494. 494. A mulher adúterae a hipocrisia dos seus acusadores.


20 de março de 1944.

494.1 Estou vendo o interior do recinto do Templo, isto é, um dos muitos pátios contornados por séries de pórticos. Vejo também Jesus, muito enrolado em seu manto, que traz sobre a túnica, não a branca, mas a de um vermelho escuro (parece de um tecido pesado de lã), falando à multidão que o circunda.

Eu diria que este é um dia de inverno, pois vejo que todos estão com seus mantos. Está fazendo frio, porque, em vez de estarem parados, todos estão caminhando, e depressa, como para se aquecerem. Está soprando um vento que levanta os mantos e a poeira dos pátios.

O grupo que está reunido ao redor de Jesus — o único que está parado, pois todos os outros estão ao redor de um ou de outro mestre, e andam para diante e para trás — abrem alas para deixar passar algum grupo de escribas e fariseus que gesticulam, e estão mais venenosos do que nunca. Estão esguichando veneno pelos olhos, pela cor do rosto e pela boca. Que víboras! Mais do que conduzindo, eles vão arrastando uma mulher de seus trinta anos, com os cabelos desgrenhados, com suas vestes em desordem, como tendo sido maltratada, e está chorando. Eles chegam e a jogam aos pés de Jesus como se fosse um montão de trapos, ou os despojos de algum morto. Lá ela fica encolhida sobre si mesma, com o rosto apoiado sobre os dois braços e escondido por eles, servindo de almofada entre ele e o chão.

– Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Seu marido a amava e não lhe deixava faltar nada. Em sua casa, ela era uma rainha. Ela o traiu, porque é uma pecadora, uma viciada, uma ingrata, uma profanadora. É uma adúltera e, como tal, deve ser apedrejada. Moisés assim ordenou. Em sua lei, ele assim manda, que tais mulheres sejam apedrejadas como uns animais imundos. Porque elas traem a fidelidade ao homem que as ama e cuida delas, porque, como uma terra que nunca se sacia, elas são esfaimadas pela luxúria. Piores do que as meretrizes elas são, porque sem serem mordidas pela necessidade, elas se entregam a si mesmas, para dar alimento à sua impudicícia. Elas são umas corruptas. Contaminadas. Devem ser condenadas à morte. Moisés assim ordenou. E Tu, Mestre, que achas disso?

494.2Jesus, que havia interrompido sua conversa, por causa daquela tumultuosa chegada dos fariseus, e que tinha olhado para aquela malta cheia de ódio, com seus olhares penetrantes, e que depois tinha inclinado o olhar para aquela mulher aviltada e jogada aos seus pés, fica calado. Depois Ele curvou-se, e, estando sentado, com um dedo começou a escrever sobre as pedras do pórtico, que estão cobertas pela poeira levada pelo vento. Eles vão falando, e ele está escrevendo.

– Mestre? Nós estamos falando contigo. Escuta-nos. Responde-nos. Não estás entendendo? Esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na casa dela. No leito do marido dela. Ela o sujou com a sua libidinagem.

Jesus continua escrevendo.

– Mas é um bobo, este homem. Não estais vendo como Ele não entende nada e fica fazendo esses sinais sobre a poeira, como um pobre doido?

– Mestre, pelo teu bom nome, fala! Que a tua sabedoria dê uma resposta à nossa pergunta. Nós te repetimos: a esta mulher não faltava nada, tinha vestes, comida e amor. E traiu.

Jesus continua a escrever.

– Ela mentiu ao homem que tinha confiança nela. Com uma boca mentirosa, ela o saudou e acompanhou até à porta, depois abriu a porta secreta e fez entrar o seu amante. Enquanto o seu marido estava ausente, trabalhando para ela. Como um animal imundo, ela se revolvia em sua luxúria.

– Mestre, ela é uma profanadora da lei, além de o ser do tálamo. É uma rebelde, uma sacrílega, uma blasfemadora.

Jesus está escrevendo. Escreve, apaga o escrito com o pé calçado com uma sandália, e continua a escrever lá, tendo mudado aos poucos sua posição, para encontrar outro lugar com mais espaço. Mais parece um menino que está brincando. O que Ele está escrevendo não são palavras de brincadeira. Ele escreve, em seguida, palavras como estas: “Usurário”, “Falso”, “Filho irreverente”, “Fornicador”, “Assassino”, “Profanador da Lei”, ”Ladrão”, ”Libidinoso”, ”Usurpador”, “Marido e pai indigno”, “Blasfemador”, “Rebelde a Deus”, “Adúltero”. Escreveu e tornou a escrever, cada vez que algum novo acusador fala.

– Mas, afinal, Mestre! Queremos o teu julgamento. A mulher deve ser julgada. Ela não pode, com o seu peso, contaminar a Terra. O seu hálito é um veneno que perturba os corações.

494.3Jesus se levanta. Misericórdia! Que rosto! É um reluzir de relâmpagos que se lança sobre os acusadores. Ele parece estar mais alto, pelo tanto que conserva a sua cabeça erguida. Parece um rei em seu trono, de tão severo e majestoso que está. O manto lhe caiu por um dos ombros, e se arrasta com um leve barulho, atrás dele. Mas Ele não se preocupa com isso. Com um rosto fechado, sem ter, nem de longe, algum sinal de sorriso em sua boca nem em seus olhos, dirige esses olhos para os rostos da multidão que estaca, como diante de duas lâminas bem pontudas. Ele fita a um por um. Com uma intensidade de pesquisa, que causa medo. Os que foram fitados vão procurando ir para trás, pelo meio da multidão, e esconder-se nela. O cerco, assim, vai-se encompridando e se fragmentando, como se estivesse sendo movido por uma força oculta.

Finalmente, Jesus fala:

– Aquele de vós que estiver sem pecado, atire sobre a mulher a primeira pedra.

Sua voz parece um trovão, acompanhado de um reluzir mais vivo ainda do que os seus olhares. Jesus cruzou os braços sobre o peito, e assim fica: ereto, como um juiz, na expectativa. O seu olhar não os deixa em paz. Mas investiga, penetra, acusa.

Primeiro um, depois dois, depois cinco, depois aos grupos, os presentes vão-se afastando, de cabeças baixas. Não somente os escribas e fariseus, mas também os que antes estavam ao redor de Jesus e os outros que se haviam aproximado para ouvirem o julgamento e a condenação, e que tanto aqueles como estes se haviam unido para insultar a culpada e pedir o seu apedrejamento.

Jesus acaba ficando sozinho com Pedro e João. Não vejo os outros apóstolos.

Jesus começou de novo a escrever, enquanto os acusadores estão fugindo. Agora escreve: “Fariseus”, Víboras”, “Sepulcros de podridão”, “Mentirosos”, “Traidores”, “Inimigos de Deus”, “Insultadores do seu Verbo”…

494.4 Quando o pátio todo ficou vazio, se fez um grande silêncio, nada mais ficando senão o frufru do vento e o barulho de uma pequena fonte em um canto. Jesus levanta a cabeça e fica olhando. Agora o seu rosto se aplacou. Está triste, mas não irado. Dá uma olhadela para Pedro, que se havia afastado um pouco, apoiando-se a uma coluna, e outra para João, que, quase atrás de Jesus, olha para Ele com seu olhar enamorado. Jesus tem uma leve sombra de sorriso ao olhar para Pedro, e um vivo sorriso, ao olhar para João. São dois sorrisos diferentes.

Depois olha para a mulher, ainda prostrada e chorando a seus pés. E a observa. Levanta-se e põe o manto, como se estivesse prestes a pôr-se a caminho. Faz um sinal aos dois apóstolos, a fim de que se preparem para a saída.

Quando fica só, Ele chama a mulher:

– Mulher, escuta-me. Olha para Mim.

Ele teve que repetir a ordem, porque a mulher não tem coragem de levantar o rosto.

– Mulher, estamos sozinhos. Olha para Mim.

A infeliz levanta um rosto no qual o pranto e a poeira formam uma máscara de aviltamento.

– Onde estão, ó mulher, os que te acusavam?

Jesus fala em voz baixa com uma seriedade piedosa. Conserva o rosto e o corpo levemente inclinados para a terra, para aquela miséria, e seus olhos estão cheios de uma expressão indulgente e renovadora.

– Ninguém te condenou?

A mulher, entre um soluço e outro, responde:

– Ninguém, Mestre.

– Pois nem Eu te condenarei. Vai. E não peques mais. Vai para tua casa. E aprende a fazer-te perdoar. Por Deus e pelo ofendido. Não abuses da benignidade do Senhor. Vai.

Ele a ajuda a levantar-se, tomando-a pela mão. Mas não a abençoa, nem lhe dá a paz. Ele ainda olha para ela que vai se pondo a caminho, com a cabeça inclinada e balançando levemente, por causa de sua vergonha. Depois, quando ela desapareceu, também Ele, por sua vez, põe-se a caminho com os dois discípulos.

494.5Diz Jesus:

– O que me estava ferindo era a falta de caridade e de sinceridade dos acusadores. Não é que eles estivessem mentindo em suas acusações. A mulher era realmente culpada. Mas eles não eram sinceros, fazendo-se de escandalizados por uma coisa por eles cometida milhares de vezes, e que somente com grande astúcia e grande sorte, haviam conseguido que permanecesse oculta. A mulher, em seu primeiro pecado, tinha sido menos astuta e de menos sorte. Mas nenhum dos seus acusadores e acusadoras — porque as mulheres, ainda que não levantassem a voz para acusá-la, no fundo de seus corações a acusavam — nenhum deles e delas estava livre de culpa.

Adúltero é quem vai além do ato e deseja o ato com todas as suas forças. A luxúria existe, tanto em quem peca, como em quem deseja pecar. Não basta deixar de fazer o mal. É necessário também não desejar fazê-lo. Lembra-te, Maria, da primeira palavra1 do teu Mestre, quando te chamei da beira do precípio onde estavas: “O mal, não basta deixar de fazê-lo. É necessário também não desejar fazê-lo. Quem acaricia pensamentos de sensualidade, os excita por meio de leituras e espetáculos procurados propositalmente, com hábitos malsãos, provoca os desejos da sensualidade. É tão impuro como quem materialmente comete a culpa. Eu ouso dizer: é ainda mais culpado. Porque vai com o pensamento contra a natureza. O único atenuante desse homem é alguma doença orgânica ou psíquica. Quem não tem tal atenuante, está dez graus abaixo do animal mais imundo.

Para condenar com justiça, seria necessário que estivessem imunes de culpa. Eu vos remeto a ditados passados, quando falo das condições essenciais para ser Juiz. A Mim não eram desconhercidos os corações daqueles fariseus e daqueles escribas, nem daqueles dos que se haviam unido a eles para investirem contra a culpada. Pecadores contra Deus e contra o próximo, estavam, com suas culpas, contra o próximo e sobretudo as culpas numerosas contra as suas próprias mulheres. Se, por um milagre, Eu tivesse mandado ao sangue deles que escrevesse o pecado sobre as frontes deles, entre as muitas acusações, teria o primeiro lugar a de adúlteros, de fato ou por desejo.

494.6 Eu já o disse2: “É o que vem do coração que contamina o homem.”

Exceto o meu coração, não havia nenhum outro entre os juízes que tivesse o coração não contaminado. Sem sinceridade e sem caridade. Nem mesmo o fato de serem semelhantes a ela na fome da concupiscência os levava a ter caridade. Eu é que tinha caridade para com a aviltada. Eu era o Único que teria devido ter repugnância por ela. Mas, recordai-vos disto: “Que quanto mais alguém é bom, mais é compassivo para com os culpados.” Ele não perdoa a culpa em si mesma. Isto não. Mas se compadece dos fracos que, diante da culpa, não souberam resistir.

O homem! Oh! mais frágil do que um caniço ou um leve convólvulo, o fácil de ser vencido pela tentação, inclinado a se agarrar ao que ele espera que lhe traga algum conforto. Porque muitas vezes a culpa vem, especialmente no sexo mais fraco. É por causa desta procura de conforto. Por isso, Eu vos digo que quem falta ao afeto para com sua mulher, e até para com sua própria filha, é noventa por cento responsável pela culpa de sua mulher ou de sua filha, e nisso ele terá que responder por elas. Tanto o afeto estulto, que é apenas uma estúpida escravidão de um homem a uma mulher, ou de um pai a uma filha, como também uma falta de cuidado nos afetos, ou pior, uma culpa de sua própria sensualidade, que leva um marido a outros amores, ou os pais a outros cuidados, que não sejam os com as filhas, são estímulos para o adultério e a prostituição e, como tais, são por Mim condenados.

Sois seres dotados de razão, guiados por uma lei divina e por uma lei moral. Aviltar-se por isso a ter uma conduta de selvagens ou de animais, isso deveria causar horror a vossa grande soberba. Mas a soberba que, neste caso até que seria útil, vós a tendes para coisas muito diferentes.

494.7 Eu olhei para Pedro e João de maneira diferente, porque ao primeiro, um homem, eu quis dizer: “Pedro, não faltes tu também com a caridade e a sinceridade”, e dizer-lhe ainda, como a meu futuro Pontífice: “Lembra-te desta hora, e julga como o teu Mestre, no futuro.” E, ao segundo, um jovem com alma de criança, Eu quis dizer: “Tu podes julgar, e não julgas, porque tens o mesmo coração que Eu.”

Eu havia afastado os dois, antes de chamar a mulher, para não aumentar a humilhação dela com a presença de duas testemunhas. Aprendei, ó homens sem piedade. Por mais que alguém seja culpado, seja sempre tratado com respeito e caridade. Não te alegres com o seu aniquilamento, não te irrites contra ele nem com olhares curiosos. Piedade, tende piedade de quem cai!

À culpada Eu mostro o caminho que deve seguir para redimir-se e voltar para sua casa, humildemente pedir perdão, e consegui-lo com uma vida honesta. Não ceder mais à carne. Não abusar da bondade divina nem da bondade humana para não ter que descontar mais duramente do que agora uma dupla ou múltipla culpa. Deus perdoa, perdoa porque é Bondade. Mas o homem, por mais que Eu tenha dito3: “Perdoa ao irmão setenta vezes sete vezes”, não sabe perdoar nem duas vezes.

Eu não dei a ela paz e bênção, porque não havia nela aquele completo rompimento com o pecado, que é requerido para sermos perdoados. Em sua carne, e, infelizmente, em seu coração, não havia ainda nela a repugnância pelo pecado. Maria de Magdala, ao perceber o sabor do meu Verbo, passou a sentir desgosto pelo pecado, e veio a mim com uma vontade total de ser outra. Nesta mulher havia ainda uma hesitação se devia atender às vozes da carne ou às do espírito. Nem ela, nem a perturbação daquela hora, nada tinha podido ainda mover o machado contra o tronco da árvore, e cortá-lo, para sssim poder ela ir, sem aquele peso tão desejado, para o Reino de Deus. Estaria mutilada nas coisas que causavam sua ruína, mas restabelecida a caminho das coisas que levam à salvação.

Queres saber se depois se salvou? Nem para todos fui Salvador. Para todos quis ser, mas não o fui porque nem todos tiveram vontade de ser salvos. Isto foi uma das mais penetrantes dores de minha agonia no Getsêmani.

Vai em paz, Maria de Maria, e não queiras mais pecar, nem mesmo por inépcia. Sob o manto de Maria, só há coisas puras. Lembra-te disso.

[…]

1 palavra, que é relatada na Autobiografia, no primeiro capítulo da terceira parte.
2 Eu já o disse, em 300.9 e 301.5/6.
3 tenha dito, em 278.3 e 423.8.


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