593. 593. Segunda-feira à noite no Getsêmani com os apóstolos.
6 de março de 1945.
593.1Já entardeceu e Jesus ainda está no olival. E está lá com os seus apóstolos. E continua a falar.
– Mais um dia já passou. Agora vem a noite e depois vem amanhã. Em seguida vem um outro amanhã e depois a Ceia pascal.
– Onde a faremos, meu Senhor? Neste ano estarão também as mulheres? –pergunta Filipe.
– Mas nós não tomamos nenhuma providência, e a cidade está cheia além da medida. Parece que neste ano todos os de Israel, até o prosélito mais distante, acorrerão, a fim de participarem do rito
–diz Bartolomeu.
Jesus olha para ele e, como se estivesse recitando um salmo, diz1:
– Reuni-vos, apressai-vos, acorrei de todos os lugares para a minha vítima, que Eu imolo por vós, para a grande Vítima imolada sobre os montes de Israel, a fim de comerdes sua Carne e beberdes o seu Sangue.
593.2– Mas qual é a vítima? Qual é? Tu ficas parecendo alguém que ficou tomado por uma ideia fixa. Tu só falas de morte… e nos fazes sofrer –diz Bartolomeu com veemência.
Jesus ainda fica olhando para ele, deixando de olhar para Simão que está inclinado sobre Tiago de Alfeu e sobre Pedro, confabulando com eles, e diz:
– Como? Tu ainda me perguntas? Tu não és mais um daqueles pequeninos que, para serem ensinados, precisam receber a luz septiforme. Tu já eras bem versado na Escritura antes que Eu te chamasse, por meio de Filipe, naquela doce manhã de primavera. Da minha primavera. E tu ainda me perguntas qual é a vítima imolada sobre os montes, à qual todos virão para se alimentarem? E me chamas de louco com uma ideia fixa, porque Eu só falo de morte? Oh! Bartolomeu! Como o grito que dão as escoltas, aqui estou Eu na vossa escuridão, que nunca se abriu à luz, eu lancei uma vez, duas vezes, três vezes o grito anunciador. Mas vós nunca o quisestes entender. Vós sofrestes por um momento e depois… Como crianças, esquecestes logo as palavras sobre morte, voltastes festivos ao vosso trabalho, certos de vós mesmos e cheios da esperança de que as minhas e as vossas palavras persuadissem sempre mais o mundo a seguir e amar seu Redentor.
Não. 539.3Só depois que esta terra tiver pecado contra Mim — e lembrai-vos que são palavras do Senhor ao seu profeta — só depois é que o povo, e não somente este, único, mas o grande povo de Adão, começará a gemer: “Vamos ao Senhor. Ele, que nos feriu, nos curará.” E o mundo dos redimidos dirá: “Daqui a dois dias, isto é, daqui a dois tempos da eternidade, durante os quais seremos deixados à mercê do Inimigo, que com todas as armas nos terá espancado e matado como nós espancamos o Santo e o matamos — e o espancamos e matamos, porque sempre haverá a raça de Caim que matará com a blasfêmia e as más obras o Filho de Deus, o Redentor, disparando flechas mortais não sobre sua eterna e gloriosa Pessoa, mas sobre as almas deles por Ele resgatadas, matando-as e matando por isso a Ele, através de suas almas — só depois desses dois tempos é que virá o terceiro dia, e ressuscitaremos em sua presença já no Reino de Cristo sobre a terra e viveremos diante Dele no triunfo do espírito. Nós o conheceremos, aprenderemos a conhecer o Senhor para estarmos prontos a sustentar, mediante esse conhecimento verdadeiro de Deus, a batalha extrema em que Lúcifer desafiará o Homem antes que seja dado pelo anjo o toque da sétima trompa, pela qual se entoará o coro bem-aventurado dos Santos de Deus, tendo eles atingido o número perfeito para sempre — nem o menor dos pequeninos, nem o mais velho dos anciãos poderá jamais aumentar o seu número — o coro cantará: ‘Terminou o pobre reino da terra. O mundo passou com todos os seus habitantes para a resenha do Juiz vitorioso. E os eleitos estão agora nas mãos do Senhor nosso e do seu Cristo, e Ele é o nosso Rei para sempre. Louvor ao Senhor Deus Onipotente, que era, que é e que será, porque Ele assumiu o seu grande poder e entrou na posse do seu Reino’.”
Oh! Quem de vós será capaz de lembrar-se das palavras desta profecia que já ressoava nas palavras de Daniel, ainda com um som velado, mas que agora vibra intensamente pela voz do Sábio diante de um mundo atônito e diante de vós, mais atônitos ainda do que o mundo?!
“A vinda do Rei — o mundo continuará gemendo com suas feridas e fechado no sepulcro, meio vivo e meio morto, fechado pelo seu vício septiforme e por suas infinitas heresias, o agonizante espírito de um mundo fechado, fazendo seus últimos esforços dentro do organismo que morreu de lepra por causa de todos os seus erros — a vinda do Rei está preparada como a vinda da aurora, e virá a nós como as chuvas da primavera e do outono.” A aurora é precedida e preparada pela noite. Esta é a noite. Esta de agora. E que é que devo fazer-te, Efraim? Que devo fazer-te, ó Judá ?…
593.4Simão, Bartolomeu, Judas e primos, vós, mais doutos quanto ao Livro, reconheceis estas palavras? Não são de nenhum espírito louco, mas elas provêm de alguém que possui a Sabedoria. Como um rei que abre com segurança os seus cofres, porque ele sabe onde é que está a pedra preciosa que procura, pois ele a pôs lá dentro, assim Eu cito os profetas. Eu sou a palavra. Durante séculos Eu falei através de lábios humanos. E por séculos Eu falarei através de lábios humanos. Mas tudo o que foi dito de sobrenatural é palavra minha. O homem, ainda que fosse o mais douto e santo, não poderia subir, como uma águia com alma, além dos limites deste mundocego, para colher e dizer os mistérios eternos.
O futuro só é “presente” na Mente Divina. A estultice está naqueles que, não soerguidos pela nossa Vontade, pretendem fazer profecias e revelações. Deus logo os desmente e golpeia, porque só Um é que pode dizer: “Eu sou”, e dizer “Eu vejo”, ou dizer: “Eu sei.” Mas quando uma Vontade que não se pode medir, que não se pode julgar, que é aceita de cabeça inclinada por quem diz: “Eis-me aqui”, sem discussão, e diz também: “Vem, sobe, ouve, vê, repete”, então ela, mergulhada no eterno presente do seu Deus, a alma chamada pelo Senhor para ser “voz”, vê e treme, vê e chora, vê e jubila. Então, a alma chamada pelo Senhor para ser “palavra”, ouve e, chegando ao êxtase ou ao suor agônico, diz as tremendas palavras do Deus Eterno. Porque cada palavra de Deus é tremenda, por provir daquele cujo veredito é imutável, cuja Justiça é inexorável; e sendo dirigida aos homens, dentre os quais muito poucos merecem amor e bênção, e não serem fulminados e condenados. Pois bem, esta palavra, que é dita e desprezada, não é a causa de tremenda culpa e punição para aqueles que, tendo-as ouvido, as rejeitam? Assim é.
593.5E que é que Eu ainda devia fazer-vos, ó Efraim, ó Judá, ó mundo, que Eu não tenha feito? Eu vim por te amar, ó minha terra, e a minha palavra foi para ti uma espada que te mata, porque tu a abominaste. Oh! Mundo que matas o teu Salvador pensando que estás fazendo uma coisa justa, pois estás satanizado a tal ponto que nem compreendes mais qual é o sacrifício que Deus exige, sacrifício do próprio pecado e não o de um animal imolado e consumido com a alma imunda! Ora, afinal, que foi que eu te disse nestes três anos? Que foi que Eu preguei? Eu disse: “Procurai conhecer a Deus em suas leis e em sua natureza.” E Eu me esgotei, como um vaso de argila porosa quando é colocado ao sol, ao espargir sobre vós o conhecimento vital da Lei e de Deus. E tu continuaste a oferecer holocaustos, mas sem primeiro fazer a única coisa necessária: a imolação ao Deus verdadeiro da tua má vontade!
Agora o Deus Eterno te diz, ó cidade do pecado, ó povo infiel — e na hora do Juízo, contra ti será usado o chicote, que não será usado em Roma e Atenas, que são uns obtusos e não conhecem a palavra e a sabedoria, mas que — como crianças mal cuidadas pela sua nutriz, deixadas como uns animais em suas capacidades, quando passarem para os braços santos da minha Igreja, a minha única e sublime Esposa da qual me serão dados à luz inumeráveis filhos dignos de Cristo, tornar-se-ão adultas e capazes, e me darão palácios reais e milícias, templos e santos que povoarão o Céu como umas estrelas — então, o Deus Eterno te diz: “Não me agradais mais e não aceitarei nenhuma oferta de vossas mãos. Vossas ofertas serão semelhantes ao esterco, e Eu as recusarei jogando-as sobre vossas faces e elas ficarão grudadas a vós mesmos. Todas as vossas solenidades, que são só exterioridade, causam-me repugnância. Eu cancelo o pacto com a estirpe de Aarão e o faço com os filhos de Levi, porque aí está, este é o meu Levi, e com ele Eu fiz um pacto de vida e de paz para sempre, e ele me foi fiel pelos séculos dos séculos até ao sacrifício. Ele teve o santo temor do Pai, e tremeu pela sua irritação de ofendido, ao som de meu Nome ofendido. A lei da verdade esteve sobre a sua boca, e sobre seus lábios não houve iniquidade, ele caminhou comigo na paz e na equidade, e a muitos afastou do pecado. O tempo chegou no qual em todos os lugares, e não somente sobre o único altar de Sião, sendo vós indignos de oferecê-lo, será sacrificada e oferecida ao meu Nome a vítima pura, imaculada, aceitável ao Senhor.”
593.6Estais reconhecendo estas eternas palavras?
– Nós as estamos reconhecendo, ó Senhor nosso. E, podes crer, ficamos abatidos como quem tomou um choque. Mas não é possível desviar o destino?
– Chamas a isso destino, Bartolomeu?
– Eu não saberia dar outro nome…
– Reparação. Este é o nome. Não se ofende ao Senhor sem que a ofensa seja reparada. E Deus Criador foi ofendido pelo Primeiro que foi criado. Desde então, a ofensa foi sempre aumentando. E não valeu a grande água do Dilúvio nem o fogo que choveu sobre Sodoma e Gomorra para tornar santo o homem. Nem a água nem o fogo. A Terra é uma Sodoma sem limites, onde Lúcifer passeia livre como um rei. Que venha agora uma trindade para lavá-la: o fogo do Amor, a água da dor e o Sangue da Vítima. Aí está, ó Terra, o meu dom. Eu vim para to dar. E agora, iria Eu fugir ao cumprimento? Já é a Páscoa. Não se pode fugir.
– Por que não vais à casa de Lázaro? Isso não seria fugir. Pois por ele não serias agredido.
– Simão diz bem. Eu te peço, Senhor, faze o que ele disse! –grita Judas Iscariotes, jogando-se aos pés de Jesus.
A resposta ao seu ato foi um grande pranto de João e, ainda que bem compostos em sua dor, choram os primos, Tiago e André.
593.7– Tu me crês o “Senhor”? Olha para Mim!
E Jesus atravessa com seus olhos o rosto angustiado de Iscariotes.
Porque ele está realmente angustiado, e não fingindo. Talvez seja esta a última luta de sua alma com Satanás, e ele não a sabe vencer.
Jesus o observa, e acompanha a luta dele, como um médico poderia estudar a crise de um doente. Depois Ele se levanta tão de repente e com tanta veemência, que Judas, apoiado em seus joelhos, é empurrado e cai sentado no chão. Jesus chega até a afastar-se, com o rosto desfigurado, e diz:
– Quereis capturar também Lázaro? Dupla presa, e dupla alegria por isso. Mas, não. Lázaro se reserva para o Cristo futuro, para o Cristo triunfante. Somente um será jogado para além desta vida e não voltará. Eu voltarei. Mas ele não voltará. Contudo, Lázaro fica. Tu, tu que sabes tantas coisas, sabes também esta. Mas aqueles que esperam ter ganho duplo, capturando a águia junto com o filhote dela, e os apanharem no ninho e sem esforço, podem ficar certos de que a águia tem seus olhares sobre todos e que, por amor ao seu pequenino, andará para longe do ninho, para que só ela seja capturada, salvando-o. Eu vou ser morto pelo ódio e, no entanto, continuo a amar. 593.8Ide. Eu fico orando. Nunca, como nesta hora em que estou vivendo, tive tanta necessidade de elevar minha alma ao Céu.
– Deixa-me ficar contigo, Senhor –suplica-lhe João.
– Não. Vós todos precisais de repouso. Vai.
– E Tu ficas sozinho? E se te fizerem mal? Parece que já estás sofrendo tanto… eu fico –diz Pedro.
– Tu irás com os outros. Deixai que Eu me esqueça dos homens por uma hora! Deixai-me em contato com os anjos de meu Pai. Eles farão as vezes de minha Mãe, que se tortura no pranto e na oração, que eu não quero agravar com a minha desolação e dor. Ide.
– Não nos dás a paz? –pergunta-lhe o seu primo Judas.
– Tens razão. A paz do Senhor pouse sobre aqueles que não são opróbrio a seus olhos. Adeus.
E Jesus, subindo para uma elevação do terreno, desaparece pelo meio de frondosas oliveiras.
593.9– É verdade. O que Ele diz está mesmo na Escritura! E isso que ouvimos nos dá a entender por que e por quem foi dito –murmura Bartolomeu.
– Eu o disse a Pedro, no outono do primeiro ano… –diz Simão.
– É verdade… Mas… Não! Se eu estiver vivo, não deixarei que o capturem. Amanhã… –diz Pedro.
– Que é que farás amanhã? –pergunta Iscariotes.
– Que é que farei? Eu estou falando comigo mesmo. Agora é tempo de conjuras. Nem ao ar eu confiarei o meu pensamento. E tu, que és poderoso, pois assim o disseste tantas vezes, por que é que não procuras proteção para Jesus?
– Eu o farei, Pedro. Não vos espanteis se eu estiver ausente a qualquer hora. Eu trabalho para Ele. Mas não o digais a Ele.
– Fica tranquilo. E que sejas bendito. Algumas vezes desconfiei de ti, mas disso te peço desculpas. Vejo que és melhor do que nós quando chega a hora. Tu fazes… e eu só sei falar palavras vazias
–diz Pedro, humilde e sincero.
E Judas ri, como se estivesse alegre pelo elogio. Eles saem dali para fora do Getsêmani e vão pelo caminho que os leva a Jerusalém.
1 diz, pegando de Ezequiel 39,17. Um pouco mais abaixo se referirá a: Ezequiel 14,12-13; Daniel 7; Oseias 6,1-6; 8,11-14; Malaquias 1,10-11; 2,3-6; e pré-anunciará o Apocalipse 11,15-17.
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