633. 633. Aparição sobre as margens do lagoe atribuição do mandato a Pedro.


19 de abril de 1947.

633.1É uma noite calma e abafada. Não há um sopro de vento. As estrelas, grandes e palpitantes, abarrotam a abóboda do céu sereno. O lago está calmo e tão imóvel que parece uma enorme piscina protegida do vento, refletindo em sua superfície a glória daquele céu palpitante de astros. As árvores ao longo das margens formam um bloco imóvel. O lago está tão parado que suas ondas, que morrem na praia, fazem um rumor muito suave. Dá para ver alguma barca mais ao longe, quase invisível, como um vulto vagante que de vez em quando emite a luminosidade como de uma estrela, pouco distante da onda, com a sua candeia pendurada no mastro da vela, iluminando a parte interna da pequena embarcação.

Não sei em que ponto do lago está. Eu diria que está na ponta mais meridional, lá onde o lago se apressa em virar rio de novo. Estamos na periferia de Tariqueia, eu diria, não porque eu esteja vendo a cidade, que uma fileira de árvores esconde, projetando-se no lago e criando uma pequena saliência em forma de colina, mas porque parece-me que é assim porque estou vendo as estrelinhas dos faróis das barcas, que vão-se afastando para o norte, para longe das margens do lago. Eu digo que estamos na periferia, porque um punhado de casebres, que são tão poucos que nem podem formar uma vila, estão todos juntos neste ponto, aos pés de uma pequena saliência. São casa pobres, quase na beira-mar, e certamente são dos pescadores.

Há barcas puxadas para a terra na pequena praia, e outras já prontas para navegar, que já estão perto da praia, na água, e tão paradas que parecem estar fincadas no solo, e não flutuando.

633.2De uma das cabanas, Pedro põe a cabeça para fora. A luz trêmula de um fogo aceso na cozinha fumegante ilumina por detrás a figura maciça do apóstolo, fazendo-a realçar como um desenho. Olha o céu, olha o lago… Vem para frente até a beira da praia. Depois — está com uma túnica curta e pés descalços — entra na água até o meio da coxa e acaricia a borda de uma barca, estendendo o braço musculoso.

Vão ao encontro dele os filhos de Zebedeu.

– Que bela noite.

– Daqui a pouco a lua vai sair.

– Está uma noite boa para pesca.

– Sim, mas com os remos.

– Pois não há vento.

– E, então, o que vamos fazer?

Eles falam devagar, com frases soltas, como homens acostumados com a pescaria e com as manobras das velas e das redes, que requerem muita atenção e, portanto, poucas palavras.

– Seria bom irmos. Depois venderemos parte da pesca.

Vão ajuntar-se a eles lá na margem, André, Tomé e Bartolomeu.

– Que calor está fazendo esta noite! –exclama Bartolomeu.

– Será que vai haver tempestade? Estais lembrados daquela noite? –pergunta Tomé.

– Oh! Não! Haverá calmaria, talvez uns nevoeiros, mas tempestades, não. Eu… eu vou pescar. Quem quer vir comigo?

– Vamos todos. Talvez lá no meio estaremos melhor –diz Tomé, que já está suando.

E que acrescenta:

– Aquela mulher precisava daquele fogo, mas é como se tivéssemos estado nas termas quentes…

– Eu vou dizer a Simão. Ele ficou sozinho, lá –diz João.

633.3Pedro já está preparando a barca com André e Tiago.

– Vamos até minha casa? Será uma surpresa para minha mãe…

–pergunta Tiago.

– Não. Eu não sei se posso fazer Marziam ir. Antes de… da… Sim, enfim! Antes de ir a Jerusalém — estávamos ainda em Efraim — o Senhor me disse que queria fazer a segunda Páscoa com Marziam. Mas depois Ele não me disse mais nada…

– A mim parece que Ele disse que sim –diz André.

– Sim. A segunda Páscoa, sim. Mas fazê-lo vir antes, não sei se Ele quer. Eu já fiz tanta coisa errada, que…Oh! Tu também vais?

– Sim, Simão de Jonas… Esta pesca me fará lembrar de muitas coisas…

– É verdade! A todos nós ela nos fará lembrar de muitas coisas… De coisas que não voltarão mais… Nós estávamos com o Mestre naquela barca, no lago… E eu gostava muito dela, como se ela fosse um palácio real, e até me parecia que eu não podia viver sem ela. Mas agora que Ele não está mais na barca… pois é… eu estou dentro dela, mas não sinto alegria por isso –diz Pedro.

– Ninguém mais sente alegria com as coisas passadas. Não é mais a mesma coisa. E mesmo se olharmos para trás, para aquelas horas passadas e para as presentes, entre elas houve um tempo horrendo… –suspira Bartolomeu.

– Já estamos prontos. Vamos! Tu, no timão, e nós com os remos. Vamos para a curva do Jipo. Eia, vamos! É um lugar bom, vamos!

Pedro dá a voga, cantando o ritmo das remadas, e a barca desliza para cima da água serena, com Bartolomeu ao timão. Tomé e Zelotes estão sempre prontos para jogar as redes, que eles já estão deixando estendidas. A lua vai-se levantando, isto é, já passa para cima dos montes de Gadara (se eu não estiver enganada) ou Gamala, enfim, mais para o sul do lago, e o lago recebe dela os raios de luz que vêm formando uma estrada onde parecem brilhar diamantes sobre as águas paradas.

– A lua nos acompanhará até de manhã.

– Se não houver neblina.

– Os peixes deixam o fundo, atraídos pela lua.

– Se fizermos boa pescaria, será ótimo. Pois estamos sem dinheiro. Poderemos então comprar pão e levar aos que estão no morro peixe e pão.

Estas palavras foram ditas lentamente, com pausas bem longas entre uma e outra.

– Tu remas bem, Simão. Não perdeste o jeito! –diz, admirado, Zelotes.

633.4– Sim… Maldição!

– Mas que é que tens? –perguntam-lhe os outros.

– Eu? O que eu tenho é a lembrança daquele homem, que me persegue por toda parte. Lembro-me daquele dia em que trabalhava com duas barcas, era o que remava melhor, e ele…

– Eu, ao contrário, estive pensando que era aquela uma das primeiras vezes que eu tive a impressão do abismo de perfídia, foi aquela em que chocamos nossa barca contra a dos romanos. Estais lembrados? –diz Zelotes.

– Sim! Claro que nos recordamos! Mas!… Ele o defendia… e nós… entre as defesas do Mestre e as duplicidades de… de nosso, nunca compreendemos muito bem… –diz Tomé.

– Hum! Eu mais de uma vez… Mas dizia: “Não julgues, Simão!”

– Tadeu sempre suspeitou dele.

– Aquilo que eu não consigo crer é que este aqui não tenha jamais sabido nada –diz Tiago, pegando pelo pescoço seu irmão.

Mas João cala, curvando a cabeça.

– Agora podes dizer… –diz Tomé.

– Esforço-me por esquecer. Recebi essa ordem. Porque quereis fazer-me desobedecer?

– Tens razão. Deixemo-lo em paz! –defende Zelotes.

633.5– Abaixai as redes. Devagar… Remai vós. Remai lentamente. Encurva à esquerda, Bartolomeu. Encosta. Vira. Já estenderam a rede? Sim? Levantai os remos e vamos embora –comanda Pedro.

Como é belo este doce lago na paz desta noite e sob o beijo da lua! É paradisíaco, de tão puro. A lua está se espelhando no lago, fazendo-o brilhar como um diamante, tremendo sobre as colinas com sua fosforescência, e as cobre, fazendo ficar enevoadas as cidades das margens…

De vez em quando, eles tiram para fora a rede. É como uma cascata de diamantes sobre o lago prateado. A rede está vazia. Eles a mergulham de novo e mudam daquele lugar. Estão sem sorte…

As horas vão passando. A lua já está para sumir, enquanto a luz da aurora abre caminho, incerta, de cor verde-azulada… Uma névoa quente evapora nas beiras, e especialmente na extremidade sul do lago de Tiberíades, que desaparece na névoa, bem como Tariqueia. É uma névoa baixa, de pouca espessura, que os primeiros raios do sol farão desaparecer. Para evitá-la, eles preferem costear o lado oriental do lago, onde ela é menos espessa, enquanto que a oeste, vindo do charco que está para além de Tariqueia, sobre a margem direita do Jordão, ela se torna mais espessa como se o charco estivesse soltando vapores. Eles vão vogando atentos para evitar qualquer perigo das funduras, pois eles conhecem bem o lago.

633.6– Vós, que estais na barca! Tendes algo para comer?

Uma voz masculina vem da praia. Uma voz que os faz estremecer.

Mas eles movem os ombros e respondem em voz alta: “Não”, mas depois dizem um ao outro:

– Parece que o estamos ouvindo!…

– Jogai a rede do lado direito da barca e achareis.

A direita deles dá para o lado do mar. E eles jogam a rede, um pouco perplexos. Há umas sacudidas e o peso faz que a barca se incline para o lado onde está a rede.

– Mas este é o Senhor! –grita João.

– Tu dizes que é o Senhor? –pergunta Pedro.

– E tu ainda duvidas? Pareceu-nos que a voz é dele, e aqui está uma prova disso. Olha a rede! É como daquela vez1! É Ele. Eu te digo.

Oh! Meu Jesus! Onde estás?

Todos olham com muita atenção, procurando atravessar os véus da névoa, depois de terem cuidado bem da rede, a fim de poderem arrastá-la para dentro do sulco que a barca vai deixando nas águas, visto que querem içá-la; é uma manobra perigosa, e depois vão remando para chegarem à beira. Mas Tomé tem que pegar o remo de Pedro que, tendo vestido às pressas a curta túnica por sobre as roupas de baixo, também muito curtas — eram suas únicas vestes, igual à veste dos outros, exceto Bartolomeu — jogou-se no lago e foi nadando com grandes braçadas, fendendo a água parada, precedendo a barca e, assim, é o primeiro a pôr o pé na praiazinha onde está brilhando um fogo de estrepes sobre duas pedras e sob a proteção de uma moita de espinhos. Perto do fogo está Jesus, sorridente e bondoso.

– Senhor! Senhor!

Pedro está ofegante pela emoção e não pode dizer mais nada. E como está encharcado d’água, não ousa tocar nem a veste do seu Jesus, e está prostrado na areia com a túnica colada no corpo, adorando.

A barca é arrastada sobre a areia e lá para. Todos ficam de pé, entusiasmados e alegres…

633.7– Trazei aqui alguns peixes. O fogo está pronto. Vinde e comei

–ordena Jesus.

Pedro corre para a barca, ajuda a içar a rede e pega três peixes no monte tremulante, bate-os na borda da barca a fim de matá-los e os destripa com sua faca. Mas suas mãos estão tremendo, oh! Porém não é por causa do frio! Ele lava os peixes, leva-os para lá onde está o fogo, coloca-os ali, cuidando de assá-los. Os outros ficam adorando o Senhor, um pouco longe Dele, sempre cheios de medo Dele, que ressurgiu, e é tão divinamente poderoso.

– Eis aqui o pão. Trabalhastes a noite inteira e estais cansados. Agora alimentai-vos. Já está pronto, Pedro?

– Sim, meu Senhor! –diz Pedro com uma voz ainda mais rouca do que de costume, curvo sobre o fogo, e enxugando os olhos, como se a fumaça o fizesse chorar, irritando-lhe os olhos e a garganta. Mas não é a fumaça que causa aquela voz e aquelas lágrimas…

Ele traz o peixe, que ele coloca numa folha rugosa, parecida com uma folha de aboboreira, que André lhe trouxe depois de tê-la lavado no lago.

Jesus oferece e abençoa, parte o pão e os peixes, e os distribui, dividindo-os em oito partes, e comendo também Ele. Eles comem com o respeito com que celebrariam um rito. Jesus olha para eles e sorri. Mas Jesus também fica calado, até o momento em que pergunta:

– Onde estão os outros?

– Estão lá no monte aonde os mandaste. E nós viemos pescar porque não temos mais dinheiro, e não queremos abusar dos discípulos.

– Fazeis bem. Mas de agora em diante, vós, apóstolos, estareis sobre o monte em oração, edificando os discípulos com o vosso exemplo. Mandai-os pescar. É bom que vós permaneçais em oração e deis ouvidos àqueles que têm necessidade de conselho ou que podem vir dar-vos notícias. Conservai bem unidos os discípulos. Brevemente Eu virei.

– Assim faremos, Senhor.

– Marziam está contigo?

– Não me tinhas dito que o fizesse voltar tão depressa.

– Faze que ele venha para cá. A obediência dele terminou.

– Eu o farei vir, Senhor.

633.8Faz-se silêncio. Depois, Jesus, que estava com a cabeça um pouco baixa, pensando, levanta-a e fixa o olhar em Pedro. Deposita sobre ele aquele olhar das horas de milagres mais fortes e de tom imperioso. Pedro estremece quase com medo, e se joga um pouco para trás… Mas Jesus, pousando uma das mãos nas costas de Pedro, segura-o com força e pergunta-lhe, mantendo-o assim:

– Simão de Jonas, tu me amas?

– Sim, Senhor! Tu sabes que eu te amo… –responde Pedro seguro.

– Apascenta os meus cordeiros… Simão de Jonas, tu me amas?

– Sim, meu Senhor. E Tu sabes que eu te amo.

A voz dele tem menos ousadia, aliás, é um pouco surpresa pela repetição da pergunta.

– Apascenta os meus cordeiros… Simão de Jonas, tu me amas?

– Senhor… Tu sabes tudo… Tu sabes que eu Te amo…

A voz de Pedro treme. Ele tem certeza do seu amor, mas acha que Jesus não é tão seguro disso.

– Apascenta as minhas ovelhas. A tua tríplice confissão de amor cancelou a tua tríplice negação. Agora estás completamente puro, Simão de Jonas, e Eu te digo: toma tuas vestes pontificais e leva a Santidade do Senhor para o meio do meu rebanho. Cinge as vestes na cintura e conserva-as cingidas, até que de Pastor tu mesmo te tornes um cordeiro. Em verdade Eu te digo que, quando eras jovem, tu te cingias a ti mesmo e ias por onde querias. Mas quando ficares velho, estenderás as mãos e um outro te cingirá, e te conduzirá para onde não quererias ir. Agora, porém, sou Eu que te digo: “Cinge-te e segue-me pelo mesmo caminho meu.” Levanta-te e vem cá.

Jesus se levanta e levanta-se Pedro, caminhando pela margem, enquanto os outros se ocupam em apagar o fogo, abafando-o com areia. 633.9Mas João, tendo recolhido os restos do pão, acompanha Jesus. Pedro ouve o barulho dos passos e vira a cabeça. Ele vê João e pergunta a Jesus, mostrando João:

– E com este, que é que vai acontecer?

– Se Eu quero2 que ele fique até à minha volta, que é que te importa isso? Tu, segue-me.

Eles chegaram à margem. Pedro bem que gostaria de falar ainda. A imponência de Jesus e as palavras que ele ouviu o detêm. Ele se ajoelha e é imitado pelos outros, adorando Jesus. Jesus os abençoa e se despede deles. Eles sobem para a barca e, remando, vão-se afastando. E Jesus os olha enquanto eles vão indo.

1 como daquela vez, em 65.2.
2 Se Eu quero… O sentido dessa resposta, que se refere também a João 21,21-23, poderia estar em 508.2.


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