68. 68. Jesus, no Templo com o Iscariotes, ensina.
1 de janeiro de 1945.
68.1 Vejo Jesus que, tendo Judas a seu lado, entra no recinto do Templo, e, depois de terem superado o primeiro terraço, ou escalão, se preferis chamá-lo assim, detém-se num ponto onde há uma série de pórticos, que rodeiam um amplo pátio, pavimentado com mármore de diversas cores. O lugar é muito bonito e cheio de gente.
Jesus olha ao redor de si e vê um lugar que lhe agrada. Mas, antes de dirigir-se para lá, diz a Judas:
– Chama-me o magistrado do lugar. Devo fazer-me reconhecer, para que não se diga que Eu falto com os costumes e o respeito.
– Mestre, Tu estás acima dos costumes e ninguém mais do que Tu tem o direito de falar na Casa de Deus. Tu, o seu Messias.
– Eu sei disso, tu o sabes, mas eles não sabem. Eu vim, não para escandalizar, nem para ensinar a violar não só a Lei, mas também os costumes. Pelo contrário, Eu vim justamente para ensinar o respeito, a humildade, a obediência e para acabar com os escândalos. Por isso Eu quero pedir para poder falar em nome de Deus, fazendo-me reconhecer pelo magistrado do lugar como digno de fazer isso.
– Mas na outra vez não fizeste assim.
– Na outra vez ardeu em Mim o zelo pela Casa de Deus, profanada por muitas coisas. Na outra vez era o Filho do Pai1, o Herdeiro que, em nome do Pai e por amor à minha Casa, agia em sua majestade, à qual os magistrados e sacerdotes são inferiores. Agora Eu sou o Mestre de Israel e ensino a Israel também isso. Além disso, Judas, crês tu que o discípulo seja maior do que o Mestre?
– Não, Jesus.
– E tu, quem és? E quem sou Eu?
– Tu, o Mestre, eu, o discípulo.
– E então, se reconheces que assim são as coisas, porque queres ensinar o Mestre? Vai e obedece. Eu obedeço a meu Pai. Tu obedeces ao teu Mestre. Primeira condição do Filho de Deus: obedecer sem discutir, pensando que o Pai não pode dar senão ordens santas. Primeira condição do discípulo: obedecer ao Mestre, pensando que O Mestre sabe e não pode dar senão ordens justas.
– É verdade. Perdoa. Eu obedeço.
– Eu perdôo. Vai. E Judas, escuta ainda uma coisa: recorda-te disto. Recorda-te disto sempre, no futuro.
– De obedecer? Sim.
– Não. Lembra-te de que Eu fui respeitoso e humilde para com o Templo, ou seja, com as castas poderosas. Vai.
Judas olha para Jesus pensativamente, interrogativamente… mas não ousa perguntar mais nada. E vai-se pensativo.
68.2 … Ele volta com um personagem muito bem trajado.
– Eis, Mestre, o magistrado.
– A paz esteja contigo. Eu peço para poder ensinar, entre os rabinos de Israel, a Israel.
– És Tu rabi?
– Eu sou.
– Quem foi o teu mestre?
– O Espírito de Deus, que me fala com a sua sabedoria e me ilumina com sua luz sobre todas as palavras dos textos sagrados.
– És então, maior do que Hilel, Tu que, sem mestre, dizes saber toda a doutrina? Como pode alguém se formar, se não tem quem o forme?
– Como se formou Davi, o pastorzinho desconhecido, e que se tornou o rei poderoso e sábio pela vontade do Senhor.
– Qual o teu Nome?
– Jesus de José de Jacó, da estirpe de Davi, e de Maria de Joaquim, da estirpe de Davi, e de Ana de Arão, Maria, a Virgem desposada no Templo, porque era órfã, pelo Sumo Sacerdote, segundo a lei de Israel.
– Quem prova isso?
– Ainda devem estar aqui os levitas, que se recordam do fato e que foram contemporâneos de Zacarias, da classe de Abias, o meu parente. Interroga-os, se duvidas da minha sinceridade.
– Eu creio em Ti. Mas, quem me prova que sejas capaz de ensinar?
– Escuta-me e tu mesmo julgarás.
– Estás livre para fazeres isso… Mas… não és nazareno?
– Eu nasci em Belém de Judá, no tempo do recenseamento ordenado por César. Proscritos por ordens injustas, os filhos de Davi estão em toda a parte. Mas a estirpe é de Judá.
– Sabes… os fariseus… toda a Judéia… pela Galiléia…
– Eu sei. Mas podes ficar tranqüilo. Em Belém Eu vi a luz, em Belém Efrata, de onde vem a minha estirpe e se agora vivo na Galiléia, não é senão para que se cumpra o que foi determinado…
O magistrado se afasta alguns metros, indo atender a alguém que o chamou.
68.3 Judas pergunta:
– Por que não disseste que és o Messias?
– As minhas palavras o dirão.
– Qual era a profecia que se devia cumprir?
– A reunião de todo Israel sob o ensinamento da palavra de Cristo. Eu sou o Pastor de que falam os Profetas, e venho para reunir as ovelhas de todas as regiões, venho para curar as doentes e levar para uma pastagem boa as errantes. Para Mim não há Judéia ou Galiléia, Decápolis ou Iduméia. Só há uma coisa: o Amor, que olha com um só olhar e une em um único abraço para salvar…
Jesus está inspirado. Parece emitir raios de tão sorridente que está em seu sonho. Judas o olha admirado.
As pessoas, curiosas, se aproximam dos dois, cuja imponência diferente atrai e impressiona.
Jesus abaixa o olhar, sorri para esta pequena mulidão com aquele seu sorriso, cuja doçura nenhum pintor jamais conseguirá reproduzir, e nenhum crente, que não o tenha visto, poderá imaginar como é. Ele diz:
– Vinde, se sentis o desejo de palavra eterna.
68.4 Ele se dirige sob um arco do pórtico e, encostado a uma coluna, começa a falar. Toma como tema o fato daquela manhã.
– Esta manhã, ao entrar em Sião, vi que por umas poucas moedas dois filhos de Abraão estavam prontos para se matarem. Em nome de Deus, Eu teria podido amaldiçoá-los, porque Deus diz: “Não matarás”, e diz também que quem não lhe obedece em sua Lei, será maldito. Mas Eu tive piedade da ignorância deles a respeito do espírito da Lei, e somente impedi o homicídio, para dar-lhes oportunidade de se arrependerem, conhecerem a Deus, o servirem em obediência, amando, não somente a quem os ama, mas também aos seus inimigos.
Sim, Israel. Um dia novo surge para ti e também se torna mais luminoso o preceito do amor. Porventura começa o ano com o nebuloso Etanim, ou com o triste Casleu de dias curtos como um sonho e de noites longas como numa doença?Não, ele começa com o florido, ensolarado e alegre Nisam, no qual tudo ri e o coração do homem, ainda que fosse o mais pobre e triste, se abre à esperança porque vem o verão, os cereais, o sol, as frutas; doce é dormir também sobre um prado em flor tendo as estrelas por candeias e fácil o nutrir-se, porque cada gleba produz erva ou fruto para matar a fome do homem.
Eis aqui, ó Israel. Terminou o inverno, o tempo da espera. Agora é a alegria da promessa que se cumpre. O Pão e o Vinho em breve estarão prontos para matar a tua fome. O Sol está no meio de ti. A este Sol, tudo toma um fôlego mais amplo e mais doce, até o preceito da nossa Lei, o primeiro e mais santo dos preceitos: “Ama a teu Deus e ama ao teu próximo.”
Na relativa luz que até aqui te foi concedida, te foi dito — não terias podido fazer mais, porque sobre ti ainda pesava a irritação de Deus, pela culpa do desamor de Adão — te foi dito: “Ama aqueles que te amam e odeia ao teu inimigo.” E inimigo para ti era não somente quem ultrapassava as fronteiras de tua pátria, mas também quem havia faltado para contigo em particular, ou que te parecia ter faltado. Onde o ódio aninhava-se em todos os corações visto que, qual é o homem que, querendo ou não, não ofende ao seu irmão? E qual o que alcança a velhice, sem ser ofendido?
Eu vos digo: amai também aos que vos ofendem. Fazei isto pensando que Adão, e por meio dele todos os homens, são prevaricadores perante Deus, e não há ninguém que possa dizer: “Eu não ofendi a Deus.” Contudo, Deus perdoa, não uma mas dez e dez vezes perdoa, mas mil e dez mil vezes perdoa; e disso é prova o fato de o homem ainda estar existindo sobre a terra. Perdoai, pois, como Deus perdoa. E, se não o podeis fazer por amor para com o irmão que vos prejudicou, fazei-o pelo amor de Deus, que vos dá pão e vida, que vos ampara nas necessidades da terra, e predispôs cada acontecimento para proporcionar-vos a paz eterna em seu seio. Esta é a Lei nova, a Lei da primavera de Deus, do tempo florido da Graça vinda entre os homens, do tempo que vos dará o Fruto sem par, que vos abrirá as portas do Céu.
68.5 A voz que falava no deserto já não se ouve. Mas muda não está.
Ela fala ainda a Deus por Israel e fala ainda a todo israelita reto de coração. Diz — diz depois de os haver ensinado a fazer penitência para preparar os caminhos ao Senhor que vem, a ter caridade, dando o supérfluo a quem não tem nem o necessário, a ter honestidade, não extorquindo ou vexando — ela vos diz: “Está entre vós o Cordeiro de Deus, Aquele que tira os pecados do mundo, Aquele que batizará com o fogo do Espírito Santo. Ele limpará a sua eira, e recolherá o seu trigo.”
Sabei conhecer Aquele que o Precursor vos indica. Seus sofrimentos operam diante de Deus para dar-vos luz. Vede. Abram-se os vossos olhos espirituais. Conhecei a Luz que vem. Eu recebo a voz do Profeta que anuncia o Messias e, com o poder que me vem do Pai, Eu a amplifico e vos uno ao meu poder, vos chamo para a verdade da Lei. Preparai os vossos corações à graça da Redenção que está próxima. O Redentor está entre vós. Felizes aqueles que forem dignos de ser redimidos, porque terão tido boa vontade.
A paz esteja convosco.
Alguém pergunta:
– És Tu discípulo do Batista, para falares dele com tanta veneração?
– Fui batizado por ele nas águas do Jordão, antes que ele fosse preso. Eu o venero, porque ele é santo aos olhos de Deus. Em verdade Eu vos digo que entre os filhos de Abraão não há outro maior em graça do que ele. Desde a sua vinda, até à sua morte, os olhos de Deus estarão pousados sem nenhum desdém, sobre este bendito.
– Ele te deu a certeza sobre o Messias?
– Sua palavra, que não mente, mostrou aos presentes o Messias, que já vivia entre os homens.
– Onde? Quando?
– Quando foi a hora de mostrá-lo.
68.6 Mas Judas se sente no dever de dizer à direita e à esquerda:
– O Messias é Ele, que vos fala. Eu vo-lo testifico, eu que o conheço e sou o seu primeiro discípulo.
– É Ele?! Oh!…
O povo se afasta amedrontado. Mas Jesus é tão afável que voltam a se aproximar.
– Pedi a Ele algum milagre. Ele é poderoso. Ele cura. Ele lê nos corações. Responde a todas as perguntas.
– Fala a Ele por mim, que eu estou doente. Meu olho direito está morto e o esquerdo está secando.
– Mestre.
– Judas.
Jesus que estava acariciando uma menininha, se volta.
– Mestre, este homem está quase cego e quer ver. Eu disse a ele que Tu podes curá-lo.
– Eu posso, para quem tem fé. Tu tens fé, homem?
– Eu creio no Deus de Israel. Venho aqui para jogar-me na piscina de Betsaida2. Mas sempre tem alguém que me precede.
– Podes crer em Mim?
– Se creio no anjo da piscina, não deverei crer em Ti, que o teu discípulo diz que és o Messias?
Jesus sorri. Molha o dedo com a saliva e o roça no olho doente.
– Que estás vendo?
– Estou vendo as coisas sem aquela névoa de antes. E o outro, não o curas?
Jesus sorri de novo. Repete o ato sobre o olho cego.
– Que estás vendo? –pergunta Ele, tirando a ponta do dedo da pálpebra caída.
– Ah! Senhor de Israel! Estou vendo, como quando eu, ainda menino, corria pelos prados! Sê Tu eternamente bendito!
O homem chora, prostrado aos pés de Jesus.
– Vai. Sê bom, agora, em reconhecimento a Deus.
68.7 Um levita, que chegou quase ao fim do milagre, pergunta:
– Com que poder fazes estas coisas?
– Tu me perguntas? Mas Eu te digo, se responderes à minha pergunta. Segundo a tua opinião: é maior um profeta que anuncia o Messias, ou o próprio Messias?
– Que pergunta! O Messias é maior: é o Redentor prometido pelo Altíssimo!
– Então, por que os Profetas fizeram milagres? Com que poder?
– Com o poder que Deus dava a eles para provarem às multidões que Deus estava com eles.
– Pois bem, com o mesmo poder, Eu faço milagres. Deus está Comigo, Eu estou com Ele. Eu provo às multidões que assim é e que o Messias bem pode, com maior razão e medida, o que podiam os Profetas.
O levita vai-se embora pensativo, e tudo termina.
1 Na outra vez era o Filho do Pai… Agora Eu sou o Mestre… Também aqui — assim anota Maria Valtorta numa cópia dactilografada — resultam as duas Naturezas unidas numa única Pessoa, mas bem distintas: Deus e Homem.
2 Betsaida (e por vezes Betseida), é dita na obra Valtortiana, assim como nas versões da “vulgata”, seja a piscina de Jerusalém (João 5,2) como a cidade sobre o lago de Genezaré (João 1, 44). Nas modernas versões da Bíblia, a piscina é dita Bethesda ou Betzaetà.