309. 309. Sacrifício de Marziam pela curade uma menina. Arrependimento de Simão de Alfeu.


21 de outubro de 1945.

309.1 Acolhe-os uma pobre casa, onde uma avozinha está rodeada por um bom número de netos, dos dez aos doze anos mais ou menos. A casa fica no meio de chácaras pouco cuidadas, muitas delas formadas em prados, nos quais aparece aqui e ali alguma árvore frutífera.

– A paz esteja contigo, Joana. Estás melhor hoje? Eles vieram te ajudar?

– Sim, Mestre e Jesus. E me disseram que voltarão para semear. Dizem-me que a plantação vai ser feita com atraso, mas que produzirá ainda.

– Com certeza produzirá. Aquilo que deveria ser o milagre da terra e da semente, se tornará um milagre de Deus. E, portanto, um milagre perfeito. Os teus campos serão os mais belos desta região, e estes passarinhos, que estão ao redor de ti, terão trigo em abundância para as suas bocas. Não chores mais. No ano que vem já estará muito melhor. Mas Eu te ajudarei ainda. Ou melhor: vai ajudar-te uma que tem o teu mesmo nome, e que nunca deixa de ser boa. Olha: isto é para ti. Com isto poderás ir para a frente até às colheitas.

A velha pega a bolsa e a mão de Jesus junto com ela, e beija a mão, chorando. Depois pergunta:

– Dize-me quem é essa criatura boa, para que eu diga o nome dela ao Senhor.

– É uma discípula minha e irmã tua. O nome é conhecido por Mim e pelo Pai dos Céus.

– Oh! Então és Tu!…

– Eu sou pobre, Joana. Eu dou o que me dão. De meu, Eu só posso dar o milagre. E me desagrada não ter podido saber antes da tua desventura. Eu vim logo que Susana me falou dela. Já era tarde. Mas assim brilhará mais a obra de Deus.

– Era tarde. Sim. Era tarde. Assim é que a morte veio rápida e passou ceifando por aqui. E pegou os jovens. Não a mim, que sou inútil. Não a estes, incapazes, mas os que estavam válidos e podiam trabalhar. Maldita a Lua de Elul, cheia de tantos malignos influxos!

– Não amaldiçoes o planeta. Ele nada tem que ver com isto… 309.2São bons estes pequeninos? Vinde cá. Estais vendo? Este aqui também é um menino sem pai e sem mãe. Mas nem com o avô ele pôde viver. Contudo, Deus também a ele não abandonou. E não o abandonará, enquanto ele for bom. Não é verdade, Marziam?

Marziam faz sinal que sim, e fala com os pequeninos, que chegaram bem para perto ao redor dele, alguns dos pequenos com mais idade do que ele, mas alguns bem mais altos. Ele diz:

– Oh! É verdade que Deus não abandona. Eu o posso dizer. Por mim rezou o meu avô. E, certamente, também da outra vida, a mãe e o pai. E Deus escutou aquelas orações, porque Ele é muito bom, e escuta sempre as orações dos justos, sejam eles mortos ou vivos. Para vós certamente rezaram os vossos mortos e esta vovozinha querida. Quereis bem a ela?

– Sim, sim… –responde entusiasmada a ninhada de órfãos.

Jesus cala para escutar a conversa de seu pequeno discípulo e dos órfãos.

– Fazeis bem. Aos velhos não convém fazê-los chorar. E até nem se deve fazer chorar a ninguém, porque quem entristece ao próximo desagrada a Deus. E fazer isso, logo com os velhos! O Mestre trata bem a todos. Mas com os velhos, então, Ele é todo carícias, como com os meninos. Porque os meninos são inocentes e os velhos são sofredores. Eles já choraram tanto! É necessário amá-los duas vezes, por todos aqueles que não os amam mais. Jesus diz sempre que quem não respeita o velho é mau duas vezes, como quem maltrata um menino. Porque os velhos e os meninos não podem defender-se. Vós, pois, sede bons para com a velha mãe.

– Eu algumas vezes não a ajudo –diz um dos mais crescidos.

– Por queê? No entanto, tu comes o pão que ela faz para ti, cansando-se com isso! E não sentes o gosto amargo do pranto, quando tu a fazes sofrer? 309.3E tu, mulher (a mulher tem, quando muito, dez anos, e está muito pálida e fraca), tu a ajudas?

Os irmãozinhos dizem em coro:

– Oh! Raquel é boa! Ela vela até alta noite para fiar o pouco de lã e de estame que temos, e ela apanhou umas febres, por ter ido trabalhar no campo a fim de prepará-lo para o plantio, enquanto nosso pai estava morrendo.

– Deus te recompensará por isso –diz, sério, Marziam.

– Ele já me recompensou, ao livrar dos seus sofrimentos a avó.

Jesus intervém:

– Não pedes nada mais?

– Não, Senhor.

– Mas, tu estás curada?

– Não, Senhor. Mas não importa. Agora, mesmo que eu morra, a vovó sobreviveu. Antes, eu não queria morrer, porque tinha que ajudá-la.

– Mas a morte é feia, menina…

– Deus, como me ajuda em vida, me ajudará na morte, e eu irei ficar com a mamãe… Oh! Não chores vovó! Eu quero bem também a ti, querida. Eu não direi mais, se for para fazer-te chorar. Pelo contrário, se assim queres, pedirei ao Senhor que me cure… Não chores, minha mãezinha… –e abraça a velhinha desconsolada.

– Faze que ela fique curada, Senhor. Ao meu avô Tu o tornaste feliz, por causa de mim. Torna feliz esta velha, agora.

– As graças se conseguem com sacrifício. E tu, que sacrifício fazes para consegui-la? –pergunta, sério, Jesus.

Marziam fica pensando… Procura a coisa mais difícil à qual renunciar… depois sorri:

– Não comerei mais mel durante uma Lua completa.

– É pouco! A Lua de Casleu já vai bem adiantada…

– Eu, quando digo Lua, quero dizer as quatro fases. E, pensa bem, que nestes dias cai a Festa das Luzes, com as fogaças de mel…

– É verdade. Está bem. Então, Raquel vai ficar curada por merecimento teu. 309.4Agora vamos. Adeus, Joana. Antes de ir-me embora, Eu virei ainda outra vez. Adeus, Raquel, e tu, Tobiazinho. Sê sempre bom. Adeus a todos vós, pequenos. Fique convosco a minha bênção e em vós a minha paz.

Saem, acompanhados pelas bênçãos da velha e dos meninos.

Marziam, tendo acabado de ser “apóstolo e vítima”, põe-se a pular, como um cabrito, que vai correndo na frente.

Simão observa com um sorriso:

– Sua primeira pregação e o seu primeiro sacrifício. Promete muito, não te parece, Mestre?

– Sim. Mas ele já pregou muitas vezes. Até a Judas de Simão…

– … ao qual parece que o Senhor faz que lhe falem os meninos… Talvez para impedir que ele se vingue…

– Vinganças, não… Não creio que ele chegue a tanto. Mas reações muito vivazes, sim. A verdade não agrada a quem merece censura… Contudo ela é dita… –Jesus suspira.

Simão o observa, depois pergunta:

– Mestre, dize-me a verdade. Tu o afastaste, e tomaste a decisão de mandar todos para as suas casas pelas Encênias, para impedir que Judas esteja agora na Galiléia. Eu não te pergunto, nem quero que Tu me digas a razão pela qual é bom que o homem de Keriot não esteja entre nós. Basta-me saber se eu adivinhei. Todos nós pensamos assim, sabes? Até Tomé. Ele me disse: “Eu vou sem reagir, porque percebo que, por baixo disso, há um motivo sério.” E ele acrescentou: “E o Mestre, como faz, está fazendo bem. Já há muitos demais chamados Naum, Sadoque, Jocanã e Eleazar, nas amizades de Judas…” E Tomé não é estúpido!… E não é mau, ainda que muito homem. Em seu afeto por Ti, ele é muito sincero…

– Eu sei. E é verdade. E é verdade o que pensastes. Dentro em breve, sabereis a razão…

– Nós não te perguntamos.

– Mas Eu terei que pedir-vos ajuda, e vo-la terei que dizer.

309.5 Marziam já vem correndo de volta:

– Mestre, lá adiante, onde o caminho termina na estrada, está o teu primo Simão, todo suado, como quem tivesse corrido muito. Ele me perguntou: “Onde está Jesus?” Eu respondi: “Vem vindo aí atrás, com Simão Zelotes.” Ele me disse: “Ele vai passar por aqui?” “Com certeza”, eu respondi. “Por aqui é que se passa quando se volta para casa, a não ser que se faça como os passarinhos, que voam, e vão de todos os lados, para voltarem aos ninhos. Tu o queres ver”, perguntei-lhe eu. Mas teu irmão ficou indeciso. Ele quer, sim, te ver, tenho certeza.

– Mestre, ele já esteve com sua mulher… Vamos fazer assim: Eu e Marziam te deixaremos sozinho. Iremos dar umas voltas por Nazaré. Mas nós não teremos pressa de chegar… E Tu vais indo pela estrada certa.

– Sim. Obrigado, Simão. Adeus aos dois.

Separam-se, e Jesus acelera o passo, rumo à estrada mestra.

309.6 Eis Simão encostado a um tronco, ofegante e enxugando o suor. E, tendo visto Jesus, levanta os braços… depois os deixa cair, e abaixa a cabeça, desanimado.

Jesus chega até ele, e põe-lhe a mão sobre o ombro, e lhe pergunta:

– Que queres de Mim, Simão? Será fazer-me feliz, com uma tua palavra de amor, que eu estou esperando há tantos dias?

Simão abaixa ainda mais a cabeça, e cala-se…

– Então fala. Serei Eu um estranho para ti? Não, porque em verdade tu és sempre o meu bom irmão Simão, e Eu para ti o pequeno Jesus, que tu, já cansado, levavas nos braços, mas com tanto amor, quando nós voltávamos para Nazaré.

O homem cobre o rosto com as mãos e cai de joelhos, gemendo:

– Oh! Meu Jesus: Eu sou o culpado, mas já fui castigado bastante…

– Vamos, levanta-te! Nós somos parentes. Vamos. Que queres?

– O meu menino! Está… O pranto o sufoca.

– O teu menino? E então?

– Está mesmo morrendo. E, com ele, morre também o amor de Salomé… e eu fico com dois remorsos: o de ter perdido o filho e a mulher, ao mesmo tempo. Esta noite eu sonhei que já estava morto, e ela me parecia uma hiena. Ela me gritava na cara: “Assassino do teu filho!” Eu rezei para que isso não acontecesse, e jurei a mim mesmo que viria a Ti, se o menino recuperasse a saúde, ainda mesmo que me expulsassem, — pois, afinal, eu o mereço — para fazer-te saber que só Tu é que podes impedir a minha desventura. Ao romper da aurora, o menino se recuperou um pouco… 309.7Eu fugi de minha casa, vindo à tua, por detrás da cidade, para não encontrar obstáculos… Bati à porta. Maria me abriu, admirada. Teria podido tratar-me mal. Mas ela somente disse: “Que tens, pobre Simão?” E me acariciou, como se eu fosse ainda um menino. Isto me fez chorar muito. E toda soberba e indecisão terminaram assim. Não é possível que seja verdade o que nos disse Judas, teu apóstolo, não o meu irmão. Isto a Maria não disse, mas a mim o digo, batendo no peito, e dizendo a mim mesmo todas as ofensas daquele momento. A ela eu disse: “Jesus está? É para Alfeu. Ele está morrendo…” Maria me disse: “corre! Está para as bandas de Caná, com o menino e um apóstolo. Está na estrada de Caná. Mas, vai depressa. Ele saiu ao romper da aurora. Já deve estar voltando. Eu vou rezar para que o encontres.” Nem uma palavra de censura, nem uma, para mim que mereço tantas!

– Eu também não te censuro. Mas Eu te abro os braços para…

– Ai de mim! Para dizer-me que Alfeu morreu!…

– Não. Para dizer-te que Eu te quero bem.

– Então, vem. Depressa! Depressa!…

– Não. Não é preciso.

– Não vens? Ah! Então, não perdoas? Alfeu morreu? Mas, ainda que tenha morrido, Jesus, Jesus, Jesus, que ressuscitas os mortos, entrega-me o meu filho! Oh! Bom Jesus!… Oh! Jesus Santo… Oh! Jesus que eu abandonei!… Oh! Jesus, Jesus, Jesus…

O pranto do homem enche a estrada solitária enquanto ele, novamente de joelhos, apalpa contraído a veste de Jesus ou beija lhe os pés, no tormento da dor, do remorso, do amor paterno…

309.8 – Tu não passaste por tua casa, antes de vir para cá?

– Não. Corri como um doido até aqui… Por quê? Haverá outra dor? Salomé terá fugido? Tornou-se louca? Parecia-o já esta noite…

– Salomé me falou. Ela chorou. Ela creu. Vai para casa, Simão. Teu filho está curado.

– Tu!… Tu!… Tu fizeste isso, a mim, que te ofendi, crendo naquela serpente? Oh! Senhor! Eu não sou digno disso! Perdão! Perdão! Perdão! Dize-me o que queres que eu te faça para reparar, para dizer-te que eu te amo, para persuadir-te de que eu sofria, ao fazer-me de ofendido, para dizer-te que, desde que aqui estás, mesmo antes que Alfeu ficasse tão doente, eu já desejava falar-te!… Mas… Mas…

– Não te preocupes com isso. Tudo são coisas passadas. Eu nem me lembro mais delas. Faze tu assim também. E esquece até as palavras de Judas de Keriot. É um rapaz. De ti eu quero somente isto: que tu, nem agora, nem nunca, repitas aquelas palavras aos meus discípulos, aos meus apóstolos e, menos ainda, à minha Mãe. Somente isto. Agora, vai, Simão para a tua casa. Vai. Fica em paz… Não tardes a gozar da minha alegria que enche a tua casa. Vai.

E o beija, e o empurra suavemente para Nazaré.

– Tu não vais comigo?

– Eu vou te esperar em minha casa, com Salomé e Alfeu. Vai. E lembra-te que é por tua mulher, que soube crer somente na verdade, que tens tua alegria atual. Por ela.

– Queres dizer que a mim…

– Não. Quero dizer que Eu soube perceber o arrependimento em ti. E o arrependimento veio pelo grito acusador dela… Verdadeiramente, Deus grita pela boca dos bons, e reclama e aconselha!… E Eu vi a fé humilde e forte de Salomé. Vai, Eu te digo. Além disso, não tardes em dizer a ela “Obrigado”.

Quase o empurra rudemente, para persuadi-lo a andar. E, quando Simão finalmente vai, o abençoa… e depois abaixa a cabeça em um mudo solilóquio, e lágrimas lentas escorrem pelo seu rosto pálido… Somente uma palavra dá o endereço do seu pensamento: “Judas!”…

Ele toma a mesma estradinha por onde foi o Zelotes, atrás do limite da cidade, dirigindo-se para casa.