575. 575. Péssima acolhida em Tersa.Tentativa extrema de redimir Judas.
5 de março de 1947.
575.1Tersa está de tal modo cercada pelos viçosos olivais, que é preciso estar bem perto dela para perceber que lá há uma cidade. Um cinturão de hortas em terreno de grande fertilidade serve como um último para-vento protegendo as casas. Nas hortas, as chicórias, as alfaces, os legumes, cucurbitácias ainda novas, árvores frutíferas, pérgulas, unem e entrançam suas diversas tonalidades verdes e suas flores que prometem frutos ou frutinhas, que serão uma delícia. As pequenas flores das videiras e das oliveiras mais precoces caem, como pingos de chuva, ao passar de um ventinho que as faz vibrar, e vão borrifando o chão com uma neve branco-esverdeada.
Do lado de trás, os caniços e os salgueiros formam uma espécie de toldo ao lado de um brejo, que agora está sem água, mas que no fundo ainda está úmido. Ao ouvirem o tropel dos recém-chegados, emergem os oito apóstolos que foram enviandos antes. Eles estão visivelmente inquietos e tristes, e dão sinal de que querem parar. Mas ainda correm para frente. E quando já se aproximaram o tanto que dá para serem ouvidos, sem que seja preciso gritar, eles dizem:
– Vão! Vão! Voltai atrás e ide pelo campo. Não se pode entrar na cidade. Por pouco eles não nos apedrejam. Vinde embora. Ide lá para aquele cerrado e falaremos.
Empurram para trás, para baixo pelo brejo seco, Jesus e os três apóstolos, o rapazinho e as mulheres, todos cheios de cuidados para se afastarem de lá sem serem vistos, e dizem:
– Que eles não nos vejam mais aqui. Vamos! Vamos!
Em vão, Jesus, Judas e os filhos de Zebedeu procuram saber o que foi que aconteceu. Em vão eles dizem:
– E Judas de Simão? E Elisa?
Os oito são persistentes. Caminhando pelo meio de um trançado de hastes e de plantas aquáticas, feridos nos pés pelas ervas espinhentas, batidos nos rostos pelos salgueiros e caniços, deslizando sobre a lama do fundo, agarrando-se às ervas, escorando-se nas margens e afundando-se no barro cada vez mais; é assim que se afastam agarrados uns aos outros todos os oito pelos ombros, e vão caminhando com a cabeça para trás, para olhar se lá de Tersa não está saindo alguém para persegui-los. Mas na estrada não há nada mais do que o sol, que já começa a pôr-se, e algum cachorro magro e vagabundo.
575.2Finalmente eles chegam perto de um matagal de sarças, que é o limite de uma propriedade. Para lá do matagal, há um campo de linho em que o vento forma ondas com suas hastes altas, nas quais as primeiras flores mostram sua beleza.
– Aqui, aqui dentro. Estando sentados ninguém nos verá; e, quando chegar a tarde, sairemos… –diz Pedro, enxugando o suor…
– Para onde? –pergunta Judas de Alfeu–. Temos conosco as mulheres.
– Para qualquer lugar iremos. Afinal, os prados estão cheios de feno cortado e isso para nós será uma cama. Faremos tendas para as mulheres com os nossos mantos e nós ficaremos acordados.
– Sim. Basta que não sejamos vistos, e lá pelo alvorecer desceremos até o Jordão. Bem que tinhas razão, Mestre, em não querer a estrada para a Samaria. Para nós, pobres, melhores são os ladrões do que os samaritanos… –diz Bartolomeu, ainda receoso.
– Mas, afinal, que foi que sucedeu? Será Judas que terá feito alguma das dele… –diz Tadeu.
Mas Tomé o interrompe:
– Certamente Judas se saiu bem. Eu me preocupo é por Elisa…
– Tu viste Judas?
– Eu não. Mas é fácil ser profeta. Se ele disse que é teu apóstolo, com certeza terá sido espancado. 575.3Mestre, eles não querem saber de Ti.
– Sim. Estão todos revoltados contra Ti.
– São verdadeiros samaritanos.
Todos falam ao mesmo tempo. Jesus impõe silêncio a todos, dizendo:
– Que fale um só. Tu, Simão Zelotes, que és o mais calmo.
– Senhor, o caso se explica em duas palavras. Nós entramos na cidade e ninguém nos perturbou enquanto não souberam quem somos, enquanto pensaram que éramos peregrinos de passagem. Mas quando perguntamos — e tínhamos que fazê-lo — por um homem jovem, alto, moreno, vestido de vermelho, e com uma veste talar cheia de listras vermelhas e brancas, e por uma mulher, já anciã, magra e de cabelos mais brancos do que pretos, com uma veste cinzenta escura, se haviam entrado na cidade à procura do Mestre galileu e seus companheiros. Foi aí que, de repente, eles se inquietaram… Talvez não devíamos ter falado em Ti. Certamente nós erramos. Mas nos outros lugares sempre fomos tão bem acolhidos que… Não se sabe o que terá acontecido!… Parecem umas víboras aqueles que, há apenas três dias, estavam tão atenciosos para contigo…
Interrompe Tadeu:
– É trabalho de judeus…
– Não creio. Não o creio pelas censuras que nos fizeram e pelas ameaças. Eu creio, e até estou, estamos certos de que a causa da ira samaritana é Jesus ter recusado a oferta que eles fizeram de protegê-lo. Eles gritavam: “Fora! Fora! Vós e o vosso Mestre! Ele quer ir adorar sobre o Monte Mória. Pois que vá, e morra Ele e todos os seus. Não há lugar entre nós para os que não nos consideram amigos, mas somente servos. Não queremos outros aborrecimentos, se não houver compensação com vantagens. Temos pedras e não pães para o Galileu. Temos cães para atacá-lo e não casas para acolhê-lo.” Isto e mais do que isto, eles diziam. E, visto que nós insistíamos para saber pelo menos o que é que havia acontecido com Judas, eles apanharam pedras para atirar em nós, e de fato atiçaram os seus cães contra nós. E ainda gritavam uns para os outros: “Ponhamo-nos ao lado de todas as entradas. Se Ele vier, nós nos vingaremos.” Naquela altura, nós fugimos. Uma mulher — há sempre algum bom entre os maus — nos empurrou para dentro de uma horta e de lá nos conduziu, por um beco, por entre as hortas até chegarmos ao brejo sem água, que havia sido irrigado antes do sábado. E lá ela nos escondeu. E depois nos prometeu dar-nos notícias sobre Judas. Mas ela não voltou. Nós a ficamos esperando porque ela disse que, se não nos encontrasse no brejo, viria para cá.
575.4Os comentários são muitos. Há quem continue a acusar os judeus, quem faz uma leve censura a Jesus, uma censura escondida nestas palavras:
– Tu falaste claro demais em Siquém e depois te afastaste. Nestes três dias eles decidiram que é inútil querer iludir-se e deixar-se prejudicar por alguém que não os contenta… e te expulsam.
Jesus responde:
– Eu não me arrependo de ter dito a verdade e de ter feito o meu dever. Agora eles não compreendem… Mas dentro de pouco tempo compreenderão a minha justiça e me venerarão mais do que se Eu não a tivesse praticado, e não fosse maior o meu amor para com eles.
– Aí está! Lá está a mulher na estrada. Ela tem coragem de deixar-se ver… –diz André.
– Não nos trairá, hein? –diz, desconfiado, Bartolomeu.
– Está sozinha!
– Poderia ser seguida por pessoas escondidas na mata …
Mas a mulher, que vai andando com um cesto na cabeça, continua a andar e vai deixando para trás os campos de linho, onde os apóstolos estão à espera, e depois entra por uma trilha e desaparece, reaparecendo de repente às costas dos que a estão esperando, os quais se viram meio amedrontados ao ouvirem o barulho das hastes do mato.
A mulher fala aos oito que ela conhece:
– Aqui estou. Perdoai se eu os fiz esperar muito… Eu não quis ser seguida. Eu disse que ia à casa de minha mãe… Eu sei… E aqui vim trazer alimento para vós. O Mestre… Qual é? Eu quereria venerá-lo.
– Aquele é o Mestre.
A mulher, que pôs no chão o seu cesto, se prostra, dizendo:
– Perdoa a culpa dos meus concidadãos. Se não tivesse sido aquele que os incitou… Mas por causa de tua recusa, muitos trabalharam contra Ti…
– Eu não tenho rancor, mulher. 575.5Levanta-te e fala. Que sabes do meu apóstolo e da mulher que estava com ele?
– Sim. Expulsos, como uns cães, estão fora da cidade, do outro lado, esperando a noite. Eles queriam voltar atrás, para Enon, a fim de te procurarem. Queriam vir aqui, sabendo que aqui estavam seus companheiros. Eu disse que não. Que não fizessem isso. Que ficassem quietos, que eu vos conduziria a eles. E o farei logo que chegar o crepúsculo. Por boa sorte, meu marido está ausente e eu estou livre para deixar a casa. Eu vos levarei à casa de minha irmã casada, lá nas terras da planície. Dormireis lá sem dizerdes quem sois, não por causa da Merod, mas dos homens que estão com ela. Eles não são samaritanos, são da Decápole e aqui se estabeleceram. Mas sempre é bom…
– Deus te recompense. Os dois discípulos foram feridos?
– O homem um pouco. A mulher nada. E certamente o Altíssimo a protegeu, porque ela, como uma fera, protegeu o seu filho com o seu corpo, quando os homens começaram a apanhar as pedras. Oh! Que mulher forte! Ela gritava: “Assim fazeis a quem não vos ofendeu? E não respeitais a mim, que o defendo e sou mãe dele? Não tendes mães, vós todos, que não respeitais a quem vos gerou? Será que nascestes de alguma loba ou fostes feitos com barro e estrume?” E olhava para os assaltantes, segurando aberto o manto para defender o homem; e, enquanto isso, ia recuando e levando-o para fora da cidade… E ainda agora o conforta, dizendo: “Queira o Altíssimo, meu Judas, fazer deste teu sangue derramado pelo Mestre um bálsamo para o teu coração.” Mas a ferida é pequena. Talvez o homem esteja mais amedrontado do que ferido. Agora tomai e comei. Aqui está o leite, tirado há pouco, para as mulheres, e pão com queijo, e frutas. Não pude cozinhar carnes. Teria levado tempo demais. E aqui está o vinho para os homens. Comei, enquanto a tarde vem chegando. Depois iremos por caminhos conhecidos até os dois e, em seguida, iremos para a casa de Merod.
– Que Deus te recompense ainda mais –diz Jesus e oferece e distribui o alimento, pondo de lado o que é para os dois que estão longe.
– Não. Não. Neles eu já pensei, trazendo ovos e pão sob as vestes, um pouco de vinho e óleo para as feridas. O que aí está é para vós. Comei, enquanto eu vou vigiar a estrada…
575.6Eles se põem a comer, mas a indignação toma conta dos homens e o abatimento faz que as mulheres não queiram mais saber de nada. Todas elas, menos Maria de Magdala, para a qual o que faz medo ou desânimo nas outras, nela produz sempre o efeito de um líquido que excita os nervos e a coragem. Seus olhos cintilam enquanto ela olha para a cidade hostil. Só a presença de Jesus, que já disse que não tenham rancor, é que não a deixa fazer uso de palavras ferozes. E não podendo falar nem agir, descarrega sua ira sobre o inocente pão, que morde de um modo tão significativo que Zelotes não pode conter-se, sem lhe dizer, sorrindo:
– É melhor que os de Tersa não caiam em tuas mãos. Pareces uma fera presa com correntes, Maria!
– Eu sou. Tu viste bem. E diante dos olhos de Deus tem mais valor o gesto de eu me conter, não entrando lá como eles merecem, do que tudo o que eu fiz até aqui para expiar.
– Calma, Maria. Deus te perdoou culpas maiores do que as deles.
– É verdade. Eles ofenderam a Ti, meu Dues, uma vez e por influência de outros. Eu muitas… e por minha própria vontade… e não posso ser intransigente e soberba…
Ela abaixa os olhos sobre o seu pão e duas lágrimas caem sobre ele.
Marta põe-lhe a mão em seu colo, dizendo-lhe em voz baixa:
– Deus te perdoou. Não te aviltes mais. Lembra-te bem do que ganhaste: o nosso Lázaro…
– Não é aviltamento. É reconhecimento. É emoção. É também a constatação de que eu estou ainda privada daquela misericórdia que recebi tão amplamente… Perdoa-me, Raboni! –diz ela, elevando os seus esplendidos olhos, que a humildade enche de doçura.
– O perdão nunca é negado a quem é humilde de coração, Maria.
575.7A tarde vem chegando e tingindo o ar com uma delicada tonalidade de cor violeta. As coisas que estão um pouco longe já não se distinguem mais umas das outras. As hastes do linho, que antes eram visíveis em sua graça, agora se unem em uma única massa escura. Calam-se os passarinhos por entre a folhagem. A primeira estrela já brilha. No meio da erva um grilo solta o seu primeiro estridular. A tarde já chegou.
– Agora podemos ir. Aqui, nestes campos, não seremos vistos. Podeis andar com segurança. Eu não vos traio. Não o faço para receber pagamento. Peço somente a piedade do Céu, porque todos nós precisamos de piedade –diz a mulher suspirando.
Eles se levantam e se encaminham atrás dela. Passando por longe de Tersa, por entre os campos e hortas, meio no escuro, mas não tanto que não permita ver os homens na encruzilhada, ao redor de fogueiras…
– Eles estão nos esperando… –diz Mateus.
– Maditos! –diz por entre dentes Filipe.
Pedro nada diz nada, mas levanta os braços para o céu em uma muda invocação ou protesto.
Mas Tiago e João, filhos de Zebedeu, que falaram um com o outro sem parar, lá, um pouco adiante dos outros, voltam para trás e dizem:
– Mestre, se Tu, pela tua perfeição no amor, não queres recorrer ao castigo, queres que o façamos? Queres que digamos ao fogo do céu que desça e consuma estes pecadores? Tu nos disseste que tudo podemos com fé e…
Jesus, que ia caminhando um pouco inclinado, como se estivesse cansado, apruma-se de repente e os fulmina com dois olhares que rebrilham à luz da lua. Os dois voltam para trás, calados e amedrontados, diante daquele olhar. E Jesus, fitando-os daquele modo, diz:
– Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do Homem não veio para perder as almas, mas para salvá-las. Não vos lembrais daquilo que Eu vos disse? Eu o disse na parábola1 do trigo e do joio: “Deixai por enquanto que o joio e o trigo cresçam juntos. Porque se quisésseis separá-los agora, teríeis que arrancar o joio e também o trigo. Deixai-os, pois, crescer até à messe. No tempo da messe direi aos ceifadores: Recolhei agora o joio e fazei feixes com ele, para queimá-lo; e ponde o trigo bom no meu celeiro.”
575.8Jesus já saiu daquele seu estado de indignação para com os dois que, pela ira suscitada por amor Dele, pediam que Ele castigasse aqueles de Tersa, mas agora estão de cabeça baixa, diante dele. Ele os pega pelos cotovelos, um à sua direita e o outro à esquerda, e os põe a caminho, guiando-os assim e falando a todos os que se estreitaram ao redor dele, que havia parado.
– Em verdade Eu vos digo que o tempo da colheita está perto. É a minha primeira colheita. E para muitos não haverá a segunda. Mas — demos graças e louvores ao Altíssimo — qualquer um que não tiver sabido, em meu tempo, tornar-se espiga com bom grão, depois da purificação pelo sacrifício pascal, permanecerá com uma alma nova. Até aquele dia, Eu não me enfurecerei com ninguém… Depois disso, virá a justiça…
– Depois da Páscoa? –pergunta Pedro.
– Não. Depois deste tempo. Não falo destes homens de agora. Eu me refiro aos séculos futuros. O homem sempre se renova, como as messes nos campos. E as colheitas se sucedem. E Eu deixarei o que é necessário, a fim de que os futuros possam tornar-se grão bom. Se eles não quiserem, no fim do mundo os meus anjos separarão o joio do trigo bom. Então, será o Dia eterno de Deus somente. Por enquanto, no mundo há o dia de Deus e o de Satanás. O primeiro, que será o Bem, e o segundo, que lança por entre as sementes de Deus o seu maldito joio, os seus escândalos, as suas iniquidades, suas sementes suscitadoras de iniquidades e escândalos. Porque sempre haverá aqueles que incitam os outros contra Deus, como aqui, com estes que, na verdade, são menos culpados do que aqueles que os incitam para o mal.
– Mestre, todo ano nos purificamos durante a Páscoa dos Ázimos, mas sempre ficamos como éramos. E neste ano será diferente? –pergunta Mateus.
– Muito diferente.
– Por quê? Explica-nos isso.
– Amanhã… Amanhã, ou quando estivermos a caminho, e Judas de Simão estiver conosco , eu vo-lo direi.
– Oh! Sim. Tu nos dirás e nós nos tornaremos melhores. Por enquanto, perdoa-nos, Jesus –diz João.
– Bem que Eu vos chamei com o nome certo2. Mas o trovão não faz mal. O relâmpago, sim, pode matar. No entanto o trovão muitas vezes anuncia os relâmpagos. Assim acontece com quem não tira do seu espírito todas as desordens contra o amor. Hoje pede licença para punir. Amanhã pune sem pedir. Depois de amanhã, pune até sem razão. Porque descer é fácil… Por isso Eu vos digo que vos despojeis de toda dureza para com o vosso próximo. Fazei como Eu faço e tereis a certeza de não errar nunca. Por acaso, já me tereis visto vingar-me de quem me faz sofrer?
– Não Mestre. Tu…
575.9– Mestre! Mestre! Estamos aqui. Eu e Elisa. Oh! Mestre, quanto temos pensado em Ti. E quanto medo de morrer… –diz Judas de Keriot, que sai de detrás das fileiras de videiras e vai correndo até Jesus.
Está com uma bandagem no rosto. E Elisa, mais calma, o acompanha.
– Tens sofrido? Tiveste medo de morrer? Gostas tanto assim da vida? –pergunta-lhe Jesus, livrando-se de Judas, que o abraça chorando.
– Da vida, não. É que eu tinha medo de Deus. E de morrer sem o teu perdão… Eu estou sempre te ofendendo. Eu ofendo a todos. Até a esta… e ela sempre me respondeu como se fosse minha mãe. Eu me sentia culpado e tinha medo da morte.
– Oh! Temor saudável se puder fazer-te santo! Mas Eu te perdoo sempre, tu já sabes, desde que tenhas vontade de arrepender-te. E, tu, Elisa, também perdoaste?
– Ele é um meninão desenfreado. Eu sei me compadecer.
– Tu foste forte, Elisa. Eu sei.
– Se não fosse ela! Não sei se teria tornado a ver-te, Mestre!
– Portanto, tu estás vendo que não foi por ódio, mas por amor, que ela estava a teu lado. Não sofreste, Elisa, quando foste ferida?
– Não, Mestre. As pedras caíam ao redor de mim, sem me atingirem. Mas meu coração teve muita aflição ao pensar em Ti…
– Tudo já terminou. Vamos acompanhar a mulher que nos quer levar para uma casa segura.
Eles se põem a caminho, indo por uma estradinha em direção do oriente, que está toda branca por causa do luar.
575.10Jesus pega Iscariotes por um braço e está lá na frente com ele. Procura falar-lhe docemente e trabalhar sobre aquele coração sacudido pelo medo do Juízo de Deus:
– Estás vendo, Judas, como é fácil morrer. A morte está sempre à espreita ao nosso redor. Estás vendo como o que parece de pouca importância, quando estamos cheios de vida, torna-se muito importante, gravemente importante, quando a morte se aproxima de nós. Mas por que queres ter esses medos e ficar criando-os para ficar com eles no momento de morrer, quando, com uma vida santa, pode-se ignorar o medo pelo julgamento próximo feito por Deus? Não te parece que é melhor para ti viver como os justos para teres uma morte tranquila? Judas, meu amigo. A divina e paterna misericórdia permitiu esse acontecimento a fim de que ele fosse um alerta para o teu coração. Ainda estás em tempo, Judas… Por que não queres dar ao teu Mestre, que está para morrer, a grande alegria de saber que te voltaste para o Bem?
– Mas me podes perdoar ainda, Jesus?
– E Eu te falaria assim se não pudesse? Conheces-me ainda bem pouco! Mas Eu te conheço. Eu sei que tu estás como quem foi agarrado por um polvo gigante. Mas se tu quisesses, ainda poderias livrar-te dele! Oh! Sofrerias certamente. Tirar as correntes que te mordem e envenenam seria uma dor… Mas depois, quanta alegria, Judas! Tens medo de não teres força para reagir contra os que te sugestionam? Eu posso absolver-te antecipadamente do pecado de transgressão do rito pascal… Tu és um doente. Para os doentes a Páscoa não é obrigatória. Ora, não há ninguém mais doente do que tu. Tu és como um leproso. Os leprosos não sobem a Jerusalém, enquanto estiverem assim. Acredita, Judas, que o comparecimento diante do Senhor com o espírito imundo, como o que tens agora, não é honrar ao Senhor, mas ofendê-lo. É preciso primeiro…
575.11– Porque, então, não me purificas e curas? –pergunta Judas, já com dureza, provocador.
– Eu não te curo! Quando alguém está doente, procura por si mesmo a cura. A não ser que ele seja um menininho ou um doido, que não sabe querer…
– Trata-me como um desses. Trata-me como a um doido e toma Tu as providências, ainda que eu não o esteja sabendo.
– Isso não seria justo, porque tu podes querer. Tu sabes o que é bom e o que é mau para ti. E não valeria o meu ato de curar-te sem a tua vontade de permanecer curado.
– Então, dá-me esta também.
– Dá-la a ti? Impor a ti uma vontade boa? E a tua liberdade? Que é que ela se tornaria, então? Que é que ficaria valendo o teu eu de homem como criatura livre? Seria um brinquedo?
– Assim como sou um brinquedo nas mãos de Satanás, poderia sê-lo nas mãos de Deus!
– Como tu me feres, Judas! Como me transpassas o coração! Mas isso que me fazes, Eu te perdoo… Brinquedo de Satanás, tu disseste. Eu não diria uma coisa tão horrível…
– Mas Tu pensavas nela porque é verdadeira, e porque a conheces, se é verdade que Tu lês nos corações dos homens. Se assim é, Tu sabes que eu não sou mais livre por mim mesmo… Ele me prende e…
– Não. Ele se aproximou de ti tentando-te, experimentando-te, e tu o acolheste. Não existe possessão se não houver desde o início alguma adesão a qualquer tentação de Satanás. A serpente intromete a cabeça por entre as barreiras fincadas e colocadas em defesa dos corações, mas ela não entraria se o homem não lhe alargasse uma passagem a fim de admirar seu aspecto sedutor, para ouvi-la e seguir seus passos. Só então o homem se torna subjugado, possuído, mas porque ele quer. Também Deus emite dos Céus suas dulcíssimas luzes, as do seu amor paterno, e suas luzes penetram em nós. Ou melhor, Deus, para quem tudo é possível, desce nos corações dos homens. É um direito seu. Por que é, então, que o homem que sabe tornar-se escravo, subjugado pelo Horrendo, não sabe fazer-se servo de Deus, ou melhor, filho de Deus, e expulsa seu Pai Santíssimo? Não me respondes? Não me dizes por que foi que preferiste Satanás a Deus? Contudo ainda estarias em tempo para te salvares! 575.12Tu sabes que Eu vou morrer. Ninguém, como tu, sabe disso… Eu não me recuso a morrer. Eu vou. Vou para a morte porque a minha morte será a vida para muitos. Por que não queres tu ser um deles? Será que só para ti, meu amigo, meu pobre e doente amigo, é que será inútil a minha morte?
– Será inútil para muitos, não te iludas. Farias melhor se fugisses e fosses viver longe daqui, gozar a vida, ensinar a tua doutrina, porque é boa, mas não te sacrifiques.
– Ensinar a minha doutrina! Mas que é que Eu ensinaria de mais verdadeiro se fizesse o contrário do que eu ensino? Que mestre Eu seria, se pregasse a obediência à vontade de Deus e não a cumprisse, o amor aos homens e depois não os amasse, a renúncia à carne e ao mundo, não dar escândalo e depois escandalizasse, não somente aos homens, mas até aos anjos, e assim por diante? Por meio de ti, foi Satanás que falou neste momento. Como ele falou em Efraim, e como muitas vezes falou e agiu por meio de ti para me perturbar. Eu reconheço todas essas ações de Satanás levadas a efeito por meio de ti, e Eu não te odiei, não fiquei cansado de ti, mas somente senti uma pena infinita. Como uma mãe que vigia os progressos de uma doença que vai levando para a morte o seu filho, assim Eu vim observando o progresso que o mal vinha fazendo em ti. Como um pai que não considera incômodo coisa alguma, contanto que encontre os remédios para o seu filho doente, assim Eu não me poupei nada a fim de procurar salvar-te, superei a repugnância, os desprezos, as amarguras, os desconfortos… Como um pai e uma mãe desolados, desiludidos com todos os recursos humanos, e que se voltam para o Céu para obterem a vida de seu filho, assim Eu tenho gemido, e gemo, implorando um milagre que te salve, estando tu já à beira do abismo,que já está tirando a terra de debaixo dos teus pés. 575.13Judas, olha para Mim. Daqui a pouco o meu sangue será derramado pelos pecados dos homens. Dele não restará nem uma gota. Beberão dele as covas, as pedras, as ervas, as vestes dos meus perseguidores e as minhas… a madeira, o ferro, as cordas, os espinhos de nabacá… e o beberão os espíritos que esperam a salvação… Será que só tu é que não queres beber? Eu daria para ti somente todo o meu sangue. Tu és o meu amigo. E de boa vontade se morre pelo amigo! Para salvá-lo! Dizem: ‘Eu morro. Mas continuarei a viver no amigo, ao qual eu dei a minha vida’. Como uma mãe, como um pai, que continuam a viver em sua prole mesmo depois de já terem morrido. Judas, Eu te suplico isto. Não peço outra coisa nas vésperas de minha morte. Ao condenado, também os juízes e até os seus inimigos costumam conceder uma última graça, atendem ao último desejo dele. Eu te peço que não te condenes. Não o peço somente ao Céu, mas a ti, à tua vontade. Pensa em tua mãe, Judas. Que será de tua mãe, depois? Como ficará o nome de tua família? Eu peço ao teu orgulho, pois ele é que está mais feroz do que nunca e não quer defender-te para livrar-te da desonra. Não te desonres, Judas. Pensa. Passarão os anos e os séculos, cairão os reinos e os impérios, diminuirá o brilho das estrelas, mudará a configuração da terra, e tu serás sempre Judas, como Caim é sempre Caim, se tu persistires no teu pecado. Os séculos chegarão ao fim e só ficarão o Paraíso e o Inferno, e no Paraíso e no Inferno, para os homens que ressuscitaram julgados merecedores de ficar de alma e corpo para sempre, lá onde for justo que fiquem, tu estarás para sempre como Judas, o maldito, o maior dos culpados, se não te arrependeres. Eu descerei para livrar os espíritos do Limbo, e os tirarei em grande número do Purgatório, e tu… A ti, do lugar para onde tiveres ido não poderei tirar-te. Judas, Eu vou morrer, mas vou feliz porque chegou a hora que Eu esperava, há muitos milênios: é a hora de reunir os homens ao Pai deles. Muitos são os que Eu não reunirei. Mas o número dos salvos, que Eu contemplarei ao morrer, me consolará na mágoa de ter morrido inutilmente por tantos. Mas, Eu te digo, será horrível ver-te entre eles, a ti, meu apóstolo, meu amigo. Não me causes essa dor inumana…
Eu te quero salvar, Judas. Salvar. 575.14Olha: nós estamos descendo para o rio. Amanhã, ao alvorecer, quando todos ainda estiverem dormindo, nós o atravessaremos, nós dois, e tu irás para Bozra, ou para Arbela, ou Aera, como quiseres. Tu conheces as casas dos discípulos. Em Bozra, procura Joaquim e Maria, a leprosa que por mim foi curada. Eu te darei um escrito para eles. Nele eu direi que para tua saúde precisas de um repouso tranquilo e de um ar puro. É verdade, infelizmente, porque tu estás doente no espírito e o ar de Jerusalém te faria mal. Mas eles entenderão que tu estás doente no corpo. Ficarás lá, enquanto Eu não for te buscar. Quanto aos teus pensamentos, Eu pensarei neles. Mas não vás a Jerusalém. Estás vendo? Eu não quis as mulheres, com exceção das mais fortes entre elas e as que, pelo seu direito de mães, devem estar perto de seus filhos.
– A minha também?
– Não. Ela não estará em Jerusalém.
– Ela também é mãe de um apóstolo e sempre te prestou honras.
– Sim. Ela tem o direito, como as outras, de estar perto de Mim, que ela ama com uma perfeita justiça. Mas justamente por isso ela não estará lá. Porque Eu lhe disse que não estivesse e ela sabe obedecer.
– Por que é que ela não deve estar lá? Haverá alguma coisa nela que a torne diferente da mãe dos teus irmãos e da dos filhos de Zebedeu?
– Tu. E sabes por que é que digo isso. Mas se tu me dás ouvidos, se vais a Bozra, Eu mandarei avisar tua mãe e falarei a ela que vá contigo, para que ela, que é tão boa, te ajude a ficar são. 575.15Podes crer. Só nós é que amamos assim, sem medida. Três são os que te amam no Céu: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que olharam para ti e estão esperando a tua vontade para fazerem de ti a joia preciosa da Redenção, a presa maior arrebatada ao Abismo. E outros três na Terra: Eu, tua mãe e minha Mãe. Faze-nos felizes, ó Judas. Nós do Céu, nós da Terra, somos os que te amamos com verdadeiro amor.
– Tu me dizes: só três são os que me amam. Os outros não.
– Não, como nós. Mas te amam muito. Elisa te defendeu. Os outros estavam preocupados contigo. Quando tu estás longe, todos te têm em seus corações e o teu nome nos lábios. Tu não conheces todo o amor que te rodeia. O teu opressor te esconde. Mas crê em minha palavra.
– Eu creio em Ti. E procurarei que fiques contente. Mas eu quero agir por mim mesmo. Eu errei. E agora devo saber curar-me do mal.
– Unicamente Deus é que pode agir por si mesmo. Este teu pensamento é de soberba. Na soberba ainda está Satanás. Sê humilde, Judas. Aperta esta mão amiga que se te oferece. Refugia-te neste coração que, para proteger-te, se abre. Aqui comigo Satanás não te poderia fazer mal.
– Eu já experimentei estar contigo… Mas fui sempre descendo… É inútil!
– Não digas isso! Não o digas! Repele esse desânimo. Deus tudo pode. Abraça-te com Deus. Judas! Judas!…
– Cala-te! Que os outros não escutem…
– Te preocupas com os outros e não com o teu espírito? Mísero Judas!…
575.16Jesus não fala mais. Mas continua ao lado do apóstolo até que a mulher, que estava alguns metros à frente, entra em uma casa que apareceu no meio de um olival cerrado. Então, Jesus diz ao seu discípulo:
– Eu não dormirei esta noite. Rezarei por ti e ficarei te esperando… Que Deus fale ao teu coração. E tu escuta-o… Eu ficarei aqui, onde estou agora, a rezar. Até o alvorecer. E tu lembra-te disso.
Judas não lhe responde. Chegam os outros e as mulheres, e ficam todos juntos, à espera que a samaritana volte. Não deve tardar muito para chegar. Ela está junto com outra mulher, parecida com ela, e que os saúda, dizendo:
– Não tenho muitos quartos, porque já estão aqui os ceifadores que no momento estão trabalhando nos olivais. Mas eu tenho um grande celeiro e nele há muita palha. Para as mulheres, eu tenho lugar. Vinde.
– Ide. Eu fico aqui em oração. A paz a todos vós –diz Jesus.
E, enquanto os outros se vão, Ele conversa com sua Mãe, dizendo lhe:
– Eu fico aqui a rezar por Judas, minha Mãe. Ajuda-me tu, também…
– Eu te ajudarei, meu Filho. Será que está renascendo nele a vontade?
– Não, minha Mãe. Mas nós devemos fazer como se… O Céu pode tudo, Mãe!
– Sim. Eu posso ainda iludir-me. Mas tu, não, Meu Filho. Tu sabes, meu Santo Filho. Mas eu te imitarei sempre. Vai tranquilo, meu amor. Mesmo quando Tu não puderes mais falar-lhe, porque ele terá fugido de Ti, Eu procurarei conduzi-lo a Ti. Que o Pai Santíssimo escute a minha dor… E me deixe estar contigo, Jesus! Rezaremos juntos… e serão muitas horas para eu ter-te só para mim…
– Fica, minha Mãe, Eu te espero aqui.
Maria vai ligeira e logo volta. 575.17Assentam-se sobre os sacos, aos pés das oliveiras. No meio do grande silêncio ouve-se o barulho do rio, que está perto. E o canto dos grilos parece forte no meio do grande silêncio da noite. Depois, cantam os rouxinóis. E uma coruja dá uma risada. E grita, espantado, um curiango. As estrelas vão caminhando vagarosas pelo firmamento afora, como rainhas, agora que a lua não está mais presente para ofuscá-las, pois já sumiu no horizonte. Em seguida é um galo que rompe o silêncio do ar parado com sua voz que ressoa. Muito mais longe, com uma voz que mal se percebe, um outro galo responde. Depois, de novo o silêncio se rompe pelo despejar da orvalhada que cai das telhas da casa vizinha na calçada que a rodeia. Depois há um barulho diferente por entre as ramagens, que parecem sacudir a umidade noturna, e o piado isolado de um pássaro que acordou e, ao mesmo tempo, uma mudança no céu, parecendo que a luz acorda de novo. É o alvorecer. E Judas não veio…
Jesus olha para sua Mãe, branca como um lírio sobre o fundo escuro da oliveira, e lhe diz:
– Nós bem que rezamos, Mãe. De nossa oração Deus fará algum uso…
– Sim, meu Filho. Estás pálido como a morte. Na verdade a tua vitalidade se exalou toda nesta noite, batendo nas portas dos Céus e nos decretos de Deus!
– Tu também estás pálida, minha Mãe. Grande é o teu cansaço.
– Grande é a minha dor pela tua dor.
575.18A porta da casa está sendo aberta com cuidado… Jesus estremece. Mas é a mulher que os conduziu, que sai sem fazer barulho. Jesus suspira:
– Eu esperei, pensando que podia ter me enganado!
A mulher vem para frente com o seu cesto vazio. Ela vê Jesus, o saúda e iria continuar a falar. Mas Ele a chama e lhe diz:
– O Senhor de todas as coisas te recompense. Eu gostaria de fazê-lo, mas não trouxe nada comigo.
– Nada eu quero, Rabi. Nenhuma recompensa. Mas uma coisa eu desejaria, mesmo sem querer dinheiro. E essa Tu me podes dar.
– Que é mulher?
– Que o coração do meu esposo mudasse. E isto Tu podes fazer, porque verdadeiramente és o Santo de Deus.
– Vai em paz. Vai ser-te feito como tu pedes. Adeus.
A mulher sai, indo depressa para a sua casa, que deve ser uma casa bem triste. Maria comenta:
– É uma outra infeliz. Por isso ela é boa.
575.19Sai para fora do celeiro a cabeça toda desgrenhada de Pedro e atrás dele sai também a de João, e depois o perfil severo de Tadeu e o rosto amorenado e magro de Benjamim. Todos estão acordados. E eis que da casa sai, antes de todos, Maria de Magdala e, atrás dela, Nique. Em seguida, as outras. Quando todos já estão reunidos, e a mulher que os hospedou já trouxe um baldezinho de leite ainda espumoso, aparece Iscariotes. Não está mais com a bandagem. Mas o lívido onde foi dada a pancada lhe cobre a metade da fronte, e o olho está ainda escuro. Jesus olha para ele. Judas olha para Jesus e depois vira a cabeça para o outro lado.
Jesus lhe diz:
– Recebe da mulher quanto ela puder dar-nos. E depois procura alcançar-nos.
E, de fato, tendo saudado a mulher, Jesus se põe a caminho. Todos o acompanham.
1 parábola, que está em 181.3/4.
2 chamei com o nome certo, o de “filho do trovão”, em 330.3.
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