116. 116. No Getsêmani, os discípulosfalam com Jesus dos pagãos e da “velada”.O colóquio com Nicodemos.
24 de fevereiro de 1945.
116.1 Jesus está na cozinha da pequena casa do Olival, ceando com os seus discípulos. Estão conversando sobre os fatos do dia que, no entanto, não é aquele anteriormente descrito, porque ouço falar de outros acontecimentos, entre os quais a cura de um leproso, feita perto dos sepulcros, ao longo do caminho para Betfagé.
– Também lá havia um centurião romano a observar –diz Bartolomeu.
E acrescenta:
– Ele me perguntou, de cima de seu cavalo: “O homem que tu segues, faz sempre essas coisas?” e diante de minha resposta afirmativa, ele exclamou: “Então ele é maior do que Esculápio e se tornará mais rico do que Creso.” Eu respondi: “Ele será sempre pobre, segundo o mundo, porque não recebe, mas dá, e nada mais quer do que almas para levar ao Deus verdadeiro.” O centurião olhou para mim espantado, depois esporeou o cavalo, indo embora a galope.
– Havia também uma dama romana em sua liteira. Só podia ser uma mulher. Estava com as cortinas descidas, mas olhava com frequência através delas. Eu vi –diz Tomé.
– Sim. Ela estava perto da curva alta da estrada, e tinha dado ordem de parada, quando o leproso gritou: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Então ela afastou uma das cortinas e eu vi como te olhou com uma lente preciosa, rindo-se depois, ironicamente. Mas quando viu que Tu, só com a tua ordem o curaste, então ela me chamou e me perguntou: “Mas é aquele que dizem ser o verdadeiro Messias?” Respondi que sim e ela me disse: “E tu estás com Ele?” e me perguntou ainda: “Ele é bom mesmo?” –diz João.
– Então tu a viste! Como era? –perguntam Pedro e Judas.
– Ora, uma mulher…
– Que descoberta! –ri Pedro.
E Iscariotes insiste:
– Mas era bonita, jovem, rica?
– Sim. Parece-me que era jovem e também bonita. Mas eu olhava mais para Jesus, do que para ela. Eu queria ver se o Mestre se punha de novo a caminho…
– Tolo! –murmura entre dentes Iscariotes.
– Por quê? –defende-o Tiago de Zebedeu–. Meu irmão não era um janota à procura de aventuras. Ele respondeu por educação. Mas não faltou contra a sua primeira qualidade.
– Qual? –pergunta Iscariotes.
– A do discípulo, que tem o Mestre como seu único amor.
Judas, irritado, inclina a cabeça.
116.2 – E além disso… não é muito bom deixar-se ver falando com os romanos –diz Filipe–. Já nos acusam de sermos galileus e por isso, menos “puros” que os judeus. E isto por nascimento. Depois, nos acusam de estarmos frequentemente em Tiberíades, lugar de encontro dos gentios, romanos, fenícios, sírios… E ainda… oh! de quantas coisas nos acusam!
– Tu és bom, Filipe, e pões um véu sobre a dureza da verdade que dizes. Mas a verdade, sem o véu, é esta: de quantas coisas me acusam –diz Jesus que até então esteve calado.
– No fundo, não deixam de ter alguma razão. Houve contatos demais com os pagãos –diz Iscariotes.
– Crês tu que os pagãos sejam somente aqueles que não têm a lei mosaica? –pergunta Jesus.
– E quais outros haveria, então?
– Judas!! Podes jurar por nosso Deus que não existe paganismo no coração? E podes jurar que não o tenham os israelitas, que estão mais em evidência?
– Mas, Mestre… dos outros eu não sei… mas eu… quanto a mim, posso jurar.
– Que é o paganismo, segundo o teu modo de pensar? –pergunta Jesus ainda.
– Ora, é seguir uma religião não verdadeira, adorar os deuses –rebate Judas com veemência.
– E quais são esses deuses?
– São os deuses da Grécia e de Roma, os do Egito… em suma, os deuses de mil nomes, mas que são inexistentes e que, segundo os pagãos, enchem os seus Olimpos.
– Nenhum outro deus existe? Só estes olímpicos?
– E qual outro? Já não são demais?
– Sim, são demais. Mas ainda há outros sobre cujos altares é queimado incenso por todos os homens, até pelos sacerdotes, escribas, rabinos, fariseus, saduceus, herodianos, todos eles pessoas de Israel. E não só, mas esse incenso é queimado até por discípulos meus.
– Ah! Agora, isto não! –dizem todos.
– Não? Amigos… Quem entre vós não tem um ou mais cultos secretos? Um tem a beleza e a elegância. Outro o orgulho pelo seu saber. Um outro queima incenso à esperança de se tornar grande, humanamente. Um outro ainda adora a mulher. Outro, o dinheiro. Um outro se prostra diante do seu saber… e assim por diante. Em verdade, vos digo que não há homem que não esteja manchado pela idolatria. Como então iremos desprezar os pagãos por desventura, quando, mesmo estando com o Deus verdadeiro, continuamos pagãos pela vontade?
– Mas nós somos homens, Mestre –exclamam muitos.
– É verdade. Mas então… tende caridade para com todos, porque Eu vim para todos, e vós não sois mais do que Eu.
– Mas, enquanto isso, somos acusados, e a tua missão fica entravada.
– Ela irá avante do mesmo jeito.
116.3 – Por falar em mulheres –diz Pedro que, talvez por estar sentado perto de Jesus, está de tal modo enternecido, que transpira bondade–. Faz alguns dias, desde quando falaste em Betânia pela primeira vez, depois de tua volta à Judeia, que uma mulher, toda coberta de véu, vem sempre nos seguindo. Não sei como ela faz para saber as nossas intenções. Sei que, ou no fim das últimas filas do povo que te escuta, quando falas, ou atrás do povo que te segue, quando caminhas, ou até atrás de nós, quando vamos anunciar-te pelos campos, ela está quase sempre lá. Em Betânia, na primeira vez, ela me sussurrou, atrás do véu: “Aquele homem que dizes que vai falar, é mesmo Jesus de Nazaré?” Eu lhe respondi que sim, e à tarde lá estava ela atrás do tronco de uma árvore a ouvir-te. Depois eu a tinha perdido de vista. Mas agora, aqui em Jerusalém, já a vi duas ou três vezes. Hoje lhe perguntei: “Tens necessidade Dele? Estás doente? Queres o óbolo?” Ela respondeu que não com a cabeça, porque nunca fala com ninguém.
– À mim ela disse um dia: “Onde Jesus mora?”, e eu lhe disse: “No Getsêmani” –diz João.
– Grande tolo! Não devias. Devias dizer-lhe: “Descobre-te. Faze-te conhecer, e eu te direi” –diz irado, Iscariotes.
– Mas quando é que nós pediremos estas coisas?! –exclama João com simplicidade e inocência.
– As outras pessoas se deixam ver. Esta anda toda velada. Ou é uma espiã, ou é uma leprosa. Ela não deve seguir-nos para saber. Se é espiã, quer fazer-nos mal. Talvez tenha sido paga pelo Sinédrio para isso…
– Ah! O Sinédrio usa esses sistemas? –pergunta Pedro–. Tens certeza disso?
– Certeza absoluta. Eu estive no Templo e sei.
– Grande coisa! Ajusta-se como uma carapuça àquela razão dada pelo Mestre, há pouco… –comenta Pedro.
– Qual razão?
Judas já está vermelho de raiva.
– Aquela de haver pagãos até entre os sacerdotes.
– E que tem a ver isso com o de pagar uma espiã?
– Tem a ver sim. Por que pagam? Para abater o Messias e eles triunfarem. Portanto se colocam sobre o altar, com suas almas sujas sob as vestes limpas –responde Pedro, com o seu bom senso popular.
– Bem, em suma –abrevia Judas–, aquela mulher é um perigo para nós ou para a multidão. Para a multidão, se for leprosa, e para nós, se for uma espiã.
– Isto é: para Ele, quando muito –rebate Pedro.
– Mas caindo Ele, caímos nós também…
– Ah! Ah! –Pedro ri e termina:– E se cai, o ídolo se quebra em pedaços, e se perde o tempo, a estima e talvez até a pele, e então, ah! ah! e então é melhor procurar fazer que não caia ou… afastar-se a tempo, não é mesmo? Eu, ao invés, olha: eu o abraço mais apertado. Se cair, abatido pelos traidores de Deus, quero cair com Ele.
E Pedro, com seus braços curtos, abraça apertado Jesus.
– Eu não pensava em ter feito tanto mal, Mestre –diz, muito triste João, que está diante de Jesus–. Podes bater em mim, maltrata-me, mas salva-te. Ai de mim, se fôsse eu a causa da tua morte!! Oh! Eu não teria paz. Sinto que minha face ficaria sulcada pelo pranto contínuo e a vista se me queimaria. Que é que eu fui fazer! Tens razão Judas: sou um tolo!
– Não, João. Não o és e fizeste bem. Deixai que ela venha. Sempre. E respeitai o seu véu. Pode tê-lo colocado como defesa em uma luta entre o pecado e a sede de redimir-se. Sabeis vós quais as feridas que incidem em um ser, quando acontece uma luta dessas? Sabeis que pranto e que vergonha? Tu disseste, João, querido filho do coração de menino bom, que tua face ficaria sulcada por causa do pranto contínuo, se tivesses sido causa de sofrimento para Mim. Mas fica sabendo que, quando uma consciência torna a despertar e começa a roer uma carne que já foi pecado, destruindo-a e reconstruindo-a pelo espírito, ela deve forçosamente acabar com tudo o que foi atração da carne e a criatura envelhece, murchando sob a chama deste fogo perfurador. Só depois, com a redenção completa, é que se recompõe uma segunda, santa e mais perfeita beleza, porque é a beleza da alma que aflora no olhar, no sorriso, na voz, na honesta altivez da fronte, sobre a qual desceu e brilha como diadema o perdão de Deus.
– Então eu não fiz mal?
– Não. E Pedro também não fez mal. Deixai-a agir. 116.4E agora cada um vai descansar. Eu fico com João e Simão, aos quais preciso falar. Ide.
Os discípulos se retiram. Talvez eles estejam dormindo no lagar. Não sei. Vão embora e certamente não tornam a entrar em Jerusalém, porque as portas estão fechadas há horas.
– Tu disseste, Simão, que Lázaro te mandou Isaque em companhia de Maximino hoje, enquanto Eu estava junto à Torre de Davi. Que é que ele queria?
– Queria dizer-te que Nicodemos está na casa dele e que desejava falar-te em segredo. Eu tomei a liberdade de dizer: “Que venha. O Mestre o atenderá de noite.” Só tens a noite para estar só. Por isso é que eu disse: “Despede a todos, menos a João e a mim.” João pode ir até a ponte do Cedron para esperar Nicodemos, que está em uma das casas de Lázaro, fora dos muros da cidade. E eu serviria para explicar-te. Fiz mal?
– Fizeste bem. Vai, João, para o teu posto.
Ficam sozinhos Simão e Jesus. Jesus está pensativo. Simão respeita o seu silêncio. Mas Jesus o rompe de repente e, como se estivesse terminando em alta voz um discurso interior, diz:
– Sim. Está bem fazer assim. Isaque, Elias e os outros bastam para conservar viva a ideia que já se afirma entre os bons e os humildes. Para os poderosos… há outras alavancas. Há Lázaro, Cusa, José e outros ainda… Mas os poderosos… não me querem. Temem e tremem pelo seu poder. Eu irei para longe desse coração judeu, que é sempre mais hostil ao Cristo.
– Vamos voltar para a Galileia?
– Não. Mas para longe de Jerusalém. A Judeia há de ser evangelizada. Ela também é Israel. Mas aqui, como estás vendo… Tudo serve para acusar-me. Vou retirar-me. Pela segunda vez…
116.5– Mestre, eis Nicodemos, diz João, entrando primeiro.
Saúdam-se e depois Simão com João saem da cozinha, deixando os dois sozinhos.
– Mestre, perdoa-me, se eu quis falar-te em segredo. Desconfio de muitos, por causa de Ti, e de mim. Este meu modo de agir não é pura covardia. Mas também prudência e desejo de ajudar-te mais do que se eu pertencesse a Ti abertamente. Tu tens muitos inimigos. Eu sou um dos poucos que aqui te admiram. Aconselhei-me com Lázaro. Lázaro é poderoso por seu nascimento, e temido por estar nas boas graças de Roma, justo aos olhos de Deus, sábio pelo amadurecimento de sua capacidade e cultura, teu verdadeiro amigo, e meu verdadeiro amigo. Por tudo isso, eu quis falar com ele. E fiquei feliz por ter ele julgado do mesmo modo que eu contei-lhe as últimas… discussões do Sinédrio a teu respeito.
– As últimas acusações. Diz então as verdades nuas como são.
– As últimas acusações. Sim, Mestre. Eu estava prestes a dizer: “Pois bem, eu também sou um dos seus.” Até para que naquela assembleia houvesse ao menos um, que estivesse a teu favor. Mas José, que tinha se aproximado de mim, me sussurrou: “Cala-te. Vamos conservar oculto o nosso pensamento. Depois eu te falarei.” E, tendo saído de lá, disse: “É melhor assim. Se ficam sabendo que somos discípulos, vão manter-nos no escuro do que estão pensando e decidindo, e podem prejudicá-los e a também a nós. Como a quem simplesmente o está estudando, eles não nos darão subterfúgios.” Eu achei que ele tinha razão. Eles são… tão maus! Eu também tenho os meus negócios e os meus deveres como também… e assim o José… Compreendes, Mestre.
– Eu não vos faço nenhuma censura. Antes que tu viesses, Eu dizia isto ao Simão. 116.6Eu também decidi afastar-me de Jerusalém.
– Tu nos odeias porque não te amamos!
– Não. Não odeio nem aos meus inimigos.
– Tu o dizes. Mas assim é. Tens razão. Mas que dor para mim e José! E Lázaro? Que dirá Lázaro, que hoje mesmo decidiu mandar dizer-te que deixasses este lugar, e fosses para uma de suas propriedades em Sião? Tu sabes? Lázaro é poderoso em riqueza. Boa parte da cidade é sua assim como muitas terras da Palestina. O pai unira ao seu patrimônio e ao de Euquéria, da tua tribo e família, tudo que era recompensa dos romanos ao servo fiel, deixando aos filhos uma herança muito grande. E, o que é mais importante, uma velada, mas forte amizade com Roma. Sem ela, quem poderia se salvar da injúria a família, depois da desonrosa conduta de Maria, do seu divórcio, que só se conseguiu por ser “ela”, da sua vida de desregramento naquela cidade que é o seu feudo, e em Tiberíades, que é o elegante lupanar, onde Roma e Atenas transformaram em leito de prostituição para tantos que pertenciam ao povo eleito? Verdadeiramente, se o sírio Teófilo tivesse sido um prosélito mais convicto, não teria dado aos filhos aquela educação helenizante, que mata tantas virtudes e semeia tantas volúpias, e que, tendo sido bebida e vomitada sem consequências por Lázaro, e especialmente por Marta, contagiou e proliferou na desenfreada Maria e fez dela a lama da família e da Palestina. Não, sem a poderosa sombra da proteção de Roma, eles teriam sido mais amaldiçoados do que os leprosos. Mas, visto que assim estão as coisas, aproveita disso.
– Não. Eu me retiro. Quem me quiser, virá a Mim.
– Eu fiz mal em falar!
Nicodemos está abatido.
– Não. Espera e persuade-te.
E Jesus abre uma porta e chama:
– Simão, João, vinde a Mim!
Acorrem os dois.
– Simão, diz ao Nicodemos tudo o que Eu te estava dizendo, quando ele entrou.
– Que para os humildes bastam os pastores; para os poderosos, Lázaro, Nicodemos, José e Cusa, é que Tu te retiras para longe de Jerusalém, mas sem deixar a Judeia. Isto é o que estavas dizendo. Por que fazes que eu o repita? Que é que aconteceu?
– Nada. Nicodemos temia que Eu fôsse embora por causa das suas palavras.
– Eu disse ao Mestre que o Sinédrio está cada vez mais contra Ele e que seria bom se Ele se colocasse sob a proteção de Lázaro. Ele protegeu os teus bens, porque conta com a proteção de Roma. Protegeria a Jesus também.
– É verdade. É um bom conselho. Por mais que minha casta seja mal vista até por Roma, contudo, uma palavra de Teófilo conservou minha propriedade no tempo de minha proscrição e de lepra. Além disso, Lázaro é muito teu amigo, Mestre.
– Sei disso. Mas tenho dito. E aquilo que disse, vou fazer.
– Então nós te perderemos!
– Não, Nicodemos. Ao Batista se dirigem homens de todas as seitas. A Mim poderiam vir homens de todas as seitas e de todos os cargos.
– Nós vínhamos a Ti, sabendo que eras mais do que João.
– E podereis vir ainda. Serei um rabi solitário, Eu como João, e falarei às turbas desejosas de ouvir a voz de Deus e capazes de crer que Eu sou aquela Voz. E os outros se esquecerão de Mim. Se ao menos forem capazes disso.
116.7 – Mestre, Tu estás triste e desiludido. Tens razão para isso. Todos te escutam. E creem em Ti tanto, que chegam a conseguir milagres. Até um dos de Herodes, um que forçosamente deve ter corrompido sua bondade natural naquela corte incestuosa. Até soldados romanos. Somente nós de Sião, é que somos duros assim… Mas não todos. Tu o estás vendo… Mestre, nós sabemos que vieste da parte de Deus, doutor por Ele enviado, e que mais alto não há. Também Gamaliel diz isto. Ninguém pode fazer os milagres que Tu fazes, se não tiver Deus Consigo. Isto é o que creem também os doutos, como Gamaliel. Como então acontece que não possamos ter a fé, que têm os pequenos de Israel? Oh! Diz-me isto exatamente. Eu não te trairei, nem se me dissesses: “Menti, para valorizar as minhas sábias palavras sob um sigilo que ninguém pode escarnecer.” És Tu o Messias do Senhor? O Esperado? A Palavra do Pai encarnada para instruir e redimir Israel, segundo o Pacto?
– É por ti mesmo que perguntas, ou outros te mandam perguntar?
– Por mim, por mim, Senhor! Estou num tormento aqui. Estou numa tempestade. Ventos contrários e contrárias vozes. Por que será que em mim, um homem maduro, não existe aquela pacífica certeza que existe neste rapazinho quase analfabeto, e que lhe coloca no rosto esse sorriso feliz, essa luz nos olhos e esse sol no coração? Como é que crês tu, João, para estares tão firme? Ensina-me, filho, o teu segredo, pelo qual soubeste ver e compreender o Messias em Jesus Nazareno!
João fica corado como um morango, depois inclina a cabeça, como se pedisse desculpas por dizer uma coisa tão grande, e responde simplesmente:
– Amando.
– Amando! E tu, Simão, homem probo e já na soleira da velhice, tu, douto e tão provado, para seres induzido a temer enganos de todos os lados?
– Meditando.
– Amando! Meditando! Eu também amo e medito, e ainda não tenho certeza!
116.8 Intervém Jesus, dizendo:
– Eu vou dizer-te o verdadeiro segredo. Estes souberam nascer novamente, com um espírito novo, livre de todas as cadeias, virgem de toda ideia. E por isso compreenderam a Deus. Se alguém não nascer de novo, não poderá ver o Reino de Deus, nem crer no seu Rei.
– Como pode um homem renascer, sendo já adulto? Uma vez posto para fora do ventre materno, o homem jamais pode reentrar nele. Estarás talvez te referindo a reencarnação1, na qual creem tantos pagãos? Mas não, não é possível que penses nisso. Além disso, não seria um reentrar no ventre, mas um reencarnar-se depois deste tempo. Portanto, não agora. Como? Como?
– Não há mais do que uma existência da carne sobre a terra e uma vida eterna do espírito depois da terra. Eu não estou falando da carne nem do sangue. Mas do espírito imortal, o qual, por duas coisas renasce para a verdadeira vida. Pela água e pelo Espírito. Mas o maior é o Espírito, sem o qual a água não é senão um símbolo. Quem se limpou com a água deve purificar-se depois com o Espírito, e com Ele acender-se e brilhar, se quiser viver no seio de Deus aqui e no Reino eterno. Porque o que é gerado da carne continua sendo carne, e com ela morre depois de tê-la servido em seus apetites e pecados. Mas o que é gerado pelo Espírito é espírito, e vive voltando ao Espírito Gerador, depois de haver educado até à idade perfeita o próprio espírito. O Reino dos Céus não será habitado senão por seres que chegaram à idade espiritual perfeita. Não fiques, portanto, maravilhado, se digo: “É preciso que nasças de novo.” Estes é que souberam renascer. O jovem matou a carne, e fez renascer o espírito, pondo o seu eu sobre a fogueira do amor. Tudo o que era matéria se queimou. Das cinzas, eis que surge sua nova flor espiritual, maravilhoso helianto, que sabe voltar-se para o Sol eterno. O velho pôs o machado da meditação honesta aos pés de seu velho pensamento, e desarraigou a velha planta, deixando só a renovação da boa vontade, do qual fez nascer o seu novo pensamento. Agora ele ama a Deus, com um espírito novo, e o vê. 116.9Cada um tem o seu método para chegar ao porto. Cada vento é bom, contanto que se saiba usar a vela. Vós sentis soprar o vento, e pela sua corrente, podeis regular-vos para dirigir a manobra. Mas não podeis dizer de onde é que ele vem, nem chamar aquele de que estais precisando. Também o Espírito chama, e passa. Mas somente quem estiver atento pode segui-lo. O filho conhece a voz do Pai, e conhece a voz do Espírito por Ele gerado.
– Como pode acontecer isso?
– Tu, mestre em Israel, me fazes esta pergunta? Tu ignoras estas coisas? Falamos e damos testemunho do que sabemos e vemos. Agora, portanto, Eu falo e testifico o que sei. Como poderás aceitar as coisas que não vês, se não aceitas o testemunho que Eu te trago? Como poderás crer no Espírito, se não crês na Palavra encarnada? Eu desci para subir de novo e levar Comigo aqueles que estão na terra. Somente um desceu do Céu: o Filho do homem. E somente um é que subirá ao Céu com poder de abrir o Céu: Eu, o Filho do homem. Recorda-te de Moisés. Ele levantou uma serpente no deserto para curar as doenças de Israel. Quando Eu for levantado, aqueles que agora estão cegos, surdos, mudos, loucos, leprosos, doentes por causa da febre da culpa, serão curados, e todo aquele que crer em Mim terá a vida eterna. Também aqueles que em Mim tiverem crido terão esta vida feliz. Não inclines a fronte, Nicodemos. Eu vim para salvar, não para perder. Deus não mandou o seu Filho unigênito ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio Dele. No mundo Eu encontrei todas as culpas, todas as heresias, todas as idolatrias. Mas, pode a andorinha, que voa rápida sobre a poeira, sujar com ela suas penas? Não. Leva somente pelos tristes caminhos da terra uma vírgula de azul, um odor de céu, lança um chamado para sacudir os homens e fazê-los levantar os olhos da lama e seguir o seu voo que ao céu retorna. Assim sou Eu. Venho para levar-vos Comigo. Vinde!! Quem crê no Filho unigênito não será julgado. Já está salvo, porque este Filho roga ao Pai, por dizer: “Este me amou.” Mas quem não crê, é inútil que faça obras santas. Já está julgado, porque não creu no nome do Filho único de Deus. 116.10Qual é o meu Nome, Nicodemos?
– Jesus.
– Não. Salvador. Eu sou Salvação. Quem não crê em Mim, recusa sua salvação e é julgado pela Justiça eterna. E o juízo é este: “A Luz te havia sido enviada, a ti e ao mundo, para ser vossa salvação, e tu e os homens preferistes as trevas à Luz, porque preferíeis as obras más, que eram já os vossos costumes, e não as obras boas que Ele vos indicou para que as seguísseis e vos tornásseis santos.” Vós odiastes a Luz porque os malfeitores amam as trevas pelos seus delitos e fugistes da Luz, para que ela não vos iluminasse em vossas chagas ocultas. Não para ti, Nicodemos. Mas a verdade é esta. E a punição será em relação à condenação, tanto para o indivíduo, como para a coletividade. Quanto aos que me amam e põem em prática as verdades que Eu ensino, nascendo por isso no espírito uma segunda vez, que é a mais verdadeira, eis que Eu digo que estes não têm medo da Luz, mas, ao contrário, dela se aproximam, porque a luz deles aumenta aquela pela qual foram iluminados, uma glória recíproca, que torna Deus feliz em seus filhos e os filhos no Pai. Os filhos da Luz não temem ser iluminados. Ao contrário, com o coração e com as obras, dizem: “Não eu; Ele, o Pai, Ele, o Filho, Ele, o Espírito Santo realizaram em mim o Bem. A eles glória em eterno.” E do Céu responde o eterno canto dos Três que se amam em sua perfeita Unidade: “A ti a bênção para sempre, verdadeiro filho da nossa vontade.” João, lembra-te destas palavras, para quando chegar a hora de escrevê-las. Nicodemos, estás persuadido?
– Mestre… sim. 116.11Quando poderei falar-te ainda?
– Lázaro saberá aonde levar-te. Eu irei a ele, antes de afastar-me daqui.
– Eu me vou, Mestre. Abençoa o teu servo.
– A minha paz esteja contigo.
Nicodemos sai com João.
Jesus se volta para Simão:
– Estás vendo a obra do poder das Trevas? Como uma aranha, estende a sua insídia, atrai e aprisiona a quem não sabe morrer para renascer como uma borboleta, tão forte que seja capaz de arrebentar a teia tenebrosa e passar além, levando, como lembrança de sua vitória, tiras de rede luzente em suas asas de ouro, como auriflamas e lábaros tomados do inimigo. Morrer para viver. Morrer para dar-vos a força de morrer. Vem, Simão, vem descansar. E Deus esteja contigo.
Tudo termina.