318. 318. Na barca, de Ptoleimada para Tiro.


3 de novembro de 1945.

318.1 A cidade de Ptolemaida parece que vai ficar achatada por um céu baixo, um céu de chumbo, sem ter nenhum respiradouro no azul, sem nem mesmo um pouco de claridade para variar. Não, nem uma nuvem, um cirro, um nimbo, que vá velejando solitário sobre a capa fechada do firmamento. O que se vê é uma abóbada única, convexa e pesada, como uma tampa que esteja para descer sobre uma caixa. É uma tampa enorme, de estanho sujo, enfumaçado, opaco e opressivo. As casas brancas da cidade parecem de gesso, um gesso grosseiro, não trabalhado, triste, e ainda mais com esta luz… até o verde das plantas sempre verdes parece amortecido, triste, e elas estão lívidas ou espectrais, bem como os rostos das pessoas, desbotadas parecem as cores das vestes. A cidade está abafada sob o peso de um vento do sudeste o Siroco.

O mar responde ao céu igualmente, com um mesmo aspecto de morte. É um mar sem confins, parado e deserto. Nem da cor de chumbo ele é, e seria errado dizê-lo. É uma extensão sem limite, e eu diria sem rugas, formada por uma substância oleosa, cinzenta, como devem ser os lagos de petróleo bruto, ou melhor, se fosse possível haver lagos de uma prata misturada com fuligem, com cinza, para fazer de tudo isso uma pomada de um brilho especial de uma escama quartzífera e que, contudo, não parece brilhar, pois é morta e opaca. Este seu esplendor não se percebe senão pela dificuldade que com ele nosso olho sente, quando fica ofuscado por este cintilar de madrepérola escura, que nos cansa, sem produzir em nós alegria. Não há nenhuma onda, a perder de vista. O olhar chega até o horizonte, até lá onde este mar morto toca no céu morto, sem ver um só movimento de onda. Mas logo se compreende que estas águas não estão solidificadas, pois há um pequeno rumor por baixo delas e que mal é percebido na superfície sobre o brilho sujo das águas. Está tão morto, que à margem, as águas estão ali como as águas de um tanque, sem o menor sinal de onda nem de ressaca. E a areia está claramente marcada pela umidade ali, a um metro ou pouco mais da água, dizendo-nos com isso que não houve movimento das ondas junto às margens há muitas horas. É uma calmaria total.

Os navios, os poucos navios, que estão no porto, não estão fazendo nenhum movimento. Parecem pregados ali por alguma substância sólida, de tão imóveis que estão, e aqueles poucos pedaços de pano, que estão estendidos nas altas pontes, nem parecem ser roupas ou insígnias, pois tudo está pendurado e inerte.

318.2 Do beco de um bairro popular do porto vêm vindo para a beira-mar os apóstolos com os dois que vão para Antioquia. Não sei que fim eles deram ao burro e à carroça, pois não estão aí. Pedro e André vêm trazendo um baú, enquanto Tiago e João vêm trazendo o outro e Judas de Alfeu fez um feixe com as peças do tear desmontado, e o vem trazendo nas costas, e Mateus, Tiago de Alfeu e Simão Zelotes se carregaram com as sacolas de todos, compreendendo também a de Jesus. Síntique só traz nas mãos um cesto de alimentos. João de Endor não traz nada.

Eles vão apressados, pelo meio das pessoas que estão voltando do mercado, em sua maior parte, com as coisas que compraram ou, se são marinheiros, vão andando depressa para o porto para o trabalho de carga ou descarga dos navios, ou para fazer reparos neles se houver necessidade.

Simão de Jonas está bem informado. Ele já deve estar sabendo por onde ir, porque não fica olhando para os lados. Todo vermelho, ele está segurando por baixo, por meio de um nó corrediço, a corda colocada de seu lado no baú, para servir de alça, e para o lado de André também, com sua ajuda. E pode-se ver, tanto nestes dois, como nos companheiros Tiago e João, o esforço que estão fazendo pelo peso que vão levando, e isso se vê pela intumescência dos músculos das barrigas de suas pernas e dos braços, pois eles, para ficarem mais livres, estão só com a veste de baixo, curta e sem mangas, estando assim em tudo semelhantes aos carregadores do porto, que se apressam em ir das lojas para os navios, ou vice-versa, em suas operações. Por isso, eles vão passando completamente inobservados.

318.3 Pedro não se dirige para os grandes bancos de carga e descarga, mas, por uma passarela chiadeira, vai para o banco menor de todos, em forma de arco, que faz uma espécie de segundo molhe, muito mais estreito, para os barcos de pesca. Pedro olha, e grita.

Responde-lhe um homem, levantando-se do fundo de uma barca, bastante ampla:

– Queres mesmo partir? Olha, que a vela hoje não serve. E terás que viajar a poder de remos.

– Servirá para aquecer-me e dar-me apetite.

– Mas, tu és mesmo capaz de navegar?

– Ora, homem! Eu ainda não sabia dizer “mamãe”, e já o meu pai me tinha posto na mão a sondareza e as cordas das velas. Nestas coisas eu já rangia os meus dentes de leite…

– É porque sabes de uma coisa? É porque esta barca é tudo o que eu tenho, sabes?

– Já me disseste isto desde ontem… Não sabes outra cantilena?

– Eu sei que se tu vais ao fundo, e eu ficarei arruinado e…

– Arruinado ficarei eu, que nela perderei a pele, e não tu!

– Mas nela estão meus bens, o meu pão, a minha alegria e a de minha esposa. Nela está o dote de minha menina, e…

– Ufa! Escuta, não me fiques beliscando os nervos, que já estão com uma câimbra… uma câimbra mais terrível do que a dor dos nadadores. Eu já te dei tanto, que até poderia dizer: “eu te comprei a barca”, pois não diminuí nada do tanto que tu pedias, e um ladrão marítimo é que és, e eu te mostrei que entendo de remo e de vela mais do que tu, e tudo estava combinado. Agora, se a salada de alho, que comeste ontem de tarde faz que tua boca fique fedendo como uma sentina, e te deu alguns pesadelos e remorsos, isso a mim não importa. O negócio foi feito com duas testemunhas, uma tua, e a outra minha, e basta. Salta para fora daí, seu caranguejo peludo, e deixa-me entrar.

– Mas eu… pelo menos uma garantia… Se tu morres, quem é que paga a minha nave?

– A nave? Ainda chamas de nave a esta abóbora despolpada? Oh! Homem miserável e soberbo! Mas eu te darei paz, contanto que tu te decidas: eu te darei outras cem dracmas. Com estas e com aquilo que quiseste de aluguel, já poderás fazer outras três toupeiras como esta… E não o contrário: nada de dinheiro. Serias capaz de te fazeres de doido, e quereres mais de volta. Porque voltarei, fique certo. Talvez para fazer-te a barba com uns sopapos, se me tiveres dado uma barca com defeitos na quilha. Eu te darei em penhor o burro e a carroça… Não! Isso também não. O meu Antônio, eu não to confio. Serias capaz de mudar de ofício e, de barqueiro, poderias passar a ser carroceiro, e sumir, enquanto eu estiver fora. O meu Antônio vale dez vezes a tua barca. Melhor é dar-te dinheiro. Mas, olha bem: é uma garantia, e tu ma devolves na volta. Entendeste, ou não? Olá, pessoal da nave, quem aí é de Ptolemaida?

De um navio que está perto, se mostram três rostos:

– Nós.

– Vinde aqui...

– Não, não, não é necessário. Façamos entre nós, suplica o barqueiro.

Pedro olha para ele com um olhar indagador, raciocina e, vendo que o outro está deixando a barca, e se apressando em colocar nela o tear, que Judas tinha posto no chão, e murmura:

– Eu entendi!

Grita para os outros do navio:

– Não é preciso mais. Ficai aí.

E depois tira de uma pequena bolsa umas moedas, as conta e beija, dizendo:

– Adeus, minhas queridas! –e as dá ao barqueiro.

– Por que foi que as beijaste? –pergunta ele assustado.

– É um costume. Adeus, ladrão. Coragem, vós. Tu tens pelo menos a barca. Tu as contarás depois. E verás que estão certas. Não quero ter-te por companheiro no inferno, sabes. Eu não roubo. Iça, vamos.

E puxa para bordo o primeiro cofre. Depois ajuda os outros a transportar o deles, as sacolas e tudo mais, e vai equilibrando os pesos, e colocando os objetos de tal modo que deixem passagem para as manobras e, depois dos objetos, as pessoas.

– Estás vendo como eu sei fazer as coisas, sugador? Solta agora as amarras, e vai para o teu destino.

E, junto com André, ele estende o remo contra o molhe, para afastar-se dele.

318.4 E, tendo pegado o fio da correnteza, dá o timão a Mateus, dizendo-lhe:

– Até que ponto tu, que vinhas para tirar-nos a pele como se devia fazer, e nos vinhas pescar a nós que estávamos pescando, já estás sabendo segurar sofrivelmente o timão.

E depois se assenta na proa, ficando de costas para ela, no primeiro banquinho, tendo André a seu lado. Diante dele, estão sentados Tiago e João de Zebedeu, que vogam com um ritmo regular e forte. A barca vai sem sacudidelas e velozmente, por mais que esteja bem pesada, passando rente a grandes navios, de cujos bordos descem palavras de elogio para os peritos remadores.

Depois, já estão no mar aberto, fora dos diques… Ptolemaida passa deslizando, diante dos olhos deles, que estão partindo, estendida como ela é ao longo da beira-mar, e com o seu porto ao sul da cidade.

Na barca, o silêncio é completo. Ouve-se somente o chiar dos remos nas cavilhas. Passado um bom tempo, e tendo já Ptolemaida ficado para trás, diz Pedro:

– Vai bem. Mas, se houvesse um pouco de vento… Mas não há nada! Nem um fiapo…

– Tomara que não chova… –diz Tiago de Zebedeu.

– Hum! Mas parece que é o que quer vir.

Há um silêncio, e o trabalho dos remos continua por muito tempo.

Depois, André pergunta:

– Por que foi que beijaste as moedas?

– Porque quem parte se despede para sempre. Eu não as verei mais. E isso me desagrada. Eu preferiria dá-las a algum infeliz… Mas paciência! A barca realmente é boa, e forte e bem construída. É a melhor de Ptolemaida. Foi por isso que eu atendi às pretensões de seu dono. E também para não ter que ficar ouvindo muitas perguntas sobre qual o lugar para onde se vai. Por isso é que eu lhe disse: “Vamos fazer compras no jardim branco”… Ai, ai! Está começando a chover. Cobri-vos, vós que o puderdes fazer, e tu, Síntique, dá o ovo a João. Agora é a hora… E ainda mais, porque, com um mar assim, nada fica se movendo no estômago… E Jesus, que estará fazendo? E que me fará? Ele está sem roupa e sem dinheiro. Mas, onde será que Ele está, agora?

– Certamente que Ele está rezando por nós –responde João de Zebedeu.

– Está bem. Mas onde?

Ninguém sabe dizer onde. E a barca vai navegando à beira-mar, pesada e cansativamente, por baixo de um céu de chumbo e por cima de um mar de betume cinzento, por entre uma chuvinha fina como uma névoa, incômoda como umas cócegas prolongadas. Os montes que, depois de uma região de planícies, tornam a aproximar-se do mar, vão ficando mais perto, lívidos, por causa desse ar nebuloso.

318.5 – Naquele lugar vamos parar, a fim de descansar e comer –diz Pedro, que é incansável na voga. E os outros confirmam o que ele diz.

Chegaram ao lugar. É um pequeno amontoado de casas de pescadores, situado ao abrigo de uma saliência do monte, que se estende para o rumo do mar.

– Aqui não se pode desembarcar. Não se alcança o fundo –resmunga Pedro–. Está bem. Iremos comer aqui mesmo onde estamos.

E de fato os remadores comem de boa vontade e, sem vontade, os dois exilados. A chuva recomeça e pára, alternativamente. O lugar é despovoado, parecendo que aqui não mora ninguém. Contudo, há uns pombos voando de uma casa para outra, e há umas roupas estendidas nas varandas, e tudo isso nos diz que por aqui mora gente. Finalmente aparece no caminho um homem seminu, que está indo para uma pequena barca, que foi puxada para a margem.

– Ei! Homem! És pescador –grita Pedro, fazendo um funil com as mãos.

– Sim.

E este sim chega muito fraco de volta, por causa da distância.

– Que tempo irá fazer?

– Mar de ondulação lenta, daqui a pouco. Se não és daqui, eu te digo que vás logo para lá do cabo. Do outro lado, a onda é mais tranqüila, especialmente se fores para perto da beira, e podes ir, porque lá o mar é fundo. Mas, vai logo…

– Sim. A paz esteja contigo!

– Paz e felicidade para vós.

– Força, então –diz Pedro aos companheiros–. E Deus esteja convosco.

– Isto é certo. Jesus com certeza está rezando por nós –responde André, recomeçando a remar.

Mas a onda longa aqui já se formou, e ela empurra e atrai a pobre barca, cada vez que vem, enquanto a chuva começa a engrossar… e um vento, que vem com rajadas, se une a ela para torturar os pobres navegantes. Simão de Jonas o presenteia com todos os epítetos mais pitorescos, porque é um vento mau, que não pode ser usado pelo barco que está com vela, e que procura empurrar a barca para cima dos escolhos do cabo, que já está próximo. A barca se esforça para navegar na curva deste pequeno golfo, que é escuro como uma tinta. Vão remando, remando, já cansados, corados, apertando os dentes, sem desperdiçar nem um pouquinho de suas forças com palavras. Os outros, sentados defronte deles, — eu os vi pelas costas — estão calados, mudos, debaixo de uma chuva incômoda, tendo João e Síntique no centro, perto do mastro da vela, e atrás deles os filhos de Alfeu, e, por último, Mateus e Simão, que lutam para segurarem certo o timão, a cada golpe das ondas.

318.6 Dobrar o cabo é uma empresa difícil. Mas, enfim, ela terminou… E um pouco de paz foi concedido aos remadores, que devem estar muito cansados. Eles estão falando em irem refugiar-se em algum pequeno povoado, para lá do cabo. Mas predomina o conceito de que se deve obedecer ao Mestre, mesmo quando se vai contra o bom senso. Pois Ele disse que é preciso chegar a Tiro em um só dia.. E eles lá se vão…

O mar se acalma de repente. Eles notam o fenômeno e Tiago de Alfeu diz:

– É o prêmio da obediência.

– Sim. Satanás foi-se embora, porque não conseguiu fazer-nos desobedecer –confirma Pedro.

– Mas chegaremos a Tiro de noite. Isto que aconteceu atrasou-nos muito… –diz Mateus.

– Não faz mal. Vamos dormir, e amanhã procuraremos ir encontrar a nave –responde Simão Zelotes.

– Mas depois a encontraremos?

– Jesus já disse. Portanto, a encontraremos –diz Tadeu, com segurança.

– Podemos levantar a vela, meu irmão –observa André–. Agora o vento está bom, e iremos depressa.

De fato, a vela já se vai enfunando, ainda não muito, mas o tanto que já torna muito menos necessário remar, e a barca já vai deslizando, como se tivesse ficado mais leve, indo para Tiro, cujo promontório, ou melhor, cujo istmo já está mostrando sua cor branca, lá ao norte, nestas últimas horas do dia.

E a noite vem chegando rápida. Parece estranho, depois de um céu fosco por tanto tempo, verem-se as estrelas, apontando com uma imprevisível claridade, e a Ursa cintilando muito lúcida, com os seus astros, enquanto o mar também adquire luz por meio de um raiar plácido da lua, tão claro, que fica parecendo que está para raiar a aurora, depois de um dia penoso, sem o intervalo de uma noite, em seguida.

318.7 João de Zebedeu levanta o rosto para o céu, olha e sorri, e de improviso, abre a boca para cantar, acompanhando o movimento do remo com a estrofe, ritmando esta por aquele:

 

– Ave, Estrela da Manhã,

ó jasmim da noite escura,

luar de ouro do meu Céu,

ó Mãe Santa de Jesus.

 

Em ti espera o navegante,

Contigo sonhando morre,

Brilha, Estrela Santa e pia.

Para quem te ama, ó Maria!…

 

Canta, em sua voz clara de tenor, o bem-aventurado.

– Mas, que é que estás fazendo? Nós estamos falando de Jesus, e tu falas de Maria –pergunta-lhe o seu irmão.

– Ele está nela, e Ela nele. Mas Ela está aqui, porque aqui Ele esteve… Deixa-me cantar…

E ele continua cantando e arrastando os outros…

Chegam assim a Tiro, e é cômodo o desembarque no mais pequenino dos portos, o do sul do istmo, vigiado pelas lâmpadas penduradas em muitas barcas, e não é negada a ajuda, aos recém chegados por parte dos presentes.

Enquanto Pedro e Tiago ficam na barca, para vigiarem os báus, os outros, com um homem de uma outra barca, vão para o albergue, a fim de descansarem.