505. 505. No Templo, uma graça obtida com a oraçãoincessante e a parábola do juiz e da viúva.


27 de setembro de 1946.

505.1Novamente Jesus está em Jerusalém. Uma Jerusalém de inverno, ventosa e cinzenta. Marziam ainda está com Jesus e com Isaque. Conversando, eles se dirigem para o Templo.

Com os doze, falando com o Zelotes mais do que com os outros, e com Tomé, estão José e Nicodemos. Mas depois eles se separam e passam para frente, tendo saudado a Jesus sem pararem.

– Não querem que dê nas vistas a amizade deles com o Mestre. É perigoso –cochicha o Iscariotes para André.

– Eu acho que o fizeram por algum motivo justo e não por vilania

–defende-os André.

– Afinal, eles não são discípulos. E o podem fazer. Eles nunca o foram –diz Zelotes.

– Não? Parecia-me…

– Nem mesmo Lázaro é discípulo e contudo…

– Mas se tu excluis uns e outros, quem é que fica?

– Quem? Aqueles que têm a missão de discípulos.

– E os outros, então, que são?

– Amigos. Nada mais do que amigos. Achas que eles deixam suas casas e seus interesses para acompanharem Jesus?

– Não. Mas o ouvem com prazer, dão-lhe sua ajuda e…

– Se for por isso! Então até os gentios o fazem. Tu terás visto como, perto de Nique, encontramos alguém que havia pensado nele. E certamente aquelas mulheres não são discípulas.

– Não fiques excitado, Eu dizia assim por dizer. Ficas incomodado se os teus amigos não se tornam teus discípulos? Deverias querer o contrário, parece-me.

– Eu não me incomodo e nada quero. Nem mesmo que tu lhes faças mal, chamando-os de discípulos dele.

– Mas a quem queres que eu o diga? Estou sempre convosco…

Simão Zelotes olha para ele com um olhar tão severo que o risinho fica gelado nos lábios de Judas, que considera oportuno mudar de assunto e pergunta:

– Que quereriam eles hoje falar com vós dois?

– Eles acharam uma casa para Nique. Perto das hortas. Perto da Porta. José conhecia o proprietário e sabia que com uma boa vantagem teria vendido. Iremos contar isso a Nique.

– Que vontade de jogar dinheiro fora!

– Mas é dela. Pode fazer dele o que quiser. Ela quer estar perto do Mestre. E, assim fazendo, obedece à vontade do seu esposo1 e ao seu coração.

– Pena é que minha mãe esteja longe –suspira Tiago do Alfeu.

– E a minha também –diz o outro Tiago.

– Mas por pouco tempo. Não ouviste o que Jesus disse a Isaque, a João e a Matias? “Quando voltardes na lua nova do mês de Chebat, com as discípulas, vinde com minha Mãe também”.

– Não sei por que não quer que Marziam volte com elas. Ele lhe disse: “Virás quando Eu te chamar.”

– Talvez seja para que Porfíria não fique sem alguém que a ajude. Pois se ninguém pesca lá em cima, não se come. Nós não vamos. Deve ir Marziam. O figo certamente não é suficiente, ou a colmeia, nem as poucas azeitonas e as duas ovelhas, para a manutenção de uma mulher, para vesti-la, matar-lhe a fome… –observa André.

505.2Jesus, parado ao lado do muro do Templo, observa-os virem até Ele. Com Jesus estão Pedro, Marziam e Judas de Alfeu. Alguns pobrezinhos levantam-se de suas camas de pedra colocadas sobre a estrada que se dirige para o Templo e a que vem do monte Sião, indo para o monte Mória, e não a que vem de Ofel indo para o Templo; e lamentando-se vão até Jesus, pedindo-lhe uma esmola. Nenhum deles pede a cura. Jesus ordena a Judas que lhes dê algumas moedas. E depois entra no Templo.

Lá não estão muitas pessoas. Depois da grande afluência de gente que houve nas festas, pararam de chegar peregrinos. Somente os que por sérias razões são obrigados a ir a Jerusalém, ou os que moram na cidade, é que sobem até o Templo. Por isso, os pátios e os pórticos, ainda que não estejam desertos, estão muito menos frequentados e, com isso parecem mais vastos e mais sagrados, porque neles se ouve menos rumor. Até os cambistas e os vendedores de pombas e de outros animais são agora menos numerosos e estão encostados aos muros do lado onde bate o sol, um sol de uma luz pálida, que vem abrindo caminho e penetrando pelo meio de umas nuvens cinzentas.

Depois de haver rezado no Pátio dos israelitas, Jesus volta atrás, vai encostar-se a uma coluna e fica observando… e sendo observado.

505.3Ele vê que vem vindo, certamente do Pátio dos hebreus, um homem e uma mulher que, mesmo sem estarem chorando ostensivamente, contudo mostram um rosto entristecido por muitos prantos. O homem procura confortar a mulher. Mas pode-se ver que também ele está entristecido.

Jesus se afasta da coluna e vai ao encontro deles.

– O que é que vos está fazendo sofrer? –interroga-os, com dó deles.

O homem olha para Ele, espantado por aquele cuidado de Jesus. Talvez até lhe pareça indelicada a pergunta. Mas o olhar de Jesus é tão doce que o desarma. Contudo, antes de dizer sua dor, o homem pergunta:

– Como pode um rabi interessar-se pelas dores de um simples fiel?

– Porque o rabi é teu irmão, ó homem. Teu irmão no Senhor, e te ama como ordena o mandamento.

– Teu irmão! Eu sou um pobre cultivador da planície de Saron, de perto de Doras. E Tu és um rabi.

A mulher afasta, por um momento, o seu véu, a fim de olhar para Jesus e sussurra ao marido:

– Conta a Ele o caso; talvez ele nos possa ajudar…

505.4– Rabi, nós tínhamos uma filha. E a temos. Por enquanto a temos ainda. E de um modo digno a demos em casamento a um jovem, que nos foi garantido por um amigo nosso que seria um bom marido. Há seis anos que eles se casaram e de seu casamento tiveram dois filhos. Dois… Porque depois acabou-se o amor… a tal ponto, que agora o marido quer o divórcio. Nossa filha chora e vai-se acabando, e por isso é que dissemos que a temos ainda: porque daqui a pouco ela morrerá de dor. Nós tentamos tudo para persuadir o homem. E já rezamos muito ao Altíssimo… Mas nenhum dos dois quis nos ouvir. Até aqui viemos em peregrinação por causa disso e aqui nós estamos há já um mês inteiro. Estamos todos os dias no Templo, eu no meu lugar e a mulher no dela… Nesta manhã um servo da minha filha nos trouxe a notícia de que o marido foi a Cesaréia para mandar-lhe de lá o libelo de divórcio. E esta foi a resposta que nossas orações receberam…

– Não fales assim, Tiago –suplica-lhe a mulher em voz baixa.

E termina com um soluço:

– O Rabi vai amaldiçoar-nos como a uns blasfemadores… E Deus nos castigará. É a nossa dor. Ela vem de Deus… E se ela nos feriu é sinal de que a merecemos.

– Não, mulher. Eu não vos amaldiçoo. E Deus não vos castigará. Eu vo-lo garanto. E assim como Eu vos digo que não é Deus que vos está causando esta dor, mas, sim, o homem, Deus o está permitindo para provar-vos e para provar o marido de vossa filha. Não percais a fé, e o Senhor vos ouvirá.

– Já é tarde. Minha filha já foi repudiada e desonrada, e morrerá… –diz o homem.

– Nunca é tarde para o Altíssimo. E em um instante e pela persistência na oração, Ele pode mudar o curso dos acontecimentos. Do copo até aos lábios ainda há tempo para a morte enfiar o seu punhal e impedir que aquele que apressadamente queria levar o copo aos lábios não beba dele. E isto se faz por intervenção de Deus. Eu vo-lo digo. Voltai aos vossos lugares de oração e persisti hoje, amanhã e até depois de amanhã; e, se souberdes ter fé, vereis o milagre.

– Rabi, Tu estás querendo consolar-nos… mas neste momento… Já não se pode, e Tu sabes disso, anular o libelo, uma vez que ele já foi entregue à repudiada –insiste o homem.

– Tem fé, é o que Eu te digo. É verdade que não se pode anulá-lo. Mas tens certeza de que tua filha o recebeu?

– De Doras até Cesaréia a distância não é grande. Enquanto o servo vinha vindo para cá, certamente Jacó voltou para casa e expulsou Maria.

– O percurso não é longo, mas tens certeza de que ele o fez todo? Uma vontade superior à do homem não poderá ter feito parar um homem, se Josué, com a ajuda de Deus fez parar o sol2? A vossa oração insistente e confiante, feita com um bom fim, não é uma vontade santa, oposta à vontade perversa do homem? E Deus, visto que vós pedis uma coisa boa a Ele que é o vosso Pai, não vos ajudará a parar o doido em seu caminho? E Deus já não vos terá ajudado? E se o homem ainda teimasse em andar, poderia fazê-lo se vós persistísseis em pedir ao Pai uma coisa justa? Eu vos digo: ide, ide, rezai hoje, amanhã e depois, e vereis o milagre.

– Oh! Vamos, Tiago, o Rabi sabe… Se Ele nos manda ir e rezar é sinal de que Ele sabe que é uma coisa justa. Tem fé, meu marido. Eu já estou sentindo uma grande paz, uma forte esperança que surge em mim, que estava sofrendo tanto! Deus te recompense, ó Rabi, que és tão bom, e que Ele te ouça. Reza por nós, Tu também. Vem, Tiago, vem.

E consegue persuadir o marido, que a acompanha depois de haver saudado a Jesus com a saudação hebraica de costume, dizendo:

– A paz esteja contigo –à qual Jesus responde com a mesma fórmula.

– Por que não lhes disseste quem és? Eles teriam rezado com mais coragem –dizem os apóstolos.

E Filipe acrescenta:

– Eu vou dizer isso a eles.

Mas Jesus o detém, dizendo:

– Eu não quero. Ele rezaria sem medo. Mas com menos valor. E com menos mérito. E assim como foi, a fé deles é perfeita e será premiada.

– É verdade?

– E quereis dizer que Eu minta enganando uns infelizes?

505.5E Jesus olha para as pessoas que se reuniram, mais ou menos umas cem pessoas, e diz:

– Escutai esta parábola, que vos ensinará o valor da oração constante.

Vós sabeis o que diz3 o Deuteronômio ao tratar dos juízes e magistrados. Eles deveriam ser justos e misericordiosos, ouvindo com serenidade de espírito a quem a eles recorre, pensando sempre em julgar como se o caso que lhes é apresentado fosse um caso acontecido com eles próprios, sem levar em conta os presentes nem as ameaças, sem condescendência para com os amigos culpados e sem durezas para com os que estão de mal com os amigos do juiz. Mas se são justas as palavras da Lei, não são igualmente justos os homens, e não sabem obedecer à Lei. Por aí se vê que a justiça humana é muitas vezes imperfeita, pois raros são os juízes que sabem conservarem-se puros da corrupção, misericordiosos, tão pacientes para com os ricos como para com os pobres, para com as viúvas e os órfãos, como eles o são para com aqueles que tais não são.

Em uma cidade havia um juiz muito indigno do seu ofício, que foi conseguido por meio de parentes muito influentes. Ele era extraordinariamente desigual em seus julgamentos, estando sempre propenso a dar razão ao rico e ao poderoso, ou a quem pelos ricos e poderosos era recomendado, ou então para quem o comprava com grandes donativos. Ele não temia a Deus, escarnecia dos lamentos do pobre e de quem era fraco, por estar este sozinho e sem boas defesas. Quando não queria atender a quem tivesse tão evidentes razões de vitória contra um rico, a ponto de não poder dar razão a este de maneira alguma, fazia que expulsassem o outro de sua presença, ameaçando-o ainda de pô-lo na cadeia. E os presentes ao julgamento sofriam com suas violências, retirando-se de lá derrotados, e resignados com a derrota, até mesmo antes que a causa tivesse sido discutida.

Mas naquela cidade havia também uma viúva carregada de filhos, a qual devia ter a receber uma grande soma de um poderoso por trabalhos feitos por seu falecido esposo. E ela, obrigada pelas necessidades e pelo amor materno, havia procurado receber do rico aquela soma, que lhe daria as condições de matar a fome de seus filhos e dar-lhes roupas no inverno que se aproximava. Mas tendo-se tornado inúteis todas as pressões e súplicas que ela fazia ao rico, ela, então, recorreu ao juiz.

O juiz era amigo do rico, o qual lhe havia dito: “Se me deres ganho de causa, a terça parte da soma será tua.” Por isso, o juiz se fez de surdo às palavras da viúva, que assim lhe rogava: “Faze-me justiça contra o meu adversário. Tu estás vendo se eu estou ou não precisando disso. Todos podem dizer se estou ou não precisando daquela soma.” O juiz se fez de surdo e mandou que seus ajudantes a expulsassem. Mas a mulher voltou uma, duas, dez vezes, pela manhã, às nove horas, ao meio-dia e à tarde, incansavelmente. E o acompanhava pela rua, gritando: “Faze- me justiça. Meus filhos estão com fome e frio. E eu não tenho dinheiro para comprar farinha e roupas.” Depois, ela ia ficar esperando na soleira da casa do juiz, quando ele voltava para casa e ia sentar-se à mesa com seus filhos. E a viúva gritava: “Faze-me justiça contra o meu adversário, porque eu estou com fome e com frio, e também os meus filhos.” E entrava pela casa adentro, até à sala de jantar, e no quarto de dormir à noite, insistindo sempre, como se fosse o grito de uma poupa: “Faze-me justiça. Lembra-te de que a viúva e os órfãos são consagrados a Deus, e ai de quem os espezinhar! Faze-me justiça, se não queres sofrer um dia o que nós estamos sofrendo. A nossa fome e o nosso frio, tu os encontrarás na outra vida se não fizeres justiça. Infeliz de ti!”

O juiz não temia a Deus nem temia ao próximo. Mas de ficar sendo sempre molestado, de ser feito objeto de chacota por parte da cidade inteira por causa da perseguição que lhe fazia a viúva, e de ser feito também objeto de censura de todos, de tudo isso já estava cansado. Por isso, um dia ele disse a si mesmo: “Ainda que eu não tema a Deus, nem às ameaças da mulher, nem em que pensam os cidadãos, contudo, para pôr um fim a coisas tão aborrecidas, eu vou dar ouvidos à viúva e farei justiça, obrigando o rico a pagar. Basta que ela não me persiga mais e saia de perto de mim.” E tendo chamado o amigo rico, lhe disse: “Não é mais possível que eu te contente. Cumpre o teu dever e paga, porque eu não suporto mais ser molestado por tua causa. É isto.” E o rico teve que desembolsar a soma, conforme a justiça.

505.6Esta é a parábola. Agora, aplicai-a a vós.

Ouvistes as palavras de um iníquo: “Para pôr um fim a tantos aborrecimentos, vou dar ouvidos à mulher.” E era um iníquo. Mas Deus, o Pai boníssimo, por acaso será inferior ao juiz mau? Não fará Ele justiça àqueles seus filhos que o sabem invocar dia e noite? E será que os irá fazer ficar esperando a graça durante tanto tempo, até que a alma deles, abatida, cesse de rezar? Eu vo-lo digo: Ele lhes fará prontamente justiça a fim de que a alma deles não perca a fé. Mas também é necessário saber rezar, sem se cansar depois das primeiras orações, e é preciso saber pedir coisas boas. E, ainda, é preciso confiar em Deus e sempre dizer: “Seja feito aquilo que a tua Sabedoria vê que para nós é útil.”

Tende fé. Procurai saber rezar com fé na oração e com fé em Deus, vosso Pai. Ele vos fará justiça contra os que vos oprimem, sejam eles homens ou demônios, doenças ou outras desventuras. A oração perseverante abre o Céu e a fé salva a alma, seja lá qual for o modo como a oração for ouvida e atendida. Vamos.

E Jesus se encaminha para a saída. Já está quase nos muros, quando, levantando a cabeça para observar os poucos que o acompanham e os muitos indiferentes ou hostis que o ficam olhando de longe, exclama com tristeza:

– Mas quando o Filho do homem voltar, encontrará ainda fé sobre a terra?

E, suspirando, envolve-se mais ainda no seu manto e vai caminhando com longos passos para o subúrbio de Ofel.

1 vontade do suo esposo, recordada em 373.4.
2 parar o sol, como se narra em Josué 10,12-14; Siraque 46,4. Anotamos aqui e em 600.20. Outros fatos referentes a Josué estão anotados em 159.2 (assembleia de Siquém e a consequente aliança) – 215.2, 514.11 e 560.5 (contra os reis cananeus) – 361.12, 387.7 e 642.9 (passagem do Jordão) – 560.5 (retirada de Jericó e de Ai).
3 diz, em Deuteronômio 16,18-20.


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