527. 527. Ignorâncias e tentaçõesna natureza humana de Cristo.
8 de novembro de 1946.
527.1Já estão nas encostas do Monte do Jardim das Oliveiras, e as três duplas de apóstolos deixados em Jericó, em Técua e em Betânia estão de novo reunidas com o Mestre. Mas Judas de Keriot está sempre ausente e, em voz baixa, os apóstolos estão falando nisso.
Jesus está com uma grande tristeza… Os apóstolos notam isso e dizem uns aos outros:
– Com certeza, é por causa de Lázaro. Realmente ele está um homem acabado… E suas irmãs causam pena. O Mestre não pode nem parar naquela casa, com todo esse ódio que o persegue. Teria sido um conforto para o doente e para as irmãs, e até para o Mestre.
– Eu não posso entender por que Ele não o cura –exclama Tomé.
– E seria justo que o fizesse. É um amigo… E ajuda tanto… É um justo –murmura Bartolomeu.
– Ah! Por falar em justo, justo é o que ele é. Nestes dias, creio que te tenhas persuadido disso… –diz Zelotes a Bartolomeu.
– Sim. É verdade. E é verdade também o que estás querendo dizer. Eu estava muito persuadido de sua justiça… Com aquela familiaridade para com os gentios, com a educação recebida do pai, que era muito, muito… eu diria muito condescendente com os novos estilos de vida diferentes dos nossos…
– A mãe era um anjo –descreve-a, em poucas palavras, Simão Zelotes.
– Talvez por isso é que eles são justos… Passemos por alto sobre o passado de Maria. Agora já está redimida –diz Filipe.
– Sim. Mas tudo isso me fazia suspeitar. Agora estou mesmo persuadido, e me admiro de que o Mestre…
527.2– Meu irmão –diz Tiago de Alfeu–, sabe com certeza quais são os valores das criaturas. Nós também temos sofrido por muito tempo com isso, com um ciúme humano e natural, vendo que os estranhos eram atendidos mais do que nós da família. Mas agora chegamos a compreender que o erro estava em nosso pensamento, e a justiça no dele. Nós julgávamos o seu modo de agir como uma indiferença e até como uma desvalorização, uma incompreensão do nosso valor. Mas agora compreendemos. Ele prefere atrair a Si os defeituosos e os que não estão formados. Ele… seduz, com os seus meios sem limites, as almas mais arredias, mais afastadas, que estão mais em perigo. Estais lembrados da parábola1 da ovelhinha perdida? A verdade, a chave para se entender o seu modo de agir está naquela parábola. Quando Ele vê que suas ovelhas fiéis o acompanham, ou ficam paradas onde e como Ele quer, o seu espírito repousa. Mas de seu repouso Ele aproveita para correr atrás das que se perderam. Ele sabe que nós o amamos, que Lázaro e suas irmãs o amam, que as discípulas e os pastores o amam. E por isso não perde o seu tempo conosco com especiais provas de amor. Ele nos ama sempre. Tem-nos sempre em seu coração. Nós mesmos entramos nele e não queremos sair. Mas os outros… os pecadores, os que se perderam!… Ele deve correr atrás desses, deve atraí-los com o amor e com o milagre, com o seu poder. E assim faz. Lázaro, Maria e Marta continuarão a amá-lo, mesmo sem milagre…
– Isto é verdade. Mas… que terá Ele querido dizer com a sua última saudação? Vós a ouvistes: “O amor do Senhor por vós se manifestará na proporção do vosso amor. E lembrai-vos de que o amor tem duas asas para ser perfeito, duas asas tanto mais sem medidas quanto mais for perfeito: a fé e a esperança” –diz André.
– Sim. Mas que terá querido dizer? –perguntam muitos.
527.3Fazem silêncio. Depois Tomé, tendo dado um grande suspiro, conclui o discurso anterior:
– … Mas nem sempre a sua paciência, tão boa, consegue redenções. Também eu tenho sofrido às vezes pela predileção que Ele mostra por Judas de Keriot…
– Predileção? Não me parece. Ele o censura como a qualquer outro de nós… –diz André.
– Por justiça, sim. Mas, pensa bem, com quanto rigor mereceria ser tratado aquele homem.
– Isto é verdade.
– Pois bem. Por isso eu tenho sofrido às vezes. Mas agora eu compreendo que com certeza Ele o faz porque é o de menos formação entre nós.
– É o mais desalmado, deves dizer, Tomé. O mais desalmado. Credes vós que aquela tristeza (e mostra Jesus, que lá se vai na frente, sozinho, absorto em seu sofrimento) seja causada pela doença de Lázaro e pelas lágrimas das irmãs dele? Eu creio que é por causa da ausência de Judas. Jesus esperava ser alcançado no caminho por ele, enquanto ia para Betábara. Pelo menos, esperava reencontrá-lo em Jericó, Técua ou em Betânia, na volta. Mas agora não espera mais. Ele tem a certeza das más intenções de Judas. Eu sempre o tenho observado… e vi que o seu rosto tomou aquele aspecto de desânimo quando Tu, Bartolomeu, disseste: “Judas não veio” –diz Tadeu.
527.4– Mas Ele sabe das coisas antes que aconteçam, disto eu estou certo! –exclama João.
– De muitas. Não de todas. Eu acho que seu Pai lhe conserve ocultas algumas, por piedade –diz Zelotes.
Os onze se dividem em dois grupos, um dos que aceitam uma versão e o outro, a outra, e cada grupo apresenta suas razões em favor do que afirma.
João exclama:
– Oh! Eu não quero ouvir nem a um nem ao outro, e nem a mim mesmo! Somos todos nós uns pobres homens e não podemos ver o que é certo. Eu vou até Jesus e lhe pergunto.
– Não. Ele poderia pensar em outra coisa e, com essa pergunta, lembrar-se de Judas e sofrer ainda mais –diz André.
– Mas não é assim. Eu não lhe direi que estávamos falando de Judas. Direi assim… sem referir-me a nada.
– Vai, vai. Isso lhe servirá para distrair-se. Não vedes como Ele está aflito? –diz Pedro, empurrando João.
– Eu vou. Quem vai comigo?
– Vai, vai sozinho. Contigo Ele fala sem reservas. E depois tu nos contas.
527.5João vai.
– Mestre!
– João, que queres?
E Jesus, com a luz de um sorriso no rosto, abarca com um braço o seu predileto, segurando-o perto de Si enquanto vai caminhando.
– Estávamos falando uns com os outros, mas não tínhamos certeza sobre uma coisa. É esta: se Tu sabes todo o futuro ou se uma parte te fica escondida. Uns dizem uma coisa e os outros, outra.
– E tu, que dizias?
– Eu dizia que o melhor seria perguntá-lo a Ti.
– Assim tu vieste. Fizeste bem. Isto pelo menos serve para Mim e para ti, a fim de gozarmos um momento de amor… Está tão difícil poder ter-se um momento de paz!…
– É verdade. Como eram belos aqueles primeiros tempos…
– Sim. Para o homem, como somos nós, eram belos. Mas para o espírito que há em nós, estes são melhores. Porque agora é mais conhecida a Palavra de Deus e porque sofremos mais. Quanto mais se sofre, mais se redime, João. Por isso, mesmo lembrando-nos daqueles tempos serenos, devemos amar mais a estes que nos fazem sofrer, e com os sofrimentos nos dão almas. 527.6Mas Eu vou responder à tua pergunta. Escuta. Como Deus, Eu não deixo de saber nada. E como homem não deixo de saber. Conheço os acontecimentos futuros porque Eu existo com o Pai, desde antes de existir o tempo, e vejo além do tempo. Como um homem isento das imperfeições e limitações causadas pela Culpa e pelas culpas, Eu tenho o dom de ver os corações. Este dom não é limitado só ao Cristo. Mas é, em medidas diferentes, de todos aqueles que, tendo atingido a Santidade, estão de tal modo unidos a Deus, que podem dizer que não operam por si próprios, mas pela Perfeição que já há neles. Por isso posso responder-te que, como Deus, Eu não ignoro o futuro dos séculos e, como homem justo, não ignoro o estado dos corações.
João reflete e se cala.
Jesus o deixa assim por alguns momentos. E depois lhe diz:
– Por exemplo, agora Eu estou vendo em ti este pensamento. “Mas, então, o meu Mestre sabe exatamente qual é o estado de Judas Iscariotes!”
– Oh! Mestre!
– Sim. Eu o sei, e continuo a ser o Mestre dele, e quereria que vós continuásseis a ser os irmãos dele.
– Mestre santo!… Mas, então, conheces mesmo tudo sempre? Algumas vezes dizemos que não é assim, porque tu vais a lugares onde encontras inimigos. Antes de ires para lá, sabes que os vais encontrar e para lá vais para combatê-los com o teu amor, a fim de vencê-los para o amor, ou então… não o sabes, e somente vês teus inimigos, quando eles já estão à tua frente, e aí lês os corações deles? Uma vez Tu me disseste — estavas muito triste naquela ocasião e sempre pela mesma causa — que estavas como um que não vê…
– Eu também suportei este martírio do homem: o de ter que ir para frente sem enxergar, confiando totalmente na Providência. 527.7Eu devo conhecer o homem todo. Menos a culpa cometida por ele. E isso, não por alguma barreira posta por meu Pai em frente à carne, ao mundo e ao demônio, mas pela minha vontade de homem. Eu sou como vós. Mas sei querer mais do que vós. Por isso sinto as tentações. E nisto está, como também para vós, o meu mérito.
– Tentações, também Tu! Parece-me quase impossível.
– Porque tu passas por poucas. És puro, e pensas que sendo-o Eu mais do que Tu não devia conhecer a tentação. De fato, aquela carnal é tão fraca em relação à minha castidade que nem chega a ser sentida por Mim. É como se uma pétala batesse em um granito sem rachaduras. Ela ricocheteia para fora… Até o demônio se cansou de jogar esse dardo contra Mim. Mas, ó João, não pensarás tu em quantas outras tentações estejam ao redor de Mim?
– Ao redor de Ti? Tu não és ávido de riquezas nem de honras. Quais são elas, então?…
– E não pensarás que tenho uma vida, tenho afetos e deveres também para com minha Mãe, e que essas coisas me tentam para que Eu fuja do perigo? Ela, a Serpente, dá-lhes o nome de “perigo.” Mas o seu verdadeiro nome é “Sacrifício.” E não pensarás que Eu também tenho sentimentos? O eu moral não está ausente de Mim e sofre com as ofensas, com os escárnios, com os fingimentos. Oh! meu João! Não perguntas a ti mesmo que repugnância eu sinto pela mentira e pelo mentiroso? Sabes quantas vezes o demônio me tenta para Eu reagir contra essas coisas que me fazem sofrer, saindo da mansidão para tornar-me duro e intransigente? E, enfim, não pensarás quantas vezes ele sopra o seu ardente hálito de soberba, para dizer: “Gloria-te disto ou daquilo. Tu és grande. O mundo te admira. Os elementos estão a teu serviço.” A tentação de comprazer-se em ser santo! É a mais sutil! Quantos perdem a santidade já conquistada por causa dessa soberba. Com que foi que Satanás corrompeu Adão? Tentando a sensualidade dele, seu pensamento e seu espírito. Não sou Eu o Homem que deve recriar o homem? De Mim virá a nova Humanidade. E eis que Satanás procura os mesmos caminhos, a fim de destruir, e para sempre, a raça dos filhos de Deus. 527.Agora, vai aos teus companheiros e repete-lhes as minhas palavras. E não fiques pensando se Eu sei, ou não, o que Judas está fazendo. Pensa somente que Eu te amo. Não será suficiente este pensamento para ocupar um coração?
E Jesus o beija e o despacha.
E tendo ficado sozinho, levanta de novo os olhos para o céu, que se pode ver por entre as folhagens das oliveiras, e dá um gemido:
– Meu Pai! Faze que, pelo menos até a ultima hora Eu possa conservar oculto o Delito. Para impedir que estes meus diletos se sujem de sangue. Tem piedade deles, meu Pai! Eles são fracos demais para deixarem de reagir à ofensa. Que eles não tenham ódio no coração na hora da Caridade perfeita!
E enxuga suas lágrimas, que só Deus está vendo…
1 parábola, narrada em 233.1/4.
1
2