578. 578. Encontro com discípulos e homens de valorconduzidos por Manaém. Chegada a Jericó.
11 de março de 1947.
578.1Já os brancos muros das casas de Jericó e suas palmeiras se destacam contra o céu de um azul intenso como o da cerâmica ou do esmalte, perto de um pequeno bosque de tamareiras descabeladas, de mimosas sensitivas, de pilriteiros com seus espinhos bem compridos e de outras vegetações espinhosas em sua maior parte, que parecem ter rolado para lá vindas da montanha áspera que está do outro lado de Jericó. Então é que Jesus se encontra com um numeroso grupo de discípulos chefiados por Manaém. Parece que estavam à sua espera. E estavam de fato, pois eles o dizem, depois de terem saudado o Mestre, acrescentando que os outros se encaminharam por outras estradas, para saberem o que havia, porque o atraso de uma noite inteira para chegarem a Jericó os havia deixado preocupados.
– Eu vim até aqui com estes. E não te deixarei mais enquanto não souber que estás a salvo ao lado de Lázaro –diz Manaém.
– Por quê? Há perigo de alguma coisa?… –pergunta Judas Tadeu.
– Vós estais na Judéia… E o decreto, vós o conheceis. E o ódio também. Por isso, tudo se há de temer –responde Manaém.
E, virando-se para Jesus, explica:
– Tomei comigo os mais fortes, porque podia-se presumir que, se não te houvessem preso, terias que passar por aqui. E, com nossa coragem de discípulos e de homens, esperamos poder impressionar os malvados e fazer que sejas respeitado.
Na verdade, estão com ele os ex-discípulos de Gamaliel, o sacerdote João, Nicolau de Antioquia, João de Éfeso e outros homens vigorosos, na flor da mocidade, de um aspecto senhoril acima do comum, e que eu não conheço. De alguns desses, Manaém faz as apresentações rapidamente, e outros ele não apresenta. São homens de todas as regiões da Palestina, entre os quais dois são da corte de Herodes Filipe. Nomes das mais antigas famílias de Israel são pronunciados como tais pelo caminho, ao lado do pequeno bosque descabelado no qual o vento faz tremular as mimosas e encurralar os galhos novos dos pilriteiros.
578.2– Vamos. Não haverá ninguém com as mulheres na casa de Nique? –pergunta Jesus.
– Os pastores. Todos, menos Jônatas, que está esperando Joana no palácio de Jerusalém. Mas os teus discípulos aumentaram muito, ontem mesmo estavam uns quinhentos à tua espera em Jericó. Eram tantos que os servos de Herodes estavam impressionados e levaram a ele a notícia. E ele já nem sabia se devia temer ou enfurecer-se. Mas como tem a obsessão de estar sempre se lembrando de João, ele não ousa levantar a mão contra ninguém…
– Está bem. Este não te fará mal! –exclama Pedro, e esfrega as mãos de contente.
– Mas isso é o que menos tem valor. Ele é como um fetiche que qualquer um pode mover para onde quiser, e quem o tem nas mãos pode manejá-lo facilmente.
– E quem o tem nas mãos? Será Pilatos? –pergunta Bartolomeu.
– Pilatos, para agir, não precisa de Herodes. Herodes é um servo. Os poderosos não se voltam para os servos –responde Manem.
– E quem então? –pergunta Bartolomeu.
– O Templo –diz com segurança um dos que estão com Manaém.
– Mas para o Templo Herodes é um anátema. O pecado dele…
– És muito ingênuo com todo o teu saber e os teus anos, ó Bartolomeu! Pois tu não sabes que muitas e muitíssimas coisas o Templo sabe desconhecer, contanto que atinja as suas metas? Por isso ele não é digno de continuar a existir –replica Manaém com um ar de severo desprezo.
– Tu és israelita e não deves falar assim. Para nós, o Templo é sempre o Templo –adverte-o Bartolomeu.
– Não. Ele é o cadáver daquilo que já foi. É um cadáver que se transformou em carniça imunda, por já ter morrido há muito tempo. Por isso, Deus nos mandou o Templo vivo. Para que pudéssemos prostrar-nos diante do Senhor sem ficarmos fazendo uma pantomima indecente.
578.3– Cala-te! –sussurra a Manaém um outro que está com ele, porque ele fala claro demais. Quem falou é um daqueles que não foram apresentados, e que está todo coberto.
– E por que é que eu deveria calar-me, se é assim que fala o meu coração? Pensas tu que minhas palavras possam prejudicar ao Mestre? Se assim for, eu me calarei. Mas não por outra razão. Ainda que me condenem, eu saberei dizer: “Esse é o meu pensamento, e não castigueis outros, mas a mim.”
– Manaém tem razão. Basta de tanto calar-nos por medo. Chegou a hora em que cada um deve ir ocupar o seu posto, a favor ou contra, e dizer o que tem no coração. Eu penso como tu, meu irmão em Jesus. E se isso pode causar a nossa morte, morreremos juntos, mas confessando a Verdade –diz, impetuoso, Estêvão.
– Sede prudentes, exorta Bartolomeu. – O Templo é sempre o Templo. Errará, pois não é perfeito, mas é… é… Depois de Deus, não há pessoas maiores e forças maiores do que as do Sumo Sacerdote e do Sinédrio… Eles representam Deus. E nós devemos ver o que eles representam, e não o que eles são. Será que eu estou errado, Mestre?
– Não estás errado. Em toda constituição é preciso saber ver qual a origem dela. E nesse caso é o Pai Eterno que constituiu o Templo e as hierarquias, os ritos e a autoridade dos homens prepostos para representá-lo. É preciso saber reconhecer que o Pai é que faz o julgamento. Só Ele sabe como e quando intervir; como prover para que a corrupção, tendo-se alastrado, não corrompa todos os homens e faça duvidar de Deus… E neste ponto Manaém soube ver com justiça, ao ver a razão da minha vinda a esta hora. É preciso, pois, temperar a tua estagnação, ó Bartolomeu, com o espírito inovador de Manaém, a fim de que fique justa a medida e, por isso, perfeito o modo de pensar. Todo excesso sempre é prejudicial. A quem o cumpre, a quem o suporta, a quem o examina para escandalizar-se com ele e, quando se trata de uma alma não honesta, servindo-se dele para denunciar os irmãos. Esta, porém, é uma atitude de Caim. E não será imitada pelos filhos da Luz, pois é uma obra das Trevas.
578.4Aquele que estava todo enrolado no manto, de tal modo que dele apenas se viam os olhos negros, muito vivos, e que admoestou Manaém para não falar demais, ajoelhou-se e pegou a mão de Jesus, dizendo:
– Tu és bom, Mestre. Quão tarde eu te conheci, ó Palavra de Deus! Mas ainda há tempo para amar-te como mereces, embora não para servir-te durante muito tempo como eu teria querido, e como agora eu gostaria.
– Nunca é tarde demais para a hora de Deus. Ela chega no momento exato. Ela concede todo o tempo para servir a Verdade, quanto a vontade quiser.
– Mas quem é? –murmuram os apóstolos uns com os outros e fazem a mesma pergunta aos discípulos.
Mas é inútil. Ninguém sabe quem é Ele, ou então, sabendo, não o quer dizer.
– Quem é, Mestre? –pergunta Pedro, logo que conseguiu aproximar-se de Jesus, que vai caminhando no centro do grupo, tendo atrás de Si as mulheres, na frentes as discípulas, dos lados os primos e, ao redor, os apóstolos.
– É uma alma, Simão. Nada mais do que isso.
– Mas tu confias nele, ainda que não saibas de quem se trata?
– Eu sei quem é. E conheço o seu coração.
– Ah! Compreendi. É como aquele caso da mulher velada, lá em Águas Belas. Não perguntarei mais nada.
E Pedro está feliz, porque Jesus, afastando-se de Tiago, o puxa para perto de Si.
578.5Já chegaram a Jericó. Do portão dos muros irrompe uma multidão cantando hosanas, e é com dificuldade que Jesus pode ir para frente a fim de atravessar a cidade, tendo que ir até a casa de Nique, que fica fora de Jericó, do lado oposto da cidade. Muitos lhe estão suplicando que Ele fale. Meninos levantados acima das cabeças, como se fosse para fazer com eles uma sebe viva e intransponível, pois sabem que Jesus ama muito os pequenos. As pessoas gritam:
– Podes falar. Ele já fugiu para Jerusalém.
E, dizendo isso, eles mostram o esplêndido palácio de Herodes, que está fechado.
E Manaém confirma:
– É verdade. Ele lá se foi de noite, silenciosamente, cheio de medo.
Mas nada faz Jesus parar. Ele vai dizendo:
– Paz! Paz! Quem tem sofrimentos e dores vá à casa de Nique. Quem me quiser ouvir vá a Jerusalém. Aqui Eu sou o Peregrino. Como todos vós. Na casa do Pai Eu vou falar. Paz! Paz e bênção! Paz!
É já um pequeno triunfo e um prelúdio da entrada em Jerusalém, que já está bem perto.
O que estou estranhando é a ausência de Zaqueu, até que o vejo de pé lá na divisa da propriedade de Nique, no meio dos seus amigos, com os pastores e os discípulos.
Todos correm ao encontro de Jesus, e se prostram, e abrem alas, enquanto Ele, abençoando, vai entrando pelo pomar, indo para a casa hospitaleira.