476. 476. Lições sobre a cura das almas e o perdãoaos dois pecadores que se tornaram leprosos.
19 de agosto de 1946.
476.1 A áspera cadeia de montanhas de Jeftael domina, do lado norte, tornando mais próximo o horizonte. Mas lá, onde as costas desmoronadas deste grupo de montanhas tem o seu começo, são vistas quase a pique ao lado da estrada caravaneira, que de Ptolemaida vai para Séforis e Nazaré, há muitas cavernas por entre os blocos rochosos que sobressaem no monte, pendurados sobre os abismos, colocados assim para servirem de teto e de base para aqueles antros.
Como sempre, perto das estradas mais importantes, isolados, mas ao mesmo tempo tão próximos, que podem ser vistos e socorridos pelos viandantes, estão leprosos. É uma pequena colônia de leprosos, os quais dão seu grito de aviso e, ao mesmo tempo de pedido, ao verem que vão passando Jesus com João e Abel. Abel levanta o rosto para eles, dizendo:
– Este é Aquele do qual eu vos falei. Eu os estou levando aos dois que conheceis. Não tendes nada a pedir ao Filho de Davi?
– Aquilo que todos pedem: pão e água para saciar-nos. Depois vem o inverno e a fome…
– Não trago alimento hoje. Mas trago comigo a Salvação…
Contudo, o sugestivo convite para que recorram à Salvação não é bem acolhido. Os leprosos se retiram do penhasco, virando as costas, dando uma volta ao redor do espigão do monte, a fim de verem se, pela outra estrada, vêm vindo outros peregrinos.
476.2 – Eu creio que são marinheiros pagãos, ou uns idólatras mesmo. Eles vieram, há pouco tempo, expulsos de Ptolemaida. Tinham vindo da África. Não sei como ficaram doentes. Só sei que eles saíram sãos dos seus países e, depois de um longo giro pelas costas africanas, a fim de conseguirem marfim, e creio que também pérolas, a fim de vendê-las aos mercadores latinos, chegaram aqui doentes. Os magistrados do porto os isolaram, e foi queimado até o navio em que vieram. Uns foram pelas estradas da Siro-Fenícia e outros vieram para cá. Estes eram os mais doentes, pois quase não podem mais caminhar. Mas eles têm suas almas mais doentes ainda. Procurei dar-lhes um pouco de fé… Mas eles só pedem alimento.
– Para as conversões é necessario ter constância. Isso não se consegue em um ano, mas em dois ou mais. Insiste em falar-lhes de Deus, mesmo se eles parecerem duros com as rochas que os abrigam.
– Eu faço mal, então, em pensar no alimento para eles? Eu havia começado a trazer antes do sábado sempre algum alimento, porque aos sábados os hebreus não viajam e ninguém, pensa neles…
– Tu fizeste bem. É como disseste. Eles são pagãos. Por isso tomam mais cuidados com a carne e o sangue do que com a alma. A amorosa preocupação que tu tens para com a fome deles, desperta neles a afeição para com o desconhecido que pensa neles. Quando eles te amarem, te escutarão, ainda que fales de outra coisa que não seja alimento. O amor ensina sempre a acompanhar àquele que nós fomos ensinados a amar. Eles te seguirão um dia pelos caminhos do espírito. As obras de misericórdia corporais aplainam o caminho para as espirituais, as quais o tornam tão liso e plano, que a entrada de Deus em um homem, preparado desse modo para o encontro divino, acontece até sem que o indivíduo o fique sabendo. Ele encontra a Deus em si, nem sabe por onde Ele terá entrado. Por onde! Às vezes, acompanhando um sorriso, uma palavra de piedade, ou um pão, que faz a abertura da porta de um coração fechado para a graça, e assim é que começa o caminho de Deus para entrar naquele coração.
476.3 As almas! Elas são coisas da maior variedade que possa existir. Nelas não há nada de material. São tantas as coisas materiais sobre esta terra, tão variadas em suas aparências, assim como as almas o são em suas tendências e reações.
Estais vendo este robusto terebinto? Ele está no meio de um grande parque de terebintos, todos parecidos com ele em sua espécie. Quantos são? Centenas e centenas, talvez mil, talvez até mais. Eles cobrem este lado áspero do monte, dominando com o odor áspero e saudável de suas resinas, todos os outros odores do vale e do monte. Mas, olhai bem. São mil, ou mais, e não há nem um só, pela grossura, a altura, a robustez, a inclinação, a posição, que seja igual a outro, se observarmos bem. Um está reto como uma lâmina, outro inclinado para o norte ou para o sul, para o oriente ou para o ocidente. Um nasceu em terra firme, outro sobre a beira de um barranco, que nem se sabe como possa sustentá-lo, nem como possa manter-se assim suspenso no ar, como se estivesse fazendo uma ponte com outro que vem de lá, outro sobre uma torrente, que agora está seca, mas que no tempo de chuva é uma cachoeira. Uns são contorcidos, como se algum malvado os tivesse comprimido, quando eram umas plantinhas ainda tenras, outros são sem defeitos. Uns são revestidos de folhas, quase desde o chão, outros são descabelados, têm apenas uma moitinha de folhas lá no alto. Uns têm ramos só do lado direito. Outros são bem cobertos de folhas em baixo e queimados lá em cima por algum raio. Um está quase morto, e ainda sobrevive em um único e obstinado galho, um galhinho, uma folha — que é que eu estou dizendo: uma folha no meio das milhares que ele tem? — que seja semelhante a outra? A princípio parece que o sejam. Mas não são. Olhai este galho. O mais baixo de todos. Observai nele a ponta, somente a ponta do galho. Quantas folhas haverá naquela ponta? Talvez umas duzentas agulhinhas verdes e leves. Estais vendo bem? Haverá aí alguma semelhante a outra em cor, robustez, frescor, flexibilidade, postura e idade? Não há.
Assim são as almas tantas quantas forem, tantas serão suas diversidades de tendências e reações. 476.4Não será bom mestre e médico das almas quem não as souber conhecer e trabalhar, de acordo com suas diversas tendências e reações. Não é um trabalho fácil, meus amigos. É necessário um estudo contínuo, o hábito de meditar, que ilumina mais do que qualquer outra leitura sobre textos limitados. O livro que um mestre e um médico de almas deve estudar são as próprias almas. Tantas são as folhas do livro, quantas são as almas, e em cada folha muitos sentimentos e paixões passadas, presentes e em embrião. Por isso, é um estudo contínuo, atento, meditativo, uma paciência constante, tolerância, fortaleza em saber fazer os curativos das feridas mais purulentas para saneá-las, sem mostrar repugnância, pois esta entristece o doente, sem uma falsa piedade, que, para não desgostá-lo ao descobrir a podridão, não limpá-la, por medo de fazer sofrer a parte podre, deixando assim que o mal se vá agravando, corrompendo todo o resto do corpo. É preciso prudência enquanto Se faz o curativo para não se agravar o caso, se se tratar com modos rudes demais as feridas dos corações e para não se ficar infectado por elas ao quererem bancar os experientes, que não têm medo de infectar-se ao tratarem com os pecadores.
Todas estas virtudes, necessárias ao mestre e ao médico das almas, onde encontram a sua luz para ver e compreender, a sua paciência, talvez heróica, para perseverarem, recebendo só frieza, e algumas vezes até ofensas, e a fortaleza para medicarem com sabedoria, com prudência a fim de não danificarem ao doente nem a si mesmos? No amor. Sempre no amor. Ele dá luz a tudo, dá sabedoria, fortaleza e prudência. Ele nos preserva das curiosidades, que são o caminho que leva a querer assumir as culpas que foram curadas. Quando algum é todo amor, não pode entrar nele nenhum desejo nem outra ciência, que não seja a do amor.
Estais vendo? Dizem os médicos que, quando alguém está para morrer de uma doença, dificilmente torna a adoecer dela, porque o sangue dele já a teve e a venceu. Este conceito não é completamente certo, mas também não é totalmente errado. Mas o amor, que é saúde e não doença, faz isso que dizem os médicos, e o faz com todas as más paixões. Quem ama firmemente a Deus e aos irmãos nada faz que desagrade a Deus e aos irmãos, por isso se aproxima dos doentes do espírito e, ao tomar conhecimento de coisas que o amor tinha até então ocultado, não se corrompe por elas, pois fica fiel ao amor e o pecado não penetra nele. Que quereis que seja a sensualidade, para alguém que venceu a sensualidade com a caridade? Que é que são as riquezas para quem no amor de Deus e das almas encontra todo o seu tesouro? Que poder tem a gula, a avareza, que é que pode a incredulidade, a preguiça ou a soberba contra quem só deseja a Deus, e se entrega a si mesmo ao serviço de Deus, contra quem, em sua fé encontra todo o seu bem, contra quem se sente estimulado pela chama incansável da caridade, e trabalha incansavelmente para agradar a Deus, por quem conhece a Deus — pois amá-lo é conhecê-lo — e não pode mais encher-se de soberba, porque ele se vê em quem é em comparação com Deus?
476.5 Um dia vós sereis sacerdotes da minha igreja. Portanto, sereis os médicos e mestres dos espíritos. Lembrai-vos destas minhas palavras. Não será o nome que tereis e as vestes que usareis, nem as funções que exercereis que vos farão ser sacerdotes, isto é, ministros de Cristo, médicos e mestres das almas, mas será o amor que possuirdes o que vos tornará tais. Ele vos dará tudo o que é necessário para o terdes, e as almas, todas diferentes umas das outras, chegarão a ter uma única semelhança, a semelhança com o Pai, se vós as souberdes trabalhar com amor.
– Oh! Que bela lição, Mestre! –diz João.
– Mas, conseguiremos nós algum dia chegar a ser assim? –acrescenta Abel.
Jesus olha para um e para o outro, depois passa um braço pelos pescoços dos dois, os puxa para Si, um para a direita e o outro para a esquerda, e os beija sobre os cabelos, dizendo:
– Vós chegareis a ser assim, porque já compreendestes o que é o amor.
476.6Vão caminhando ainda por algum tempo, sempre com mais dificuldade, por causa da aspereza do caminho, que está perto do cume do monte. Lá embaixo, bem ao longe, há uma estrada e se pode ver que há pessoas que vão indo por ela.
– Vamos parar aqui, Mestre. Lá, estás vendo? Daquela plataforma rochosa, os dois estão descendo por meio de uma corda, um cesto para os que passam, pois para além da plataforma está a gruta deles. Agora, eu vou chamá-los.
E dá um grito, andando para a frente, enquanto Jesus e João ficam atrás escondidos por uns arbustos bem frondosos.
Poucos instantes depois, aparece um rosto… — dizemos um rosto, porque está colocado acima do corpo, mas também se poderia chamar um focinho, um monstro, um íncubo… — e aparece por cima de um matagal de amoreiras.
– Tu? Mas não tinhas ido para a festa dos Tabernáculos?
– Eu encontrei o Mestre, e voltei atrás. Ele está aqui!
Se Abel tivesse dito: “Javé está pairando sobre a vossa cabeça”, muito provavelmente teria sido menos súbito e reverente o ato, o ímpeto dos dois leprosos — porque, enquanto Abel estava falando, apareceu também o outro — falando para fora, para a plataforma, ao pleno sol, prostrando-se com o rosto por terra, e gritando:
– Senhor, nós pecamos. Mas a tua misericórdia é maior do que o nosso pecado!
Eles assim gritam, sem nem mesmo terem a certeza se é Jesus que realmente está ali, ou se ainda está longe, a caminho para chegar até eles. A fé que eles têm é tão grande, que já os faz ver até o que os olhos, por causa das pálpebras ulceradas e da rapidez com que eles se jogaram por terra, certamente ainda não viram.
Jesus vai andando para a frente, enquanto eles ficam repetindo:
– Senhor, o nosso pecado não merece perdão, mas Tu és a Misericórdia! Senhor Jesus, pelo teu Nome, salva-nos. Tu és o Amor que pode vencer a Justiça.
– Eu sou o Amor. É verdade…Mas acima de Mim está o Pai. E Ele é a Justiça, diz, muito sério, Jesus, entrando com João por uma senda.
476.7 Os dois leprosos levantam os seus rostos desfigurados, ficam olhando, por entre lágrimas que escorrem misturadas com as matérias purulentas das feridas. São horríveis, ao se verem, aqueles rostos. São eles velhos? Serão jovens? Quem é João? Qual deles é o servo? Quem é Aser? É impossível responder a estas perguntas. A doença os igualou, fazendo deles duas formas desagradáveis à vista: uma de horror, a outra de náusea.
Como lhes deverá estar parecendo Jesus, que está de pé no meio da senda, tendo o sol a enfaixá-lo com os seus raios e acentuando o brilho louro de seus cabelos, é o que eu não sei. O que eu sei é que eles olham para Ele, cobrem o rosto, gemendo e dizendo:
– Javé! A Luz!
Mas depois gritam ainda:
– O Pai te mandou para salvar. Ele te chama o “seu dileto.” Ele se compraz em Ti. E não te negará o perdão para nós.
– O perdão ou a saúde?
– O perdão –grita um.
E o outro diz:
– … E depois a saúde. Minha mãe está morrendo de dor por causa de mim.
– Se Eu vos perdoar, ainda fica sem perdão a justiça dos homens, especialmente para ti. Que é, então, que vale o meu perdão, a fim de fazer feliz a tua mãe? –diz Jesus, esperando ouvir dele as palavras de pedido para que ele opere o milagre.
– Vale. Ela é uma verdadeira israelita. Ela quer para mim o Seio de Abraão. E para mim não existe aquele lugar de esperar o Céu, porque eu pequei demais.
– Foi demais. Tu mesmo o disseste.
– Demais! É verdade… Mas Tu… Oh! naquele dia estava aqui a tua Mãe… Onde está a tua Mãe agora? Ela tinha piedade da mãe do Abel. Eu o vi. E, se ela agora ouvisse, teria piedade da minha. Jesus, Filho de Deus, piedade, em nome de tua Mãe!
– E, que farias depois?
– Depois?
Olham-se assustados, um ao outro. O “depois” é a condenação pelos homens, é o desprezo ou a fuga, o exílio. Diante da perspectiva da cura, eles tremem como diante da perda da salvação.
Como se apega o homem à vida! Os dois, presos pelo dilema: ou o serem condenados pela lei dos homens, ou viverem leprosos. Parece que preferem viver leprosos. E o dizem e o confessam com estas palavras:
– O suplício é horrível.
E assim diz especialmente aquele que eu acho que é Aser, um dos dois homicidas…
– É horrível. Mas, pelo menos, é justiça. Vós agíeis daquele modo com aquele inocente, tu para fins desonestos, e tu por um punhado de moedas.
– É verdade. Ó meu Deus! Mas Ele nos perdoou. Perdoa-nos, Tu também. Queres dizer que seremos mortos. Mas nossa alma será salva.
– A mulher de Joel foi apedrejada, porque era adúltera. Os quatro filhos passam uma vida miserável com a mãe dela, porque os irmãos de Joel os expulsaram como a uns bastardos, apropriando-se dos bens do irmão. Vós estais sabendo disso?
– Abel no-lo disse.
– E quem é que remedeia à desventura deles?
A voz de Jesus parece um trovão. Ela é realmente a voz de Deus Juiz, e faz medo. Sozinho ao sol, ereto, é como uma figura espantosa. Os dois olham para Ele com medo. Ainda que o sol deva estar irritando as feridas deles, eles não se movem, como também não se move Jesus, que está completamente exposto. Os elementos perdem seu valor nestas horas de almas.
Aser diz, depois de algum tempo:
– Se Abel me quer amar profundamente, vá à casa de minha mãe, e lhe diga que Deus me perdoou e…
– Eu ainda não te perdoei.
– Mas o farás, porque estás vendo o meu coração. E lhe dirás que tudo o que é meu vá para os filhos de Joel, segundo a minha vontade. Que eu morra, ou que eu viva, renuncio à riqueza, que fez de mim um viciado.
476.8 Jesus sorri. Ele se transfigura no sorriso, passando daquele rosto sério para um rosto cheio de piedade, e, com uma voz diferente, Ele diz:
– Estou vendo os vossos corações. Levantai-vos. Elevai o vosso espírito a Deus, bendizendo-o. Apartados como estais do mundo, podeis ir-vos embora daqui, sem que o mundo se dê conta de vós. O mundo vos espera para dar-vos o modo de sofrer e de expiar.
– Tu nos salvas, Senhor? Tu nos perdoas e nos curas?
– Sim. Eu vos dou a vida, porque a vida é sofrimento, especialmente para quem tem lembranças como as vossas. Mas, por enquanto, não podeis sair daqui. Abel deve ir comigo, pois, como todos os hebreus, deve ir a Jerusalém. Esperai a volta dele. Isto irá coincidir com a vossa cura. Ele tratará de levar-vos ao sacerdote e de avisar à tua mãe. Eu direi a Abel o que ele deve e como deve fazer. Podeis Vós acreditar em minhas palavras, mesmo que eu me vá sem ter-vos curado?
– Sim, Senhor. Mas dize de novo que perdoas ao nosso espírito. Isto, sim. Depois tudo acontecerá quando quiseres.
– Eu vos perdoo. Renascei com um espírito novo, e não queirais mais pecar. Lembrai-vos de que, além de deixardes de pecar, deveis fazer atos de justiça, destinados a anular completamente a vossa dívida aos olhos de Deus e que, por isso, a vossa penitência deve ser contínua, pois grande é a vossa dívida, muito grande! A tua, por exemplo, foi contra todos os mandamentos do Senhor. Pensa nisso, e verá que nenhum deles ficou sem ser violado. Tu te esqueceste de Deus, colocaste a sensualidade no lugar de um teu ídolo, fizeste dos dias de festa dias de delírios ociosos, ofendeste e desonraste tua mãe, contribuiste para matar e para querer matar, roubaste até a vida, e ainda querias roubar um filho a uma mãe, privaste de pai e mãe quatro crianças, foste luxurioso, deste falso testemunho, desejavas impudicamente a mulher que era fiel ao seu esposo falecido, desejaste o que era de Abel, a fim de te tornares dono do que era dele.
Aser vai gemendo ao ouvir cada uma daquelas acusações:
– É verdade, é verdade.
– Como estás vendo, Deus teria podido reduzir-te a cinzas, sem precisar recorrer aos castigos humanos. Mas Ele te poupou, a fim de que Eu pudesse salvar um a mais. Mas os olhos de Deus te vigiam, a inteligência dele se lembra de tudo. Ide, e se volta, indo para o bosque frondoso, para perto de Abel e de João, que se haviam abrigado por baixo das árvores da costa.
476.9 Os dois, ainda desfigurados, talvez sorridentes — pois quem é que pode dizer quando é que um leproso está sorrindo? — com aquela voz característica dos leprosos, estridente, metálica, falando continuamente, com bruscas desigualdades, entoam, enquanto Ele vai descendo pela senda pavorosa, o salmo 114º1…
– Eles estão felizes! –diz João.
– Eu também –diz Abel.
– Eu pensava que os fosses curar logo –diz ainda João.
– Eu também, como fazes sempre.
– Eles foram grandes pecadores. Esta espera é justa para quem pecou tanto. Agora escuta, Ananias…
– Eu me chamo Abel, Senhor –diz assustado o jovem.
E olha para Jesus como se estivesse perguntando: “Por que te estás enganando?”
Jesus sorri:
– Para Mim tu és Ananias, porque de fato pareces ter nascido da bondade do Senhor. Que o sejas sempre mais. Escuta. Quando voltares da festa dos Tabernáculos, irás à tua cidade para dizer à mãe de Aser que faça o que o filho quer, que isso seja feito da maneira mais delicada, dando tudo em reparação, menos um décimo. Isso por piedade para com a velha mãe que, junto contigo, deixe Belém da Galileia e vá a Ptolemaida, para lá ficar esperando o filho que contigo a alcançará com o companheiro. Tu, coloca a mulher perto de algum discípulo da cidade, irás apanhar tudo o que é preciso para a purificação dos leprosos, e não lhes deixarás nada mais, antes que tudo tenha sido feito. O sacerdote não seja um daqueles que sabem do passado, mas um de outros lugares.
– E depois?
– Depois tu voltas para tua casa, ou então te reúnes com os discípulos. Eles, os curados, tomarão o caminho da expiação. Eu só falo no indispensável. E deixo o homem livre agir em seguida…
476.10 Eles vão descendo, descendo, incansáveis, apesar da aspereza do caminho e do calor do sol… Estão incansáveis, mas silenciosos, durante muito tempo.
Depois Abel rompre o silêncio, dizendo:
– Senhor, posso pedir-te uma graça?
– Qual é?
– A de deixar-me ir à minha cidade. Desagrada-me ter que deixar-te. Mas aquela mãe…
– Vai. Mas não te atrases. Procura fazer tudo, mas com tempo para chegares a Jerusalém.
– Obrigado, Senhor! Eu só estarei com ela, a pobre velha, envergonhada por tudo, desde que Aser pecou. Mas agora ela irá sorrir de novo. Que lhe devo dizer em teu Nome?
– Que as lágrimas dela e suas orações obtiveram a graça e que Deus lhe dá forças para esperar sempre mais e a abençoa. Mas, antes de nos separarmos, paremos por uma hora. Não mais do que isso. Agora, não é tempo de parar. Depois tu irás para o teu lado, e Eu e João iremos para o meu, por atalhos. Tu, João, irás à frente. Irás à minha Mãe. Levar-lhe-ás este saco com as vestes de linho, e ficarás com as de lã. Irás para dizer-lhe que Eu a quero ver e que a estou esperando no bosque de Matatias, aquele da mulher. Tu o sabes. Fala com ela sozinha, e vem logo.
– Eu sei onde é o bosque. E Tu, ficas sozinho?
– Fico com meu Pai. Não tenhas medo –diz Jesus, levantando a mão e pondo-a sobre a cabeça do discípulo predileto, que está sentado sobre a grama, a seu lado.
E lhe sorri, dizendo:
– Devemos estar aqui lá pela tarde…
– Mestre, quando eu devo fazer-te contente, não sinto cansaço, tu sabes disso. E, ainda menos, por ter que ir à tua mãe! É como se os anjos me levassem. Pois não é muito longe.
– Nunca está longe o que se faz com alegria… Mas tu ficarás aquela noite em Nazaré.
– E Tu?
– Eu… ficarei com o meu Pai, depois de ter estado um pouco com minha Mãe. Depois, ao romper da aurora, tomarei o caminho, a estrada do Tabor, sem entrar em Nazaré. Tu sabes que Eu devo estar em Jezrael ao romper do dia, depois de amanhã.
– Tu te cansarás muito, Mestre. Pois já estás cansado.
– Teremos tempo para descansar no inverno. Não tenhas medo. E não fiques esperando poderes ir em paz como aqui, sempre evangelizando. Conhecemos muitas paradas…
Jesus inclina a cabeça, pensativo, partindo seu pão em pedacinhos, a fim de fazer companhia aos dois que, jovens e alegres por estarem com o Mestre, comem com gosto mais do que pela vontade de comer. E, assim sendo, Jesus deixa de fazê-lo e fica absorto em um daqueles seus silêncios que os dois respeitam, ficando calados e descansando, ao soprar da brisa sobre o monte, com seus pés descalços, procurando o frescor da grama que nasceu aos pés de árvores robustas. Estavam agora dispostos a cochilar um pouco, mas Jesus levanta a cabeça e diz:
– Vamos. Na encruzilhada nos separaremos.
Tendo atado as sandálias, põem-se a caminho. A sombra do bosque e o vento que vem do norte os ajuda a suportar o peso da hora ainda quente, mesmo não sendo daquelas tórridas dos meses do pleno verão.
1 o salmo 114, indicado segundo a vulgata, tornou-se a primeira parte do Salmo 116 na neo-vulgata: Amo o Senhor por que escuta o grito da minha oração...
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