348. 348. Manaém fala de Herodes Antipase de Cafarnaum vai com Jesus a Nazaré.Reveladas as trasfigurações da Virgem.


2 de dezembro de 1945.

348.1 Quando eles puseram o pé na pracinha de Cafarnaum, foram acolhidos pela gritaria dos meninos, que parecem com as andorinhas, atarefadas na construção de novos ninhos, de tão rápidas que eles passam, chilreando com suas vozinhas, desde a praia até às casas, felizes pela alegria simples de meninos, para os quais já é um espetáculo maravilhoso e uma coisa de magia qualquer peixinho que eles encontrem morto à margem, ou qualquer pedrinha que as ondas poliram e que, por sua bela cor, parece uma pedra preciosa, ou uma flor descoberta entre duas pedras, ou um besouro irisado capturado no vôo. Tudo isso são prodígios, que se levam às mamães, a fim de que elas possam tomar parte na alegria do seu filhinho.

Mas agora estas andorinhas humanas já enxergaram Jesus, e todos os seus vôos convergem para Ele, que está para pôr o pé na prainha. É uma avalancha morna e viva de carnes infantis, é uma série gentil de pequeninas mãos tenras, é um amor de corações infantis que cai sobre Jesus, que fica apertado, atado, aquecido como por um fogo brando.

– Eu! Eu!

– Um beijo!

– A mim!

– Também a mim!

– Jesus, eu te quero bem!

– Não te vás embora por tanto tempo!

– Eu vinha todos os dias aqui, para ver se vinhas chegando.

– E eu ia até à tua casa.

– Toma esta flor, era para a mamãe, mas eu te dou.

– Ainda um beijo para mim, um beijo bom e forte. Aquele de antes não tocou em mim, porque Jael me empurrou para trás…

E as vozinhas continuam a se fazerem ouvir, enquanto Jesus tenta caminhar pelo meio dessa rede de ternuras.

– Mas deixai-o ficar sossegado! Fora! Basta! –gritam os discípulos e os apóstolos, procurando romper o cerco. Mas, de que jeito! Parecem umas lianas, munidas de ventosas! Quanto mais eles estão sendo afastados, a Ele mais se pegam.

– Deixai! Deixai que o façam. Com paciência haveremos de chegar –diz sorrindo Jesus, e dá uns passos, incrivelmente pequenos para poder ir para frente sem pisar naqueles pezinhos descalços.

348.2 Mas o que o livra do amoroso cerco é a chegada de Manaém com outros discípulos, entre os quais os pastores que estavam na Judéia.

– A paz esteja contigo, Mestre –diz com voz trovejante o altivo Manaém com suas esplêndidas vestes, sem trazer mais os ouros na frente e nos dedos, mas com uma magnífica espada ao lado, que provoca uma admiração respeitosa dos meninos, os quais, diante deste imponente cavalheiro, afastam-se atemorizados. E assim Jesus pode abraçá-lo e abraçar Elias, Levi, Matias, José, João, Simeão e não sei a quantos outros mais.

– Mas, como estás aqui? E como soubeste que Eu tinha desembarcado?

– Saber, ficamos sabendo pelos gritos dos meninos. Eles transpuseram os muros, como flechas de alegria. Mas eu vim aqui, pensando que está perto a tua viagem para a Judéia e que com certeza, as mulheres tomarão parte nela. E eu quis estar aqui também… Para proteger-te, Senhor, se não for muita soberba pensar assim. Há muita efervescência em Israel contra Ti. É doloroso dizer-se isso. Mas Tu não deixas de o saber.

348.3Assim falando, eles já vão chegando à casa, e nela entram.

Manaém continua o seu assunto, depois que o dono da casa e sua mulher cumprimentaram o Mestre.

– A efervescência e o desejo de conhecer-te penetrou já em todos os lugares, sacudindo e chamando a atenção até dos mais obtusos e distraídos por coisas bem diferentes do que Tu és. As notícias das coisas que Tu fazes já chegaram até dentro das muralhas de Maqueronte e aos refúgios luxuriosos de Herodes, estejam eles no palácio de Tiberíades, ou nos castelos de Herodíades, ou no esplêndido palácio dos Asmoneus, perto de Sisto. Elas superam, como bombas de luz e de poder, as barreiras das trevas e da baixeza, abatem os montes de seus pecados e usam sua terra para servir de trincheira ou de anteparo para os sujos amores da Corte e para os mais truculentos delitos, e ferem com flechas que são como dardos de fogo, escrevendo palavras bem mais graves do que aquelas do banquete de Baltasar1, por sobre as licenciosas paredes das alcovas e das salas do trono e dos festins. Elas gritam o teu Nome e o teu poder, a tua Natureza e a tua Missão. E, ao som destas palavras, Herodes treme de medo, enquanto Herodíades não tem sossego em seus leitos, por temer que Tu sejas o Rei vingador, que tirará suas riquezas e sua imunidade, se não lhe tirar também a vida, atirando-a nas mãos das turbas, que nela se vingarão dos seus muitos delitos. Na Corte estão tremendo. Por causa de Ti. Tremem com um medo humano e com um medo sobre-humano. Desde que a cabeça de João rolou decepada, parece que um fogo está aceso nas vísceras dos seus matadores. Eles não têm mais nem mesmo aquela paz miserável de antes, a paz de uns porcos saciados de crápulas, que procuram fazer calar as repreensões de suas consciências por meio da embriaguez e da cópula. Não há mais nada que lhes possa dar a paz… Estão sempre perseguidos. E se odeiam uns aos outros depois de cada hora de amor, saciados um da outra, culpando-se um ao outro de ter cometido um delito que os perturba e que passou da medida. Enquanto isso, Salomé, como se estivesse tomada por um demônio, é sacudida por um erotismo, que envergonharia até uma escrava dos moinhos. O palácio está fedendo mais do que uma cloaca.

Herodes me tem feito perguntas muitas vezes a teu respeito. E, a cada vez, eu tenho respondido: “Para mim, Ele é o Messias, o Rei de Israel que vem da única estirpe real, que é a de Davi. É o Filho do homem, como o chamaram os Profetas, e o verbo de Deus, Aquele que, por ser o Cristo, o Ungido de Deus, tem o direito de reinar sobre todos os viventes.” E Herodes, então, empalidece de medo, percebendo em Ti o Vingador. E ele afasta o medo, o grito da consciência dilacerada pelo remorso, dizendo — pois os cortesãos, para confortá-lo, dizem-lhe que Tu és João, que erradamente muitos crêem que está morto, ou então Elias, ou qualquer outro profeta dos tempos passados — dizendo: “Não. Não pode ser João! Eu o fiz decapitar e a cabeça dele está bem guardada por Herodíades. Também Ele não pode ser um dos Profetas. Ninguém revive, uma vez que morreu. Mas também não pode ser o Cristo. Quem é que diz isso? Quem o diz? Quem terá a coragem de vir dizer-me que Ele é o rei da única estirpe real? Eu sou o rei! E não outros. O Messias foi morto por Herodes, o Grande, em um mar de sangue Ele foi afogado logo que nasceu. Foi degolado como um cordeirinho… e tinha poucos meses… Não ouves como ele está chorando? Seu balido está sempre se fazendo ouvir dentro de minha cabeça, junto com aquele rugido de João: ‘Não te é lícito’… Não me é lícito? Ora! Tudo me é lícito, porque eu sou ‘o rei’. Aqui há vinho e mulheres e, se Herodíades não quiser os meus abraços, que Salomé dance para despertar os meus sentidos, espavoridos pelas tuas histórias amedrontadoras.”

E ele se embriaga por entre as dançarinas da Corte, enquanto, em seus aposentos, aquela fêmea louca uiva as suas blasfêmias contra o Mártir e suas ameaças contra Ti e os seus. Salomé fica sabendo o que é ter nascido do pecado de dois libidinosos e ter participado de um delito, conseguindo-o por meio do abandono do seu corpo aos desejos lúbricos de um sujo. Mas depois Herodes volta a si e quer informações sobre Ti, e gostaria de ver-te. E por isso ele favorece as minhas vindas a Ti, na esperança de que eu te leve a ele, coisa que eu nunca farei, para não ter que levar a tua santidade para dentro de um antro de feras imundas. Também Herodíades gostaria de ter-te perto dela para ferir-te. Ela grita sempre, dizendo isso, com o seu estilete na mão… Gostaria também de ter-te a Salomé, que Te viu, sem o saberes, em Tiberíades, no último Etanim, e que está louca por Ti… Isto é o Palácio real, Mestre! Mas eu fico lá ainda, porque estou vigiando as intenções deles a teu respeito.

– Eu te sou grato por isso e o Altíssimo te abençoa. Também isso é servir ao Eterno em seus decretos.

– Pensei nisso. E por isso vim.

– Manaém, Eu te peço uma coisa, já que vieste. Desce para Jerusalém não comigo, mas com as mulheres. Eu vou com estes por um caminho desconhecido e não me poderão fazer mal. Mas elas são mulheres, e indefesas, e quem as acompanha é de uma índole mansa e ensinado a oferecer a face a quem lhe bateu. A tua presença será uma proteção segura. É um sacrifício, Eu compreendo. Mas ficaremos juntos na Judéia. Não me negue isto, meu amigo.

– Senhor, todo desejo teu é uma lei para o teu servo. Eu estou a serviço de tua Mãe e das condiscípulas, desde este momento até quando Tu quiseres.

– Obrigado. Também esta tua obediência estará escrita no Céu.

348.4Agora aproveitemos o tempo em que ficamos esperando as barcas para todos, curando os doentes que estão Me esperando.

E Jesus desce para a horta onde estão as padiolas com os enfermos e os cura rapidamente, enquanto vai recebendo as homenagens de Jairo e dos amigos, uns poucos, de Cafarnaum.

As mulheres, nesse ínterim, — e são Porfíria e Salomé, com a velha mulher de Bartolomeu e a menos velha de Filipe com suas filhas, ainda jovenzinhas — ocupam-se em fazer a comida para o numeroso grupo dos discípulos, que irão matar a fome com os cestos de peixes que Betsaida e Cafarnaum lhes ofereceram. É um destripar de ventres prateados que ainda estão palpitando e um grande enxaguar de peixes nas bacias; é um crepitar dos mesmos sobre as grelhas, isso é o que está acontecendo na cozinha, enquanto Marziam, com outros discípulos, está pondo lenha no fogão e transportando baldes de água para ajudar as mulheres.

A comida fica logo pronta e logo é consumida. E, tendo sido já conseguidas as barcas para o transporte de toda aquela gente, nada mais eles têm à fazer do que embarcar para Magdala sobre um lago muito aprazível, pois ele está muito sereno e belo, encastoado entre as beiradas verdes.

Os jardins e a casa de Maria de Magdala abrem-se hospitaleiros num meio-dia cheio de sol, para acolherem o Mestre e aos seus discípulos, e Magdala inteira se reveza para ir saudar ao Rabi que está a caminho de Jerusalém.

348.5E as frescas encostas das colinas galiléias percebem a marcha persistente e alegre daquela multidão fiel, acompanhada por um cômodo carro em que estão Joana e Porfíria, Salomé, as mulheres de Bartolomeu e Filipe e as duas jovenzinhas filhas deste último, além dos risonhos Matias e Maria, irreconhecíveis por causa do seu aspecto, tão diferente daquele que apresentavam cinco meses atrás.

Marziam vai andando galhardamente com os outros adultos e até, por vontade de Jesus, está fazendo parte do grupo dos apóstolos, indo entre Pedro e João, e não perde uma palavra de tudo o que Jesus diz.

O sol brilha em um céu muito límpido e as rajadas mornas do vento vêm trazendo o cheiro dos bosques, do poejo, das violetas, dos primeiros lírios dos vales, dos roseirais cada dia mais floridos, aquele cheiro fresco e levemente amargo das árvores frutíferas, que por todos os lados estão espargindo uma névoa de pétalas nas faixas do terreno cobertas pela relva. Elas estão por entre os cabelos de todos, enquanto eles vão andando, ao som de um contínuo chilrear dos passarinhos, misturado a cantos de amor e trêmulos chamados de uma moita para outra, estando de um lado os machos ousados e do outro as fêmeas pudicas, enquanto as ovelhas estão pastando, pesadas pela maternidade, e os pequenos cordeirinhos batem seu focinho rosado no úbere redondo, a fim de aumentar a secreção do leite ou, então, estão cantando em coro por sobre os prados de relva macia, como umas crianças felizes.

348.6Como Nazaré vem logo depois de Caná, onde Susana se junta ás outras mulheres, levando consigo os produtos da terra, em cestos e vasilhas, e um grande ramo cheio de rosas, todas ainda em botões que estão para se abrirem “e são para serem oferecidos a Maria”, diz ela.

– Eu também, estás vendo? –diz Joana, levantando a tampa de uma espécie de caixa, onde estão colocadas rosas e mais rosas, por entre musgos úmidos–. São as primeiras e as mais belas. Mas são como um nada para Ela, que é tão querida!

Estou vendo que cada mulher trouxe as suas provisões para a viagem da Páscoa e, junto com as provisões, uma trouxe certas flores, outra uma planta para o jardim de Maria, e Porfíria se desculpa por não ter trazido senão um vaso de cânfora, belíssimo, com aquelas suas folhinhas miúdas e azuladas que, mal se toque nelas, exalam seu aroma.

– Maria desejava esta planta balsâmica… –diz ela.

E todas a elogiam pela beleza viçosa da plantinha.

– Oh! Eu a vigiei durante todo o inverno, conservando-a em meu quarto, ao abrigo das geadas e das chuvas de pedra. Marziam me ajudava a expô-la ao sol todas as manhãs e a guardá-la de tarde… E aquele caro menino, se não tivéssemos a barca e agora o carro, a teria trazido nas costas para Maria, fazendo assim uma gentileza a Ela e a mim –diz a humilde mulher, que se expande sempre mais, por causa da bondade de Joana, e não cabe em si pela alegria de estar de viagem para Jerusalém e na companhia do Mestre, do seu homem e do seu Marziam.

– Tu nunca estiveste lá?

– Enquanto viveu meu pai, estive todos os anos. Mas depois… minha mãe não foi mais. Meus irmãos me teriam levado lá, mas eu precisava cuidar de minha mãe, e isso não me deixava sair. Depois casei-me com Simão… E nunca mais estive bem de saúde… Simão tinha sempre que estar viajando, e se aborrecia com isso. Eu ficava em casa, a esperá-lo… O Senhor via o meu desejo… e era como se eu estivesse fazendo o sacrifício no Templo… –diz a humilde mulher.

E Joana, que está perto dela, põe-lhe a mão sobre suas belas tranças, dizendo-lhe: “Ó querida!” E há um grande amor naquela palavra, muita compreensão e um profundo significado.

348.7 Lá está Nazaré… Já se vê a casa da Maria de Alfeu, que está entre os braços de seus filhos. E ela, com as mãos pingando, e avermelhadas por causa da lixívia que ela está fazendo, os acaricia, e depois vai correndo para enxugá-las no avental grosseiro, para poder ir abraçar Jesus… Lá está a casa de Alfeu de Sara, logo antes daquela de Maria. E Alfeu manda seu netinho mais velho ir correndo avisar Maria, e, enquanto isso, ele mesmo sai caminhando em passadas bem longas, para ir até Jesus com uma braçada de netinhos, e o saúda junto com aquela ninhada, apertada entre os braços, como se fosse um maço de flores oferecido a Jesus.

E eis que Maria aparece à porta com sua veste de casa, de um branco azulado, um pouco desbotada, com o ouro dos seus cabelos brilhando como uma nuvem de vapores sobre sua fronte virginal, mas atados num nó firme dado sobre a nuca, e vai cair sobre o peito do seu Filho, que a beija com todo o seu amor. Os outros ficam parados, tendo a delicadeza de deixá-los livres em seu primeiro encontro.

Mas Ela pára de repente, vira o seu rosto, que a idade não consegue alterar e que agora está muito corado por causa da surpresa e cheio de um luminoso sorrisoe os saúda com sua voz angelical:

– A paz este-ja convosco, servos do Senhor e discípulos do meu Filho. A paz esteja convosco, ó irmãs no Senhor –e com as discípulas, que desceram do carro Ela troca um beijo cordial.

– Oh! Marziam! Agora, não poderei mais ter te em meus braços! Já és um homem! Mas, vem cá, à mamãe de todos os bons, que um beijo eu ainda te darei. Ó querido! Deus te abençoe e te faça crescer em seus caminhos, robusto como está crescendo o teu corpo de jovem e mais ainda. Meu filho, precisamos levar-te ao teu avô. Ele ficará feliz por ver-te assim –diz Ela depois, virando-se para Jesus.

Depois abraça Tiago e Judas de Alfeu e dá a eles a notícia que eles mais desejam:

– Este ano Simão vem ficar comigo, como discípulo do Mestre. Ele me disse.

E saúda um por um os mais conhecidos, os mais influentes tendo para cada um deles uma palavra de graça. Manaém vem sendo trazido a Ela e a Ela a-presentado como sua escolta na viagem para Jerusalém.

– Tu não virás conosco, meu Filho?

– Minha Mãe, Eu tenho outros lugares a evangelizar. Mas nos veremos em Betânia.

– Que a tua vontade seja feita agora e sempre. Obrigada, Manaém. Tu, um anjo humano, com os nossos guardas, os anjos do Céu, e nós estaremos seguros como se estivéssemos no Santo dos Santos.

E oferece a sua mão a Manaém, em sinal de amizade. E o cavalheiro, que cresceu em meio ao fausto, ajoelha-se para beijar aquela mão gentil que se lhe oferece.

348.8 Enquanto isso, já foram descarregadas as flores e tudo mais que deve ficar em Nazaré. Depois, o carro vai para o seu lugar em alguma coudelaria da cidade.

A pequena casa mais parece um roseiral, por causa das rosas espalhadas por toda parte pelas discípulas. Mas a planta de Porfíria, colocada sobre uma mesa, recebe a mais viva admiração de Maria, que a faz levar para um lugar que esteja de acordo com as indicações da mulher de Pedro. Certamente não podem entrar todos na pequena casa, nem no jardim, que não é nenhuma quinta ou chácara, mas parece subir para o céu sereno, tornar-se algo de aéreo, de tantas que são as nuvens de flores sobre as plantas do pomar. E Judas de Alfeu, sorrindo, pergunta a Maria:

– Tu também colheste hoje o ramo para o teu vaso?

– Sem dúvida, Judas. E, quando vós chegastes, eu o estava contemplando…

– E te estavas lembrando, minha Mãe, do teu antigo mistério –diz Jesus, abraçando-a com seu braço esquerdo e puxando-a contra o seu coração.

Maria levanta o rosto avermelhado, e suspira:

– Sim, meu Filho e me estava lembrando da primeira palpitação do teu coração em mim…

Jesus diz:

– Fiquem aqui as discípulas, os apóstolos, Marziam, os discípulos pastores, o sacerdote João, Estêvão, Hermes e Manaém. Os outros se espalhem por aí, à procura de alojamento…

– Muitos podem ir ficar em minha casa… –grita, da soleira sobre a qual está isolado, Simão de Alfeu–. Sou condiscípulo deles, e faço questão que vão.

– Oh! Meu irmão vem para frente, para que Eu te possa beijar –diz com alegria Jesus, enquanto Alfeu de Sara, Ismael e Aser, os dois discípulos, que antes eram tropeiros em Nazaré, dizem, por sua vez:

– Vinde também à nossa casa. Vinde!

Os discípulos que não foram escolhidos vão-se embora, e pode ter sido fechada a porta… para logo depois tornar a ser aberta, por causa da chegada de Maria de Alfeu, que não podia estar longe sem que sua lixívia se estragasse. São cerca de quarenta pessoas e, por isso, elas se espalham pelo jardim morno e tranqüilo, até que sejam distribuídos os alimentos, que cada um acha que tem sabores celestes, de tão felizes que eles se sentem por poderem tomá-los na casa do Senhor, e distribuídos por Maria.

Simão volta, depois de ter alojado os discípulos, e diz:

– Não me chamaste como chamaste os outros, mas eu sou teu irmão e aqui fico do mesmo modo.

348.9 – Sê bem-vindo, Simão. Eu vos quis aqui para fazer-vos conhecer Maria. Muitos de vós conheceis a “mãe” Maria. Alguns a “esposa” Maria. Mas ninguém conhece a “virgem” Maria. E Eu vo-la quero apresentar, neste jardim em flor, ao qual o vosso coração vem animado, para vencer grandes distâncias, e como para tomar um descanso nas vossas fadigas do apostolado.

Eu vos ouvi, apóstolos, discípulos e parentes, e ouvi as vossas impressões, as vossas recordações e vossas afirmações sobre minha Mãe. Eu vos transfigurarei tudo isso. Eu vos apresento tudo isso de outro modo, tratando-se de uma coisa muito admirável, mas ainda muito humana, e vos apresentarei dela um conhecimento sobrenatural. Porque minha Mãe, antes de Mim, deve ser apresentada ante olhos dos mais merecedores, para que seja mostrada como Ela é. Vós vedes nela uma mulher. Uma mulher que, pela sua santidade, vos parece diferente das outras, mas que, na verdade, estais vendo também como uma alma enfaixada pela carne, como a de todas as suas irmãs no sexo. Mas agora Eu vos quero descobrir a alma de minha Mãe. A sua verdadeira e eterna beleza.

Vem cá, minha Mãe. Não fiques corada. Não te afastes amedrontada, ó pomba agradável a Deus. Teu Filho é a Palavra de Deus e pode falar de Ti e do teu mistério, dos teus mistérios, ó sublime mistério de Deus. Sentemo-nos aqui nesta sombra pouco espessa de árvores em flor, perto da casa, perto do teu quarto santo. Assim! Levantemos esta tenda ondulante e dela saiam ondas de santidade e de Paraíso, saindo deste quarto virginal para saturar de ti a todos nós… Sim. A Mim também. Que Eu me perfume de ti, ó Vírgem perfeita, para poder suportar os fedores do mundo, para poder ver candura, tendo saturado a pupila com a tua Candura… Vinde cá, Marziam, João, Estevão, e vós discípulas, bem para frente da porta que está aberta na morada casta da que é a Casta entre todas as mulheres. E ide para trás, meus amigos. E aqui ao meu lado, fica tu, ó querida mãe minha.

348.10 Eu vos falei há pouco da “eterna beleza da alma de minha Mãe.” Eu sou a Palavra, e por isso sei usar das palavras sem errar. Eu a chamei eterna, não imortal. E não sem uma razão foi que Eu o disse. Imortal é aquele que, tendo nascido, não morre mais. Assim, a alma dos justos é imortal no Céu, a alma dos pecadores é imortal no Inferno, porque a alma, uma vez criada, não morre mais a não ser para a graça. Mas a alma tem vida e existe a partir do momento em que Deus pensou em criá-la2. É o Pensamento de Deus que a criou. E na alma de minha Mãe desde sempre Deus pensou. Por isso ela é eterna em beleza, na qual Deus derramou todas as perfeições, para ter nelas motivo de delícia e conforto.

Está escrito no livro do nosso antepassado Salomão3, que a anteviu e por isso pode ser chamado de seu profeta: “Deus me possuiu, desde o início de suas obras, desde o princípio, antes que a Terra fosse feita. Ainda não existiam os abismos e eu já estava concebida. Ainda não estavam jorrando as fontes das águas, as montanhas ainda não se tinham formado no crescimento de suas volumosas massas, e eu já existia. Antes das colinas, eu já havia nascido. Ele ainda não havia feito a Terra, os rios nem os pólos do mundo, e eu já existia. Quando Ele estava preparando os céus e o Céu, eu estava presente. Quando, com uma lei inviolável, Ele fechou o abismo por baixo da abóbada celeste e dela fez penderem as fontes das águas, quando fixou para o mar os seus limites e deu leis às suas águas para que não ultrapassassem aqueles limites, quando Ele estava lançando os fundamentos da Terra, eu estava com Ele, pondo em ordem todas as coisas. Sempre com alegria, eu me divertia continuamente diante dele. E me alegrava pelo universo.”

Sim, ó Mãe, da qual Deus, o Imenso, o Sublime, o Virgem, o Incriado, estava grávido, e te transportava como o seu suavíssimo peso, alegrando-se ao perceber que tu te movias dentro dele, dando-lhe os sorrisos, dos quais Ele fez o que foi Criado! A ti que, com dor de parto, entregou-te ao mundo, ó alma suavíssima, nascida do virgem para ser a “virgem”, Perfeição da Criação, Luz do Paraíso, Conselho de Deus que, olhando para ti, pode perdoar a Culpa, porque Tu, sozinha, sabes amar como nem a humanidade toda, colocada junta, sabe amar. Em ti está o Perdão de Deus. Em ti o Remédio de Deus, tu, carícia do Eterno sobre a ferida feita em Deus pelo homem. Em ti está a salvação do mundo, ó Mãe do Amor Encarnado e do Redentor a nós concedido.

Oh! A alma de minha Mãe, Fundida no Amor com o Pai, Eu olhava para ti dentro de Mim, ó Alma de minha Mãe!… E o teu esplendor, a tua oração, a idéia de estar sendo levado por ti me consolavam para sempre do meu destino de dor e de experiências desumanas do que é o mundo corrompido para um Deus perfeitíssimo. Obrigado, ó Mãe! Eu vim já saciado por tuas consolações; Eu desci, percebendo que tu estavas sozinha, percebi o teu perfume, o teu canto, o teu amor… júbilo, júbilo meu!

348.11 Mas, escutai, vós que agora estais sabendo que uma só é a mulher na qual não há mancha, uma só a criatura que não custa uma só ferida ao Redentor, ouvi a segunda transfiguração de Maria, a Eleita de Deus.

Era uma tarde serena do mês de Adar e estavam floridas as árvores, no jardim silencioso e Maria, esposa de José, tinha apanhado um ramo de uma árvore, toda florida, para trocá-lo por outro, que estava em seu quarto. Fazia pouco tempo que ela tinha chegado a Nazaré, recebida do Templo para ir adornar uma casa de santos. E, com a alma tripartida entre o Templo, sua casa e o Céu, Ela estava olhando para o ramo florido, pensando que como outro semelhante, desabrochado de modo não comum, um ramo cortado neste jardim em pleno inverno, foi tão florido como se estivesse na primavera, diante da Arca do Senhor — talvez o tivesse aquecido o sol — Deus, irradiando no lugar de sua Gloria — Deus lhe teria dado a entender qual a sua vontade… E pensava ainda que, naquele dia das núpcias, José lhe havia trazido outras flores, mas nenhuma delas parecida com a primeira, que tinha estas palavras escritas sobre suas leves pétalas: “Eu te quero unida a José…” Em tantas coisas Ela pensava… E, pensando, subia até Deus. Suas mãos estavam sempre ocupadas com a roca e o fuso, e fiavam um fio mais fino do que um dos fios dos cabelos de sua cabeça juvenil…

Sua alma tecia um tapete de amor, indo, com diligência, como a lançadeira no tear, da terra ao Céu. Desde as necessidades da casa, do esposo, até as necessidades da alma, de Deus. E Ela cantava e rezava. E um tapete ia se formando no misterioso tear e se estendia da terra ao Céu, e ia subindo até perder-se nas alturas… De que ele era feito? Dos fios, muito finos e bem feitos, fortes, das suas virtudes, do fio que voava da lançadeira, que Ele acreditava que era dela, mas que era de Deus: a lançadeira da Vontade de Deus, sobre a qual estava enrolada a vontade da pequena, da grande Virgem de Israel, desconhecida pelo mundo mas conhecida por Deus, a sua vontade envolvida, tornada uma só com a Vontade do Senhor. E o tapete desabrochava em flores de amor, de pureza, de palmas pacíficas, de palmas de glória, de violetas, de jasmins… Todas as virtudes floresciam sobre o tapete de amor, que a Virgem de Deus ia desenrolando e que convidava a ir da terra ao Céu. E, como o tapete não bastava, Ela estendia seu coração, cantando4: “Venha o meu querido ao seu pomar e coma dos frutos de suas macieiras… Que o meu querido desça ao seu jardim, ao canteiro dos aromas, a apascentar-se entre os jardins a colher lírios! Eu sou do meu dileto e o meu dileto é meu, ele que se apascenta entre os lírios!”

E, de lonjuras sem fim, por entre torrentes de Luz, vinha uma voz que o ouvido humano não é capaz de ouvir, nem a garganta humana pode produzir. E dizia: “Como és bela, minha amiga! Como és bela!… Teus lábios destilam mel… Tu és um jardim fechado, uma fonte selada, ó irmã, ó esposa minha…” e juntas, as duas vozes se uniam para cantarem a eterna verdade: “O amor é mais forte do que a morte. Nada pode extinguir ou submergir o ‘nosso’ amor.” E a Virgem se transfigurava assim… assim… . enquanto Gabriel ia descendo e, com seus ardores, a fazia voltar à Terra, unia de novo seu espírito à sua carne, a fim de que ela pudesse entender e compreender o pedido daquele que a havia chamado de “Irmã”, mas que a queria por “Esposa.”

Eis, lá aconteceu o Mistério… E uma casta, a mais casta de todas as mulheres, Aquela que nem conhecia o estímulo instintivo da carne, desfaleceu diante do Anjo de Deus, pois até mesmo um anjo perturba a humildade e o pudor da Virgem. E Ela só se acalmou, ao ouvi-lo falar, e acreditou, e disse a palavra pela qual o amor “deles” se fez Carne e vencerá a Morte, e nenhuma água poderá apagá-lo, e nenhuma maldade o fará submergir.

348.12 Jesus se inclina docemente para Maria, que está caída a seus pés, extática, ao relembrar aquela hora que já está tão longe, mas cheia de uma luz especial, que parece fazer exalar-se sua alma, e lhe pergunta em voz baixa:

– Qual a tua resposta, ó Puríssima, àquele que te garantia que, ao te tornares Mãe de Deus, não terias perdido a tua perfeita Virgindade?

E Maria, como se estivesse sonhando, lentamente, sorrindo, com os olhos dilatados por um pranto feliz:

– Eis aqui a Serva do Senhor! Faça-se em mim, segundo a sua Palavra –e inclina de novo a cabeça sobre os joelhos de seu Filho, adorando-o.

Jesus a cobre com o seu manto, escondendo-a aos olhos de todos, e diz:

– E assim se fez. E se fará até o fim. Até a outra, e ainda a outra das suas transfigurações. Ela será sempre a “Serva de Deus.” Fará sempre o que disser “a Palavra.” Minha Mãe! Esta é a minha Mãe. E é bom que vós comeceis a conhecê-la, em toda a sua santa Figura… Mãe! Mãe! Levanta o teu rosto, Querida… chama de novo os teus devotos à terra, onde por enquanto estamos… –diz, tirando o manto de sobre Maria, depois de algum tempo, durante o qual nenhum rumor se ouvia, a não ser o zumbido das abelhas e o murmúrio da pequena fonte.

Maria levanta o rosto molhado pelo pranto, e sussurra:

– Por que, meu Filho, me fizeste isto? Os segredos do Rei são sagrados!

– Mas o Rei os pode revelar5, quando o quiser. Minha Mãe, Eu assim fiz, para que se compreenda aquela palavra de um Profeta: “Uma mulher encerrará em si o Homem” e mais esta de outro Profeta: “A Virgem conceberá e dará à luz um Filho.” E também para que esses que se horrorizam de muitas coisas que lhes parecem aviltantes do Verbo de Deus, tenham, em compensação, muitas outras coisas que os confirmem na alegria de serem “meus.” Assim eles não se escandalizarão nunca mais e por isso conquistarão o Céu… 348.13Agora, quem precisa ir para as casas dos hospedeiros, vá. Eu aqui fico com as mulheres e Marziam. Amanhã de manhã estejam aqui todos os homens, que Eu quero levar-vos a um lugar aqui perto. Depois nós voltaremos para saudar as discípulas, em Cafarnaum a reunir outros discípulos, e a enviá-los atrás delas.

1 aqueles do banquete de Balsazar: Daniel 5.
2 Mas a alma tem a vida e existe a partir do momento em que Deus pensou em criá-la. É o pensamento de Deus, que a criou. Tais expressões têm sido tão alteradas em uma cópia datilografada de MV: Mas a alma tem, de fato, já a vida no momento em que Deus a pensa. O pensamento de Deus a cria, então, quando é hora de infundir. A alma da Virgem Maria, então, não é criada desde a eternidade, mas concebida no pensamento divino, que a criou quando chegou a hora de infundir no corpo concebido. A criação e a infusão da alma são dois atos que são feitos ao mesmo tempo, como explicado nas notas para 290.9.
3 Está escrito no livro de nosso avô Salomão, ou seja: Provérbios 8,22-31. Como mencionado nas primeiras páginas da obra (em 5.8, com nota), as palavras da sabedoria criadora do universo são aplicadas à alma da Virgem Maria, que estava presente no pensamento de Deus, o Criador. Aqui MV adiciona a seguinte nota sobre a cópia datilografada: A revelação, a Igreja e os Santos Padres a chamam, portanto, primogênita”. Podemos, portanto, dizer que a Virgem Maria, que no início da obra (em 1.2) foi chamada de “segunda filha” em relação a Jesus (primogenita absoluta do Pai) é a “primogênita” em relação a qualquer outra criatura humana, porque sua alma precede todos os outros, tanto no pensamento e no amor do Pai, e na própria perfeição.
4 cantando… As expressões do diálogo místico são tiradas do: Cântico dos Cânticos 5,1; 6,2-3; 4,1/11/12; 8,6-7.
5 os pode revelar, como se diz em: Tobias 12,7; aquela palavra de um Profeta: Jeremias 31,22; e mais esta de outro Profeta: Isaías 7,14.


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