457. 457. Discurso em Afeca, depois de uma disputaentre crentes e não crentes. Sara torna-se discípula.


15 de julho de 1946.

457.1 Jesus fala ao povo de Afeca da soleira da casa de Sara. E fala a uma multidão muito variada, mais curiosa do que atenta, na qual, em menor número são os hebreus, enquanto que a maior parte são pessoas que estão de passagem: mercadores, peregrinos, uns que estão indo para o lago, outros que estão dispostos a descer até o vau de Jericó e outros ainda de cidades orientais, que estão indo rumo às cidades marítimas.

Por enquanto, não é um verdadeiro sermão, mas são respostas de Jesus a este ou àquele, um diálogo, mas que está sendo ouvido por muitos. Ainda que com sentimentos diferentes, muito perceptíveis pelas expressões dos rostos e pelas frases dos lá presentes, pelas quais posso entender até quem são eles e para onde é que estão indo. O diálogo de vez em quando muda de tom e de personagens, porque, deixando Jesus de lado, forma-se uma discussão entre os presentes, por motivo de raça ou de diversidade de pensamento.

É assim que um velho de Jope começa a entrar em briga com um mercador de Sidon, o qual defende o Mestre contra a incredulidade do judeu que não quer admitir ser Jesus o Esperado das Nações. E, em um bailado de citações da Escritura, aplicadas a torto e a direito, combatidas com esta simples afirmação do sirio-fenício:

– Eu não me preocupo com estas palavras, mas digo que é Ele, porque eu vi os seus milagres e ouvi as suas palavras.

E a disputa se alastrou, porque outros passam a tomar parte dela, e os contrários a Cristo estão gritando:

– Belzebu o está ajudando. Por isso Ele não é o Santo de Deus. É rei. Não é um falso rabi, um mendigo.

E aqueles que pensam como o sidonita, dizem:

– Os sábios são pobres, porque são honestos. Os filósofos não vivem paramentados de ouro e de prepotência, como os vossos rabis e sacerdotes.

E compreende-se que estes falem assim, porque não são hebreus, mas são gentios de diversas nações que estão de passagem pela Palestina, ou naturalizados nela, mas conservando o seu espírito pagão.

– Sacrílegos!

– Vós é que sois sacrílegos, vós que não percebeis a divindade do seu pensamento –respondem alguns.

– Não mereceis tê-lo convosco. Mas, por Júpiter! Nós desprezamos Sócrates, e não nos saímos bem. Tomai cuidado, vós. Tomai cuidado, vós, para que os deuses não vos firam como fizeram conosco muitas e muitas vezes, grita alguém, certamente algum grego.

– Ufa! São os defensores dos reis de Israel! E dos Gentios!

– E dos samaritanos! E nos ufanamos de o ser, porque saberíamos guardar o Rabi melhor do que vós, se Ele fosse à Samaria. Mas vós… Vós fizestes o Templo. Muito bonito. Mas é um sepulcro cheio de podridão, ainda que o tenhais coberto de ouro e de mármores preciosos –grita lá das margens da multidão um alto personagem vestido de linho, com franjas e recamos, faixas à cintura, fitas e braceleiras…

– Hum! Um samaritano!

Parecem estar dizendo: “o diabo”, pelo modo como os hebreus intransigentes se estão afastando dele como de um leproso, e, fugindo dele, gritam a Jesus:

– Expulsa-o. É um imundo!

Mas Jesus não expulsa ninguém. Procura impor a ordem e o silêncio, os apóstolos o ajudam, sem o conseguirem muito. 457.2Então, para pôr um fim às discussões, Ele começa a sua pregação.

– Quando o povo de Deus1, que depois se tornaram amêndoas, e com ela foi falar à pedra, porque a pedra daria água para os homens e para os animais. Moisés, com Aarão, fez o que o Senhor estava ordenando, mas os dois não souberam crer completamente no Senhor. E quem menos creu foi o Supremo Sacerdote de Israel: Aarão. A rocha, golpeada pela vara, abriu-se e verteu tanta água que matou a sede do povo e dos animais. E aquela água foi chamada Água da Contradição, porque lá os israelitas discutiram com o Senhor, fizeram sindicâncias sobre suas ações e suas ordens, e nem todos foram igualmente fiéis, mas, ao contrário, logo com o Sumo Sacerdote é que teve lugar e começou a dúvida sobre a verdade das divinas palavras. E Aarão foi depois tirado deste vida, sem ter podido chegar à Terra Prometida.

Ainda hoje o povo está tumultuando contra o Senhor, dizendo: “Tu nos conduziste à morte como um povo, como pessoas individuais, sob o domínio dos opressores.” E gritam a Mim: “Faze-te rei, liberta-nos.” Mas, de que libertação é que estais falando? De qual castigo? Dos castigos materiais? Oh! Não. Nas coisas materiais não há salvação nem castigo. Um castigo bem maior e uma libertação bem maior está ao alcance de vossa vontade livre e podeis escolher. Deus vo-lo concede. Isto Eu estou dizendo para os israelitas presentes, para aqueles que deveriam saber ler as figuras da Escritura e compreendê-las. Mas, visto que Eu tenho piedade do meu povo, do qual Eu sou rei no espírito, quero ajudar-vos a compreender uma figura pelo menos, para ajudar-vos a compreender quem Eu sou.

457.3 O Altíssimo disse a Moisés e a Aarão: “Tomai a vara e ide falar à pedra, e jorrarão rios para matar a sede do povo para que ele não se queixe mais.” Ao Eterno Sacerdote o Altíssimo disse ainda outra vez: “Pega a vara nascida da estirpe de Jessé e uma flor nascerá dela, não tocada pela lama humana, se mudará em fruto de amendoeira, pleno de unção e de doçura. E com esta amendoeira da raiz de Jessé, com este broto admirável, sobre o qual pousará o Espírito do Senhor com seus sete dons, golpeia a pedra de Israel para que dela jorre água abundante para a sua salvação.”

O Sacerdote de Deus é o próprio Amor. E o Amor fez uma carne, lançando o seu broto para fora da raiz de Jessé, que pela lama não foi nutrida, e a Carne era a do Verbo Encarnado, do Messias esperado, que foi mandado ir falar à rocha para que ela se abrisse. Para que se abrisse em sua dura crosta de soberba e de cobiça, e acolhesse as águas que Deus mandou, as águas que jorram do seu Cristo, o óleo suave do seu amor, para se tornar maleável, bom, para santificar-se, acolhendo em seu coração o dom do Altíssimo ao seu povo.

Mas Israel não quer a água viva em seu seio. Fica fechado, duro, fica assim especialmente nas pessoas dos seus grandes, contra os quais a vara, florida e cheia de frutos só pelo poder divino, bate e fala inutilmente. E, em verdade, Eu vos digo que muitos deste povo não entrarão no Reino, enquanto que muitos que não são deste povo entrarão, porque estes terão sabido crer o que os Sacerdotes de Israel não quiseram crer. Por isto Eu estou no meio de vós como um sinal de contradiçao e vós sereis julgados, conforme o modo como me souberdes compreender. Mas aos outros, que não são de Israel, Eu digo: a casa de Deus, evitada pelos filhos do seu povo, está aberta para os que procuram a Luz. Vinde. Segui-me. Se Eu estou colocado como um sinal de contradição, também estou colocado como um sinal para todas as Nações, quem me amar, será salvo.

457.4 – Tu amas mais aos estrangeiros do que a nós. Se nos evangelizasses, acabaríamos te amando. Mas estás por toda parte, menos na Judeia –diz um judeu, comovido pelas palavras de Jesus.

– Descerei também para a Judeia e lá me demorarei bastante. Mas não sofrerá mudança a pedra que está no coração de muitos. Não mudará, nem mesmo quando o sangue cair sobre a pedra. Tu és um sinagogo, não é mesmo?

– Sim, e como o sabes?

– Eu o sei. Pois bem. Então podes compreender o que digo.

– O sangue não deve cair sobre a pedra. É pecado.

– O sangue, vós o derramareis com alegria sobre a pedra, que lá fique. E vos ficará parecendo um troféu de vitória a pedra sobre a qual vai ser derramado o sangue do verdadeiro Cordeiro. Mas virá um dia em que compreendereis… Compreendereis o verdadeiro castigo e qual era a verdadeira salvação que vos era oferecida. Vamos…

Um homem vai até à frente, a poder de empurrões:

– Eu sou sírio-fenício. Muitos de nós creem em Ti, mesmo sem te terem em seu meio… e temos doentes, muitos… Não irás até nós?

– A vós, não. Não tenho tempo. Mas agora, depois do sábado, daqui Eu me dirigirei para os vossos confins. Quem estiver precisando de graças, venha colocar-se nas passagens dos confins e lá espere.

– Eu irei dizê-lo aos meus compatriotas. Deus esteja contigo, Mestre.

– A paz esteja contigo, homem.

457.5 Jesus se despede da viúva, isto é, gostaria de despedir-se, mas ela se ajoelha e lhe confessa as suas decisões:

– Eu decidi deixar aqui Samuel, melhor como servo do que como crente, e ir para Cafarnaum, para perto de Ti.

– Eu deixarei Cafarnaum logo, e para sempre.

– Mas Tu tens uns discípulos bons.

– Isto é verdade.

– Eu decidi assim… Desse modo darei prova de que sei desapegar-me das riquezas e amar com justiça. Usarei do dinheiro que se acumula, em favor dos teus pobres e, como primeiro desses pobres, eu considerarei o menino, mesmo se a mãe dele quiser ficar com ele, ainda que não o ame. Por enquanto, entrego-te isto –e lhe oferece uma bolsa cheia.

– Deus te abençoe e as dos beneficiados. Fizeste muito progresso em poucas horas.

A mulher enrubesce. Dá um olhar ao redor de si e confessa:

– Não sou eu capaz de grande melhoria. Foi o teu apóstolo que me ensinou. Aquel lá, que se está escondendo atrás do jovem moreno.

– É Simão Pedro. É o chefe dos apóstolos. E, então, que foi que ele te disse?

– Oh! Ele me falou de um modo tão simples e tão bem! Ele se humilhou, ele um apóstolo, para confessar-me que também ele era como eu, injusto em seus desejos. Oh! Eu nem posso crer nisso! Mas que ele se esforçou para se tornar bom para merecer o que desejava, e que sempre mais se esforça para conseguir, para não transformar em mal o bem recebido. Tu sabes, as coisas ditas entre nós, pobre gente, compreendem-se melhor. Estarei te ofendendo, Senhor?

– Não. Dá glória a Deus com a tua sinceridade e com o louvor dado ao meu apóstolo. Faze como ele te aconselhou. Deus esteja sempre contigo que és inclinada para a justiça.

Jesus a abençoa, toma o caminho em primeiro lugar, dirigindo-se para o noroeste, por baixo dos verdes pomares, agitados por um vento repentino.

2 Quando o povo de Deus... é o início da narração retomada em Êxodo 17,1-7; Números 20.
1 depois que ela floresceu, e lançou folhas, que depois se tornaram amêndoas parece uma expressão aprimorada por MV, que escreveu abertos depois de ter escrito e apagado convertidos, mostrando uma certa indecisão. Para endender a expressão, é preciso relê-la em Números 17,23, mas segundo o texto da vulgata (Números 17,8) seguida por MV: tinha germinado e nascido os botões dos quais tinham saídos que, abertas as folhas, se convertiam em amêndoas.


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