442. 442. Judas Iscariotes em Nazaré com Maria.


23 de maio de 1946.

442.1 Apenas, propriamente apenas começou a avermelhar-se o oriente, aos primeiros sinais da aurora, quando Judas de Keriot está batendo à porta da pequena casa de Nazaré.

Na rua só estão os camponeses, ou melhor, os pequenos proprietários de Nazaré, que estão indo para suas vinhas e para seus olivais com suas ferramentas de trabalho. Estão olhando, espantados, para o homem que tão cedo, está batendo à porta de Maria. E eles entre si começam a comentar aquilo.

– É um dos discípulos –diz um deles, respondendo ao comentário de um outro–. Certamente está procurando Jesus de José…

– Mas é inútil. Ontem cedo Ele foi embora. Eu vi quando Ele foi. E agora vou lhe dizer… –diz um outro.

– Deixa disso! É Judas de Keriot. Esse homem não me agrada. Talvez tenhamos cometido muitas injustiças contra Jesus e fizemos mal. Mas ele, aquele ali, no ano passado, fez muito mal aqui, entre nós… Talvez nós nos teríamos convertido. Mas ele…

– Que foi? Que foi? Como é que o sabes?

– Eu estava presente certa tarde na casa do sinagogo e, como um bobo, acreditei logo em tudo. Acho que pequei.

– Talvez ele também tenha percebido que havia pecado…

Eles se afastam e eu não ouço mais nada.

442.2 Judas torna a bater na pequena porta, junto à qual ele estava encostado, com o rosto encostado à madeira, como para evitar ser visto e reconhecido. Mas a pequena porta continua fechada. Judas fica desapontado, se afasta dali, indo pelo beco que rodeia a horta, e vai para trás da casa. Dá uma olhada por cima da sebe da horta silenciosa. Somente os pombos lhe dão alguma esperança.

Judas fica pensando no que fazer. Fica monologando:

– Será que terá saído também ela? Mas…eu a teria visto… além disso! Não. Ontem cedo eu estava ouvindo a voz dela… Talvez tenha ido dormir com a cunhada. Ufa! Isso é tão desagradável como uma abelha no rosto, porque ela voltará acompanhada, e eu quero falar com ela sozinha, sem ter aquela velha como testemunha. Ela é linguaruda, ficaria fazendo-me observações. Ela é muito esperta, como todas as velhas populares. Não aceitaria como boas as minhas desculpas e o faria notar àquela estúpida pomba, que é a cunhada. Aquela eu tenho a certeza de poder revirá-la para todos os rumos. É lerda como uma ovelha… E eu devo consertar aquilo que aconteceu em Tiberíades. Porque se Ela falar… Terá ela já falado, ou se calou? Se tiver falado, então fica muito difícil acertar as coisas, mas acho que não terá falado… Ela confunde a virtude com a estultícia. Tal Mãe, tal Filho… E os outros trabalham, enquanto eles estão dormindo. E, afinal, têm razão. Porque deixá-los de lado parece ser o que querem. Mas que quererão depois? Estou com a cabeça confusa. Devo deixar de beber… quanto antes! Mas o dinheiro tenta, e eu sou como um poldro, que ficou muito tempo preso. Dois anos, digamos! E mais ainda! Dois anos com abstinência de tudo… Mas, por enquanto… Que é que me estava dizendo anteontem Elquias? Ora! Ele não está me ensinando mal! Isso mesmo! Tudo é lícito, contanto que cheguemos a instalar Jesus no trono. E se Ele não quiser? Contudo, certamente Ele deve pensar que, se não conseguirmos triunfar, todos nós teremos o que tiveram o Teodas1 ou Judas, o galileu… Tal vez eu fizesse bem em separar-me porque… porque eu não sei se isso que eles estão querendo é bom.

Eu não confio muito neles… Estão muito mudados, de um tempo para cá… Eu não quereria… Que horror! Que eu fosse o meio de dar cabo de Jesus! Não. Eu vou separar-me. Mas é uma coisa amarga ter sonhado com um reino, e voltar a ser o quê? Sim. Eu? Eu? É melhor que eu vá afogarme no lago… Vou-me embora. É melhor que eu vá embora. Irei para a casa de minha mãe, farei que me deemee uns denários, porque é certo que eu não posso ir pedir aos sinedritas algum dinheiro para ir-me embora.

Eu estou… estou sendo ajudado, porque eles esperam que eu os ajude a saírem da incerteza. Uma vez que Jesus seja rei, estarão com seus postos garantidos. A multidão está conosco… Herodes… quem se preocupará com ele? Nem os romanos, nem o povo. Todos o odeiam! E… e.. Mas Jesus é capaz de renunciar, logo que for proclamado rei. Pois bem. Quando Eleazar de Anás me garante que seu pai está pronto para cingi-lo com a coroa real! Além disso, não se lhe poderá tirar o caráter sagrado. No fundo, eu vou fazer como o feitor infiel da parábola dele… Recorro aos amigos, a meu favor, sim, é verdade, mas também a favor dele. Portanto eu faço que os meios injustos sirvam para… mas ainda não. Devo ainda tentar persuadi-lo. Ainda não estou convencido de estar agindo bem, ao estar fazendo uso deste subterfúgio… oh! se eu o pudesse persuadir! Porque seria uma coisa muito bonita. Tão bonita… Sim. Este é o melhor pensamento. Dizer tudo sinceramente ao Mestre. Suplicar-lhe… Contanto que Maria não lhe tenha falado de Tiberíades… Como foi que eu disse que iria falar a Maria? Ah! Sim! A refeição das romanas. Maldita seja aquela mulher! Se eu não tivesse ido à casa dela naquela tarde, não encontraria Maria! O que é que Maria estava fazendo em Tiberíades? E pense-se que, durante toda a véspera de sábado, nos sábados e depois dos sábados, eu nunca saía para não ver nenhum apóstolo… Estulto! Estulto fui eu! Não podia eu ter ido para Hipos ou para Gergesa procurar mulheres? Não. Logo lá. Logo em Tiberíades pela qual devem passar para chegarem até aqui… Mas tudo isso é causado pelas romanas… Eu já o esperava… É inútil que me digam isso, a mim que sei o porquê é que fui para lá, Foi para ter um reencontro com alguns dos grandes de Israel, para gozar, uma vez que estou bem de dinheiro. Contudo… Como é que o dinheiro se vai embora depressa… Daqui a pouco, não terei nada mais… Ah! Ah! Eu contarei qualquer fábula a Elquias e a seus amigos e eles ainda me darão…

442.3 – Ó Judas, estás doido? Faz pouco tempo que eu estou olhando para ti, do alto de uma oliveira. Tu gesticulas, ficas falando sozinho… Ter-te-á feito mal o sol de Tamuz? –grita Alfeu de Sara, aparecendo em uma bifurcação de galhos de uma oliveira muito grande, à distância de uns trinta metros do lugar onde está Judas.

Judas leva um susto, corre um olhar ao redor de si, o vê e resmunga:

– Que a morte te leve! Maldita seja esta terra de espiões!

Mas, com um sorriso afável, ele grita:

– Não. Eu estou preocupado porque Maria não abre a porta… Estará ela sentindo-se mal? Eu bati e tornei a bater!…

– Maria? Estás mesmo com vontade de bater. Ela está na casa de um pobre velho, que está à morte. Vieram chamá-la, lá pela terceira vigília…

– Mas eu preciso falar-lhe.

– Espera. Eu vou descer, vou avisá-la. Tens mesmo necessidade disso?

– Ora, se… Eu o direi a ela. Estou aqui desde os primeiros raios do sol.

Alfeu, apressando-se, desce da árvore, vai sem perda de tempo.

– Aquele ali também agora já me viu! E certamente agora vai voltar com aquela outra. Não me fica bem uma só!

E vai puxando uma ladainha de impropérios contra Nazaré, contra os nazarenos, contra Maria de Alfeu, e até contra a caridade da Virgem Santíssima para com o doente, que está à morte…

442.4Ele ainda não havia terminado, quando, da sala das refeições se abre uma porta que dá para a horta, e, na soleira aparece uma Maria muito pálida e triste.

– Judas!

– Maria –dizem os dois ao mesmo tempo.

– Agora mesmo vou abrir-te a porta. Alfeu me disse assim: “Vai à tua casa. Lá está alguém te esperando”, e eu vim correndo, muito mais do que a pobre velha, que não tem mais necessidade de mim. Ela cessou de sofrer por causa de um mau filho…

Judas, enquanto Maria está falando, corre por um longo beco, até chegar à frente da casa… Maria abre a porta.

– A paz esteja contigo, Judas de Keriot. Entra.

– A paz esteja contigo, Maria.

O Judas está um pouco vacilante. Maria está calma, mas séria.

– Eu bati muitas vezes, ao romper do dia.

– Ontem à tarde, um filho fez estourar o coração de uma mãe… E vieram procurar Jesus. Mas Jesus não está. Também a ti eu digo: Jesus não está. Tu vieste tarde.

– Eu sei que Ele não está.

– Como é que tu sabes? Acabaste de chegar agora…

– Mãe, eu quero ser sincero contigo, que és boa: desde ontem, eu estou aqui…

– E, por que foi que não vieste? Os teus companheiros, nestes sábados, só uma vez deixaram de vir…

– Sim. Eu sei disso! Eu fui a Cafarnaum e lá não os encontrei.

– Não digas mentira, Judas. Em Cafarnaum tu nunca estiveste. Bartolomeu sempre ficou por lá e nunca te viu. Só ontem, é que Bartolomeu chegou. Mas tu ontem estavas aqui. E, portanto… Para que é que tu mentes, Judas? Não sabes que a mentira é o primeiro passo para o furto e para o homicídio?… A pobre Ester chegou a morrer de dor, por causa do procedimento de seu filho. E Samuel, seu filho, começou a tornar-se a vergonha de Nazaré com pequenas mentiras, que se foram tornando cada vez maiores. Depois delas, ele passou a fazer todo o resto. E tu o queres imitar, tu, um apóstolo do Senhor? Queres fazer tua mãe morrer de dor?

Esta censura foi-lhe feita em voz baixa, devagar. Judas não sabe o que responder. Ele se assenta de repente, pondo a cabeça entre as mãos.

442.5 Maria o observa. Depois diz:

– E então? Por que me quiseste ver? Enquanto eu estava assistindo a pobre Ester, eu estava rezando por tua mãe e por ti. Porque me causais dó, tanto um como a outra, por dois motivos diferentes.

– Então, se tens dó de mim, perdoa-me.

– Eu nunca guardei rancor.

– Como? Nem mesmo… naquela manhã em Tiberíades? Sabes de uma coisa? Eu estava daquele jeito porque na tarde anterior as romanas me haviam maltratado como a um louco, como… um traidor do Mestre. Sim. Eu o confesso. Eu fiz mal em falar a Cláudia. Enganei-me com os cálculos dela. Mas eu o faço com boa intenção. Eu entristeci ao Mestre. Ele não me disse isto, mas eu sei que Ele sabe que eu falei. Certamente foi Joana que o avisou. Joana nunca me pode ver, las romanas me entristeceram… E, para esquecer, eu bebi…

Maria tem uma expressão de compaixão, involuntariamente irônica, e diz:

– Então, Jesus por todas as tristezas que cada dia experimenta, já deveria estar bêbado todas as noites…

– E tu lhe disseste isso?

– Eu não aumento o amargor do cálice para meu Filho, com notícias de novas defecções, quedas, pecados, insídias… Fiquei calada e ficarei.

Judas cai de joelhos, tentando beijar a mão de Maria, mas Ela se retira, sem faltar com a delicadeza, mas bem decidida a não deixar-se beijar nem tocar.

– Obrigado, Mãe! Tu me salvas. Eu tinha vindo aqui para isso… e para que tu me tornasses fácil o caminho para aproximar-me do Mestre, sem censuras e sem ficar envergonhado.

– Teria bastado que tivesses ido a Cafarnaum, a fim de vires depois para cá com os outros e para evitar o que houve. Era muito simples.

– É verdade. Mas os outros não são bons, fizeram que eu fosse espionado para depois me reprovarem e me acusarem.

– Não fiques ofendendo aos teus irmãos, ó Judas. Basta de pecar! Tu é que andaste espionando aqui em Nazaré, a Pátria do Cristo, tu…

Judas a interrompe:

– Quando? No ano passado? Eles alteraram as minhas palavras. Mas podes crer que eu…

– Eu não sei o que foi que disseste ou fizeste no ano passado. Eu falo do dia de ontem. Tu estás aqui desde ontem. Tu sabes que Jesus partiu. E certamente para isso fizeste indagações. E não as fizeste nas casas amigas de Aser, de Ismael, de Alfeu e do irmão de Judas e de Tiago, e também não de Maria de Alfeu, nem dos poucos que amam a Jesus. Porque, se tivesses feito assim, me teriam vindo dizer. A casa de Ester se encheu de mulheres, de manhã cedo, quando ela morreu. Mas nenhuma delas sabia de ti. Eram as melhores entre as mulheres de Nazaré, as que me amam, que amam a Jesus, e se esforçam por praticar sua Doutrina, apesar da hostilidade dos maridos, dos pais e dos filhos. Por isso, foste fazer tuas indagações junto àqueles que são inimigos do meu Jesus. Que nome dás tu a isto? Eu não o digo. Tu o deves dizer a ti mesmo. Por que foi que o fizeste? Eunão o quero saber. 442.6Eu te digo só isto. Muitas espadas serão fincadas no meu coração, fincadas e fincadas de novo, sem piedade, pelos homens que fazem o meu Jesus sofrer e o odeiam. Mas uma será a tua e não será mais tirada. Porque a lembrança de ti, ó Judas, que não te queres salvar, de ti que te arruínas, de ti que me fazes medo, não medo por mim mesma, mas pela tua alma, não sairá mais do meu coração. Uma foi fincada pelo justo Simeão, enquanto eu levava sobre o coração o meu Menino, o meu Cordeirinho santo… A outra, a outra és tu… A ponta da tua espada já me está torturando o coração, mas ainda não estás saciado de dar este sofrimento a uma pobre mulher… e esperas fincar completamente a tua espada de carrasco no coração de quem não te deu senão amor… Tola sou eu, ao pretender de ti que tenhas piedade, quando não a tens nem de tua própria mãe! Pelo contrário, é como acabo de dizer. Com um só golpe a transpassá-la, e a mim também, ó filho desnaturado, que nem as orações de duas mães conseguem salvar!

Ao falar, Maria está chorando e as lágrimas só não caem sobre a cabeça morena de Judas, porque ele ficou lá onde caiu de joelhos, separado de Maria. Ele bebe, endoidecido, aquelas lágrimas santas… E a cena me traz a lembrança de Aglaé sobre a qual, sim, visto que ela se abraçava a Maria em um sincero desejo de redenção, caíam as lágrimas de Maria2.

442.7 – Não tens nada a dizer, Judas? Não consegues encontrar em ti a força para um bom propósito? Oh! Judas! Judas! Mas dize-me: estás contente com esta tua vida? Examina-te, Judas. Sê humilde, sincero contigo mesmo, em primeiro lugar. E depois para com Deus, para ires a Ele com o teu saco de pedras, tiradas do teu coração e dizer-lhe: “Eis-me aqui. Eu carreguei estas pedras por teu amor.”

– Eu não… tenho a coragem de ir confessar-me a Jesus.

– O que não tens é a humildade para fazê-lo.

– É verdade. Ajuda-me tu…

– Vai a Cafarnaum, espera-o lá, com humildade.

– Mas tu poderias…

– Eu não poderei, senão dizer que o faças e que o meu Filho sempre faz: ter misericórdia. Não sou eu quem ensina a Jesus, mas é Jesus quem ensina à sua discípula.

– Tu és a Mãe dele.

– Isto é quanto ao meu coração. Mas, por seu direito, Ele é o meu Mestre. Nem mais nem menos do que é com todas as outras discípulas.

– Tu és perfeita.

– Ele é perfeitíssimo.

Judas se cala e pensa. Depois pergunta:

– Aonde foi o Mestre?

– A Belém da Galileia.

– E depois?

– Não sei.

– Mas Ele volta aqui?

– Sim.

– Quando?

– Não sei.

– Não o queres me dizer!

– Não posso dizer o que não sei. Há dois anos que tu o acompanhas. Podes dizer que Ele sempre teve um itinerário fixo? Quantas vezes a vontade dos homens o obrigou a mudar de caminho?

– É verdade. 442.8Eu vou-me embora. Para Cafarnaum.

– O sol está muito quente para se viajar. Fica aqui, por enquanto. Tu és um peregrino como todos os outros. E Ele diz que as discípulas devem tomar cuidado deles.

– Ver-me é dificil para ti.…

– Isso de não quereres ficar são, para mim, é doloroso. Só isso. Tira a tua capa. Onde dormiste?

– Eu não dormi. Fiquei esperando a aurora para ver-te sozinha.

– Então deves estar cansado. No salão estão as pequenas camas usadas por Simão e Tomé. Lá há sossego e ainda está fresco. Vai e dorme, enquanto eu preparo a comida.

Judas lá se vai, sem nada responder. E Maria, sem nada ter descansado depois de uma noite de vigília, vai para a cozinha acender o fogo, depois vai à horta apanhar as verduras. E lágrimas e mais lágrimas vão caindo silenciosas, à medida que ela vai-se inclinando sobre o fogão, ajeitando os tições, ou sobre os canteiros, ao colher as verduras, e, enquanto as enxágua na bacia e as prepara… E as lágrimas vão caindo, com os grãos louros do trigo, que ela joga aos pombos, ou sobre a roupa branca, que ela vai tirando do tanque e estendendo ao sol… São as lágrimas da Mãe de Deus. Daquela que, sem culpa, não ficou isenta da dor, sofreu mais do que qualquer outra mulher, para ser a Co-redentora.

1 Teodas, já mencionado em 73.5, e Judas, o galileu que será mencionado também em 478.3 e 507.3. O destino deles é lembrado por Gamaliel em Attos 5,36-37.
2 caíam as lágrimas de Maria, como é narrado em 168.8.


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