz, sempre alegre, Tomé.
– Um perfeito porcalhão, do qual eu tenho nojo –replica, irado, Iscariotes.
– Basta-te ter limpo o coração, Judas –diz calmamente Jesus. Isto é que tem valor…
– Valor! Valor! Estamos extenuados de cansaço e de fome… Perdemos a saúde, e só ela é que tem valor –diz, de um modo grosseiro, Judas.
– Eu não te obrigo a ficar. Tu é que queres ficar.
– Enfim. Me convém fazê-lo. Estou…
– Dize logo a palavra que te está queimando: “Tu estás comprometido aos olhos do Sinédrio.” Mas estás em tempo de voltar atrás… e reconquistar a confiança deles…
– Eu não quero voltar atrás… porque eu te amo, e quero estar contigo.
– Na verdade, tu dizes isso de um modo que mais parece ódio do que amor… –mastiga entre os dentes Judas de Alfeu.
– Pois bem. Cada um tem o seu modo de expressar o amor.
– Ora, vede! Há até quem ama a mulher, mas a mói de pancadas… Não me agradaria essa espécie de amor –diz Tiago de Zebedeu, tentando desfazer o incidente com uma brincadeira.
Mas ninguém acha graça. E, graças a Deus, também ninguém retruca.
Jesus aconselha:
– Vamos sentar-nos na soleira da casa. O beiral é largo e nos protege do orvalho e há aquela saliência nos alicerces da cozinha…
Eles obedecem sem dizer nada, e, tendo chegado à cozinha, assentam-se junto aos pés das paredes.
Mas esta simples observação do Tomé: “Estou com fome. Estas caminhadas noturnas me fazem ficar com fome”, torna a despertar a discussão.
– Mas, que caminhadas! É que há dias estamos vivendo de nada
–responde-lhe, como sempre, Iscariotes.
– Na verdade, na casa de Nique e na de Zaqueu nós comemos bem, Nique nos deu tanto, que foi preciso dá-lo aos pobres, porque senão se teria perdido. O pão nunca nos faltou. Pão e algumas coisas para comer com ele até aquele caravaneiro nos deu –observa André.
Judas, que não pode desmentir aquelas palavras, fica calado.
418.3 Lá ao longe, um galo saúda o primeiro sinal da alvorada.
– Oh! Ainda bem. Daqui a pouco é dia! –diz Pedro, espreguiçando-se, porque estava quase pegando no sono.
Todos, em silêncio, ficam esperando que chegue o dia.
Ouve-se um balido em um lugar fechado… Depois, também ao longe, se ouve o barulho de um guizo na estrada mestra… Mais perto já, faz-se ouvir o arrulho dos pombos de Ananias e uma voz rouca de homem, que vem vindo do meio dos caniços… É um pescador, que está voltando da pesca e reclamando porque ela foi pouca. Ele vê Jesus, e para. Fica hesitante, e depois diz:
– Se eu tos der, Tu me prometes abundância no futuro?
– Abundância para lucro, ou por necessidade?
– Por necessidade. Eu tenho sete filhos, minha mulher e a mãe de minha mulher.
– Tens razão. Procura ser generoso, e Eu te prometo que não te faltará o necessário.
– Então, toma. Lá dentro está também aquele ferido que, apesar dos cuidados, não se recupera…
– Deus te recompense, e te dê paz –diz Jesus.
O homem o saúda, e Lá se vai, deixando os seus peixes na fieira, pendurado pela boca a um galho de salgueiro.
418.4 Volta a reinar o silêncio, que é interrompido apenas pelo frufru do vento nos caniços ou pelo grito de algum passarinho… Depois se ouve um chiado mais perto. É a cancela rústica, que o Ananias construiu, que se abre rangendo, e o velhinho se deixa ver, já sobre a estrada, perscrutando o céu. E a ovelha o acompanha, balindo…
– A paz esteja contigo, Ananias!
– Mestre! Mas… desde quando estás aí? Por que não chamaste e não mandaste abrir?!
– Cheguei há pouco. Não queria incomodar a ninguém… Como vai o José?
– Sabes de uma coisa? Ele está mal. O pus lhe está saindo de um ouvido, e ele… tem muita dor de cabeça. Eu acho que ele está morrendo. Ou melhor, eu achava. Porque agora Tu estás aqui, e eu creio que ele vai ficar são. Eu ia saindo para procurar ervas e fazer uns emplastros.
– Os companheiros de José estão aqui?
– Aqui estão dois. Os outros foram para diante. Aqui estão Salomão e Elias.
– Os fariseus vos aborreceram?
– Mal tu havias partido. E depois mais. Queriam saber para onde havias ido. Eu disse: “Foi à casa de minha nora em Massada.” Eu fiz mal?
– Tu fizeste bem.
– E… estiveste mesmo lá?
O velho está tremendo.
– Sim. Ela está bem.
– Mas… ela não quis te ouvir?
– Não… É preciso orar muito por ela.
– E pelos filhos pequeninos… Que ela os eduque como quer o Senhor… –diz o velho, e duas grandes lágrimas descem para terminar de dizer o que ele não disse.
Por fim, ele diz:
– Tu os viste?
– Um, Eu posso dizer que vi. Aos outros fiquei conhecendo por ouvir falar neles. Estão todos bem.
– Eu ofereço a Deus renúncia e perdão… Mas… é muito amargo ter que dizer-te: “Eu não os verei mais…”
– Verás logo o teu filho, e com ele estarás em paz no céu.
– Obrigado, Senhor. 418.5Entra…
– Sim. Vamos logo ao ferido. Onde está ele?
– Na melhor cama.
Entram no jardim bem cultivado, e dele passam para a cozinha, e da cozinha para o pequeno quarto. Jesus se inclina sobre o doente, que está dormindo e gemendo… Ele se inclina, se inclina ainda mais… e sopra sobre o ouvido dele, que está tapado com uma atadura, já cheia de pus. Depois Ele se reergue. E dá um passo para trás, sem fazer nenhum ruído.
– Não o despertas? –pergunta em voz baixa o velho.
– Não. Deixa-o dormir. Ele já não sente mais dores. Vai restabelecer-se. Vamos agora aos outros.
Jesus se aproxima da porta, sem fazer barulho, e passa para o quarto grande, onde estão as caminhas, que foram adquiridas na outra vez. Os dois discípulos, cansados, ainda estão dormindo.
– Eles velam até a manhã. Eu, da manhã à tarde. Por isso, eles estão cansados. Eles são muito bons.
Os dois devem estar dormindo, com os ouvidos descobertos, para poderem despertar logo.
– Mestre! O nosso Mestre! Chegaste a tempo! José está…
– Curado. Eu já o fiz. Ele está dormindo, e não sabe. Mas não sente mais nada. Só terá que limpar-se da sujeira, e estará são como antes.
– Oh! Então, limpa-nos a nós também, porque nós pecamos.
– Em quê?
– Porque, para dar assistência ao José, nós não estivemos no Templo…
– A caridade faz de qualquer lugar um templo. E, no Templo da caridade está Deus. Se todos nos amássemos, a terra toda seria um Templo. Ficai em paz. Dia virá em que Pentecostes quererá dizer “Amor.” Vós fizestes, ao antecipardes os meses, o Pentecostes futuro, porque amastes o vosso irmão.
Lá do outro quarto, a voz de José está chamando:
– Ananias! Elias! Salomão! Eu estou curado.
O homem aparece coberto apenas com a túnica curta, emagrecido e ainda pálido, mas sem sofrer mais nada. Ele vê a Jesus e diz:
– Ah! Foste Tu, Mestre meu! –e vai correndo beijar-lhe os pés.
– Deus te dê paz, José, e perdoa-me, se sofreste por Mim!
– Eu me glorio de ter derramado sangue por Ti, como o derramou o meu pai. Eu te bendigo por me teres tornado digno disso.
O rosto sincero de José resplende de alegria com estas palavras, e se torna nobre, com uma beleza que provém de uma luz interior.
418.6 Jesus o acaricia; e fala a Salomão.
– A tua casa serve para fazer muito bem.
– Oh! Porque ela é tua agora. Antes não servia senão para o sono pesado do transportador. Mas eu estou contente porque ela te serviu e serviu a este justo. Agora teremos alguns dias bons contigo.
– Não, meu amigo. Vós partireis logo. Não nos é mais concedido sossego. Este tempo vai ser mesmo um tempo de prova, e somente as vontades fortes permanecerão firmes. Agora vamos partir o pão juntos, e depois ireis logo, ao longo do rio, indo um meio dia de caminho à minha frente.
– Sim, Mestre. E José também?
– Também ele. A não ser que ele tema receber nova ferida…
– Oh! Mestre! Assim quisesse Deus que eu tivesse que ir à tua frente para a morte, dando o meu sangue por Ti.
Eles saem pelo jardim coberto de orvalho, e que brilha aos primeiros raios do sol. Ananias faz as honras da casa, colhendo dos ramos os figos temporãos, que já estão mais perto de amadurecer, e se desculpa por não poder oferecer um pombinho, porque as duas ninhadas foram usadas para o doente. Mas há alguns peixes. E eles, sem perda de tempo, põem-se a preparar a refeição.
Jesus está dando uns passos entre Elias e José, que estão contando a aventura pela qual passaram e a força de Salomão, que transportou o ferido sobre o ombro por vários quilômetros, e um pouco deles feitos já de noite…
– Mas tu, José, perdoas, não? A quem te feriu?
– Eu nunca guardei rancor daqueles infelizes. Ofereci o perdão e o meu sofrimento pela redenção deles.
– É assim que se faz, meu bom discípulo! E Ogla, como vai?
– Ogla se foi com Timoneu. Não sei se continuará a acompanhá-lo ou se deterá no Hermon. Ele falava sempre que queria ir para o Líbano.
– Sim. Deus o guie para o melhor.
418.7 Agora ouve-se um forte chilrear de passarinhos, formando um coro nas copas das árvores, e uns balidos, e vozes de crianças, de mulheres, e zurros, junto a uns ruídos de eixos que rangem nos poços, o que significa que a população já despertou.
No jardim mesmo são partidos os pães e distribuídos os peixes, e depois consomem a refeição. Logo em seguida, abençoados por Jesus, os três discípulos deixam a casa, percorrendo rapidamente o caminho que vai até o rio, e penetrando pelo meio dos caniços frescos e que fazem boa sombra… Eles não se veem mais…
– E agora, vamos descansar até a tarde e depois iremos atrás deles nós também –ordena Jesus.
E, uns sobre pequenas camas, outros sobre os montões de redes que Ananias teceu, dizendo sempre que assim não fica à toa e ganha o seu pão de cada dia, estendem-se todos em busca de um sono reparador.
Enquanto isso Ananias tendo recebido as roupas suadas sai, sem fazer barulho, fecha a porta e a cancela e desce até o rio para lavá-las a fim de que estejam frescas e enxutas para a tarde.
418.8Diz Jesus:
– E aqui colocareis a visão, “Jesus em um pequeno povoado da Decápole”, de 2-10-44 e em seguida, a outra: “O endemoninhado da Decápole” de 29-9-1944.
1 José ainda esteja doente é o ex-pastor discípulo, espancado e ferido como se viu em 404.5.
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