293. 293. O discurso e os milagres em Bozradepois da irrupção de dois fariseus.O dom da fé de Alexandre Misaque.
2 de outubro de 1945.
293.1… Mas o mundo está também muito perto de nós com as suas ondas de ódio, de traição, de dor, de necessidades, de curiosidade. E as ondas vêm, como as do mar, para um porto, vêm morrer aqui, dentro do pátio do albergue de Bozra, que o respeito do albergador, melhor de coração do que se poderia pensar olhando para o seu rosto, mandou limpar de todos os excrementos e sujeiras. Ondas de pessoas e mais pessoas, do lugar e de fora, mas pertencentes a esta região. São pessoas que, pela fala, posso compreender que venham de longe, das beiras do lago, ou de para lá do lago. Os nomes das cidades lembram fragmentos de dores, que se podem perceber pelas conversações, que se entrecruzam, enquanto estão à espera de Jesus. Gadara, Hipo, Gergesa, Gamala, Afeca. E ainda: Naim, Endor, Jezrael, Magdala e Corozaim, são nomes que passam de boca em boca, e a eles estão unidas as narrações dos motivos pelos quais vieram de tão longe até aqui.
– Quando fiquei sabendo que Ele tinha vindo pelo outro lado do Jordão, fiquei desanimado. Mas, quando eu já estava querendo voltar para Jezrael, chegaram uns discípulos e nos disseram a nós que o estávamos esperando em Cafarnaum: “A estas horas, Ele certamente já está para lá de Gerasa. Não percais tempo, e ide logo para Bozra, ou para Arbela”, e, então, eu vim com estes…
– Pois eu sou de Gadara, e vi passar fariseus. Eles perguntavam se era Jesus de Nazaré que estava na região. Eu estou com minha mulher doente. Então, eu me uni a eles. Depois, ontem em Arbela, fiquei sabendo que antes Ele viria a Bozra, e por isso vim para cá.
– Eu venho de Gamala, por causa deste menino. Uma vaca furiosa o atacou. E ele ficou assim… –e mostra o filho, todo encolhido, sem poder mover nem os braços livremente.
– Eu não pude trazer o meu. Venho de Magedo. Que me dizeis? Será que Ele o curará daqui mesmo? –geme uma pobre mulher, que está com o rosto avermelhado de tanto chorar.
– Mas, é preciso trazer o doente!
– Não. Basta ter fé.
– Não. Se Ele não lhe impuser as mãos, não ficará curado. Os dois discípulos dele também é assim que fazem.
– Fizeste uma longa caminhada à toa, mulher!
A mulher se põe a chorar, dizendo:
– Ó infeliz de mim! Eu o deixei quase à morte, e vim na esperança… Não o curará e eu não poderei estar consolando-o na hora da morte…
Mas uma outra mulher a consola:
– Não dês ouvidos a eles, mulher. Eu vim agradecer a Ele, porque fez para mim um grande milagre, sem ter eu deixado o monte no qual Ele estava falando.
– Que doença tinha o teu filho?
– Não era o filho. Era o meu marido, que tinha ficado doido…
E as duas continuam a falar em voz baixa.
– É verdade. Também aquela mãe, que veio de Arbela, teve o seu filho recuperado, sem que o Mestre o visse –diz alguém de Arbela, e continua a conversar com uns que estão por perto.
– Abri caminho, por piedade! Abri caminho! –gritam os que vêm transportando uma liteira toda coberta.
A multidão abre caminho, e a liteira passa com sua carga de dor, e vai colocar-se lá no fundo, quase por detrás de um palheiro. Será homem, ou mulher, o que está estendido naquela caminha? Quem é que vai saber?
293.2Entram dois fariseus, enfatuados e pomposos, cheios de orgulho, agora mais do que nunca. Atacam logo o pobre albergador, como dois loucos, gritando:
– Maldito mentiroso! Por que nos disseste que Ele não estava? És tu um dos cúmplices dele? Escarneces assim de nós, os santos de Israel, para favorecer… A quem? Que é que sabes dele? Quem é Ele? E para ti, que é Ele?
– Quem é Ele? É aquilo que vós não sois. Mas eu não menti. Ele veio poucas horas depois da vossa chegada. E ele não se escondeu, nem eu o escondo. Mas, visto que o dono daqui sou eu, neste instante eu vos digo: “Saí da minha casa!” Aqui não se injuria o Nazareno. Entendestes bem? E, se não entendeis as minhas palavras, eu poderia falar-vos com fatos, e vós não sois mais do que uns chacais.
O musculoso albergador parece tão decidido a passar às vias de fato, que os dois fariseus mudam de tom, e se põem a rastejar como uns cachorrinhos ameaçados pelo chicote.
– Mas nós o procuramos para venerá-lo! Que é que estás pensando? Ficamos furiosos, só de pensar que não podemos vê-lo, por tua culpa. Nós bem sabemos quem é Ele. O Messias santo e bendito, para o qual nós não somos dignos nem de levantar o olhar. Nós somos pó, Ele é a glória de Israel. Leva-nos a Ele. A nossa alma está ardendo de vontade de ouvir a palavra dele.
O albergador dá-lhes muito bem o troco, respondendo-lhes:
– Oh! Vede só! E, como é que eu fui poder pensar que assim não fosse, eu que bem conheço, pela fama que ela tem, a justiça dos fariseus?! Mas, está bem. Vós viestes para adorá-lo! vós vos estais queimando por esse desejo! Eu vou dizê-lo a Ele! Vou… Não, por satanás! Tu não me sigas. E nem tu também, ou eu vos bato tanto, ó velhas múmias venenosas, que vos farei entrar uma na outra. Ficai aqui. Tu aqui, onde eu te coloco. E tu aqui. E não fico satisfeito, por não poder fincar-vos na terra até o pescoço, para servir-me de vós como de uma estaca, para amarrar nela os porcos, que vão ser degolados.
E une suas palavras à ação, pegando primeiro, pelas axilas, o mais magro dos fariseus, levantando-o e jogando-o de novo no chão, de um modo tão violento que, se não fosse firme o terreno, o infeliz teria entrado pelo chão a dentro, pelo menos até o tornozelo. Mas o terreno é firme, e o fariseu fica em pé, depois da forte sacudidela, como se tivesse virado um boneco. Depois, o albergador pega o outro, e, ainda que ele seja bastante gordo, levanta-o e o abaixa com a mesma fúria, e, como o outro reage e lhe escapa das mãos, ele, em vez de pô-lo em pé, o abaixa, pondo-o sentado, como se fosse um volume de carne e de pano… E depois vai-se embora, dizendo uma palavra feia, que se perde por entre os gemidos dos dois e as risadas de muitos outros.
Ele entra por um corredor, passa por um pequeno curral, pega uma escadinha, põe o pé sobre uma varanda em forma de pórtico, e dela passa para um vasto salão, no qual estão terminando sua refeição Jesus e todos os seus, junto com o mercador.
– Chegaram aí dois dos quatro fariseus. Toma cuidado. Por enquanto, eu mesmo cuidei deles. Queriam vir atrás de mim. Mas eu não quis. Estão eles agora no pátio, no meio de muita gente, muitos doentes e outras pessoas ainda.
– Eu irei logo. Obrigado, Farã. Então, vai.
293.3Todos se levantam. Mas Jesus manda que os discípulos fiquem onde estão, e também as mulheres, menos sua Mãe, Maria de Cléofas, Susana e Salomé. E, percebendo a tristeza que se nota nos rostos dos que foram excluídos, diz:
– Ide para o terraço. De lá me ouvireis do mesmo modo.
Sai com os apóstolos e as quatro mulheres, faz de volta o caminho feito pelo albergador, e entra no grande pátio. A multidão espicha o pescoço para ver, e, quem é mais esperto vai para cima dos palheiros, dos carros que estão escorados por um dos lados, ou por sobre a beirada dos tanques…
Os dois fariseus vão indo ao seu encontro, muito obsequiosos. Jesus os saúda com sua saudação de costume, como se eles fossem os seus mais fiéis amigos. Mas Ele não para a fim de responder às perguntas capciosas deles:
– Sois assim tão poucos? E sem discípulos? Então, eles te abandonaram?
Jesus, continuando a caminhar, responde sério:
– Nada de abandonar. Vós estais vindo de Arbela, onde encontrastes quem vem na minha frente e, na Judeia, vos encontrastes com Judas de Simão, Tomé, Natanael e Filipe.
O fariseu mais corpulento já não tem mais coragem de acompanhá-lo, e para de repente, ficando vermelho como uma brasa. O outro, que é mais descarado, insiste:
– É verdade. Mas justamente ficamos sabendo que Tu estavas com os discípulos fiéis, e com as mulheres, e ficamos admirados por te vermos com tão poucos. Queríamos ver as tuas novas conquistas, para nos congratularmos contigo –e se ri, com falsidade.
– As minhas novas conquistas? Ei-las!
E Jesus faz um gesto em semi-círculo, mostrando a multidão, quase toda do Além-Jordão, isto é, desta região em que fica Bozra. Depois, sem dar tempo ao fariseu de replicar, começa a falar.
293.4– “Procuraram-me1 aqueles que antes não perguntavam por Mim.
Encontraram-me aqueles que antes não me procuravam. E Eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui’ a uma nação que não invocava o meu Nome.”
Glória ao Senhor, que fala a Verdade pela boca dos profetas! Verdadeiramente, Eu, olhando para esta multidão, que me aperta de todos os lados, alegro-me vivamente no Senhor, porque vejo cumpridas as promessas que Eu mesmo acendi, fiz brilhar, unido ao Pai e ao Paráclito, no pensamento, na boca, no coração dos profetas, promessas que Eu conheci, antes de fazer-me carne. Elas me confortam. Sim. Elas me confortam contra todo o ódio, rancor, dúvida e mentira. Procuraram-me aqueles que, antes, nem perguntavam por Mim. E me encontraram aqueles que não me procuravam. Por que será isso assim, se, ao contrário, aqueles aos quais Eu estendi as mãos, dizendo “Eis-me aqui”, foram os que me rejeitaram? E, no entanto, eles é que me conheciam, enquanto que estes não me conheciam. E então?
Eis aqui a chave do mistério. Ignorar, ainda não é culpa, mas renegar é culpa. E muitos daqueles que sabem de Mim, e aos quais Eu estendi as mãos, me renegaram, como se Eu fosse um bastardo ou um ladrão, um satanás corruptor, porque, em sua soberba, apagaram a luz da fé e se desviaram para caminhos não bons, tortos, pecaminosos, abandonando o caminho que a minha voz lhes indica. O pecado está no coração, nos pratos, nos leitos, nos corações, nas mentes deste povo que me rejeita e que, vendo por toda parte o reflexo de sua própria imundície, também em Mim ele a vê, e o seu ódio ainda mais a concentra, para, então, me dizer: “Afasta-te, que és imundo”.
E, então, que é que dirá Aquele, que vem com as vestes tingidas de vermelho, belo em sua veste e caminhando na grandeza de sua força? Cumprirá o que diz Isaías, e não se calará, e despejará no meio deles o que eles merecem? Não. Antes haverá de se esmagar em sua prensa, ele sozinho, abandonado por todos, para fazer o vinho da Redenção. O vinho que inebria os justos, a fim de fazer deles uns bem-aventurados, o vinho que inebria os culpados da grande culpa, para despedaçar seu sacrílego poder. Sim, o meu vinho, o que está amadurecendo a cada hora, ao sol do Eterno Amor, será ruína e salvação para muitos, como está dito em uma profecia que ainda não está escrita, mas depositada na rocha sem rachadura, da qual brotou a Videira, que dá o vinho da Vida Eterna.
293.5Entendeis vós? Não, vós não entendeis, ó doutores de Israel. Não importa que vós compreendais. Está descendo sobre vós a escuridão, da qual fala2 Isaías: “Têm olhos, e não veem. Têm ouvidos, e não ouvem.” Escarnecei da Luz, com o vosso ódio, para que se possa dizer que a Luz foi repelida pelas trevas, e que o mundo não a quis conhecer.
Mas vós, exultai. Vós que estáveis nas trevas e soubestes crer na Luz, que vinha sendo anunciada, vós que a desejastes, procurastes e encontrastes. Exultai, ó povo dos fiéis, que pelos montes, rios, vales e lagos, fostes à Salvação, sem fazer conta do peso de um longo caminho. Assim se faz também para o outro caminho espiritual, que é aquele que, das trevas da ignorância. te conduzirá, ó povo de Bozra, à luz da sabedoria. Exulta, ó povo da Auranítide! Exulta na alegria do conhecimento. Verdadeiramente também de ti está dito, e dos povos teus limítrofes, quando canta o profeta que os vossos camelos e dromedários se aglomerarão pelos caminhos de Neftali e Zabulon, para irem adorar ao verdadeiro Deus, e para serem servos seus, na santa e doce lei, que não impõe tais coisas para garantir a paternidade divina e a felicidade eterna, mas a observância dos dez mandamentos do Senhor, amar o verdadeiro Deus com todo o vosso ser, amar ao próximo como a nós mesmos, respeitar os sábados sem profaná-los, honrar os pais, não matar, não roubar, não cometer adultério, não ser falso nos testemunhos, não desejar a mulher e as coisas dos outros. Oh! Felizes de vós, se, vindos de mais longe, superardes os que eram da casa do Senhor e que dela saíram, estimulados pelos dez mandamentos de satanás, que ensinam a desamar a Deus, a amar a si mesmos, a prestar a Deus um culto corrompido, a tratar os pais com dureza, a ter o desejo de cometer o homicídio, a tentativa de furtar a santidade dos outros, a fornicação com satanás, os falsos testemunhos, a inveja da natureza e da missão do Verbo, e do pecado horrível, que fermenta e amadurece no fundo dos corações, de muitíssimos corações.
293.6Exultai, ó vos que estais com sede! Exultai, ó vós que estais com fome. Éreis vós os proscritos? Éreis vós os desprezados? Éreis os estrangeiros? Vinde, exultai! Agora já não é mais assim. Eu vos dou casas, bens, paternidade, pátria. O Céu, Eu vos dou. Segui-me, que Eu sou o Salvador! Segui-me, que Eu sou o Redentor! Segui-me, que Eu sou a vida. Segui-me que Eu sou Aquele ao qual o Pai não nega suas graças! Exultai no meu amor! Exultai! E, para que vejais que Eu vos amo, ó vós que me procurastes com as vossas dores, ó vós que crestes em Mim, antes ainda de me terdes conhecido, para que este dia seja de uma verdadeira exultação, Eu rezo assim: “Pai, Pai Santo! Sobre todas as feridas, doenças, chagas do corpo, angústias, tormentos, remorsos dos corações, sobre toda a fé que nasce, sobre a que vacila, sobre a que se robustece, desça, oh! desça Salvação, graça e paz! Paz em meu Nome! Graça em teu Nome! Salvação pelo nosso recíproco amor! Abençoa, ó Pai Santíssimo! Recolhe e une em um só rebanho estes teus e meus filhos dispersos! Faze que, onde eu estiver, estejam eles, uma só coisa contigo, Pai Santo, contigo, comigo e com o Diviníssimo Espírito!”
Jesus, de braços abertos, em forma de cruz, com as palmas no alto, viradas para o céu, o rosto levantado, a voz ressoando como uma trombeta de prata, está arrastando aos que ouvem suas palavras… E fica assim, em silêncio, por alguns minutos. Depois, os seus olhos de safira deixam de ficar olhando para o céu, a fim de olharem para o amplo pátio, cheio de uma multidão, que está suspirando de comoção, ou fremindo de esperança. Suas mãos se unem, sendo levadas para a frente, e Ele, com um sorriso que o transfigura, lança o último grito:
– Exultai, ó vós que credes e esperais. Ó povo de sofredores, levanta-te, e ama ao Senhor teu Deus!
293.7É simultânea e total a cura de todos os doentes. Um barulho de gritos, um estrondo de vozes dá hosanas ao Salvador. E, do fundo do pátio, ainda arrastando o lençol que a cobria, uma mulher abre caminho pelo meio da multidão, indo cair aos pés de Jesus. A multidão dá, então, um urro diferente, de terror:
– Maria, mulher de Joaquim, a leprosa! –e todos fogem para todas as direções.
– Não temais. Ela está curada. Nem o contato dela pode fazer-vos mal –diz Jesus.
Depois diz à que está prostrada:
– Levanta-te, mulher. A tua grande esperança te premiou, e faz que sejas perdoada por teres deixado de usar de prudência para com os irmãos. Volta para tua casa, depois das purificações salutares.
A mulher, ainda jovem e relativamente bonita, está chorando, e pondo-se em pé. Jesus a mostra à multidão, que se aproxima um pouco e fica admirando o milagre, e proclamando as suas maravilhas.
– O marido, que a estimava muito, havia construído para ela um refúgio, no fundo de suas terras, e todas as tardes ia até o limite delas e, chorando, dava-lhe alimentos…
– Ela havia ficado doente, por causa de sua piedade, quando estava tratando de um mendigo que não dizia que estava leproso.
– Mas, como foi que veio até aqui a boa Maria?
– Com aquela padiola. Será que não nos lembramos de que Joaquim tinha dois servos?
– Eles se arriscaram a ser apedrejados por isso!
– Maria era a patroa deles. Eles a amam mais do que a si mesmos, pois ela sabe fazer-se amar…
Jesus faz um gesto, e todos se calam:
– Vós estais vendo como o amor e a bondade produzem milagre e alegria. Por isso, procurai saber ser bons. Vai, mulher. Ninguém te fará mal. A paz esteja contigo e na tua casa.
A mulher, acompanhada pelos servos, que já puseram fogo na padiola no meio do pátio, sai dali acompanhada por muitos.
293.8Jesus despede a multidão, depois de ter ouvido alguns, e se retira para casa acompanhado pelos que estavam com Ele.
– Que palavras, Mestre!
– Como estavas transfigurado!
– Que voz!
– Que milagres!
– Viste quando os fariseus fugiram?
– Foram-se embora, quase rastejando, como dois lagartos, logo depois das primeiras palavras.
– Os de Bozra e de todas estas redondezas guardam de Ti a lembrança como do sol…
– Mãe, que é que dizes?
– Eu te abençôo, Filho. Por mim e por eles.
– Pois bem. A tua bênção nos acompanhará até que de novo nos encontremos.
– Por que falas assim, Senhor? Então, as mulheres nos vão deixar?
– Sim, Simão. 293.9Amanhã, às primeiras horas do dia, Alexandre parte para Aera. Nós iremos com ele até a estrada de Arbela, e depois o deixaremos. É com tristeza, podes crer, Alexandre Misaque, porque foste um guia muito gentil para com o Peregrino. Eu me lembrarei sempre se ti, Alexandre…
O velho fica comovido. Ele está com os braços cruzados sobre o peito, na profunda saudação oriental, um pouco inclinado, na frente de Jesus. Mas, ao ouvir estas palavras, diz:
– Sobretudo, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.
– Assim desejas, Misaque?
– Sim, meu Senhor.
– Eu também desejo uma coisa de ti.
– Qual é, Senhor? Se eu puder, eu te darei. Ainda que fosse a coisa mais preciosa que eu possuo.
– É a mais preciosa. Eu quero a tua alma. Vem a Mim. Eu te disse, no começo desta viagem, que no fim Eu esperava dar-te um presente. O dom da Fé. Crês tu em Mim, Misaque?
– Eu creio, Senhor.
– Então, santifica a tua alma, a fim de que a fé não seja para ti, não semente inerte, mas prejudicial.
– Já está velha a minha alma. Mas eu me esforçarei para fazê-la ficar nova. Senhor, eu sou um velho pecador. Mas Tu, absolve-me e me abençoa, para que, desde hoje, eu comece uma vida nova. Levarei comigo a tua bênção, como a melhor das escoltas, no meu caminho para o teu Reino… Não nos veremos nunca mais, Senhor?
– Sobre esta terra, nunca mais. Mas terás notícias de Mim, e crerás ainda mais, porque não te deixarei sem evangelização. Adeus, Misaque. Amanhã teremos pouco tempo para despedir-nos. Façamo-lo, então, agora, antes de terminarmos, pela última vez, esta refeição juntos.
E o abraça e o beija. Também os apóstolos e os discípulos. As mulheres se despedem com uma saudação única. Mas Misaque chega quase a ajoelhar-se diante de Maria, dizendo:
– Que a tua luz de pura estrela da manhã brilhe no meu pensamento, até à morte.
– Até à vida, Alexandre. Ama meu Filho, e me estarás amando, e eu te amarei.
293.10Simão Pedro pergunta:
– Mas de Arbela, iremos para Aera? Eu tenho medo de que o mau tempo nos pegue. O nevoeiro está forte… Há três dias que ele se forma pela manhã, e à tarde…
– É porque até aqui viemos descendo. Não te parece que descemos muito? Mas é assim. A partir de amanhã, subirás de novo para os montes da Decápole, e não terás mais névoas –explica Misaque.
– Descemos? Quando? A estrada era plana…
– Sim, mas em contínua descida. Oh! Uma descida tão lenta, que nem se percebe. Mas que se estende por milhas e mais milhas!
– A quanto tempo estamos de Arbela?
– Para ti, Tiago e Judas, não leva nem uma hora –diz brevemente Jesus.
– Eu… Tiago e Judas… nem uma hora? E, para onde vou, se não fico com todos vós?
– Vai. Vai até as terras que estão sob a guarda de Cusa. Acompanharás com os outros a minha Mãe e as mulheres, até lá. Depois elas irão sozinhas com os servos da Joana, e vós voltareis, reunindo-vos em Aera.
– Oh! Senhor! Tu estás zangado comigo, e me queres castigar… Quanta tristeza me dás, Senhor!
– Simão, sente-se castigado, pois sabe que é culpado. Isto de estar culpado é que deve dar tristeza, e não o castigo por si mesmo. Mas Eu não acho que seja um castigo ir acompanhando minha Mãe e discípulas no caminho da volta.
– Mas, não seria melhor que Tu fosses também conosco? Deixa de lado Aera, e esses lugares, e vem conosco.
– Eu prometi que iria lá, e vou.
– Então, eu também vou.
– Tu, obedece, como fazem os meus irmãos, sem protestarem.
– E, se encontrares os fariseus?
– Certamente tu não és o mais indicado para convertê-los. Mas é precisamente porque Eu os vou encontrar, que Eu quero que tu, Tiago e Judas vades, a partir de Arbela, com as mulheres, com João de Endor e Marziam.
– Ah!… Agora compreendi! Está bem.
Jesus se volta para as mulheres e as abençoa, uma por uma, dando-lhes conselhos adaptados a cada uma.
Madalena, ao inclinar-se para beijar os pés do seu Salvador, pergunta:
– Eu te verei ainda, antes de voltar para Betânia?
– Sem dúvida, Maria. No mês de etanim estarei no lago.
1 Procuraram-me… é citação de Isaías 65,1. Mas o discurso que segue se refere ainda aos pequenos versos e de Isaías 63.
2 da qual fala, em Isaías 6,9-10.
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